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#DesafioBookster2020 | Junho

Mês: Junho
Gênero: Livro reportagem
Livro escolhido: “As bruxas da noite”, de Ritanna Armeni

Quando comecei a fazer a pesquisa sobre livros reportagem escritos por autoras, tive uma grande surpresa ao me deparar com uma quantidade boa de excelentes opções. Inclusive, quando o assunto é mulheres no gênero da reportagem, temos uma vencedora recente do Prêmio Nobel de Literatura, Svetlana Aleksiévitsch, que tem vários livros publicados no Brasil (alguns com resenha aqui). Nesse cenário de ótimas alternativas, confesso que foi difícil escolher uma delas e acabei optando por um livro menos “falado” aqui no Brasil (talvez por ter sido publicado recentemente) e de uma editora que eu até então não conhecia, a @editoraseoman. Também fiquei animado com as resenhas no sentido de não ser um livro muito “informacional”, cheio de dados e datas (não faz tanto meu estilo).

A premissa de “As bruxas da noite” é muito interessante: trazer ao público a história pouco conhecida das mulheres soviéticas que pilotaram aviões de guerra pelo exército de seu país durante a Segunda Guerra Mundial. A atuação dessas aviadoras era tão intensa que os nazistas passaram a chamá-las de “bruxas da noite”. Ritanna Armeni é uma premiada jornalista e escritora italiana, que buscou relatos para revelar “informações sobre a criação, a luta e as vitórias dessas mulheres que foram apagadas da história após o declínio de suas carreiras como aviadoras devido ao conservadorismo e preconceito do Estado Soviético”. É uma forma de ter acesso a momentos da história que acabaram sendo ignorados pelo “filtro” seletivo dos anos.

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “Holocausto brasileiro”, de Daniela Arbex; “As boas mulheres da China”, de Xinran; “Ela disse”, de Jodi Cantor e Megan Tawohey; “Presos que menstruam”, de Nana Queiroz; e “Vozes de Tchernóbil”, de Svetlana Aleksiévitsch.

Kindred: Laços de sangue, de Octavia Butler | Resenha

Em um gênero literário predominantemente masculino e branco, a norte-americana Octavia Butler foi a primeira mulher – e negra – a ganhar notoriedade na publicação de livros de ficção científica e fantasia. Nascida no final da década de 40, em um período de forte segregação racial nos EUA, Butler consegue, se valendo de sua própria vivência, fazer uma mistura muito interessante entre bons enredos e temáticas de extrema relevância social.

Em “Kindred”, a protagonista, Dana, é uma escritora negra, que vive na Califórnia da década de 70. No dia em que completou 26 anos, um incidente inexplicável acontece com ela: Dana sente uma tontura e no mesmo instante acorda em uma cidade no sul dos EUA. Se a mudança geográfica já seria o suficiente para causar espanto, a protagonista descobre que também viveu uma viagem no tempo. Isso mesmo, Dana volta para o século XIX, pré-guerra civil, em que a escravidão ainda era uma triste realidade nas fazendas sulistas.

É um verdadeiro choque de realidades. Dana, uma escritora que vivia em um estado de total liberdade, se vê em uma situação de extremo perigo. Mais que isso: sua liberdade não mais lhe pertence e a sua educação é vista como uma ameaça ao cruel sistema de escravidão. E o que mais me chocou é como a luta pela sobrevivência fez com que a personagem passasse a “aceitar” essa nova realidade em que estava vivendo. “Está vendo como as pessoas são escravizadas com facilidade?”, questiona a narradora quando percebe ter se submetido à crueldade dos brancos.

A escrita de Butler é simples e “page-turner”, daquelas que nos faz querer continuar. Confesso que no início do livro não me empolguei tanto com a história, pois fiquei com a impressão de estar lendo um livro juvenil, previsível (e isso talvez tenha influenciado na nota). Mas aos poucos, senti que a autora foi se aprofundando mais nos conflitos internos dos personagens e nas temáticas relevantes abordadas ao longo da narrativa. É um livro que prende a nossa atenção e que ganhou o coração de vários dos Booksters que se juntaram a mim no #DesafioBookster2020!

O quinze, de Rachel de Queiroz | Resenha

Com apenas 19 anos, a autora cearense publicou um dos principais clássicos sobre a nossa cultura brasileira: um retrato humano do sertão nordestino, da vida difícil do sertanejo, que faz de tudo para tentar sobreviver diante de tanta miséria e dificuldades ambientais. Mas, além disso, “O quinze” ficou marcado na historia por ter sido publicado por uma mulher durante a década de 30, explorando temas de relevância social e retratando personagens femininas que fogem do estereótipo esperado naquela época.

