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Laços, Domenico Starnone

Laços é uma obra sobre relações conturbadas, traição e a desmitificação da família perfeita. Vanda e Aldo, casados há mais de cinco décadas, ainda sofrem com um episódio de infidelidade que marcou sua relação. Esse assunto é rememorado quando o casal, ao voltar de uma viagem de férias, encontra o apartamento em que vivem completamente revirado. Na organização de cartas e fotos, as lembranças vêm a tona e, com isso, o leitor passa a conhecer a época de crise vivida pelo casal a partir da versão de cada um: Vanda, no papel de traída e que sofre com a sensação de abandono, e Aldo, que simplesmente foi embora…

Apesar da banalidade do assunto abordado pelo autor, essa não é uma resenha fácil de ser feita. É difícil expor a alguém que não leu a obra o que um livro com um assunto de certa forma “clichê” pode trazer de tão bom. Para mim, o sucesso desse romance italiano está na humanização dos personagens e na realidade com que seus sentimentos são apresentados. A leitura é bem rápida e instigante, com diálogos fortes e muito bem construídos. Gostei muito do significado por trás do título da obra, que vai muito além da simples ideia de laço emocional e é destrinchado pelo autor ao longo da narrativa. O final também é excelente!

Há boatos de que Starnone seria o marido da autora por trás do pseudônimo Elenta Ferrante, ou até mesmo que Starnone seria o verdadeiro autor de suas obra, e que Laços seria uma resposta a uma das obras de sucesso de Ferrante, “Dias de abandono”. Além disso, os leitores enxergam uma nítida semelhança entre as obras dos dois – ou um só! – autores. Não sei se é verdade e também nunca li nada de Elena Ferrante, mas se essa semelhança entre as obras de fato existir, fica fácil de compreender os motivos do sucesso que os romances da autora italiana vêm fazendo.

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“Em toda casa há uma ordem aparente e uma desordem real.”

 

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Augustus, John Williams

O autor busca recontar a história de Augusto, fundador do Império Romano, a partir de cartas e fragmentos de diários que, embora com conteúdo fictício, tem autoria de personagens históricos reais. Já falei diversas vezes aqui como eu gosto de romance histórico, principalmente quando envolve períodos mais antigos. No entanto, o que diferencia esse livro dos demais é justamente a estrutura sobre a qual foi construído. O autor soube usar muito bem a troca de correspondências entre os personagens para contar uma história tão rica, como a de Augusto, e repleta de intrigas políticas, sociais e familiares.
A autoria dessas correspondências varia muito, passando pelo próprio Augusto e pessoas próximas do Imperador a cidadãos comuns e escravos. Assim, o leitor consegue perceber a diferença entre as opiniões que cada pessoa tinha sobre o Imperador, a depender de sua posição social ou interesse político. É a construção de um personagem histórico a partir de diversos pontos de vista .
Também gostei muito da forma com que Augustus, em alguns momentos, é apresentado como um ser humano qualquer. Ou seja, a despeito de se tratar da história de um Imperador – que, naquela época, era comparado a um deus -, o autor consegue mostrar que Augusto tinha fraquezas, dúvidas e anseios. Li esse livro no original no final do ano passado, mas como fiquei sabendo que a @radio.londres ia publicar a edição no Brasil só em 2018, resolvi esperar para postar a resenha. Recomendo muito! .
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. “Estou convencido de que, na vida de todo homem, cedo ou tarde, chega o momento em que ele toma consciência, mais claramente que nunca, e independentemente do que ele consegue admitir, da terrível realidade da sua condição; do fato que ele está sozinho, e separado dos outros; e que ele apenas pode ser a miserável criatura que ele é.”

 

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Livro físico ou eReader?

Livro físico ou eReader? É bem comum receber perguntas sobre os eReaders, se vale a pena o investimento e se é fácil de se acostumar! Eu tenho um eReader há um certo tempo, mas confesso que não consigo me desapegar do livro físico (na verdade, quase não uso meu Kindle). Digo desapegar porque, na minha opinião, os eReaders têm de fato mais “vantagens” e são uma excelente alternativa para quem tem o hábito de ler. São mais leves (acho que a foto acima deixa isso bem claro), mais práticos de levar para qualquer lugar, costumam ter uma bateria que dura bastante, possuem dicionários embutidos e, normalmente, os livros digitais são mais baratos. Mas então, por que eu continuo com os livros físicos? Acho que não é uma decisão muito racional… É meio clichê falar, mas eu gosto de ter o livro comigo, sentir o progresso da leitura com o avançar das páginas. Gosto de poder entrar em uma livraria, folhar os livros e sair com um novo comigo. Gosto de terminar um livro, colocar de volta na estante e, em seguida, ficar procurando a próxima leitura (até porque meu quarto está quase virando uma livraria, kkkk).

