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O sol na cabeça, Geovani Martins

Quando comecei a ler o livro, já estava ciente do hype que a mídia vinha criando sobre ele, até por trazer uma temática de representatividade muito relevante no momento atual. Então, como alguns hypes costumam decepcionar, fui sem muitas expectativas… Logo no começo, o leitor já se depara com uma escrita original, que foge daquele português padrão que estamos acostumados a encontrar. Geovani usa e abusa da oralidade, se valendo de gírias e palavrões, sem se preocupar com regras gramaticais padrão. E, na minha opinião, esse foi um dos pontos altos da obra, dando um ritmo inovador à leitura.
No entanto, as histórias em si não me cativaram. Apesar de abordar temas necessários, como a marginalização dos mais pobres, a violência nas favelas e a presença constante das drogas na vida desses jovens, encontrei ao longo da leitura contos superficiais e histórias meio batidas, que não conseguiram me prender. Lógico que como em qualquer coletânea, há aqueles contos que você gosta mais e outros que você gosta menos. No caso, embora não tenham chegado a me surpreender, os meus contos preferidos foram “Rolézim” e “Espiral”, uma vez que eles conseguem fazer uma incursão com o leitor no quotidiano das favelas – algo que eu esperava encontrar nos demais contos. Mas é possível perceber o grande potencial do autor e, por ser um livro de estreia, ainda tem muita coisa boa por vir! Sem falar do quanto precisamos desse tipo de literatura de representatividade em nosso país! Obrigado @companhiadasletras pelo envio do livro!
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“É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.” (Espiral)

 

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O voo da guará vermelha, Maria Valéria Rezende

10 Maria Valéria Rezende, brasileira, já ganhou diversos prêmios literários e possui várias obras publicadas. Primeiro escolhi a autora e, só depois, fui decidir o livro. O voo da guará vermelha me ganhou pela sinopse: a relação improvável entre pessoas com pouco em comum. Irene, prostituta e soropositiva. Rosálio, pedreiro e analfabeto. E é no meio de um cenário de poucas esperanças que o afeto entre duas pessoas – aparentemente muito diferentes – se revela uma possível salvação para cada um. Quando Irene conhece Rosálio, enxerga nele um possível cliente. Mas, na verdade, Rosálio passa a frequentar o quarto de Irene não para satisfazer as suas vontades sexuais, mas sim para preencher o vazio, a solidão de cada um. Rosálio, sem saber ler ou escrever, se descobre um excelente contador de histórias. Nesses momentos do livro, o leitor vai conhecendo um pouco da – triste e batalhadora – trajetória de vida do personagem. E Irene, que se compadece e, ao mesmo tempo nutre um sentimento – talvez amor? – por Rosálio, passa a escrever essas histórias em um velho caderno. Gostei muito do trabalho da autora que, a partir de um cotidiano simples e triste, conseguiu mostra uma faceta do belo, se valendo de uma escrita sensível e sem floreios. Uma excelente contribuição para a leitura nacional! Vamos ler mais escritoras mulheres, vamos ler mais autores nacionais!

 

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Escolhas da vez!

Normalmente leio 4 livros ao mesmo tempo e costumo postar as escolhas aqui para vocês. No mês passado não mostrei os escolhidos, pois achava que esse tipo de não agradava tanto. Mas recebi algumas mensagens pedindo esse tipo de post, já que ajuda de alguma maneira com sugestões e na organização das leituras. Importante saber que quando eu digo que leio 4 ao mesmo tempo, isso não significa que leio os livros simultaneamente (na verdade, costumo ler no máximo 3 ao mesmo tempo). A ideia por trás dessa sistemática é começar a ler um livro depois de terminados os 4 escolhidos! Isso porque, como as escolhas são feitas com base em categorias pré-definidas, eu acabo me “forçando” a ler obras diferentes. Além disso, ler mais de um livro ao mesmo tempo ajuda muito no ritmo da leitura e evita que eu canse de determinada obra.
As minhas categorias podem ser assim resumidas: (i) um clássico; (ii) um livro curto (até 200 páginas); (iii) um autor contemporâneo; e (iv) um livro de não-ficção/contos/poemas.
Os escolhidos dessa vez são:

1 – Clássico: As brasas, Sándor Márai – Escolha de maio para o #desafiobookster2018 .
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2 – Livro até 200 páginas: O caso Meursault, Kamel Daoud – Esse é uma boa opção para quem já leu O estrangeiro, do Camus, e gostou do livro! A obra de Daoud vai recontar a história do ponto de vista do árabe assassinado por Meursault, o personagem principal do livro de Camus.