Apesar de ter nascido em uma família de intelectuais e em boas condições financeiras, Rachel de Queiroz conhecia a tradição local, cresceu ouvindo sobre a seca e sobre as dificuldades de muitos dos seus conterrâneos. É por isso que consegue nos transmitir essa realidade de forma tão tocante. Carregada de regionalismo, a autora faz uma denuncia sobre a miséria, a desigualdade e a indiferença dos abastados e dos políticos frente à pobreza do povo.

O período retratado em “O quinze” é a seca que assolou o Ceará em 1915 (daí a razão do título). O personagem principal é Chico Bento e sua família, um grupo de retirantes que carregam o pouco – ou quase nada – do que tinham para fugir e da seca. Atravessam a pé a terra sedenta em busca de salvação no litoral nordestino. O outro núcleo da narrativa é conduzido por Conceição, uma jovem que vive com a avó e que, nascida em melhores condições, consegue fugir de trem da pequena cidade de Logradouro. Nesse cenário, já fica claro que a seca atinge o povo de forma desigual.

A escrita é carregada de oralidade e regionalismos, mas com uma linguagem mais simples, diferente do que Euclides da Cunha usa em “Os sertões”, por exemplo. Gostei muito da forma humana que um ambiente tão brasileiro é construído. Não dá para não sentir uma identidade com “Vidas secas”, um livro que me marcou demais na juventude. E, inclusive, Graciliano Ramos pode ter se inspirado em “O quinze” para escrever uma das suas grandes obras. “O quinze” deve sempre ser lembrado, celebrado e aproveitado por nós, leitores.

Caderno de um ausente (Livro 1 da Trilogia do Adeus), de João Anzanello Carrascoza | Resenha

Começo essa resenha com a tranquilidade de pode dizer que esse livro todo mundo merece ler! E merece porque é um livro tão bonito e tão sensível, que a gente termina se sentindo bem. As palavras de Carrascoza me abraçaram e me despertaram a vontade de conhecer mais do trabalho do autor.

Em “Caderno de um ausente”, publicado pela Companhia das Letras dentro de uma trilogia (Trilogia do Adeus), encontramos um caderno de anotações de um pai para uma filha, que acaba de nascer. A ideia de escrevê-lo surgiu por um medo desse pai: o medo de não ser lembrado. Bia nasce quando seu pai já é mais velho, mais próximo do fim da vida do que do seu começo. Por isso, teme não poder acompanhar toda a trajetória da filha, o seu crescimento e suas descobertas. E é por meio de memórias escritas que tenta ocupar esse espaço que tanto quer evitar. O espaço da ausência que não tem volta.

E, ao contrário do que se poderia esperar, as mensagens do pai não são ilusórias, não tentam falar apenas de momentos felizes e de uma história sem tropeços. Bia receberá um texto real, humano e, às vezes, duro. Mas não é isso que podemos esperar do que vem pela frente?

A escrita carregada de poesia, que nos permite classificá-la como uma “prosa poética”, me lembrou bastante o estilo de Valter Hugo Mãe. Leiam, mas leiam devagar, curtindo a beleza desse texto! O livro foi ganhador do prêmio Jabuti de 2015.

“Vais descobrir por ti mesma que este é um mundo de expiação, embora haja ocasionalmente umas alegrias, não há como negar – as verdadeiras vêm travestidas, é preciso abrir os olhos dos teus olhos para percebê-las.”

“[…]tu descobrirás, filha, que sonhar nos salva da rotina, mas, também, nos desliga da única coisa que nos mantém em vigília: o muro concreto do presente[…]”

#DesafioBookster2020 | Maio

Mês: Maio
Gênero: Livro censurado
Livro escolhido: “Amada”, de Toni Morrison

Quando a gente fala de censura, normalmente pensa em regimes ditatoriais pelo mundo, períodos de inquisições ou na ditadura militar que marcou a história do nosso país. Mas a verdade é que a liberdade de expressão ainda é a todo momento desafiada, por meio de comportamentos aparentemente isolados, mas que representam um reflexo de parte da sociedade que deseja sufocar a discussão de temáticas relevantes e legítimas.

A autora do livro escolhido é considerada uma das principais escritoras norte-americanas e foi a primeira escritora negra a receber o Prêmio Novel de Literatura (1993). Apesar de ter sido publicado em 1986, isto é, em um período recente, vem sendo vítima de diversas tentativas – algumas bem-sucedidas – de censura, sobretudo por escolas e bibliotecas. A obra narra uma forte e sensível história de escravidão e racismo no século XIX, mas que acaba sendo ilegalmente atacada por seu conteúdo violento e com conotação sexual.

Inclusive, foi elaborado um projeto de lei – denominado “Beloved Bill”, em referência ao título do livro no idioma original – que pretendia autorizar os pais de estudantes a vetar a leitura de certos livros. Felizmente, esse projeto foi vetado em 2016. Ainda assim, o livro figura quase no topo da lista das 100 obras mais banidas nos EUA na última década (American Library Association).

