Blog

Germinal, de Émile Zola | Resenha

Confesso que essa foi uma leitura que comecei sem saber muito o que esperar… E para a minha felicidade, entrou para a lista de melhores do ano (e lá no topo)! “Germinal” é um clássico da literatura mundial e foi uma das obras responsáveis por inaugurar o naturalismo. Acho que a maioria aqui estudou o tema na escola, mas vale lembrar que no naturalismo uma grande preocupação do escritor é de escancarar os problemas sociais da época, retratando a realidade de maneira mais crua possível e o ser humano em sua condição animalesca.
E é justamente isso que encontramos em Germinal: as condições subumanas dos trabalhadores de uma mina de carvão, na França do século XIX. Quando Étienne chega à cidade de Montsou para trabalhar na mina, sua voz de insatisfação passa a servir como um gatilho para aquela massa de pessoas que se humilha diariamente para sobreviver. Até a mina de carvão é retratada pelo autor como um animal: durante todo o dia, a Voraz vai engolindo os trabalhadores, se alimentando do suor e da carne humana.
Para conseguir deixar a descrição da vida dos trabalhadores o mais fiel possível à realidade, Zola passou dois meses vivendo e trabalhando como um mineiro. Realmente o autor consegue transportar o leitor para aquele subsolo quente, sujo e perigoso. E não só isso: a vida daqueles trabalhadores também é retratada para dentro de suas casas pobres, em que as relações familiares e sociais são preenchidas de conflitos e miséria. Quem nasce na aldeia está condenado a trabalhar desde criança nas minas até o dia em que os olhos se fecham de exaustão.
A construção dos diferentes personagens também faz de “Germinal” um daqueles romances que envolvem o leitor. É difícil não sentir compaixão pela dor, pela fome e pelo frio que vitimam os trabalhadores, enquanto os patrões levam uma vida de luxo e ostentação. Apesar da forte crítica social, a leitura é muito prazerosa, oferecendo ao leitor a possibilidade de aprender e refletir com um incrível romance histórico.
Recomendo MUITO!

Compre o livro AQUI ! Ao comprar o livro pelo link, você ajuda a página, sem gastar nada a mais por isso!

A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha – Resenha

A obra da autora brasileira Martha Batalha originou o filme “A vida invisível”, escolhido recentemente para disputar uma vaga pelo Brasil na categoria de filme internacional do Oscar de 2020. Como uma adaptação para as telas dificilmente supera o livro, resolvi adiantar a obra na minha lista de leituras. Quando mostrei para vocês que ia começar a ler esse livro, recebi muitas mensagens positivas e, com isso, a expectativa subiu. Mas, como vocês sabem, começar um livro com altas expectativas pode ser bem arriscado… Nesse caso, confesso até que o início da leitura não me prendeu tanto, impressão essa que mudou radicalmente no decorrer das páginas.
A narrativa é construída ao redor de Eurídice e Guida, irmãs nascidas no Rio de Janeiro da década de 20.

Durante a juventude das duas, Guida deixa a casa dos pais sem dar qualquer explicação. A vida de Eurídice, no entanto, segue um rumo mais ordinário e típico de uma “esposa exemplar” da classe média do início do séc. XX. O contraste entre uma vida aparentemente confortável e sem defeitos, mas que traz consigo um misto de melancolia e solidão, começa a ganhar força na leitura. E foi nessa parte que, na minha opinião, a leitura começou a ficar mais interessante. A autora consegue retratar o papel da mulher daquela época de uma forma mais profunda, revelando a invisibilidade que se irradia pela vida de cada uma dessas mulheres. A história do que poderia ter sido, mas nunca foi. Os desejos e sonhos de Eurídice não são importantes, sonhar não é para as mulheres. É uma crítica social – e feita de forma sutil – que nos faz pensar como esse tipo de comportamento e visão sobre o papel feminino ainda se reproduz.

Em seu primeiro romance, Martha Batalha conseguiu construir um história deliciosa e que ainda nos desperta uma necessária reflexão, confirmando a qualidade da literatura nacional contemporânea.

Compre o livro AQUI ! Ao comprar o livro pelo link, você ajuda a página, sem gastar nada a mais por isso!

Escolhas da vez!

No início de todo mês mostro para vocês as minhas escolhas, que costumo fazer com base em quatro categorias: (1) clássico; (2) até 200 páginas; (3) autor contemporâneo/ficção científica; e (4) não ficção/contos/poemas.

Ou seja, só vou começar um livro diferente depois que eu acabar a “leva” atual. Isso me tira da zona de conforto e me incentiva a ler obras de diferentes gêneros. Essa “técnica” também ajuda muito no ritmo da leitura, evitando que eu canse de alguma obra. E é importante dizer que eu não leio os 4 livros simultaneamente! Gosto de começar 2, e aí vou iniciando os próximos conforme finalizo as leituras, sem deixar nenhum de lado.

