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#DesafioBookster2020 | Julho

Mês: Julho⁣
Gênero: Ficção científica ⁣
Livro escolhido: “A mão esquerda da escuridão”, de Ursula K. Le Guin⁣

Acho que até agora essa foi uma das escolhas mais fáceis de acertar. Quando se fala em autora de ficção científica, um dos primeiros nomes que vem à cabeça é Ursula K. Le Guin. A norte-americana escreveu diversos livros, dentre eles mais de 50 romances. Da autora já li “Os despossuídos” e gostei muito da forma como a autora usa a ficção científica para discutir temas de relevância social. E é justamente por esse motivo que escolhi um novo livro da autora para o Desafio Bookster, até mesmo porque “A mão esquerda da escuridão” é conhecido por seguir essa mesma linha de trabalho, isto é, uma narrativa que vai muito além da trama construída e de planetas habitados por seres “estranhos”. ⁣

Escrito há mais de 50 anos, a obra foi vencedora de prêmios literários ao tratar de uma missão diplomática em que um humano precisa convencer os governantes de um planeta alienígena, chamado de Gethen, a se unirem a uma comunidade global. No entanto, o missionário levará um choque de cultura ao se deparar com uma sociedade organizada de forma muito diferente, sobretudo por não existir a divisão de gênero como conhecemos. Lá os seres não são do gênero masculino, nem feminino, mas sim de um misto dos dois. Como bem indicado na sinopse, o livro “propõe ricas discussões sobre assuntos polêmicos e atemporais – gênero, feminismo, alteridade, filosofia e antropologia”. Não tem como não ficar animado, não é mesmo?⁣

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “A parábola do semeador”, de Octavia E. Butler; “Frankenstein”, de Mary Shelley; “Oryx e Crake”, de Margaret Atwood; e “As águas-vivas não sabem de si”, de Aline Valek; e “A terra das mulheres”, de Charlotte Perkins Gilman.⁣

Ninguém escreve ao Coronel, de Gabriel Garcia Márquez | Resenha

Eu gosto muito da escrita do Gabo, da forma com que ele cria enredos simples, até cômicos, mas ao mesmo constrói ambientes riquíssimos e desenvolve personagens marcantes. São narrativas tão gostosas de ler e, ao mesmo tempo, responsáveis por despertar reflexões sobre relações humanas, problemas sociais e peculiaridades da nossa condição.⁣

Em “Ninguém escreve ao Coronel”, o destaque vai para a forma com que a velhice é retratada. Como se aos poucos passássemos a ser esquecidos, tanto pelos que estão à nossa volta, como também pela própria sociedade. Toda semana, o Coronel aposentado vai ao correio na esperança de receber o que lhe era de direito: o pagamento de sua pensão. São tantos anos de espera, que em cada retorno para casa o personagem tenta se convencer de que algum novo problema pode ter ocorrido. A verdade é: qual o real valor do trabalhador que não tem mais utilidade? É o abandono social, uma questão ainda muito atual…⁣

E essa espera não é uma mera distração para a sua velhice entendida. É uma necessidade. As suas reservas vão desaparecendo. Os imóveis e objetos da casa vão sendo vendidos e, aos poucos, a sensação é que até a esposa com quem convive vai definhando. O medo da fome faz parte do dia a dia daquela casa.⁣

Em paralelo, há também uma certa obsessão do Coronel por um galo de rinha que pertencia ao filho que faleceu. Todas as energias e recursos acabam se voltando para o pobre animal, como se assim o Coronel conseguisse deixar viva uma memória de seu filho.⁣

É uma leitura rápida, cômica, mas não pouco sofrida. Escrita aos 29 anos, esse livro é uma boa amostra da genialidade das obras posteriores que Gabo viria a escrever ao longo de sua vida.⁣


Trecho:⁣
“- As ilusões não se comem – respondeu ela.⁣
– Não se comem, mas alimentam – retorquiu o coronel.”

Fabián e o caos, de Pedro Juan Gutierrez | Resenha

Ambientado em uma Cuba assolada por intrigas políticas, em plena transição da Revolução, “Fabián e o caos” relata os encontros e desencontros entre duas pessoas muito diferentes. De um lado temos Pedro Juan – inspirado no próprio autor – que vive em busca de sexo e álcool. De outro lado conhecemos Fabián, um personagem peculiar, com traços introvertidos e que nutre uma paixão pelo piano. Além disso, Fabián é homossexual.⁣

