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Verificado “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro | Leitura necessária

Em um momento em que a discussão sobre discriminação racial está em destaque, a leitura desse pequeno livro de Djamila, uma importantíssima ativista e filósofa contemporânea nacional, permanece tão necessário. Se você tem dúvidas sobre o tema ou se ainda não sabe como pode agir de forma antirracista – ou contra qualquer tipo de discriminação – essa é uma obra que você precisa ler. Do meu ou do seu lugar de privilégio, o desconhecimento não pode ser usado como justificativa para atitudes discriminatórias. ⁣

Um livro curto, acessível e muito direto sobre como o racismo acabou se enraizando em nossa sociedade, como podemos identificá-lo e como precisamos mudar nossos comportamentos. É aprender que a desigualdade não implica um tratamento igualitário, mas sim um tratamento dos desiguais na medida de sua desigualdade. ⁣

Em um dos capítulos, Djamila aborda a importância da diversidade nas leituras. Um tema que já vem sendo tratado há tanto tempo, mas que ainda precisa ser mais conhecido. É o impacto que uma escolha consciente dos livros pode produzir. E é justamente esse trabalho de pessoas tão essenciais na luta contra as desigualdades que eu quero tentar de alguma forma disseminar e mostrar meu total apoio por meio da leitura. É de textos como esse que eu aprendo muitas das mensagens que tento transmitir por aqui. Temos que estar abertos para aprender com o outro e dispostos a desconstruir nossos pré-conceitos…⁣

Não vou me alongar aqui, porque é com Djamila e outros ativistas que você precisa conhecer mais sobre o tema!⁣


“Acordar para os privilégios que certos grupos sociais têm e praticar pequenos exercícios de percepção pode transformar situações de violência que antes do processo de conscientização não seriam questionadas.”

Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom | Resenha

Que leitura gostosa e interessante! Confesso que o título até me causou um certo receio, já que eu conhecia muito pouco sobre o trabalho e vida de Friedrich Nietzsche. No entanto, você não precisa ter um conhecimento prévio para aproveitar essa leitura. Na verdade, você vai aprendendo sobre o trabalho do filosofo, e dos demais notórios personagens históricos mencionados no livro, ao longo de uma leitura instigante.

O cenário é a cidade de Viena, no final do século XIX. Dr. Breuer é um renomado médico da cidade, detentor de uma invejada capacidade de fazer bons diagnósticos. Depois de um encontro imprevisível com uma jovem russa, o médico se vê diante de uma difícil tarefa: tentar descobrir a origem dos horríveis sintomas, físicos e psicológicos, que acometem Nietzsche. O filósofo, que já se mostrou como um paciente nada fácil, ainda não era conhecido naquela fase da vida e seus livros mal haviam sido vendidos. Mesmo assim, o desafio instiga Dr. Breuer e, a partir disso, nasce uma interessantíssima relação entre o médico e Nietzsche.

E o mais interessante é acompanhar a evolução dessa relação que a todo instante passa a se confundir, de modo que às vezes o médico ocupa o lugar do paciente. São conversas interessantíssimas sobre angústias, relações amorosas, insatisfações e dúvidas sobre a nossa existência. O que o autor pretende é mostrar o início de um tratamento muito conhecido hoje, a psicoterapia. A narrativa fica ainda mais interessante com a presença do jovem Freud que, aos 26 anos e no início de sua carreira, desempenha um importante papel de amigo do Dr. Breuer.

Ainda que esse encontro entre Nietzsche e Breuer não tenha realmente acontecido, não se preocupe em ficar tentando diferenciar o que é ficção ou realidade. Essa mistura faz parte da qualidade literária de Yalom. O que é inegável, por sua vez, é que o livro revela – de uma forma acessível e nem um pouco técnica – muito dos pensamentos de Nietzsche, Freud e Breuer no curso da narrativa. Ah, o início pode parecer um pouco mais lento, mas não desanime que depois de algumas páginas você já será fisgado pela história.

Verificado A peste, de Albert Camus | Resenha

Acho que não preciso explicar o motivo de ter escolhido essa leitura para o momento… Confesso que no começo da quarentena não fiquei com vontade de iniciar a leitura. Até porque, não bastasse o assunto da pandemia estar sendo falado por todos os lados, achei que a hora da leitura poderia ser uma “fuga”. E pela simples sinopse você já percebe as semelhanças com o momento atual que vivemos: a cidade de Orã, na Argélia, é tristemente surpreendida por uma doença que passa a vitimar a população. ⁣

Mas, com o tempo, acabei ficando curioso principalmente para entender de que forma o autor teria abordado o comportamento da sociedade em uma situação como a que estamos vivendo. Seria possível “antecipar” todo esse caos, angústia e incerteza? ⁣

