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Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk | Resenha

Quando a gente começa uma leitura de uma ganhadora do Prêmio Nobel, é difícil deixar as expectativas baixas. No caso da escritora polonesa, não conhecia o seu trabalho até o anúncio do prêmio em 2019 – mas, para a nossa sorte, a @todavialivros já estava editando esse livro.

Vamos à obra… Com uma temática bem atual, ligada ao direito dos animais, laços de amizade e à própria condição humana, Olga nos coloca para seguir os passos de Dusheiko, uma professora aposentada e astróloga, cujas ideias causam estranhamento nos habitantes de uma fria e remota cidade da Polônia.

Já no início, um assassinato intriga os moradores do vilarejo e os principais suspeitos são, na opinião da protagonista, os próprios animais da região. E nesse cenário de incertezas, novas mortes vão sendo denunciadas – sempre em condições misteriosas.

Em paralelo aos crimes cometidos, a autora desenvolve a personagem de Dusheiko e suas relações com os demais moradores. E esse foi, na minha opinião, o ponto mais interessantes da narrativa. Dusheiko é má compreendida, sendo taxada de “doida” quando, na verdade, tem apenas uma visão de mundo mais dolorosa. Ela parece entender o que está por trás das ações do ser humano e reconhece o seu dever e responsabilidade com o meio ambiente.

A obra também é muito bem escrita, com passagens carregadas de um humor ácido e inteligente. No meio da leitura, senti uma maior lentidão no desenvolvimento da história… mas, como disse, acho que a intenção da autora não foi criar apenas um livro de suspense, e sim despertar reflexões atuais no leitor.

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10 livros para 2020

Em 2019, resolvi fazer uma seleção de 10 livros que eu tinha na minha estante e que gostaria de ler! Como contei para vocês, li apenas 6 dos 10 escolhidos, mas foi uma ótima forma de incentivo para conseguir aproveitar excelentes leituras que estavam aguardando na estante. •
Em 2020, resolvi fazer o mesmo! Mas é como sempre falo, as metas não passam de uma brincadeira para estimular ainda mais a leitura, mas não devem ser encaradas como obrigações ou como competição… Leitura não combina com pressa: vamos ler o que temos vontade e quando temos vontade. •
Seguem os escolhidos para 2020, lembrando que essa lista não tem relação com o #Desafiobookster2020, que eu vou lançar no dia 1º de janeiro!

*O alienista, de Machado de Assis
*Orgulho e preconceito, de Jane Austen
*Trilogia do adeus, de João Anzanello Carrascoza
*Complexo de Portnoy, de Philip Roth
*Frankenstein, de Mary Shelley
*Reparação, de Ian McEwan
*Água viva, de Clarice Lispector (2020 é o ano de seu centenário)
*Serotonina, de Michel Houellebecq
*Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves
*Memória da casa dos mortos, de Fiódor Dostoiévski 

E aí, o que acharam das escolhas?

Um conto de Natal, de Charles Dickens | Resenha

Acredito que esse meu primeiro Dickens tenha sido um livro bem diferente das suas obras mais consagradas, todas longos romances como Grandes esperanças, David Copperfield e A casa soturna. E isso eu digo não apenas por conta do tamanho do livro, mas também pela profundidade da história. Em “Um conto de Natal”, encontramos uma história bastante simples, curta, mas muito gostosa de ler.

A narrativa gira em torno de Scrooge, um personagem que chegou à terceira idade apenas acumulando dinheiro, tendo deixado de lado os importantes valores da vida. Scrooge não dá atenção para a sua família, não é generoso com seus empregados e não gasta o dinheiro por nada, nem mesmo para seu conforto. Dentre tantos temas aos quais o personagem não dá a mínima bola, está o Natal: um enorme desperdício de tempo e dinheiro, na sua opinião.

E é justamente durante uma noite de Natal que se passa a história criada por Dickens. Scrooge recebe uma visita – no mínimo assustadora – do fantasma de seu sócio, que já antecipa a visita de três espíritos que irão acompanhá-lo durante essa noite. Cada um deles irá mostrar a Scrooge as consequências de seu comportamento rabugento e antipático em noites de Natal do seu passado, presente e futuro.

