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#DesafioBookster2020 | Maio

Mês: Maio
Gênero: Livro censurado
Livro escolhido: “Amada”, de Toni Morrison

Quando a gente fala de censura, normalmente pensa em regimes ditatoriais pelo mundo, períodos de inquisições ou na ditadura militar que marcou a história do nosso país. Mas a verdade é que a liberdade de expressão ainda é a todo momento desafiada, por meio de comportamentos aparentemente isolados, mas que representam um reflexo de parte da sociedade que deseja sufocar a discussão de temáticas relevantes e legítimas.

A autora do livro escolhido é considerada uma das principais escritoras norte-americanas e foi a primeira escritora negra a receber o Prêmio Novel de Literatura (1993). Apesar de ter sido publicado em 1986, isto é, em um período recente, vem sendo vítima de diversas tentativas – algumas bem-sucedidas – de censura, sobretudo por escolas e bibliotecas. A obra narra uma forte e sensível história de escravidão e racismo no século XIX, mas que acaba sendo ilegalmente atacada por seu conteúdo violento e com conotação sexual.

Inclusive, foi elaborado um projeto de lei – denominado “Beloved Bill”, em referência ao título do livro no idioma original – que pretendia autorizar os pais de estudantes a vetar a leitura de certos livros. Felizmente, esse projeto foi vetado em 2016. Ainda assim, o livro figura quase no topo da lista das 100 obras mais banidas nos EUA na última década (American Library Association).

Na minha opinião, a tentativa de barrar a leitura da obra só evidencia a importância de manter vivo um trabalho de extrema relevância como esse e que foi considerado pelo New York Times como o melhor livro de ficção norte-americano dos últimos 25 anos.

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, de Maya Angelou; “Cisnes Selvagens”, de Jung Chang; “Harry Potter”, de J. K. Rowling; e “A casa dos espíritos”, de Isabel Allende. •

Prisioneiras, de Dráuzio Varella | Resenha

Tem alguns livros que considero como essenciais para alguém que vive em uma sociedade. E isso porque nos mostram o que está por trás de muitos problemas políticos e sociais, desmitificando aquele “senso comum desinformado” que ouvimos repetidas vezes. E “Prisioneiras” se encaixa nesse grupo!

Sou fã do Dráuzio pelo seu trabalho com e para o outro. E agora virei fã também de seu trabalho como escritor. A sua experiência com o ser humano é gigante. Apenas em penitenciárias, Dráuzio vem atuando desde 1989, quando começou no já extinto Carandiru. E em meio a tantas consultas, em que o autor não se limita a escutar as queixas físicas dos pacientes, Dráuzio se deparou com uma diversidade emocionante de histórias.

Em “Prisioneiras”, conhecemos um pouco das histórias do tempo em que o autor trabalhou em uma penitenciária exclusivamente feminina. E não são apenas relatos individuais de pacientes a que temos acesso, mas também há uma série de problemas e angústias que se repetem na vida de inúmeras das detentas. Dráuzio passa pelo problema do abandono da família e dos companheiros (quando, por outro lado, as mulheres passam anos visitando seus companheiros e filhos presos), pela origem da criminalidade da maior parte das detentas, pela complexa questão da sexualidade que rege as relações entre as mulheres nos presídios, pelas facções criminosas que comandam o dia a dia das mulheres encarceradas, e por aí vai…

Por isso, a leitura dessa obra nos mostra uma visão particular e pouco abordada do sistema penitenciário brasileiro e que nós, como cidadãos, devemos conhecê-la. A compaixão por quem está lá, independentemente do que tenha feito, é gigante pelos olhos de Dráuzio e, se um pouco disso conseguir ser transportado por meio do livro, já é um ganho inestimável para nós, leitores. Não há julgamentos morais, há a oportunidade de escutar, compreender e respeitar o outro.

Esse é o terceiro livro da trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro. Comecei por ele e não acho que seja necessário ler em alguma ordem. Mas terminei a leitura com muita vontade de ler a trilogia completa.

Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias, de Philip Gourevitch | Resenha

Como é possível sabermos tão pouco sobre um dos episódios recentes mais tristes da humanidade? Por que não aprendemos na escola a história de um genocídio que, em 1994, exterminou mais de um milhão de pessoas em apenas 100 dias em Ruanda por conta de diferenças étnicas? Talvez o que acontece em um pequeno país no meio do continente africano possa não interessar muito aos meios de comunicação do ponto de vista político ou econômico… mas, independentemente disso, a gente pode corrigir esse filtro seletivo das informações que chegam até nós durante a juventude.

