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“Não foi bem assim – verdades e cicatrizes de um julgamento”, de Francisco Almeida Prado | Resenha

Apesar de ter sido publicado em 2016, quando li a sinopse do livro achei que estava diante de um lançamento. É que, independentemente de posição política e sem fazer qualquer juízo de valor, o autor criou uma narrativa muito atual. “Não foi bem assim” traz a história de Armando, promotor de justiça que sempre se destacou no seu trabalho, mas acabou sendo envolvido em um escândalo: foi autor de uma gravíssima acusação contra um político e que se descobriu ter sido baseada em provas falsas. E o pior é que o protagonista acabou sendo uma vítima do cenário em que trabalha, fortemente contaminado por jogos de influências e troca de favores. São os bastidores de instituições públicas que pouco chegam aos “cidadãos comuns”. E ninguém melhor para construir uma história dessas do que Almeida Prado, um promotor de justiça aposentado, que trabalhou no Ministério Público por mais de trinta anos. A experiência do autor consegue ser facilmente percebida por quem lê.

Contudo, “Não foi bem assim” não é apenas um romance de intrigas políticas, temperado com um bom suspense. Diferentemente do que eu imaginava, o autor vai direcionando a narrativa para um outro caminho. A partir da reviravolta na vida de Armando, acompanhamos as angústias e incertezas de alguém que pode perder o que mais dá valor: o prestígio profissional que possui. Isso desperta reflexões inevitáveis no protagonista… “O que sobra de mim se aquela imagem sobre a qual construí a minha vida desaparece? Quem eu sou além daquela figura impessoal que sempre mostrei para a sociedade?” Esses questionamentos são justamente o fio condutor da segunda parte da obra e conseguiram, na minha opinião, dar um destaque à história criada por Almeida Prado. Além disso, a história de Armando toca em um ponto pertinente: as consequências de um julgamento influenciado pela pressão midiática e popular.

A escrita é simples, a narrativa prende a atenção do leitor e o final realmente me surpreendeu. Boa dica de livro para quem quer conhecer mais dos bastidores do mundo jurídico e político, sem abrir mão de um romance bem construído. #publi

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#DesafioBookster2019 | Outubro

Tema de outubro: Democracia
Livro escolhido: “K – Relato de uma busca“, de B. Kucinski
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Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês, assim como outras dicas ao final do post. Se você só chegou agora por aqui, comece o desafio a partir desse mês!
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Em outubro, o tema escolhido é democracia – um tema sempre relevante e atual. Não é segredo para ninguém que existe uma infinidade de livros que tem como pano de fundo algum governo autoritário ou um futuro distópico em que liberdades são suprimidas. Diante de tantas opções, optei por um autor nacional e por uma obra que abordasse a história de nosso país. O livro de Kucinski é construído no ambiente da ditadura militar, em plena década de 70. Na verdade, nem tanto construído, uma vez que o livro é uma mistura de ficção com fatos reais vividos pelo próprio Kucinski e sua família.

Em 1974, uma professora de química da Universidade de São Paulo é presa pelos militares. A professora é irmã do autor. O acontecimento desestabiliza a sua família e, em meio ao desespero, seu pai inicia uma longa busca por informações sobre o destino da filha. Como antecipa a própria sinopse, o pai se “depara com a muralha de silencio em torno do desaparecimento dos presos políticos”. ⠀⠀

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Além do escolhido, indico: “A resistência”, de Julián Fuksh, “As meninas“, de Lygia Fagundes Telles; “A festa do bode”, de Vargas Llosi; “1984”, de George Orwell; “Incidente em Antares“, de Érico Veríssimo; “Um grão de trigo”, de Ngugi Wa Thiong’o”; “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva; Coleção Ditadura, de Élio Gaspari; “Azul corvo”, de Adriana Lisboa; e “A noite da espera”, de Milton Hatoum. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

E você, já escolheu sua leitura de outubro?

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Persépolis, Marjane Satrapi | Resenha

A autora iraniana resolveu escrever sua autobiografia em forma de quadrinhos para contar os fatos que marcaram a sua – nada comum – infância e juventude. A intenção de Marjane foi escrever um relato apenas para seus amigos, mas a recepção foi tão positiva que a autora logo tornou a sua obra uma ferramenta para disseminar uma história de opressão religiosa, choques de cultura e saúde mental.

Nascida em um Irã ainda liberal, e criada por uma família pouco religiosa, Marjane vivenciou uma mudança radical ainda quando criança: seu país passou por uma revolução que colocou no poder um governo autoritário e fundamentalista, liderado por um chefe religioso. Com 10 anos, a menina passa a ser obrigada a usar o véu, a estudar em uma escola apenas para garotas e a mudar detalhes do seu dia a dia.