Para ser sincero, na minha opinião a narrativa não é, por si só, incrível. Como eu disse, ela é bem simples, podendo até mesmos ser lida por uma criança… Mas quando entendemos o contexto em que a obra foi escrita, assim como as repercussões para a época de seu lançamento (1843), a leitura fica muito mais interessante. Isso porque, por meio dessa obra, Dickens ficou conhecido por inventar o Natal como celebramos atualmente, isto é, o espírito natalino. Até por sua importância, o livro foi objeto de diversas adaptações.

Além disso, o que deixou a experiência ainda mais legal foi a edição incrível da @antofagica ! Ela é repleta de ilustrações e textos de apoio, que conseguem nos inserir ainda mais na mágica da história. Dentre tantas opções no mercado, não hesito em indicar essa!

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“A marca da vitória”, de Phil Knight | Resenha

Quem me segue aqui há um tempo sabe que meu objetivo é indicar livros que vão além dos best-sellers, até porque eles já têm uma baita divulgação… Mas isso também não significa que eu não escolha leituras que estão na lista dos mais vendidos. Algumas obras são tão comentadas que eu fico com vontade de saber qual a minha opinião…

No caso da autobiografia do criador da Nike, Phil Knight, aconteceu isso: recebi muitas indicações que atiçaram meu interesse. Além disso, como eu estou tentando desenvolver meu gosto por biografias (que não costumam me agradar tanto), resolvi dar uma chance e incluir “A marca da vitória” nas últimas leituras de 2019. •
Quando a gente dá uma lida na sinopse, pode até parecer que vai encontrar mais uma história sensacionalista, daquelas que não dão a impressão de serem reais: Knight começou com um empréstimo de 50 dólares de seu pai, em 1963, e hoje é dono de uma das empresas mais famosas do mundo. Mas o que me surpreendeu e me interessou muito ao longo da leitura foi perceber o lado humano por trás dessa história, a quantidade de obstáculos corriqueiros que o criador da Nike enfrentou ao longo de sua carreira. E quando a gente fala em desafios, eles não são apenas comerciais, mas envolvem dúvidas pessoais, conflitos familiares, perdas, falta de sorte, e por aí vai…

Ou seja, a gente consegue se identificar com Knight e isso me deixou preso à sua história até o fim do livro. E se há obstáculos, também há passagens inspiradoras, principalmente pela crença do autor no poder de transformação do esporte, uma das suas grandes paixões. Ah, também há muitos detalhes interessantes sobre a história dessa marca, que vão desde o momento da criação da logomarca, até o escândalo envolvendo mão de obra infantil (que, na minha opinião, até poderia ser sido melhor desenvolvido).

Por isso, recomendo o livro! E não apenas para quem gosta de ler livros de empreendedores bem-sucedidos, na busca por lições que podem te ajudar a chegar no “topo”, mas também para quem tem interesse de conhecer mais sobre uma pessoa que já viveu e precisou lidar com situações comuns e desafiadoras.

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Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino | Resenha

Com um estilo que me lembrou o incrível “As travessuras da menina má”, de Vargas Llosa, Marçal Aquino constrói a história de uma relação intensa entre Cauby e Lavínia, uma personagem com um passado repleto de traumas. E o interessante da obra é que o autor foge da ideia do amor romântico e idealizado que costumamos ver em filmes e livros, passando a retratar de um amor mais real. O amor mais carnal, íntimo e cru.

Quem nos conduz pela obra é Cauby, narrador personagem, que vai alternando entre um presente de pouca importância com o passado marcante como Lavínia. O início pode até parecer um pouco confuso, já que as distinções dos tempos acontecem do nada, como se a mudança de cena acontecesse igual na televisão. Mas aos poucos passamos a entender esse vai e vem dos acontecimentos. E quando pensamos em um livro escrito em primeira pessoal, temos sempre que lembrar que a visão do narrador sobre os demais personagens e das situações descritas é parcial. E no caso desse livro, essa parcialidade pode ate gerar um certo incômodo no leitor, já que Cauby descreve Lavínia de uma maneira mais estereotipada, como uma mulher que sofre duas personalidades: a Lavínia mais contida, esposa do pastor local; e a outra mulher, sensual e sem pudores, que aparece apenas para o próprio narrador. E por que essas duas características não podem fazer parte de uma mesma pessoa?