Além disso, apesar de também ser possível marcar as partes que eu mais gosto no livro digital, prefiro colocar os meus  post-its e  – mesmo que eu nunca volte para ler o trecho marcado – poder ver que eles estão lá! Às vezes, quando terminava um ebook, ficava com a sensação que eu não tinha de fato lido o livro ou que, por não tê-lo fisicamente, iria esquecer em breve! Acho que são manias, mas tenho certeza de que não sou o único. Pelos perfis que sigo aqui no Instagram, percebo que tem muita gente que ainda não conseguiu mudar para o eReader. Para mim, não é nem questão de conseguir, eu simplesmente não quero deixar de ler os livros físicos, mas não ignoro a possibilidade de essa minha opinião mudar mais para frente.

Então, quando me perguntam se eu recomendo comprar um eReader, a resposta é sempre positiva! Acho que têm muitos aspectos positivos e se você não liga tanto para essas manias, a escolha fica ainda mais fácil. Já em relação ao modelo do eReader, os mais famosos são o Kindle, Kobo e Lev. Na época em que comprei meu primeiro Kindle, dei uma boa pesquisada e cheguei à conclusão de que ele era de fato o melhor – apesar de ser o mais caro. Mas também nunca tive nenhum dos outros para poder confirmar essa afirmação.

E vocês?

O sol na cabeça, Geovani Martins

Quando comecei a ler o livro, já estava ciente do hype que a mídia vinha criando sobre ele, até por trazer uma temática de representatividade muito relevante no momento atual. Então, como alguns hypes costumam decepcionar, fui sem muitas expectativas… Logo no começo, o leitor já se depara com uma escrita original, que foge daquele português padrão que estamos acostumados a encontrar. Geovani usa e abusa da oralidade, se valendo de gírias e palavrões, sem se preocupar com regras gramaticais padrão. E, na minha opinião, esse foi um dos pontos altos da obra, dando um ritmo inovador à leitura.
No entanto, as histórias em si não me cativaram. Apesar de abordar temas necessários, como a marginalização dos mais pobres, a violência nas favelas e a presença constante das drogas na vida desses jovens, encontrei ao longo da leitura contos superficiais e histórias meio batidas, que não conseguiram me prender. Lógico que como em qualquer coletânea, há aqueles contos que você gosta mais e outros que você gosta menos. No caso, embora não tenham chegado a me surpreender, os meus contos preferidos foram “Rolézim” e “Espiral”, uma vez que eles conseguem fazer uma incursão com o leitor no quotidiano das favelas – algo que eu esperava encontrar nos demais contos. Mas é possível perceber o grande potencial do autor e, por ser um livro de estreia, ainda tem muita coisa boa por vir! Sem falar do quanto precisamos desse tipo de literatura de representatividade em nosso país! Obrigado @companhiadasletras pelo envio do livro!
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“É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.” (Espiral)

 

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O voo da guará vermelha, Maria Valéria Rezende

10 Maria Valéria Rezende, brasileira, já ganhou diversos prêmios literários e possui várias obras publicadas. Primeiro escolhi a autora e, só depois, fui decidir o livro. O voo da guará vermelha me ganhou pela sinopse: a relação improvável entre pessoas com pouco em comum. Irene, prostituta e soropositiva. Rosálio, pedreiro e analfabeto. E é no meio de um cenário de poucas esperanças que o afeto entre duas pessoas – aparentemente muito diferentes – se revela uma possível salvação para cada um. Quando Irene conhece Rosálio, enxerga nele um possível cliente. Mas, na verdade, Rosálio passa a frequentar o quarto de Irene não para satisfazer as suas vontades sexuais, mas sim para preencher o vazio, a solidão de cada um. Rosálio, sem saber ler ou escrever, se descobre um excelente contador de histórias. Nesses momentos do livro, o leitor vai conhecendo um pouco da – triste e batalhadora – trajetória de vida do personagem. E Irene, que se compadece e, ao mesmo tempo nutre um sentimento – talvez amor? – por Rosálio, passa a escrever essas histórias em um velho caderno. Gostei muito do trabalho da autora que, a partir de um cotidiano simples e triste, conseguiu mostra uma faceta do belo, se valendo de uma escrita sensível e sem floreios. Uma excelente contribuição para a leitura nacional! Vamos ler mais escritoras mulheres, vamos ler mais autores nacionais!