Na minha opinião, a tentativa de barrar a leitura da obra só evidencia a importância de manter vivo um trabalho de extrema relevância como esse e que foi considerado pelo New York Times como o melhor livro de ficção norte-americano dos últimos 25 anos.

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, de Maya Angelou; “Cisnes Selvagens”, de Jung Chang; “Harry Potter”, de J. K. Rowling; e “A casa dos espíritos”, de Isabel Allende. •

Prisioneiras, de Dráuzio Varella | Resenha

Tem alguns livros que considero como essenciais para alguém que vive em uma sociedade. E isso porque nos mostram o que está por trás de muitos problemas políticos e sociais, desmitificando aquele “senso comum desinformado” que ouvimos repetidas vezes. E “Prisioneiras” se encaixa nesse grupo!

Sou fã do Dráuzio pelo seu trabalho com e para o outro. E agora virei fã também de seu trabalho como escritor. A sua experiência com o ser humano é gigante. Apenas em penitenciárias, Dráuzio vem atuando desde 1989, quando começou no já extinto Carandiru. E em meio a tantas consultas, em que o autor não se limita a escutar as queixas físicas dos pacientes, Dráuzio se deparou com uma diversidade emocionante de histórias.

Em “Prisioneiras”, conhecemos um pouco das histórias do tempo em que o autor trabalhou em uma penitenciária exclusivamente feminina. E não são apenas relatos individuais de pacientes a que temos acesso, mas também há uma série de problemas e angústias que se repetem na vida de inúmeras das detentas. Dráuzio passa pelo problema do abandono da família e dos companheiros (quando, por outro lado, as mulheres passam anos visitando seus companheiros e filhos presos), pela origem da criminalidade da maior parte das detentas, pela complexa questão da sexualidade que rege as relações entre as mulheres nos presídios, pelas facções criminosas que comandam o dia a dia das mulheres encarceradas, e por aí vai…

Por isso, a leitura dessa obra nos mostra uma visão particular e pouco abordada do sistema penitenciário brasileiro e que nós, como cidadãos, devemos conhecê-la. A compaixão por quem está lá, independentemente do que tenha feito, é gigante pelos olhos de Dráuzio e, se um pouco disso conseguir ser transportado por meio do livro, já é um ganho inestimável para nós, leitores. Não há julgamentos morais, há a oportunidade de escutar, compreender e respeitar o outro.

Esse é o terceiro livro da trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro. Comecei por ele e não acho que seja necessário ler em alguma ordem. Mas terminei a leitura com muita vontade de ler a trilogia completa.

Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias, de Philip Gourevitch | Resenha

Como é possível sabermos tão pouco sobre um dos episódios recentes mais tristes da humanidade? Por que não aprendemos na escola a história de um genocídio que, em 1994, exterminou mais de um milhão de pessoas em apenas 100 dias em Ruanda por conta de diferenças étnicas? Talvez o que acontece em um pequeno país no meio do continente africano possa não interessar muito aos meios de comunicação do ponto de vista político ou econômico… mas, independentemente disso, a gente pode corrigir esse filtro seletivo das informações que chegam até nós durante a juventude.

A história é, sim, extremamente triste. É visceral. Mas como seres humanos nós precisamos conhecer a nossa história, saber do que – infelizmente – somos capazes, até mesmo para evitar novos episódios como esse. Temos que saber que uma política discriminatória aparentemente inofensiva pode levar a um massacre coletivo, coisa de filme de terror. E é isso que o trabalho do jornalista norte-americano Philip Gourevitch, que passou três anos pesquisando sobre a tragédia, traz ao leitor. É um verdadeiro mergulho na história do país, percorrendo todo o período que antecedeu o genocídio, os próprios meses dos assassinatos em massa e os momentos seguintes ao acontecimento que deixou uma marca eterna nos cidadãos daquele país. São relatos com vítimas diretas de ataques, assassinos e pessoas ligadas ao governo.

A escrita é envolvente, mas Gourevitch não se importa em revelar detalhes assustadores do que aconteceu em Ruanda. É um livro que causa extremo desconforto no leitor, mas que é fruto de uma pesquisa profunda da mentalidade do povo ruandês. A obra é extensa e, por isso, recomendo que você alterne com um livro de ficção mais tranquilo, o que pode evitar que a leitura se torne um pouco repetitiva e cansativa. Li o livro antes da minha viagem para Ruanda e, com toda certeza, a leitura enriqueceu muito minha experiência na viagem! O país é incrível, assim como o seu povo, que conseguiu aprender com a tragédia e se transformar em uma referência de desenvolvimento para os países africanos.