A história é, sim, extremamente triste. É visceral. Mas como seres humanos nós precisamos conhecer a nossa história, saber do que – infelizmente – somos capazes, até mesmo para evitar novos episódios como esse. Temos que saber que uma política discriminatória aparentemente inofensiva pode levar a um massacre coletivo, coisa de filme de terror. E é isso que o trabalho do jornalista norte-americano Philip Gourevitch, que passou três anos pesquisando sobre a tragédia, traz ao leitor. É um verdadeiro mergulho na história do país, percorrendo todo o período que antecedeu o genocídio, os próprios meses dos assassinatos em massa e os momentos seguintes ao acontecimento que deixou uma marca eterna nos cidadãos daquele país. São relatos com vítimas diretas de ataques, assassinos e pessoas ligadas ao governo.

A escrita é envolvente, mas Gourevitch não se importa em revelar detalhes assustadores do que aconteceu em Ruanda. É um livro que causa extremo desconforto no leitor, mas que é fruto de uma pesquisa profunda da mentalidade do povo ruandês. A obra é extensa e, por isso, recomendo que você alterne com um livro de ficção mais tranquilo, o que pode evitar que a leitura se torne um pouco repetitiva e cansativa. Li o livro antes da minha viagem para Ruanda e, com toda certeza, a leitura enriqueceu muito minha experiência na viagem! O país é incrível, assim como o seu povo, que conseguiu aprender com a tragédia e se transformar em uma referência de desenvolvimento para os países africanos.

#DesafioBookster2020 | Abril

Mês: Abril
Gênero: Fantasia
Livro escolhido: “Kindred”, de Octavia E. Butler

Não se assustem com o que está escrito na capa do livro escolhido: apesar de a autora ser conhecida por suas obras de ficção científica, “Kindred” está muito mais para o gênero da Fantasia. Mas o que diferencia os dois? Enquanto ficção científica lida com temas relacionados ao futuro, ciência e tecnologia, a fantasia está ligada a fenômenos sobrenaturais e mágicos.

No livro escolhido, a personagem principal passa por experiências inexplicáveis em que é levada ao século XIX, no sul dos EUA, um lugar perigoso para uma mulher negra, em que leis segregavam os brancos dos negros. E, aliando essas viagens no tempo, o livro vai despertar reflexões sobre racismo e escravidão.

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “Circe”, de Madeline Miller; “As brumas de Avalon”, de Marion Bradley; “Harry Potter”, de J. K. Rowling; “Terra das mulheres”, de Charlotte Gilman; “O feiticeiro de Terramar”, de Ursula K. Le Guin; e “A rainha do Ignoto”, de Emília Freitas.

O complexo de Portnoy, de Philip Roth | Resenha

Polêmica. A leitura de uma das obras mais conhecidas de Philip Roth deixa nítida a intenção do autor em causar um incômodo no leitor, se valendo da temática da masturbação e dos conflitos familiares como objeto central das angústias e insatisfações do personagem principal. E se isso causa um pouco de estranheza hoje em dia, é difícil imaginar o impacto que teve na sua publicação, ocorrida em 1969.

O livro é construído a partir dos pensamentos e diálogos de um bem-sucedido advogado de Nova York com o seu psicanalista. Revivendo passagens de sua infância e juventude em uma família tradicional judia, Alex Portnoy vai tentando identificar quais as origens de seus “problemas”. É uma enxurrada de reclamações do paciente sobre a relação extremamente protetiva e asfixiante com sua mãe, em paralelo com sua fase de formação sexual e de descoberta do próprio corpo… uma verdadeira fixação do personagem principal com esses temas, que fazem dele um narrador bem “chato”. Além disso, os questionamentos envolvendo a religião de Alex Portnoy também aparecem com bastante frequência na leitura.

E a forma como Roth apresenta o fluxo de pensamentos do personagem é carregada de um humor ácido e satírico. A escrita não tem muito filtro e o autor não se preocupa em agradar o velho – e ultrapassado – conceito da “moral e bons costumes”. Mas, por outro lado, o comportamento de Alex Portnoy extrapola limites e se choca com machismo e racismo.

Apesar de enfrentar temas polêmicos e tabus de forma cômica e inteligente, achei a leitura um pouco cansativa. O livro parecer ir e vir sem muito destino. Essa pode até ter sido a intenção do autor, criar uma narrativa não linear, mas para mim acabou não funcionando muito bem. Não cheguei a cogitar abandonar a leitura, apesar de arrastada, e terminei o livro com vontade de ler outras obras do autor. Até então, só havia lido “A humilhação”, que posso dizer que me agradou mais do que “O complexo de Portnoy”.