Os demais personagens que fazem parte da narrativa apresentam sempre uma característica patológica, que os marca como à margem da sociedade. E o próprio ambiente também me passou uma sensação de marginalidade: uma cidade de garimpo do Pará, terra repleta de homicídios em que os interesses pessoais dos mais poderosos conduzem a vida dos seus moradores.

Quando a gente se propõe a incluir mais autores brasileiros contemporâneos nas nossas leituras, a gente percebe que tem muita coisa boa por aqui e que ainda não conseguiu o destaque que merece. A obra de Marçal Aquino me deixou com essa sensação… Terminei a leitura com vontade de conhecer mais!

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Rota 66, de Caco Barcellos | Resenha

Conhecido como um dos principais jornalistas brasileiros, nessa obra, Barcellos se aprofundou no perfil e nas estatísticas das mortes causadas por confrontos com policiais nas décadas de 70 e 80 em São Paulo. E quando digo se aprofundou é porque o autor fez uma pesquisa impressionante, que durou vários anos e que encontrou obstáculos na falta de transparência de informações para a população.

A denúncia tem como objetivo demonstrar que as vítimas da ROTA têm um perfil muito semelhante e recorrente na análise dos casos de morte pela polícia: o jovem negro e pobre das periferias de São Paulo. Para o autor, a imagem da polícia como instituição protetora naquela época só valia para uma determinada parcela privilegiada da população. Para os demais, o papel de protegido era substituído pelo papel de potencial vítima da respeitada “polícia que mata”.

Durante a leitura, fiquei impressionado com a coragem de Barcellos em desafiar e denunciar – sem qualquer restrição – os poderosos que controlavam o sistema policial do Estado de São Paulo. Mais especificamente a atuação da ROTA, conhecida unidade da Polícia Militar, na violenta e “eficaz” atuação contra o crime. A repercussão da obra na época da sua publicação foi tamanha que o autor precisou deixar o país com medo das ameaças que passou a receber.

Publicado em 1992, o livro-reportagem venceu o Prêmio Jabuti no ano seguinte e, apesar dos quase trinta anos desde o seu lançamento, a realidade exposta por Barcellos ainda continua muito atual. É uma leitura necessária, na medida em que nos apresenta um cenário que normalmente chega de forma distorcida para a população que não mora nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos. Apesar da grande quantidade de dados e casos analisados, Barcellos consegue construir uma narrativa fluida e diversificada, sem deixar o leitor cansado com a repetição de uma mesma temática.

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#DesafioBookster2019 | Dezembro

#desafiobookster2019
Tema de dezembro: Relações afetivas e estrutura familiar
Livro escolhido: “Léxico familiar“, de Natalia Ginzburg

Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês, assim como outras dicas ao final do post. Como já estamos no último mês, em 2020 lanço nosso #DesafioBookster2020! Não deixem de participar!!!

Dezembro é o mês dos eventos encontros familiares. Apesar de muita coisa boa acontecer, lembramos nesses encontros que toda relação tem seus problemas e que nenhuma família passa imune a isso. Então, nada mais apropriado do que lermos alguma obra que trate sobre os conflitos familiares – um tema atemporal e que podemos identificar ao longo de toda nossa história.

O escolhido da vez é uma das principais obras da renomada escritora italiana, Natalia Ginzburg, que já confirmou a qualidade das obras de escritoras em seu país muito antes de Elena Ferrante. Em “Léxico familiar”, a autora constrói, a partir de suas memórias, as dificuldades enfrentadas por famílias judias nos anos 30, época de criação das leis raciais na Europa. Vamos acompanhar pela vida de seus familiares, a história dessa família judia e antifascista que precisa resistir ao horror e à perseguição. Como a autora já deixa claro no início da obra, “Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais”.

Além do escolhido, indico: “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe, “Ciranda de pedral”, de Lygia Fagundes Telles; “Os Maias”, de Eça de Queiroz; “Dois irmãos”, de Milton Hatoum; “Laços”, de Domenico Starnone; “Trilogia do adeus”, de João Anzanello Carrascoza; e “Pais e filhos”, de Ivan Turguêniev. ⠀⠀
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E você, já escolheu sua leitura de dezembro?

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