 

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Escolhas da vez!

Normalmente leio 4 livros ao mesmo tempo e costumo postar as escolhas aqui para vocês. No mês passado não mostrei os escolhidos, pois achava que esse tipo de não agradava tanto. Mas recebi algumas mensagens pedindo esse tipo de post, já que ajuda de alguma maneira com sugestões e na organização das leituras. Importante saber que quando eu digo que leio 4 ao mesmo tempo, isso não significa que leio os livros simultaneamente (na verdade, costumo ler no máximo 3 ao mesmo tempo). A ideia por trás dessa sistemática é começar a ler um livro depois de terminados os 4 escolhidos! Isso porque, como as escolhas são feitas com base em categorias pré-definidas, eu acabo me “forçando” a ler obras diferentes. Além disso, ler mais de um livro ao mesmo tempo ajuda muito no ritmo da leitura e evita que eu canse de determinada obra.
As minhas categorias podem ser assim resumidas: (i) um clássico; (ii) um livro curto (até 200 páginas); (iii) um autor contemporâneo; e (iv) um livro de não-ficção/contos/poemas.
Os escolhidos dessa vez são:

1 – Clássico: As brasas, Sándor Márai – Escolha de maio para o #desafiobookster2018 .
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2 – Livro até 200 páginas: O caso Meursault, Kamel Daoud – Esse é uma boa opção para quem já leu O estrangeiro, do Camus, e gostou do livro! A obra de Daoud vai recontar a história do ponto de vista do árabe assassinado por Meursault, o personagem principal do livro de Camus.

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3 – Autor contemporâneo: Laços, Domenico Starnone – Promete ser um romance sobre as crises e anseios por trás dos laços familiares. Há quem diga que essa obra seria uma resposta ao Dias de abandono, da Elena Ferrante, e que o Domenico Starnone é marido da famosa autora italiana. Ainda não li nada da Ferrante, mas como sei que muita gente gosta, essa informação pode interessar! Recebi da incrível @todavialivros.

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4 – Livro de contos: A teta racional, Giovana Madalosso – De acordo com a sinopse, os contos têm como temática comum “o feminismo no mundo contemporâneo” e são carregados de ironia e um bom humor ácido. Obra escrita por uma mulher, jovem e brasileira! Ainda mais um motivo para ser lido.

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E vocês, estão lendo o que?

Olhai os lírios do campo, Érico Veríssimo

Essa foi a obra que colocou Veríssimo em uma categoria de destaque na literatura nacional. De fato, o autor escreve muito bem e consegue, de uma forma sensível, cativa o leitor e envolvê-lo com os personagens. No entanto, confesso que essa não foi uma leitura que amei. É engraçado que ao escrever um prefácio a essa própria obra, 28 anos depois de sua publicação, o autor foi claro ao afirmar que “não tenho muita estima por este romance. Acho-o hoje um tanto falso e exageradamente sentimental”. E a verdade é que concordo um pouco com a opinião de Veríssimo sobre o próprio livro. A história tem como pano de fundo o romance entre Eugênio e Olívia e um conflito interno de Eugênio contra a sensação de inferioridade pela posição social em que nasceu.

Assim, Eugênio, um estudante de medicina, de origem humilde, decide se casar com uma jovem rica e ingressar na alta sociedade. E é justamente isso que vai ser abordado na primeira parte do livro: a trajetória de vida de Eugênio, desde sua formação como médico, sua origem familiar simples e suas angústias com as escolhas que precisa tomar. Vale a pena sacrificar os próprios valores pelo dinheiro e pelo sucesso? Será que esse novo status social é suficiente para suprir essa sensação de inferioridade?

Já a segunda parte me decepcionou um pouco e se distancia muito do que tinha lido até então. Ela é conduzida a partir das cartas deixadas por Olívia que, por sinal, é uma das personagens mais interessantes da obra. Só que nessa parte a leitura ficou bem mais arrastada e carregada de um sentimentalismo forçado a que o autor se refere em sua crítica ao próprio livro… As reflexões trazidas na primeira parte não são mais trazidas por Veríssimo, que passa a escrever uma simples “história de amor”.

De qualquer forma, gostei muito da leitura e sinto que foi uma porta de entrada para o trabalho de Veríssimo, me deixando animado para conhecer outras obras do autor.

“Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.”

 

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