E é a historia de Fabián que mais impressiona o leitor. Impressiona de forma negativa, tamanha a solidão que habita dentro do personagem. Por ser homossexual, Fabián era considerado como portador de um “desvio ideológico”, que justificava a sua exclusão do seio da sociedade. Por isso, não bastasse ter sido criado por pais caóticos, o personagem também passa a viver na margem da sociedade. O destino de um pianista apaixonado pela música é uma fábrica de enlatados. E essa invisibilidade de Fabián, que não pertence a lugar algum, incomoda – e muito. Chega a dar uma vontade de poder conversar com ele e tentar suprir um pouco dessa total falta de afeto. ⁣

Mas é essa capacidade de incomodar o leitor que tanto me impressiona na obra do autor cubano. Gutierrez escancara a condição selvagem do ser humano, largado pelo Estado e que luta para sobreviver. E para quem luta pela sobrevivência, os laços afetivos e as emoções não tem lugar a ocupar. ⁣

A vida de Pedro Juan também carrega essa característica animalesca, embora não transmita tanta solidão. O personagem vive em busca de sexo e bebidas, verdadeiros refúgios do caos em que vive. E a linguagem crua e direta contribui para a construção desse cenário.⁣

O contexto histórico também é muito interessante no livro. Os pais de Fabián saem da Espanha em busca de uma Cuba em desenvolvimento. Mas a riqueza da família desaparece com a revolução implementada por Fidel Castro. A estatização total das empresas estrangeiras, com a tomada de terras pelo governo, levou grande parte da população à pobreza e ao racionamento. As consequências da ditadura são devastadoras e caóticas. ⁣

Sou fã do autor! Resenha em homenagem ao mês do orgulho LGBTQ+.⁣

Flores para Algernon, de Daniel Keyes | Resenha

Até que ponto a ciência pode interferir na natureza humana? E quais as consequências? Nessa obra, o limite entre ciência e ética foi testado. Um experimento conduzido em uma universidade promete algo aparentemente louvável: melhorar a inteligência daqueles que, por motivos diversos, vivem com alguma deficiência intelectual. ⁣⁣
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Charlie é escolhido para testar essa nova tecnologia. E, ao longo da obra, vemos a sua evolução por meio dos “relatórios de progresso”, que nada mais são que um diário do dia a dia do personagem. A obra é, portanto, escrita a partir da perspectiva de Charlie, sempre em primeira pessoa.⁣⁣
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No início, os relatórios de progresso refletem a deficiência de Charlie, que tem extrema dificuldade de escrever e se expressar. Mas não é só isso: é possível perceber como Chralie tem uma visão inocente sobre as pessoas e as situações à sua volta. Ele não percebe as discriminações que sofre dos colegas de trabalho ou até mesmo não parece entender direito o que o procedimento inovador pode mudar em sua vida. É um indivíduo que vive em sua própria realidade e, muitas vezes, é incompreendido. ⁣⁣
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No decorrer de sua recuperação, a melhora da “inteligência” de Charlie começa a ser vista na sua escrita e na forma mais detalhada com que ele passa a descrever os momentos do seu dia. A melhora é, inclusive, percebida pelo personagem, que passa a ter consciência da discriminação que sofria e, com isso, sua inocência acaba virando revolta. Será que ele era mais feliz? E é justamente esse o ponto que achei mais interessante no livro, como o próprio personagem vai entendo a sua condição, analisando como era ser uma pessoa que vivia a par da sociedade. ⁣
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Confesso, contudo, que a leitura não me cativou tanto. Talvez pelo fato de ter sido escrito em forma relatos, não consegui me apegar tanto ao personagem, o que melhor no final (senti o começo da narrativa um pouco artificial e, por isso, demorei para engatar).

Mesmo assim, recomendo a leitura, principalmente pelas reflexões sobre a perspectiva daquele que é visto como inferior! Escrito em 1959, mas muito atual!

O sol ainda brilha, de Anthony Ray Hinton | Resenha

Quando se discute como o poder judiciário pode ser falho, são casos como o de Anthony Hinton que vem à cabeça. Imagine passar 30 anos no corredor da morte, enquanto se tenta de toda forma mostrar que não cometeu um crime, para, só então, ser declarado inocente. Foi esse nível de injustiça que o autor sofreu e busca compartilhar em sua autobiografia.⁣

Foi com 29 anos que Hinton, um jovem negro e de uma família simples, foi acusado de ter assassinado 2 pessoas. Apesar das inconsistências da acusação, o autor ainda assim foi condenado à pena de morte. Muito disso tem como causa a vontade cega de um promotor em condenar quem ele entende não ser um “cidadão do bem”, bem como a falta de uma defesa adequada, patrocinada por um defensor público que enxergava o processo como só mais uma tarefa a ser concluída. ⁣

