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Intermitências da morte, José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu”. Essa é a frase de abertura do livro, que tem como personagem principal a morte (com letra minúscula, registre-se!). Cansada de ser vista como algo (ou alguém) indesejado por nós, seres humanos, a morte de um determinado país – sim, porque existem várias mortes – decide interromper suas atividades para deixar clara a importância que recai sobre sua função. De um dia para o outro, portanto, NINGUÉM mais morreu.

E quais serão as consequências dessa atitude vaidosa da morte? É justamente esse o enredo de mais uma obra excepcional de Saramago, que passa a discorrer sobre os prejuízos causados aos empresários dos serviços funerários, a superlotação dos hospitais, a perda da função da igreja, o contrabando de pessoas em busca da morte em outros países e por aí vai… O autor ainda consegue humanizar a morte, transformando essa figura em alguém que sente, que pensa e que tem suas próprias dúvidas existenciais!

É um livro muito bem escrito, com parágrafos longos e com pouca pontuação, características de Saramago. Achei que no meio da obra, o autor acabou deixando a leitura um pouco prolixa e arrastada, o que foi logo “corrigido” por uma reviravolta. E, apesar de tratar de um assunto tão polêmico, o autor recorre constantemente ao humor, à ironia e à crítica social. Termino esse livro com ainda mais convicção da genialidade do autor e com ainda mais vontade de conhecer outras obras.

Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes.” (p. 145)

 

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#DesafioBookster2018 – Maio

– Mês: Maio

– Categoria: Livro publicado na década de 1940

– Livro escolhido: As brasas, Sándor Márai (1942)

 

Para quem ainda não conhece, o Desafio Book.ster 2018 foi lançado com o objetivo de conhecer, seguindo uma ordem temporal, obras clássicas publicadas no século XX. A ideia é simples: 12 livros, 12 décadas. E se você ainda não começou, ainda dá tempo! É só começar a partir desse mês!
Antes de começar o mês, venho aqui apresentar o livro escolhido, assim como algumas sugestões para quem ainda não montou sua lista!

O livro escolhido para o mês de maio é um clássico que já está há um tempo na minha prateleira, mas sempre deixava para “uma próxima” – apesar de sempre ler boas recomendações. Sándor Márai é um autor húngaro e escreveu As brasas em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, isto é, quando seu país sofria pelas destruições das batalhas travadas entre Alemanha e União Soviética. No entanto, a despeito desse momento conturbado, o escritor conseguiu construir uma renomada obra sobre amizade. A narrativa tem como pano de fundo a história de dois amigos que não se vêem há 41 anos – já que um dia, em 1899, um deles desapareceu – e se reencontram em um castelo na Hungria. Sándor encontrou bastante dificuldade de publicar suas obras em seu país e, em 1948, foi exilado para os Estados Unidos até 1989, quando se suicidou.

Além de As Brasas, indico os seguintes livros publicados na década de 1940: O estrangeiro, Albert Camus (1942); As irmãs Makioka, Junchiru Tanizaki (1943); Perto do coração selvagem, Clarice Lispector (1943); Ficções, Jorge Luis Borges (1944); O fio da navalha, William Somerset Maugham (1944); A revolução dos bichos, George Orwell (1945); e Sagarana, João Guimarães Rosa (1946).

E você, já escolheu sua leitura de maio?

 

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Orlando: uma biografia, Virginia Woolf

A sinopse da obra já chama muito a atenção do leitor: uma biografia ficcional de um indivíduo que vive por cerca de 300 anos (séc. XVI-XX), mas envelhece pouco mais de 30. E mais que isso, durante esse longo período, o protagonista passa de um jovem membro da aristocracia elisabetana a uma mulher moderna do século XX. Em um dia, quando Orlando tinha 30 anos, dormiu durante uma semana e acordou mulher. É um livro que aborda as transformações do indivíduo visto como um ser humano, independente de questões envolvendo as diferenças de sexo ou gênero. Um dos pontos mais interessantes na obra é a contradição de sentimentos entre os vários Orlandos – que na verdade é um só – que vão sendo apresentados. Quando Orlando ainda era um homem, tinha uma visão bem machista, principalmente em relação ao papel da mulher na sociedade. No entanto, já na pele de uma jovem mulher, acaba questionando muitos das opiniões que tinha. Para uma obra escrita na década de 1920, já é possível imaginar a coragem da autora – que ainda por cima era mulher – para abordar temas tão polêmicos. E, para melhorar, a escrita de Woolf é muito boa, ela realmente dominava essa arte.

