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A casa dos espíritos, de Isabel Allende | Resenha

Romance histórico, realismo mágico e narrativa acompanham as gerações de uma família. Essas são três características que me chamam bastante atenção em um livro. No caso de “A casa dos espíritos”, todas estão presentes!

Percorrendo grande parte do século XX, a escritora chilena constrói uma narrativa acompanhando três gerações de mulheres da família del Valle Trueba. A primeira delas, Clara, é a personagem central do livro e, na minha opinião, a mais marcante. A infância de Clara é marcada por acontecimentos trágicos e por uma peculiaridade: a garota tem poderes sobrenaturais: consegue pressentir os acontecimentos futuros, se comunicar com espíritos e mover objetos. Mas não pense que essa característica de Clara seja um aspecto tão relevante da obra. Na verdade, essas habilidades da personagem dão apenas um toque de fantasia e encantamento na história, sem conseguir distanciar o ambiente construído por Allende da realidade da sociedade chilena do início do século XX. Puro realismo mágico!

Em meio a imprevistos, Clara se casa com Esteban Trueba, um personagem com presença forte ao longo da obra. Trueba é a figura do conservador e da entidade patriarcal tão comum naquela época. Dessa união entre dois personagens tão diferentes nasce Blanca, que também herda um pouco da mágica da mãe. Blanca logo passa a fazer parte do rol de personagens bem construídos na obra. São tantos acontecimentos relevantes na vida de cada um que torna impossível a tarefa de resumir a história para vocês. O que posso contar, no entanto, é que por trás desses momentos narrativos tão bem contados encontramos diversas temáticas de reflexão. São os conflitos que se repetem ao longos das gerações.

Assim como Clara e Blanca, o leitor é apresentado a Alba, que inaugura a terceira geração de mulheres dessa família, mas o passar dos anos altera a realidade do Chile e, a partir de Alba, acompanhamos um momento histórico marcado por repressão e resistência. Como não podia deixar de ser, Alba também herda a magia e o protagonismo das mulheres tão fortes que a antecederam.
Uma das melhores leituras de 2019!

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“Os sofrimentos do jovem Werther”, de J. W. Goethe | Resenha

Publicado em 1774, esse clássico da literatura alemã – e mundial – teve um impacto tão grande que foi responsável por uma onda de suicídios entre os jovens da época. Mas como um livro pode ter impactado tanto um leitor a ponto de incentivá-lo a acabar com a própria vida? Não há uma resposta certa e as gerações posteriores nunca conseguirão compreender o que as palavras de Goethe representaram naquele momento, para aquela sociedade. Apesar disso, o livro ainda é atual na medida em que trata de temas sobre a condição do ser humano e seus conflitos internos. É isso que faz dele um clássico!

Construída a partir de cartas, a narrativa tem como norte os relatos de um jovem sobre a paixão que começa a consumi-lo após conhecer Carlota, que já está prometida em casamento para Alberto. É o retrato do romântico, daquele que prioriza o sentimento no lugar da razão. O drama já está indicado logo no início, no próprio título do livro. Werther sofre. Sofre tanto que me questionei: será que essa devoção toda não chega a ser um exagero?

Mas isso não importa. Para Werther, a única dúvida que cresce dentro de si é: será que a vida ainda faz sentido quando não se pode “ter” a pessoa amada?

A importância da obra se revela nas reflexões que encontram o leitor durante a leitura. É um livro que vai muito além da “história” contada. Então, inicie a leitura com essa ideia em mente. Os temas ali espalhados vão desde saúde mental até a própria dificuldade em entender o problema do outro. Talvez a ideia do amor excessivo que consome o personagem seja utilizada de forma proposital para nos mostrar como, ainda que não nos faça sentido, o problema para o outro é real e doloroso.

É interessante mencionar que a história da obra tem uma certa identidade com o momento de vida de Goethe e algumas situações que vivenciou. Assim, as reflexões que encontramos podem ter sido as mesmas que passavam genuinamente pela cabeça do autor quando escreveu a obra. E a dica que dou é: leia sem pressa, aproveite a poética da escrita e tente acompanhar a construção do personagem no decorrer das páginas!

gatilho: depressão e suicídio

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#DesafioBookster2019 | Novembro

#desafiobookster2019
Tema de novembro: Racismo
Livro escolhido: “Úrsula“, de Maria Firmina dos Reis

Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês, assim como outras dicas ao final do post. Se você só chegou agora por aqui, comece o desafio a partir desse mês!