Escolhas de vez:

1 – Clássico: “A casa dos espíritos”, de Isabel Allende – Destaque da literatura latino-americana, a obra se assemelha a “Cem anos de solidão”. Já comecei a leitura na edição original em espanhol e estou adorando!

2 – Autor contemporâneo: “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe – Faz tempo que não faço uma releitura… Estou animado para reencontrar essa narrativa tão incrível de @valterhugomae. Essa leitura é para o clube do livro da @m.inq, que acontece no começo de novembro (ainda dá para participar)!

3 – Até 200 páginas: “K – relato de uma busca”, de B. Kucinski – Livro escolhido para o mês de outubro do #desafiobookster2019. Tema: democracia.

4 – Não ficção: “Rota 66“, de Caco Barcellos – Li há alguns anos “O abusado” do mesmo autor e adorei! Esse estava na fila há um bom tempo.

E vocês, estão lendo o que?

“Não foi bem assim – verdades e cicatrizes de um julgamento”, de Francisco Almeida Prado | Resenha

Apesar de ter sido publicado em 2016, quando li a sinopse do livro achei que estava diante de um lançamento. É que, independentemente de posição política e sem fazer qualquer juízo de valor, o autor criou uma narrativa muito atual. “Não foi bem assim” traz a história de Armando, promotor de justiça que sempre se destacou no seu trabalho, mas acabou sendo envolvido em um escândalo: foi autor de uma gravíssima acusação contra um político e que se descobriu ter sido baseada em provas falsas. E o pior é que o protagonista acabou sendo uma vítima do cenário em que trabalha, fortemente contaminado por jogos de influências e troca de favores. São os bastidores de instituições públicas que pouco chegam aos “cidadãos comuns”. E ninguém melhor para construir uma história dessas do que Almeida Prado, um promotor de justiça aposentado, que trabalhou no Ministério Público por mais de trinta anos. A experiência do autor consegue ser facilmente percebida por quem lê.

Contudo, “Não foi bem assim” não é apenas um romance de intrigas políticas, temperado com um bom suspense. Diferentemente do que eu imaginava, o autor vai direcionando a narrativa para um outro caminho. A partir da reviravolta na vida de Armando, acompanhamos as angústias e incertezas de alguém que pode perder o que mais dá valor: o prestígio profissional que possui. Isso desperta reflexões inevitáveis no protagonista… “O que sobra de mim se aquela imagem sobre a qual construí a minha vida desaparece? Quem eu sou além daquela figura impessoal que sempre mostrei para a sociedade?” Esses questionamentos são justamente o fio condutor da segunda parte da obra e conseguiram, na minha opinião, dar um destaque à história criada por Almeida Prado. Além disso, a história de Armando toca em um ponto pertinente: as consequências de um julgamento influenciado pela pressão midiática e popular.

A escrita é simples, a narrativa prende a atenção do leitor e o final realmente me surpreendeu. Boa dica de livro para quem quer conhecer mais dos bastidores do mundo jurídico e político, sem abrir mão de um romance bem construído. #publi

Compre o livro AQUI ! Ao comprar o livro pelo link, você ajuda a página, sem gastar nada a mais por isso!

#DesafioBookster2019 | Outubro

Tema de outubro: Democracia
Livro escolhido: “K – Relato de uma busca“, de B. Kucinski
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês, assim como outras dicas ao final do post. Se você só chegou agora por aqui, comece o desafio a partir desse mês!
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em outubro, o tema escolhido é democracia – um tema sempre relevante e atual. Não é segredo para ninguém que existe uma infinidade de livros que tem como pano de fundo algum governo autoritário ou um futuro distópico em que liberdades são suprimidas. Diante de tantas opções, optei por um autor nacional e por uma obra que abordasse a história de nosso país. O livro de Kucinski é construído no ambiente da ditadura militar, em plena década de 70. Na verdade, nem tanto construído, uma vez que o livro é uma mistura de ficção com fatos reais vividos pelo próprio Kucinski e sua família.

Em 1974, uma professora de química da Universidade de São Paulo é presa pelos militares. A professora é irmã do autor. O acontecimento desestabiliza a sua família e, em meio ao desespero, seu pai inicia uma longa busca por informações sobre o destino da filha. Como antecipa a própria sinopse, o pai se “depara com a muralha de silencio em torno do desaparecimento dos presos políticos”. ⠀⠀

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Além do escolhido, indico: “A resistência”, de Julián Fuksh, “As meninas“, de Lygia Fagundes Telles; “A festa do bode”, de Vargas Llosi; “1984”, de George Orwell; “Incidente em Antares“, de Érico Veríssimo; “Um grão de trigo”, de Ngugi Wa Thiong’o”; “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva; Coleção Ditadura, de Élio Gaspari; “Azul corvo”, de Adriana Lisboa; e “A noite da espera”, de Milton Hatoum. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

E você, já escolheu sua leitura de outubro?