Também gostei muito de como a autora brinca com o ofício de escrever uma biografia. Isso porque, o narrador – no caso o biógrafo fictício, cujo nome também é Orlando – dialoga em diversos momentos com o leitor sobre os passos de escrever uma biografia, sempre com toques de ironia e humor.

Ou seja, é um livro genial… muito diferente, interessante e extremamente bem escrito, mas que demanda uma maior atenção e paciência do leitor (não se desanime se no começo você achar que não está entendendo tudo… aos poucos se acostuma). Recomendo muito!

Dica: Leia os textos de apoio que vêm nas edições. Indico muito essa edição da @autêntica, já que ela possui ótimo prefácio, imagens originais notas e um sumário no final do livro que ajuda muito a se ambientar no “tempo” criado pela autora.

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A história do homem, Edmac Trigueiro

O autor consegue cumprir o que propõe em suas obras: apresentar assuntos complexos e extremamente científicos de uma forma acessível e interessante para o leitor leigo. Com uma narrativa bem fluida, o autor traça um paralelo entre respostas científicas relacionadas à criação do universo e à evolução dos seres vivos, com os principais questionamentos do ser humano. Como surgiu a vida da forma que conhecemos hoje? E para tratar desses assuntos complexos, o autor acaba trazendo exemplos do nosso dia a dia e de sua própria experiência pessoal.

Além disso, o trabalho do Edmac é uma grande contribuição para a literatura nacional e que deve ser valorizada! Para quem gostou de Sapiens, por exemplo, pode ser uma ótima opção de leitura! O livro é curto, cerca de 200 páginas, mas em nenhum momento chega a ser superficial. Na verdade, até achei que a parte final do livro – quando o autor passa a analisar a evolução do homem, desde o ancestral comum com os chimpanzés, até a espécie contemporânea – acabou ficando um pouco densa, com muitos detalhes científicos. Mas no conjunto, é uma ótima leitura… Traz conhecimentos básicos sobre a nossa origem e que, na minha opinião, deveriam ser de conhecimento de todos.

 

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Reflexão

E aí, quantos livros você já leu esse ano? Uma das mensagens que mais recebo aqui no instagram é de pessoas insatisfeitas com a quantidade de livros lidos. Quando termino um livro e coloco qual o “número” do livro no ano, as pessoas já vem desesperadas dizer que não leram nem um terço disso e querendo saber de dicas para ler mais rápido.
Mas, como eu sempre digo, não importa quantidade de livros lidos, mas a regularidade da sua leitura. Até porque, o número de livros lido não consegue medir nada em termos de “desempenho de leitura”. Veja a foto acima: três pilhas de livros, com uma quantidade total de páginas similar. Em uma delas, temos 10 livros, na outra 5 e na última “apenas” 2. Ou seja, eu posso muito bem ler todos os livros da primeira pilha e vir me gabar sobre a quantidade de livros que já li! E se perguntarem para a pessoa que leu os calhamaços da direita quanto livros ela já leu no ano, ela responderia: apenas 2. Mas só 2??? Vou te dar “Montanha Mágica” ou “Graça infinita” então para você ler! hahaha ?? (para quem não sabe, são dois calhamaços conhecidos por serem BEM difíceis!) Brincadeiras à parte, esse post é para que você para de se sentir pressionado se você leu poucos livros ou se a pessoa que você segue no instagram, por exemplo, já leu 20 livros em 4 meses. E isso não quer dizer que agora todo mundo deve começar a contabilizar as páginas lidas, ao invés do número de livros. Pelo contrário, sem contabilizações. A leitura não é para ser uma competição: cada um tem o seu ritmo e o seu tempo. Lógico que se, assim como eu, você gosta de contabilizar as leituras por uma questão de organização, sem problemas algum! Mas não deixe isso influenciar a ideia de que você é um melhor leitor que o outro!