No mês em que se celebra o “Dia da consciência negra”, o livro escolhido é o primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher negra, em 1859. Pela data de publicação, conseguimos ter uma breve noção das adversidades em meio às quais Maria Firmina dos Reis escreveu a sua obra. Isso, por si só, já revela a importância do livro para a história brasileira. O que me espanta, no entanto, é o motivo pelo qual demorei tanto para conhecer o livro. E não acho que seja uma percepção só minha: apesar de sua importância, “Úrsula” foi uma obra esquecida por muito tempo e apenas recentemente contou com novas edições que tentam resgatá-la. Então, para tentar dar destaque a uma obra esquecida, nada melhor do que lê-la! •
Nessa narrativa, Maria Firmina dos Reis constrói um romance conturbado entre Tancredo e Úrsula, ao mesmo tempo que traça críticas à escravidão. “Retrata homens autoritários e cruéis, mostrando atos inimagináveis de mando patriarcal e senhorial em um sistema que não lhes impõe limites”.

Além do escolhido, indico: “O sol é para todos”, de Harper Lee, “O olho mais azul”, de Toni Morrison; “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves; “A cor púrpura”, de Alice Walker; “A cabana do pai Tomás”, de Harriet Beecher Stowe; “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, de Maya Angleou”; “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro; e “Americanah”, de Chimamanda Adichie. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E você, já escolheu sua leitura de novembro?

Meu ano de descanso e relaxamento, de Ottessa Moshfegh | Resenha

Começar esse livro foi fácil, até porque tinha sido recomendado por dois leitores em quem confio muito. Mas a literatura não seria tão incrível se todo mundo tivesse a mesma opinião sobre determinado livro, não é mesmo? E, contrariando minhas expectativas, não tive uma experiência muito boa com essa leitura…

A premissa da narrativa de Moshfegh é bem atual e interessante: uma jovem e bem sucedida moradora de Nova York decide abrir mão de sua vida por um ano. Isso mesmo: a narradora quer ficar à base de fortíssimos remédios antidepressivos durante esse período, como se estivesse em um estado de hibernação. Os motivos para essa excêntrica decisão parecem até fazer sentido: cansou do mundo e das exigências que a sociedade faz para uma jovem dos anos 2000.

Na verdade, esse comportamento da personagem principal é uma crítica ácida ao padrão de busca por uma vida ideal e feliz, com um trabalho bem sucedido e com bons relacionamentos, mas que na verdade acaba se perdendo e sendo vítima de uma forte pressão social. É uma reflexão sobre as novas gerações e a frequente necessidade de recorrer aos medicamentos para conseguir se manter nesse ritmo.

O problema é que, na minha opinião, a autora acabou deixando essas reflexões muito em segundo plano – não sei se de forma proposital ou não -, focando muito no processo de tomar remédios e mais remédios. Com isso, a leitura ficou perdida e cansativa. Senti também falta de um maior aprofundamento na personagem e em seus questionamentos…. Os motivos para a decisão da personagem são apresentados no início, mas não foram desenvolvidos ao longo da obra. Por causa disso, os momentos de reflexão que as temáticas abordadas poderiam trazer ficaram muito escassos. Isso acabou até mesmo dificultando que eu sentisse uma maior empatia pela narradora. Os demais personagens, principalmente a amiga da narradora, são até melhor construídos, na minha opinião.

Por outro lado, os pontos positivos são a fluidez da escrita, as passagens repletas de um humor inteligente e a desconstrução de alguns estereótipos sobre saúde mental.
Gatilho: depressão

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Germinal, de Émile Zola | Resenha