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3 – Autor contemporâneo: Laços, Domenico Starnone – Promete ser um romance sobre as crises e anseios por trás dos laços familiares. Há quem diga que essa obra seria uma resposta ao Dias de abandono, da Elena Ferrante, e que o Domenico Starnone é marido da famosa autora italiana. Ainda não li nada da Ferrante, mas como sei que muita gente gosta, essa informação pode interessar! Recebi da incrível @todavialivros.

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4 – Livro de contos: A teta racional, Giovana Madalosso – De acordo com a sinopse, os contos têm como temática comum “o feminismo no mundo contemporâneo” e são carregados de ironia e um bom humor ácido. Obra escrita por uma mulher, jovem e brasileira! Ainda mais um motivo para ser lido.

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E vocês, estão lendo o que?

Olhai os lírios do campo, Érico Veríssimo

Essa foi a obra que colocou Veríssimo em uma categoria de destaque na literatura nacional. De fato, o autor escreve muito bem e consegue, de uma forma sensível, cativa o leitor e envolvê-lo com os personagens. No entanto, confesso que essa não foi uma leitura que amei. É engraçado que ao escrever um prefácio a essa própria obra, 28 anos depois de sua publicação, o autor foi claro ao afirmar que “não tenho muita estima por este romance. Acho-o hoje um tanto falso e exageradamente sentimental”. E a verdade é que concordo um pouco com a opinião de Veríssimo sobre o próprio livro. A história tem como pano de fundo o romance entre Eugênio e Olívia e um conflito interno de Eugênio contra a sensação de inferioridade pela posição social em que nasceu.

Assim, Eugênio, um estudante de medicina, de origem humilde, decide se casar com uma jovem rica e ingressar na alta sociedade. E é justamente isso que vai ser abordado na primeira parte do livro: a trajetória de vida de Eugênio, desde sua formação como médico, sua origem familiar simples e suas angústias com as escolhas que precisa tomar. Vale a pena sacrificar os próprios valores pelo dinheiro e pelo sucesso? Será que esse novo status social é suficiente para suprir essa sensação de inferioridade?

Já a segunda parte me decepcionou um pouco e se distancia muito do que tinha lido até então. Ela é conduzida a partir das cartas deixadas por Olívia que, por sinal, é uma das personagens mais interessantes da obra. Só que nessa parte a leitura ficou bem mais arrastada e carregada de um sentimentalismo forçado a que o autor se refere em sua crítica ao próprio livro… As reflexões trazidas na primeira parte não são mais trazidas por Veríssimo, que passa a escrever uma simples “história de amor”.

De qualquer forma, gostei muito da leitura e sinto que foi uma porta de entrada para o trabalho de Veríssimo, me deixando animado para conhecer outras obras do autor.

“Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.”

 

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Intermitências da morte, José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu”. Essa é a frase de abertura do livro, que tem como personagem principal a morte (com letra minúscula, registre-se!). Cansada de ser vista como algo (ou alguém) indesejado por nós, seres humanos, a morte de um determinado país – sim, porque existem várias mortes – decide interromper suas atividades para deixar clara a importância que recai sobre sua função. De um dia para o outro, portanto, NINGUÉM mais morreu.

E quais serão as consequências dessa atitude vaidosa da morte? É justamente esse o enredo de mais uma obra excepcional de Saramago, que passa a discorrer sobre os prejuízos causados aos empresários dos serviços funerários, a superlotação dos hospitais, a perda da função da igreja, o contrabando de pessoas em busca da morte em outros países e por aí vai… O autor ainda consegue humanizar a morte, transformando essa figura em alguém que sente, que pensa e que tem suas próprias dúvidas existenciais!