Para a minha grande surpresa, há inúmeros paralelos entre a dinâmica da disseminação da doença em Orã e o alastramento da COVID pelo mundo. Já começa pela própria descrença de muitos com a seriedade da doença logo após os primeiros casos. Ninguém sabia o que estava acontecendo e a intenção inicial era evitar um pânico da população. No entanto, com o desenvolvimento da peste, medidas mais sérias tiveram que ser tomadas e a cidade de Orã se vê fechada para o resto do mundo. O leitor acompanha toda essa situação a partir da perspectiva de um médico, Dr. Bernard Rieux, e de outros personagens que estão de alguma forma relacionados com Rieux.⁣

Não vou me debruçar mais sobre o enredo, porque acho interessante que o leitor vá entendendo as consequências que a doença traz para aquela cidade de acordo com o ritmo proposto pelo autor. Mas já adianto que, apesar da temática, a leitura não é tão fluida – até porque a densidade dos textos é uma característica de Camus. Por isso, leia aos poucos, sem pressa e sabendo que a peste – como doença é – é utilizada pelo autor como a porta de entrada de diversas outras discussões e reflexões que a obra desperta. Inclusive, há quem afirme que “A peste”, publicada em 1946, seria uma alegoria da atrocidade da ocupação nazista. Recomendo!⁣

#DesafioBookster2020 | Agosto

Mês: Agosto⁣
Temática: Drama⁣
Livro escolhido: “Cidadã de segunda classe”, de Buchi Emecheta
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Na literatura, o termo Drama pode ter dois sentidos: (i) como gênero literário, Drama se refere ao teatro, às peças teatrais, ao texto feito para ser encenado; (ii) como classificação literária, o Drama se refere a narrativas mais ligadas às emoções dos personagens, isto é, com uma carga dramática maior. Para o desafio Bookster, a escolha do livro de agosto foi feita a partir deste último significado do termo Drama.⁣

Buchi Emecheta foi uma influente autora nigeriana, que tinha como objetivo denunciar a difícil realidade da mulher nigeriana e africana, abordando temáticas relacionadas à maternidade, colonialismo e submissão da mulher. O livro escolhido será o meu segundo contato com a autora, já que li há cerca de 3 anos “As alegrias da maternidade”. Foi uma leitura muito marcante, que levou nota máxima, e me deixou com mais vontade de conhecer as obras de Emecheta. ⁣

Em “Cidadã de segunda classe”, acompanhamos a imigração de Adah, que deixa a Nigéria e vai para Londres em busca de melhores condições de vida para uma mulher. Adah leva seus filhos, mas a expectativa por uma situação melhor acaba sendo traída pelos obstáculos que o novo destino apresenta, como o racismo e a xenofobia. A protagonista também “se depara com uma recepção nada acolhedora de seus próprios compatriotas, enfrenta a dominação do marido e a violência doméstica e aprende que, dos cidadãos de segunda classe, espera-se apenas submissão”, como indica a sinopse do livro.⁣

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles; “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath; “Adua”, de Igiaba Scego; e “A hora da estrela”, de Clarice Lispector; e “O caminho de casa”, de Yaa Gyasi.⁣⁣

Frida: a biografia, de Hayden Herrera | Resenha

Quando falo sobre biografias, costumo avisar que não sou um grande fã do gênero, principalmente das obras que contêm uma longa e detalhada descrição da vida de alguma personalidade. Não é uma crítica ao gênero em si, mas apenas uma constatação de que para mim a leitura normalmente não flui tão bem. Mas, ainda assim, a curiosidade de saber mais sobre a vida de personagens que admiro, não me impede de me aventurar nesses livros… E foi justamente assim com o caso de Frida.⁣⁣
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No ano passado, quando comecei a ler a sua biografia, logo me interessei bastante, mas aos poucos a leitura ficou mais arrastada. Por isso, senti que naquele momento o livro não estava sendo uma boa opção e acabei decidindo deixá-lo de lado – depois de cerca de 200 páginas lidas. ⁣⁣
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Esse ano, durante a quarentena, fiquei com vontade de retomar a leitura (como não fazia tanto tempo, retomei de onde havia parado). E a experiência melhorou muito! O trabalho feito pela autora, uma reconhecida historiadora da arte, é extenso e fruto de uma impressionante pesquisa. E o que eu mais gostei foi não só a forma como Hayden Herrera reconstrói as passagens mais importantes da vida de Frida, mas também como a autora apresenta ao leitor uma análise didática e muito interessante sobre as principais obras da autora (a edição é repleta de imagens).⁣⁣
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A vida de Frida é um emaranhado de acontecimentos intensos. A artista tinha um impressionante espírito revolucionário, de alguém que está muito à frente do seu tempo e vive sem o medo de ser julgada pelos outros. O amor que sentia pelas artes, o forte posicionamento político e a paixão conturbada – e não saudável – por Diego Rivera foram um importante alimento durante os períodos em que precisou viver em uma cama, com muitas dores, fruto de um acidente que sofreu ainda jovem. ⁣⁣
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Para quem gosta do gênero e tem interesse em conhecer mais sobre a vida da artista, essa é uma obra imperdível! Mas fica aqui a minha dica de ler o livro junto com alguma obra mais fluida, menos densa… Com isso, você ganha mais ritmo para continuar lendo essa biografia tão marcante.

