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A sociedade dos sonhadores involuntários, José Eduardo Agualusa

Rossi tem a capacidade de caminhar pelos sonhos alheios, enquanto Daniel pode sonhar com pessoas que existem, mas que ele nunca havia conhecido, e Moira consegue retratar os seus sonhos por meio dafotografia. Além disso, Hélio teria desenvolvido uma máquina capaz de reproduz em imagens o que as pessoas sonham. A ideia é, de fato, muito interessante e achei que me depararia com um boa historia de ficção. No entanto, ao longo da leitura, percebi que a narrativa não tinha nos sonhos, ou no “dom” de cada uma dos personagens, o seu objeto principal. Na verdade, essa a temática onírica é construída como um pano de fundo para uma obra que vai muito além, entrelaçando um romance prazeroso com uma forte crítica social e política sobre a atual situação da Angola – que sofre com um governo ditatorial desde 1979. E o autor, que nasceu em Angola e lá vive, faz dessa obra como um instrumento de disseminação e conscientização da triste situação de seu país. Nunca havia lido nada de Agualusa, mas fiquei muito bem impressionado com a sua habilidade no uso de metáforas e na criação de uma narrativa fluída e poética. Confesso que no começo achei a história um pouco confusa, mas depois de alguns capítulos já acabei sendo capturado pela narrativa. Recomendadíssimo!
Mais um livro que me deixa certo de que temos autores contemporâneos de língua portuguesa fazendo um trabalho excelente e de muita qualidade. Temos que incentivar escritores nacionais e escritores de língua portuguesa!

 

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#DesafioBookster2018 – Março 

– Categoria: Livro publicado na década de 1920
– Livro escolhido: Orlando – uma biografia, Virginia Woolf (1928)

Para quem chegou por aqui agora, o Desafio Bookster 2018 foi lançado com o objetivo de conhecer obras clássicas publicadas no século XX e, ao mesmo tempo, acompanhar a evolução do pensamento dos escritores e da época em que as obras foram publicadas. A ideia é simples: 12 livros, 12 décadas, começando Janeiro por um livro publicado na década de 1900, e assim por diante. Ah, e para quem só conheceu o desafio agora e ficou com vontade de começar, não tem problema nenhum iniciar por março. O importante é escolher um livro e iniciar a leitura!

Ano passado li Mrs. Dalloway e fiquei impressionado com a escrita de Virginia Woolf, principalmente a sua capacidade de colocar o leitor dentro da cabeça dos personagens. Como já tinha lido uma obra sua em que foi utilizada essa técnica de fluxo de consciência, agora alternar e optei uma obra com um estilo distinto. A narrativa parece ser genial: uma biografia ficcional de um indivíduo que percorre centenas de anos (séc. XVI-XX), mas envelhece pouco mais de 30. É um livro sobre transformações do indivíduo como ser humano, independente de questões envolvendo as diferenças de sexo. O protagonista passa de um jovem membro da aristocracia elisabetana a uma mulher moderna do século XX.

Além de Orlando, indico os seguintes livros publicados na década de 1920: Sidarta, Hermann Hesse (1922); Nós, Yevgeny Zamyatin (1924); O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald (1925); O sol também se levanta, Ernest Hemingway (1926); Macunaíma, Mário de Andrade (1928);O som e a fúria, William Faulkner (1929).

E você, já escolheu sua leitura de março?