No entanto, a garota não conseguia aceitar as mudanças radicais e, com medo das consequências que seu comportamento rebelde poderia trazer, os pais de Marjane decidem enviá-la para a Europa. Diante disso, e com apenas 14 anos, a protagonista aterrissa sozinha na Áustria. Os choques culturais já são percebidos logo de início e, ainda que tenha encontrado um país liberal, Marjane se sente deslocada. Ela logo percebe como a criação em uma sociedade extremista pode impactar na formação do indivíduo. Marjane é muito diferente dos jovens da sua idade e, por isso, passa a fazer de tudo para disfarçar as barreiras culturais que a tornavam “esquisita”. Essa luta para tentar se adaptar a um mundo tão diferente traz sérias consequências para a protagonista. Apesar de não ter que lutar mais contra a opressão do governo, Marjane precisar combater uma forte depressão e conviver com a solidão de uma vida longe da família.

A leitura realmente surpreende pela profundidade e acaba por derrubar aquela ideia de que histórias em quadrinhos são para crianças e adolescentes. Se você também pensa assim, dê uma chance para “Persépolis” e tenho certeza de que você terminará a leitura impactado(a) com a história de uma mulher que enfrenta inúmeras dificuldades para conseguir garantir o seus mínimos direitos a uma vida livre e sem discriminações.

E você, gostou da resenha?

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O olho mais azul, de Toni Morrison | Resenha

A literatura é uma poderosa ferramenta de empatia. Ela nos permite enxergar situações corriqueiras a partir de perspectivas que são totalmente estranhas à nossa realidade e que nunca teríamos acesso se não fosse por meio dos livros. E terminar a leitura dessa obra apenas confirma esse seu papel. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em pouco mais de 200 páginas, Toni Morrison consegue apresentar para o leitor como é crescer em uma sociedade em que as referências e os padrões do que é certo e bonito estão longe do que você é. Pecola Breedlove, uma garota negra nascida nos Estados Unidos da década de 40, sonha em ter olhos azuis. Pede a Deus todos os dias para que seus olhos se transformem em azuis. Para Pecola, quem sabe dessa forma as pessoas passariam a notá-la um pouco mais, passariam a aceitá-la. É um pequeno desejo de uma criança que carrega consigo inúmeros problemas históricos e sociais. ⠀ ⠀⠀⠀

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Mas além de ser vítima de um racismo estrutural, que cria na garota uma recorrente necessidade de aceitação, a vida de Pecola também vai encontrar barreiras em situações de machismo, abuso sexual (há passagens com gatilhos sobre o tema), relações familiares e muita violência, sobretudo psicológica. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tudo isso acontece no cerne de uma família problemática, que, infelizmente, não parece indicar um cenário incomum: o pai de Pecola é alcoólatra e bate na esposa; sua mãe vive em função de cuidar da casa de uma família branca para quem trabalha como empregada doméstica; e seu irmão faz de tudo para conseguir fugir dos seus problemas. É uma família moldada por engrenagens de um sistema que funciona sempre da mesma forma. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E apesar dos temas duros e sensíveis que atinge, a autora escreve de uma forma tranquila e com toques poéticos. Em seu primeiro romance, a primeira – e única – mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura nos faz refletir muito. Toni Morrison incomoda o leitor atento, deixando sua marca permanente.

O que acharam da resenha?

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A ilha, de Aldous Huxley | Resenha

Após sofrer um naufrágio, Will Farnaby acaba sendo arrastado para a costa de Pala, uma ilha por ele totalmente desconhecida. Aos poucos, o personagem vai descobrindo que os habitantes da ilha vivem guiados por regras que fogem muito da realidade em que vivemos. O objetivo é comum: a busca pela felicidade plena, abrindo mão do consumismo, da exploração predatória dos recursos naturais e do sucesso unicamente individual.
Último romance de um autor conhecido por seus romances distópicos, como “Admirável mundo novo”, “A ilha” também é ambientada em uma sociedade fictícia. No entanto, diferentemente de suas obras anteriores, Huxley apresenta ao leitor um cenário utópico, em que os valores coletivos estão à frente da individualidade.

É ao longo do desenvolver da obra que vamos, junto com Will, descobrindo as peculiaridades de Pala: desde um sistema educacional que foca no autoconhecimento do indivíduo, passando por conceitos de unidade familiar totalmente amplos, até uma valorização da genuína natureza sexual de cada um.
A premissa desse livro é surpreendente, mas para quem se interessar pela leitura, já deixo alguns avisos importantes (e que em nada buscam desestimular a leitura, pelo contrário: a ideia é que vocês embarquem nessa aventura preparados). Em primeiro lugar, esse livro pede uma leitura sem pressa. As passagens acontecem aos poucos, são detalhadas e nos levam para dentro de Pala. Por isso, escolham algum outro livro menos profundo para ler em paralelo. Isso vai permitir um ritmo bom de leitura, sem que vocês cansem de “A ilha”. Em segundo lugar, aproveitem as mensagens e questionamentos trazidos pelo autor. A gente reflete ao longo da obra que passamos a duvidar da possibilidade de uma sociedade realmente perfeita.