A morte e a morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado | Resenha

O título já indica: Joaquim Soares da Cunha, também conhecido pela vida arruaceira como Quincas Berro D’água, morreu. Morreu fisicamente e, por ser muito querido, deixou um ar de tristeza em seus amigos. Até porque o personagem era famoso pelas ruas de Salvador, por onde andava com a cachaça na cabeça e em busca das mulheres de sua vida… ⁣

Na família, contudo, a sensação era de um pouco de vergonha – e, talvez, de alívio? Isso porque Quincas – ou, melhor, Joaquim, como eles preferem chamar – já havia morrido para seus familiares, alguns anos antes, quando decidiu largar todas as suas obrigações e a enfadonha vida dos padrões sociais, em que exercia o papel de funcionário exemplar, para poder viver fazendo o que gostava: beber e curtir a vida. ⁣

Essa decisão deixou toda a sua família de queixo caído e, por isso, quando Quincas foi encontrado morto sozinho em seu quarto simples, ninguém mais o considerava como um cidadão de respeito, como era visto o antigo Joaquim. Mas três amigos da vida nova, aquela escolhida por Quincas, fizeram questão de comparecer em seu velório. E, a partir daí, quando os amigos chegam bêbados para fazer a sua última visita e acabam sendo deixados sozinhos com o morto pela família, as aventuras na vida do personagem principal recomeçam…⁣

Será que vale viver a vida se preocupando com a opinião dos outros? Será que por trás de Joaquim sempre esteve Quincas, sob as amarras das convenções sociais? Enquanto Jorge Amado transporta o leitor para a Bahia, o autor traça um interessante contraste entre a vida das aparências e a vida boêmia, descompromissada, e das verdadeiras relações de amizade. ⁣

Um ótimo livro, bem-humorado, de leitura rápida e que confirma a capacidade de Jorge Amado de incluir uma crítica social de forma natural no desenvolvimento de suas narrativas. Para quem nunca se aventurou pelas obras de Jorge Amado, essa pode ser uma boa porta de entrada! Divirtam-se!

Amada, de Toni Morrison | Resenha

Não há dúvidas que algumas leituras exigem mais do leitor. Às vezes, começamos uma obra e, mesmo depois de várias páginas, ainda sentimos dificuldades para compreender por onde a autora está nos conduzindo. Mas o que fazer nessas horas? Desistir? Percebi que “Amada” foi uma leitura desafiadora para vários seguidores, que logo vinham me pedir dicas para não precisar abandonar o livro. ⁣

E a primeira dica que costumo dar é: leia a sinopse do livro. Assim, você já consegue se ambientar mais na história, apesar das lacunas deixadas pela autora. Uma outra coisa que ajuda é ler os textos de apoio e resenhas escritas por outros leitores, que podem ter dicas mais específicas para aquela leitura. ⁣

No caso de “Amada”, a dificuldade inicial se dá principalmente pela mistura que a autora norte-americana faz entre o momento presente e as lembranças dos personagens. Ao iniciar a obra com esse aviso, a gente já presta mais atenção nessas mudanças bruscas dos momentos da narrativa. E essa dificuldade também vai melhorando ao longo da obra…⁣

Toda essa introdução serviu para encorajar você, leitor, a começar ou prosseguir com essa leitura incrível. “Amada” é a obra-prima de Morrison, primeira escritora negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1993. A obra narra uma forte e sensível história de escravidão e racismo no século XIX. Sethe, uma mulher escravizada que fugiu da fazenda em que era obrigada a trabalhar, agora vive com sua filha em uma casa assombrada por um fantasma. O passado de Sethe é angustiante e muito sofrido. E esse fantasma nada mais é do que um resquício das tristezas vividas pela personagem. ⁣

Paul D, um ex-escravizado que vivia na mesma fazenda que Sethe, surge repentinamente na casa em que vivem mãe e filha. A partir disso, mudanças começam a acontecer na vida dos personagens, o que é agravado com a chegada de uma nova garota na vida dessa família: Amada. A personagem chega para remexer nos fantasmas que habitam em Sether, Denver e Paul D.⁣

Um livro forte e marcante. Apesar das dificuldades iniciais, a leitura depois flui muito bem e a escrita de Morrison consegue mexer com os sentimentos do leitor.