Por isso, sugiro substituir a pergunta do “quantos livros você já leu esse ano?” para: E aí, você já leu hoje? ?? #bookster #literatura #livros #bookstagram

Gente pobre, Fiódor Dostoiévski

Na verdade, essa ideia é totalmente falsa e vou tratar mais especificamente sobre literatura russa em um post específico. É que antes de começar essa resenha, só queria deixar bem claro que a literatura russa é sim acessível e muito atual, o que fica evidente com a leitura dessa obra.

“Gente pobre” foi o primeiro romance de Dostoiévski e, já na época da publicação, foi responsável por trazer grande notoriedade ao autor. O romance é escrito em forma epistolar, isto é, por meio de cartas trocadas entre Makar Diévuchkin, um funcionário público já em sua velhice, e sua vizinha Varvara, uma jovem orfã. E ao longo da cartas, o que une os personagens é a pobreza, a pobreza no seu sentido material: é a falta de dinheiro para comprar comida, para comprar roupas decentes, isto é, para ter uma vida digna. E é justamente por meio de suas cartas que os personagens compartilham suas privações, como se recorressem um ao outro e a valores ricos – como a amizade e o cuidado pelo próximo – para conseguir sobreviver a essa falta material.

Apesar de ser seu romance de estreia, a obra já revela a genialidade do autor que, com apenas 25 anos (!!), consegue se aprofundar no íntimo do ser humano, de maneira extremamente sensível. Como já disse outras vezes, romance epistolar não é um gênero que me agrada tanto, pois muitas vezes se torna cansativo. Assim, no caso de Gente pobre, até por ser um livro denso, sugiro uma leitura mais lenta, feita aos poucos. Lido para o incrível projeto da @isavichi !

“(…) uma pessoa pobre é pior que um trapo e não é digna de nenhum respeito da parte de ninguém, seja lá o que for que escrevam.”

Dica: em uma parte do livro, os personagens fazem bastante referência ao conto “O Capote”, de Gogól. Por isso, para quem se interessar, indico a leitura do conto – que, por sina, é excelente – antes de iniciar o livro.

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Canção de ninar, Leïla Slimani

Comecei a ler Canção de ninar já com esse receio, mas com a expectativa de ser um daqueles suspenses que prendem muito a atenção. Logo na primeira página, o leitor já recebe aquele soco no estômago. Duas crianças são brutalmente assasinadas por sua babá e os pais não conseguem compreender o motivo para esse crime cruel.

No entanto, a partir das próximas páginas, confesso que o ritmo desandou. Não dá para negar que o livro prende a atenção do leitor, só que, na minha opinião, a história não passa de um bom suspense, com uma história intrigante. Mas não é aí que o livro se sobressai e, muito menos, que tenha levado à autora a vencer o Goncourt, principal prêmio literário da literatura francesa. Na verdade, o que tira Canção de ninar da mera categoria de um “bom suspense” é a crítica social, com um toque de ironia, que permeia a narrativa e que foi muito bem abordada pela jovem escritora franco-marroquina. É o conflito interno de uma mãe que não quer abrir mão de sua carreira profissional e que recorre a ajuda de uma babá, mas que sofre todos os dias com o estigma da mãe ausente. É a visão de um pai que enxerga na mulher a obrigação de cuidar da casa e dos filhos. É o preconceito da família de classe média com os imigrantes que vêm de países pobres para exercer aquelas funções vistas como “menos dignas”. É a falta de importância dos sentimentos e dos problemas de uma babá, que deve se preocupar apenas em fazer um bom trabalho.

Ou seja, o livro não é puro hype! Recomendo a leitura, mas não como uma indicação de um ótimo suspense – já que, nesse ponto, ele não é fora da curva – e sim como uma obra que consegue ser instigante e, ao mesmo tempo, tecer uma boa crítica social, abordando temas extremamente atuais. A escrita é simples e muito rápida, um livro para ser lido em poucos dias.

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