Confesso que essa foi uma leitura que comecei sem saber muito o que esperar… E para a minha felicidade, entrou para a lista de melhores do ano (e lá no topo)! “Germinal” é um clássico da literatura mundial e foi uma das obras responsáveis por inaugurar o naturalismo. Acho que a maioria aqui estudou o tema na escola, mas vale lembrar que no naturalismo uma grande preocupação do escritor é de escancarar os problemas sociais da época, retratando a realidade de maneira mais crua possível e o ser humano em sua condição animalesca.
E é justamente isso que encontramos em Germinal: as condições subumanas dos trabalhadores de uma mina de carvão, na França do século XIX. Quando Étienne chega à cidade de Montsou para trabalhar na mina, sua voz de insatisfação passa a servir como um gatilho para aquela massa de pessoas que se humilha diariamente para sobreviver. Até a mina de carvão é retratada pelo autor como um animal: durante todo o dia, a Voraz vai engolindo os trabalhadores, se alimentando do suor e da carne humana.
Para conseguir deixar a descrição da vida dos trabalhadores o mais fiel possível à realidade, Zola passou dois meses vivendo e trabalhando como um mineiro. Realmente o autor consegue transportar o leitor para aquele subsolo quente, sujo e perigoso. E não só isso: a vida daqueles trabalhadores também é retratada para dentro de suas casas pobres, em que as relações familiares e sociais são preenchidas de conflitos e miséria. Quem nasce na aldeia está condenado a trabalhar desde criança nas minas até o dia em que os olhos se fecham de exaustão.
A construção dos diferentes personagens também faz de “Germinal” um daqueles romances que envolvem o leitor. É difícil não sentir compaixão pela dor, pela fome e pelo frio que vitimam os trabalhadores, enquanto os patrões levam uma vida de luxo e ostentação. Apesar da forte crítica social, a leitura é muito prazerosa, oferecendo ao leitor a possibilidade de aprender e refletir com um incrível romance histórico.
Recomendo MUITO!

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A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha – Resenha

A obra da autora brasileira Martha Batalha originou o filme “A vida invisível”, escolhido recentemente para disputar uma vaga pelo Brasil na categoria de filme internacional do Oscar de 2020. Como uma adaptação para as telas dificilmente supera o livro, resolvi adiantar a obra na minha lista de leituras. Quando mostrei para vocês que ia começar a ler esse livro, recebi muitas mensagens positivas e, com isso, a expectativa subiu. Mas, como vocês sabem, começar um livro com altas expectativas pode ser bem arriscado… Nesse caso, confesso até que o início da leitura não me prendeu tanto, impressão essa que mudou radicalmente no decorrer das páginas.
A narrativa é construída ao redor de Eurídice e Guida, irmãs nascidas no Rio de Janeiro da década de 20.

Durante a juventude das duas, Guida deixa a casa dos pais sem dar qualquer explicação. A vida de Eurídice, no entanto, segue um rumo mais ordinário e típico de uma “esposa exemplar” da classe média do início do séc. XX. O contraste entre uma vida aparentemente confortável e sem defeitos, mas que traz consigo um misto de melancolia e solidão, começa a ganhar força na leitura. E foi nessa parte que, na minha opinião, a leitura começou a ficar mais interessante. A autora consegue retratar o papel da mulher daquela época de uma forma mais profunda, revelando a invisibilidade que se irradia pela vida de cada uma dessas mulheres. A história do que poderia ter sido, mas nunca foi. Os desejos e sonhos de Eurídice não são importantes, sonhar não é para as mulheres. É uma crítica social – e feita de forma sutil – que nos faz pensar como esse tipo de comportamento e visão sobre o papel feminino ainda se reproduz.

Em seu primeiro romance, Martha Batalha conseguiu construir um história deliciosa e que ainda nos desperta uma necessária reflexão, confirmando a qualidade da literatura nacional contemporânea.

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Escolhas da vez!

No início de todo mês mostro para vocês as minhas escolhas, que costumo fazer com base em quatro categorias: (1) clássico; (2) até 200 páginas; (3) autor contemporâneo/ficção científica; e (4) não ficção/contos/poemas.

Ou seja, só vou começar um livro diferente depois que eu acabar a “leva” atual. Isso me tira da zona de conforto e me incentiva a ler obras de diferentes gêneros. Essa “técnica” também ajuda muito no ritmo da leitura, evitando que eu canse de alguma obra. E é importante dizer que eu não leio os 4 livros simultaneamente! Gosto de começar 2, e aí vou iniciando os próximos conforme finalizo as leituras, sem deixar nenhum de lado.

Escolhas de vez:

1 – Clássico: “A casa dos espíritos”, de Isabel Allende – Destaque da literatura latino-americana, a obra se assemelha a “Cem anos de solidão”. Já comecei a leitura na edição original em espanhol e estou adorando!

2 – Autor contemporâneo: “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe – Faz tempo que não faço uma releitura… Estou animado para reencontrar essa narrativa tão incrível de @valterhugomae. Essa leitura é para o clube do livro da @m.inq, que acontece no começo de novembro (ainda dá para participar)!

3 – Até 200 páginas: “K – relato de uma busca”, de B. Kucinski – Livro escolhido para o mês de outubro do #desafiobookster2019. Tema: democracia.

4 – Não ficção: “Rota 66“, de Caco Barcellos – Li há alguns anos “O abusado” do mesmo autor e adorei! Esse estava na fila há um bom tempo.

E vocês, estão lendo o que?