O poder do hábito, Charles Duhhigg

Como mostrei hoje nos stories, 12 minutos é um aplicativo que traz microbooks dos principais títulos de não ficção (como livros de negócios, auto-ajuda e bem-estar). Achei uma ótima opção para ajudar o leitor a escolher, dentre uma quantidade cada vez maior de opções, a sua próxima leitura. Ou seja, o aplicativo – gratuito – funciona como um “filtro”, para que você conheça um pouco do conteúdo, sem que você fique limitado ao que as editoras escolhem incluir na sinopse. Mas é importante reforçar que o microbook NÃO substitui a leitura! Resolvi fazer o teste e escolhi um livro que já vinha chamando minha atenção há um certo tempo: O poder do hábito. Quem segue o @book.ster, sabe o quanto eu bato na tecla de que leitura é um hábito diário, que pode ser desenvolvido por qualquer um! Apesar da curiosidade que o título me despertou, eu não tinha nenhuma ideia de qual seria a proposta da obra. E depois que escutei o microobook, percebi que o livro me interessaria sim e fiquei com ainda mais vontade de ler. O autor vai tentar mostrar a importância e a influência dos hábitos no nosso dia a dia e como podemos usar isso a nossa favor. Ele pretende orientar o leitor a a desenvolver hábitos positivos, que nos interessam, com pequenas mudanças de comportamento. Duhhigg também se propõe a analisar como as grandes empresas e a mídia utilizam o poder do hábito para influenciar nossas decisões e aumentar suas vendas ou audiência. Ou seja, é uma abordagem do comportamento humano face às atividades da nossa rotina e às influências externas a que estamos o tempo todo submetidos. Acho que o aplicativo pode ser um bom incentivo para quem, assim como eu, não tem o costume de ler livros de não ficção, já que ele realmente conseguiu criar em mim a vontade de ler essa obra!Alguém aí já leu?
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Para quem se interessou, o link para baixar o aplicativo está no meu perfil do instagram! #bookster #12minutos

A morte em Veneza, Thomas Mann

Já nas primeiras páginas pude perceber a complexidade e prolixidade da escrita do autor, mas que não compromete a fluidez da leitura. Gustav von Aschenbach, um escritor decepcionado com a receptividade de suas obras mais recentes, decide “mudar de ares”, deixando a sua cidade Munique em direção à Veneza. Na época, a cidade, quente e fétida, estava sofrendo uma epidemia de cólera. E é nesse cenário que tem início o seu fascínio por Tadzio, um jovem polonês, a personificação da beleza pura. É uma obsessão completamente platônica, que acaba deixando um velho escritor em um profundo conflito interno, sem saber quais passos tomar. A trama é simples e não é o que chama atenção na obra. O talento de Thomas Mann está na construção de um dilema interno muito profundo e, ao mesmo tempo, sútil. Tamanha a complexidade de seus pensamentos, que senti dificuldade de absorver mais da obra, até mesmo pelas diversas referências a filósofos como Platão e Nietzsche, que conheço pouco. Ou seja, não se deixe enganar pelas poucas páginas do livro e pela simplicidade da narrativa: a escrita é profunda, filosófica e excepcional. Um livro para ser relido.
Além de A morte em Veneza, essa edição também contempla Tonio Kröger. Li e gostei ainda mais do que a primeira novela. Kröger é filho de um burguês e uma mãe brasileira (o que denota um cunho autobiográfico, já que a mãe do autor também tinha origem brasileira). É um jovem que difere das crianças com quem convive. Com sua origem brasileira, Kroger foge do padrão caucasiano de pele, cabelos e olhos claros. E é na arte, escrevendo poemas, que protagonista consegue demonstrar a sua beleza. É também uma narrativa envolvendo o conflito interno do ser humano e o conceito de beleza. 

 

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Ler é um hábito

Desde a criação do @book.ster, uma das mensagens que mais recebo é: como você arranja tempo para conseguir ler tanto? De fato, há algumas dicas para conseguir aumentar o ritmo de leitura (e que eu abordarei em outro post). No entanto, se você não conseguir transformar a leitura em um hábito diário, que faça parte da sua rotina, pode seguir a dica que você quiser que você não vai conseguir ter um um bom ritmo. Você pode até comprar três livros e ficar super animado, acabar o primeiro livro em um dia e depois logo começar outro… Mas se você não ler todo dia, você vai acabar deixando essa nova meta e animação de lado. Ou seja, foque nessa dica antes de qualquer outra: leitura é hábito diário. E o melhor de tudo é que esse hábito – diferente do que estou acostumado a escutar – NÃO EXIGE MUITO TEMPO! Eu também tenho uma rotina bem corrida, mas decidi guardar um tempo para ler um pouco todo dia antes de dormir. E quando falo que precisa de pouco tempo, é porque é a pura verdade. O que importa não é a quantidade de livros que você lê, mas sim a constância, sempre estar lendo algo. Não se sinta pressionado se alguém já leu o dobro de livros que você leu no ano… se você conseguiu ler 1, 2 livros esse ano já está excelente! Até porque o número de livros é relativo, posso ler 1 livro de 1000 páginas ou 5 de 200. E naqueles dias que você está mais cansado, tente ler ao menos 3/4 páginas por dia, isso te impede de perder o ritmo e deixar a leitura de lado – não há nada pior do que ler um dia e ficar outros três sem ler! Então não tem desculpas… Quem aí já tem esse hábito diário? #bookster

Bartleby, o escrivão, Herman Melville

A capa vem costurada e as páginas grudadas. Para ler, você tem que cortar uma a uma. E esse conceito empregado na edição não foi por acaso. Nesse clássico da literatura norteamericana, o leitor se depara com um indivíduo extremamente relutante e que demanda muita paciência dos que estão a sua volta – assim como a necessidade de o leitor ir cortando as folhas a cada página que tenta avançar. A narrativa é bem curta e simples.