É um livro muito bem escrito, com parágrafos longos e com pouca pontuação, características de Saramago. Achei que no meio da obra, o autor acabou deixando a leitura um pouco prolixa e arrastada, o que foi logo “corrigido” por uma reviravolta. E, apesar de tratar de um assunto tão polêmico, o autor recorre constantemente ao humor, à ironia e à crítica social. Termino esse livro com ainda mais convicção da genialidade do autor e com ainda mais vontade de conhecer outras obras.

Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes.” (p. 145)

 

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#DesafioBookster2018 – Maio

– Mês: Maio

– Categoria: Livro publicado na década de 1940

– Livro escolhido: As brasas, Sándor Márai (1942)

 

Para quem ainda não conhece, o Desafio Book.ster 2018 foi lançado com o objetivo de conhecer, seguindo uma ordem temporal, obras clássicas publicadas no século XX. A ideia é simples: 12 livros, 12 décadas. E se você ainda não começou, ainda dá tempo! É só começar a partir desse mês!
Antes de começar o mês, venho aqui apresentar o livro escolhido, assim como algumas sugestões para quem ainda não montou sua lista!

O livro escolhido para o mês de maio é um clássico que já está há um tempo na minha prateleira, mas sempre deixava para “uma próxima” – apesar de sempre ler boas recomendações. Sándor Márai é um autor húngaro e escreveu As brasas em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, isto é, quando seu país sofria pelas destruições das batalhas travadas entre Alemanha e União Soviética. No entanto, a despeito desse momento conturbado, o escritor conseguiu construir uma renomada obra sobre amizade. A narrativa tem como pano de fundo a história de dois amigos que não se vêem há 41 anos – já que um dia, em 1899, um deles desapareceu – e se reencontram em um castelo na Hungria. Sándor encontrou bastante dificuldade de publicar suas obras em seu país e, em 1948, foi exilado para os Estados Unidos até 1989, quando se suicidou.

Além de As Brasas, indico os seguintes livros publicados na década de 1940: O estrangeiro, Albert Camus (1942); As irmãs Makioka, Junchiru Tanizaki (1943); Perto do coração selvagem, Clarice Lispector (1943); Ficções, Jorge Luis Borges (1944); O fio da navalha, William Somerset Maugham (1944); A revolução dos bichos, George Orwell (1945); e Sagarana, João Guimarães Rosa (1946).

E você, já escolheu sua leitura de maio?

 

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Orlando: uma biografia, Virginia Woolf

A sinopse da obra já chama muito a atenção do leitor: uma biografia ficcional de um indivíduo que vive por cerca de 300 anos (séc. XVI-XX), mas envelhece pouco mais de 30. E mais que isso, durante esse longo período, o protagonista passa de um jovem membro da aristocracia elisabetana a uma mulher moderna do século XX. Em um dia, quando Orlando tinha 30 anos, dormiu durante uma semana e acordou mulher. É um livro que aborda as transformações do indivíduo visto como um ser humano, independente de questões envolvendo as diferenças de sexo ou gênero. Um dos pontos mais interessantes na obra é a contradição de sentimentos entre os vários Orlandos – que na verdade é um só – que vão sendo apresentados. Quando Orlando ainda era um homem, tinha uma visão bem machista, principalmente em relação ao papel da mulher na sociedade. No entanto, já na pele de uma jovem mulher, acaba questionando muitos das opiniões que tinha. Para uma obra escrita na década de 1920, já é possível imaginar a coragem da autora – que ainda por cima era mulher – para abordar temas tão polêmicos. E, para melhorar, a escrita de Woolf é muito boa, ela realmente dominava essa arte.

Também gostei muito de como a autora brinca com o ofício de escrever uma biografia. Isso porque, o narrador – no caso o biógrafo fictício, cujo nome também é Orlando – dialoga em diversos momentos com o leitor sobre os passos de escrever uma biografia, sempre com toques de ironia e humor.

Ou seja, é um livro genial… muito diferente, interessante e extremamente bem escrito, mas que demanda uma maior atenção e paciência do leitor (não se desanime se no começo você achar que não está entendendo tudo… aos poucos se acostuma). Recomendo muito!

Dica: Leia os textos de apoio que vêm nas edições. Indico muito essa edição da @autêntica, já que ela possui ótimo prefácio, imagens originais notas e um sumário no final do livro que ajuda muito a se ambientar no “tempo” criado pela autora.

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