Ao comprar o livro pelo link, você ajuda a página, sem gastar nada a mais por isso!

Persépolis, Marjane Satrapi | Resenha

A autora iraniana resolveu escrever sua autobiografia em forma de quadrinhos para contar os fatos que marcaram a sua – nada comum – infância e juventude. A intenção de Marjane foi escrever um relato apenas para seus amigos, mas a recepção foi tão positiva que a autora logo tornou a sua obra uma ferramenta para disseminar uma história de opressão religiosa, choques de cultura e saúde mental.

Nascida em um Irã ainda liberal, e criada por uma família pouco religiosa, Marjane vivenciou uma mudança radical ainda quando criança: seu país passou por uma revolução que colocou no poder um governo autoritário e fundamentalista, liderado por um chefe religioso. Com 10 anos, a menina passa a ser obrigada a usar o véu, a estudar em uma escola apenas para garotas e a mudar detalhes do seu dia a dia.

No entanto, a garota não conseguia aceitar as mudanças radicais e, com medo das consequências que seu comportamento rebelde poderia trazer, os pais de Marjane decidem enviá-la para a Europa. Diante disso, e com apenas 14 anos, a protagonista aterrissa sozinha na Áustria. Os choques culturais já são percebidos logo de início e, ainda que tenha encontrado um país liberal, Marjane se sente deslocada. Ela logo percebe como a criação em uma sociedade extremista pode impactar na formação do indivíduo. Marjane é muito diferente dos jovens da sua idade e, por isso, passa a fazer de tudo para disfarçar as barreiras culturais que a tornavam “esquisita”. Essa luta para tentar se adaptar a um mundo tão diferente traz sérias consequências para a protagonista. Apesar de não ter que lutar mais contra a opressão do governo, Marjane precisar combater uma forte depressão e conviver com a solidão de uma vida longe da família.

A leitura realmente surpreende pela profundidade e acaba por derrubar aquela ideia de que histórias em quadrinhos são para crianças e adolescentes. Se você também pensa assim, dê uma chance para “Persépolis” e tenho certeza de que você terminará a leitura impactado(a) com a história de uma mulher que enfrenta inúmeras dificuldades para conseguir garantir o seus mínimos direitos a uma vida livre e sem discriminações.

E você, gostou da resenha?

Compre o livro AQUI ! Ao comprar o livro pelo link, você ajuda a página, sem gastar nada a mais por isso!

O olho mais azul, de Toni Morrison | Resenha

A literatura é uma poderosa ferramenta de empatia. Ela nos permite enxergar situações corriqueiras a partir de perspectivas que são totalmente estranhas à nossa realidade e que nunca teríamos acesso se não fosse por meio dos livros. E terminar a leitura dessa obra apenas confirma esse seu papel. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em pouco mais de 200 páginas, Toni Morrison consegue apresentar para o leitor como é crescer em uma sociedade em que as referências e os padrões do que é certo e bonito estão longe do que você é. Pecola Breedlove, uma garota negra nascida nos Estados Unidos da década de 40, sonha em ter olhos azuis. Pede a Deus todos os dias para que seus olhos se transformem em azuis. Para Pecola, quem sabe dessa forma as pessoas passariam a notá-la um pouco mais, passariam a aceitá-la. É um pequeno desejo de uma criança que carrega consigo inúmeros problemas históricos e sociais. ⠀ ⠀⠀⠀

⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mas além de ser vítima de um racismo estrutural, que cria na garota uma recorrente necessidade de aceitação, a vida de Pecola também vai encontrar barreiras em situações de machismo, abuso sexual (há passagens com gatilhos sobre o tema), relações familiares e muita violência, sobretudo psicológica. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tudo isso acontece no cerne de uma família problemática, que, infelizmente, não parece indicar um cenário incomum: o pai de Pecola é alcoólatra e bate na esposa; sua mãe vive em função de cuidar da casa de uma família branca para quem trabalha como empregada doméstica; e seu irmão faz de tudo para conseguir fugir dos seus problemas. É uma família moldada por engrenagens de um sistema que funciona sempre da mesma forma. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E apesar dos temas duros e sensíveis que atinge, a autora escreve de uma forma tranquila e com toques poéticos. Em seu primeiro romance, a primeira – e única – mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura nos faz refletir muito. Toni Morrison incomoda o leitor atento, deixando sua marca permanente.

O que acharam da resenha?

Para comprar o livro é só clicar AQUI!

Ao comprar o livro pelo link, você ajuda a página, sem gastar nada a mais por isso!