Eu,Tituba – bruxa negra de Salém, de Maryse Condé | Resenha

Como é bom descobrir uma autora e uma obra tão incríveis! Esse foi um livro que conheci no final de 2019 e, desde que recomendei aqui no #desafiobookster2020, só recebi feedbacks positivos! Autora caribenha, nascida em 1937, Maryse Condé foi vencedora de diversos prêmios literários, tendo em 2018 recebido o New Academy Prize (Prêmio Nobel Alternativo).

A obra pode ser enquadrada na categoria de ficção histórica, em que a autora parte de um fato histórico verídico – a morte de Tituba, uma mulher negra e escravizada, condenada por bruxaria pelos tribunais de Salém – e utiliza a ficção para preencher as lacunas dos registros históricos.

A vida de Tituba é marcada por rejeição, perdas e sofrimento. O início do livro já nos antecipa o destino triste traçado para a personagem: “Abena, minha mãe, foi violentada por um marinheiro inglês no convés do Christ the King, num dia de 16**, quando o navio zarpava para Barbados. Dessa agressão nasci. Desse ato de agressão e desprezo.”

Escravizada ainda na infância, Tituba perde a sua mãe em um triste ato de violência e abuso. A partir disso, descobre e aprende com Man Yayá o poder das plantas e do “invisível” para fazer o bem ao próximo. E é justamente essa sua cultura, essa sua outra forma de enxergar a morte e a ciência, que são utilizados pelo grupos puritanos do século XVII para enquadrá-la como bruxa. Então ser bruxa é ser alguém que se pensa diferente e se coloca em risco para poder ajudar o outro?

E apesar do sofrimento desde o primeiro momento de sua vida, encontramos em Tituba uma mulher guerreira e que não se cala ante às discriminações que enfrenta ao longo da sua vida. Isso, na minha opinião, deixa o livro menos angustiante – embora não menos doloroso. Leitura incrível, que nos faz refletir e aprender sobre um período histórico a partir da perspectiva de uma personagem por muito tempo esquecida.

PS: o prefácio dessa edição contém spoiler.

A vida pela frente, de Émile Ajar (pseudônimo de Romain Gary) | Resenha

Sabe quando você resolve ler um livro ao acaso, furando toda a fila de leituras programadas sem saber muito o porquê? Isso aconteceu com essa leitura, que comecei logo antes da minha última viagem! Na verdade, até tinha recebido alguns comentários positivos sobre a obra, mas não sabia mais nada a respeito… E só depois que comecei a leitura, descobri que “A vida pela frente” foi vencedor do Goncourt, em 1975, o prêmio literário mais importante da França.

E antes de falar um pouco sobre o enredo, queria contar que essa foi uma leitura muito gostosa, daquelas que você nem sente passar e, quando percebe, já até terminou (e deixa aquele sentimento bom de saudades…).

De um lado, temos Madame Rosa, uma senhora que trabalhou como prostituta em Paris e que passou a cuidar de crianças em um bairro pobre de cidade. Rosa ainda carrega consigo os traumas de ter sobrevivido à Auschwitz. De outro lado, temos Momo, um garoto muçulmano que vive sob os cuidados de Rosa e que possui uma origem desconhecida. Não tem informações sobre seus pais, sobre os motivos de ter sido abandonado e nem mesmo sabe a sua verdadeira idade. Apesar de uma narrativa simples que gira em torno de ambos os personagens, o autor consegue fazer da complexidade dessa improvável relação entre uma senhora judia e uma criança o diferencial da leitura.

E o livro ainda retrata a solidariedade entre pessoas que vivem em situações mais difíceis, à margem da sociedade. Rosa e Momo se relacionam diariamente com os demais moradores do prédio da periferia. Imigrantes árabes, judeus, negros… Cada um com seus problemas, com sua religião e com sua origem diferente, mas há sempre tempo para conseguir ajudar o outro. E é nessa rede de amizades que Momo constrói os seus afetos, assumindo Madame Rosa a figura materna que nunca teve. A partir da relação entre o garoto e os demais habitantes do prédio conseguimos tirar ensinamentos muito bonitos sobre a nossa simples condição de ser humano, tornando a obra publicada há mais de 40 anos atual. Atemporal.