É impossível fazer a leitura sem sentir uma extrema revolta contra um governo míope e contra inúmeras violações a garantias básicas de um cidadão. Mas o mais triste disso tudo é pensar como essas injustiças ainda ocorrem e quantos Hintons ainda passarão pelo que o autor viveu.⁣

O racismo é um tema recorrente da obra. É o racismo sob o viés do sistema judiciário, que dá enfoque ao jovem negro dos bairros pobres. O livro também traz à tona a discussão da pena de morte. Se Hinton teve a sorte de conseguir escapar depois de três décadas de prisão indevida, esse não foi o destino de outros condenados à morte pelo Estado.⁣

A maior parte do livro escutei pela plataforma @autibooks. E apesar da relevância, senti que a história ficou um pouco cansativa, principalmente pela repetição de passagens da vida do autor e de algumas reflexões que ele queria passar. E isso foi refletido na nota que dei… Talvez isso seja uma consequência de eu ter optado pelo audiobook, mas não tenho certeza. Ainda assim, vale a leitura! ⁣

Noites brancas, Fiódor Dostoiévski | Resenha

Este é um livro que foge um pouco do que já havia lido do autor, já que nele encontramos uma “típica” narrativa romântica, em que a paixão idealizada e intensa toma conta dos personagens. Foi escrito pouco antes do período de prisão e exílio vivido por Dostoiévski, o que talvez explica essa temática mais leve quando comparada com as obras publicadas nos anos seguintes. ⁣

Em “Noites brancas”, uma das maiores qualidades de Dostoiévski permeia toda a narrativa: o aprofundamento dos conflitos internos dos personagens. É uma história que se passa em poucos dias e que tem início em uma das conhecidas “noites brancas” de São Petesburgo, quando a noite é tão clara que se confunde com o dia. No entanto, apesar de ser um romance curto e sem grandes acontecimentos, essa característica não faz dele uma leitura pouco densa em termos de desenvolvimento dos personagens. ⁣

Somos colocados em frente aos conflitos internos de um jovem tímido – e sonhador – que, em uma de suas solitárias andanças por São Petesburgo, acaba conhecendo Nástienka, com quem inicia longas e íntimas conversas. E esses diálogos construídos por Dostoiévski são incríveis e dão fluidez na leitura. Mas o que aparenta ser a criação de um laço de amizade, já que Nástienka, que se vê presa em uma relação amorosa conturbada, acaba despertando sentimentos mais profundos no narrador.⁣

Em poucas páginas, o autor nos mostra como a paixão é um sentimento fugaz e dolorido, mas que pode nos proporcionar inesquecíveis momentos de felicidades. Continuo recomendando “Gente pobre” e “O eterno marido” como primeira leitura, mas essa pode ser uma boa sequência, como uma porta de entrada para os romances mais psicológicos do autor.

O cavalo amarelo, de Agatha Christie | Parceria Bookster

Minha primeira obra da rainha do crime, finalmente! E terminei com um arrependimento: por que demorei tanto para conhecer o seu trabalho? Acho que eu tinha um “preconceito” inconsciente com as suas obras, devia achar que seriam livros mais simples, com o único objetivo de despertar no leitor a curiosidade para chegar no final da trama.

Como sempre, quem sai perdendo é quem tem preconceito! Ainda que você não curta a leitura, só lendo para ter alguma opinião… E nesse caso, eu li e gostei muito! Diferentemente do que eu imaginava, a trama de Agatha Christie é profunda e vai muito além de meras cenas de crime e busca pelo assassino responsável. O enredo consegue revelar críticas sociais, uma análise profunda da relação entre os personagens e, lógico, um suspense complexo, que te envolve na história.

Em “O cavalo amarelo”, temos um mistério coberto por uma penumbra sobrenatural. Um padre é morto após escutar uma confissão de uma mulher à beira da morte. Com ele, é encontrado uma lista de nomes de pessoas que não parecem ter muito em comum. Pessoas adoecem e morrem de forma repentina. Há a suspeita de que rituais celebrados por bruxas com poderes podem ser a causa disso… mas como acreditar no sobrenatural? Confesso que no início demorei um pouco para me acostumar com a forma da narrativa, mas logo fui absorvido pelo ritmo da autora.

Na verdade, acho que fiz bem em começar por “O cavalo amarelo”, que nem é uma das obras mais comentadas de Agatha Christie. Se já tive uma experiência tão boa nessa leitura, fico com a certeza que ainda tem muita coisa boa para descobrir em conjunto com essa autora de respeito! E fica uma lição que não falha: desconfie dos seus preconceitos, eles só te impedem de conhecer coisas novas!

Ah, não posso deixar de elogiar a Harper Collins Brasil pelo belíssimo trabalho com as novas edições, todas em capa dura, com tradução inédita e notas explicativas ao final dos livros!