Por fim, a obra é bem filosófica. Um livro que mistura romance com desenvolvimento pessoal, mas fiquem tranquilos porque a linguagem é bem acessível e de fácil compreensão.
Foram cerca de 3 meses para terminar o livro. Ao final, a sensação é apenas uma: Aldous Huxley é um gênio, uma escritor à frente de seu tempo.

Ler “A ilha” foi uma experiência incrível e marcante!

#DesafioBookster2019 | Setembro

Tema de Setembro: Saúde mental
Livro escolhido: “O sofrimentos do jovem Werther“, de J. W. Goethe
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IMPORTANTE: Antes de escolher a sua leitura, lembre-se que alguns dos livros abaixo sugeridos podem conter gatilhos para depressão, ansiedade e suicídio. O CVV possui atendimento gratuito e 24 horas para quem deseja conversar sobre o assunto: ligue 188.

Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês, assim como outras dicas ao final do post.
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Em setembro temos a campanha “setembro amarelo”, de prevenção ao suicídio, em que se discute muito a saúde mental. É muito comum eu receber mensagens de pessoas relatando que sofrem ou já sofreram com alguma doença, como depressão e ansiedade, e que tentam enfrentar essa dificuldade com a ajuda da leitura. De fato, ler pode nos ajudar a fugir um pouco de uma situação difícil que vivemos. Mas, ainda assim, é importantíssimo que esse assunto seja abertamente discutido, para que as pessoas se sintam à vontade para falar sobre o que enfrentam e busquem ajuda profissional para tratamento, como qualquer outra doença demanda.

Para podermos conversar um pouco sobre o tema e para que as pessoas que nunca conviveram com depressão ou ansiedade possam se colocar no lugar do outro, passando a respeitar e ajudar quem convive com isso, fiz uma seleção de livros que abordam o assunto. Para o desafio, escolhi um clássico da literatura alemã que traz um personagem que sofre com uma paixão não correspondida. Como indicado na sinopse, “muito se atribuiu ao desenlace trágico do livro as várias ondas de suicídio que se deram na Alemanha do fim do século XVIII”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Além do escolhido, indico: “O demônio do meio-dia”, de Andrew Soloman; “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath, “Meu ano de descanso e relaxamento“, de Ottessa Moshfegh; “Norwegian Wood”, de Haruki Murakami; “O sofrimento é opcional”, de Monja Cohen; “Serotonina”, de Michel Houellebecq; e “As horas”, de Michael Cunningham. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E você, já escolheu sua leitura de setembro?

Oryx e Crake, de Margaret Atwood | Resenha

Da mesma autora do best-seller “O conto da Aia”, este livro é o primeiro de uma trilogia que compartilha o mesmo cenário: um futuro não tão distante, em que o conceito de civilização desapareceu. O planeta passou a ser habitado por criaturas pouco convencionais e fruto de manipulações genéticas. É no meio desse ambiente distópico que Atwood nos apresenta o personagem principal da história, conhecido como Homem das Neves, que se apresenta como o último ser humano. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Os capítulos vão se alternando entre o momento presente, em que acompanhamos o dia a dia desse personagem solitário, e o passado, quando o Homem das Neves ainda era conhecido como Jimmy, um garoto comum, com uma vida aparentemente normal. Com o desenrolar da narrativa, a autora vai, aos poucos, desvendando os acontecimentos que levaram Jimmy a um cenário pós-apocalíptico. O livro é preenchido de mistérios, que incluem até o próprio título da obra. Qual seria a relação do Homem das Neves com Oryx e Crake?

Se engana o leitor que espera encontrar uma narrativa simples, em que a curiosidade pelos próximos acontecimentos é o que nos faz continuar lendo. Assim como em seus outros romances, Atwood constrói um personagem complexo e conflituoso, que ainda se vê acorrentado a fatos do seu passado. A trajetória do personagem também esbarra em diferentes temáticas sensíveis, como limites da ciência, relações familiares conturbadas, exploração sexual infantil e valores da nossa sociedade atual. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A imersão mais profunda nos pensamentos dos personagens nos traz uma escrita mais densa e não tão fluida, mas não que isso represente um ponto negativo, pelo contrário: é uma das características que fazem os romances distópicos de Atwood se destacarem. Um livro atual e que caminha sobre uma linha tênue entre realidade e ficção.

Quero saber, alguém já leu? Gostaram?

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