O narrador, um advogado de Wall Street, contrata um escrivão (copista), chamado Bartleby, para trabalhar em seu escritório. Apesar de excêntrico e calado, Bartleby aparenta ser um empregado prestativo. No entanto, um dia, e sem qualquer motivo aparente, responde a um pedido de seu chefe da seguinte forma: “Acho melhor não”. A partir desse episódio, qualquer pedido é respondido pelo famoso bordão, repetido por mais de 20 vezes ao longo do livro.

É verdade que a sinopse pode não interessar tanto o leitor. Mas o que surpreende nessa obra não é a história em si, mas o que ela representa e a forma com que Melville a conta. Na minha opinião, é um livro enigmático, que pode ser objeto de diversas interpretações.

Bartleby é um revolucionário, um louco ou alguém que está cansado de somente obedecer? Independente das diversas respostas possíveis, fato é que, com um humor tragicômico, Melville constrói uma narrativa que vem quebras com aquelas ideias que, nunca questionadas, são simplesmente aceitas como verdade. Ora, quem recusa, uma atrás da outra, as tarefas repassadas pelo chefe, sem nem mesmo dar um motivo? E qual é o chefe que vai aceitando isso com uma incompreensível passividade? Também é muito interessante constatar como essa relutância de Bartleby acaba contaminando todos que estão a sua volta.

Melville, autor de Moby Dick, revela nesse livro uma escrita fluida e repleta de figuras de linguagem, que enriquecem ainda mais a obra. Na minha opinião, esse é um livro que merece ser lido mais de uma vez, até para conseguir extrair ainda mais dele. Portanto, considero uma nota provisória!

 

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Sapiens: uma breve história da humanidade, Yuval Noah Harari

Costumo ter certa relutância em ler esses livros, porque geralmente todo esse alvoroço tem como principal causa não a qualidade da obra em si, mas muito mais uma jogada de marketing para gerar vendas (plenamente compreensível). Mas recebi tantas mensagens de pessoas recomendando esse livro – e pessoas com um gosto literário parecido com o meu – que resolvi encarar a leitura. No final, fiquei muito satisfeito por ter tomado essa decisão, já que o livro é realmente muito bom. É sempre importante ter em mente qual a proposta do autor com determinado livro, para que você não se decepcione ou inicie a obra esperando algo totalmente diferente. Sapiens é um livro de história, que revela uma extensa pesquisa feita pelo autor e contempla bastante informação. Ou seja, nesse caso, quando falo que o livro é muito bom, não espere uma narrativa que vai te prender muito ou uma leitura tão fluida. Como disse, é um livro de história, sem qualquer traço ficcional. Mas, pela quantidade de informação, confesso que achei a leitura bem fluida. Isso se dá em grande parte pelo fato de Harari traçar um panorama mais geral da “história da humanidade”, sem entrar em muitos detalhes ou dados técnicos, e pela grande capacidade que o autor tem de trazer exemplos atuais em suas explicações. Assim, o resultado é uma escrita mais acessível e prazerosa. E quando falo que Harari conseguiu cumprir o que prometeu, é porque ele de fato apresenta ao leitor um panorama muito interessante da origem do ser humano como conhecemos hoje, abordando não apenas aspectos biológicos e evolutivos, como também a formação de uma sociedade politicamente e economicamente organizada. Ao longo da obra, Harari também traz alguns questionamentos, de forma que o livro não deixa de apresentar um forte cunho filosófico. Nesse ponto, é importante notar que o autor também coloca o seu ponto de vista – ainda que de forma camuflada – quando traz esses questionamentos. Enfim, é um livro essencial, que dá uma base de conhecimento histórica indispensável. Recomendo muito! 

 

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