Blog

#DesafioBookster2020 | Setembro

Mês: Setembro⁣
Temática: Suspense e Thriller⁣
Livro escolhido: “Confissões”, de Kanae Minato⁣
⁣⁣⁣
Um dos aspectos mais positivos do Desafio Bookster para mim é o incentivo à leitura de obras e gêneros que não costumo ler muito. Apesar de serem extremamente populares, os livros de suspense não aparecem com tanta frequência na minha lista de leituras. Tanto é verdade que eu nunca havia lido nada de Agatha Christie até esse ano… Mas o fato de eu não ler tanto, não significa que eu não goste do gênero. Pelo contrário: termino sempre me culpando por não ler mais (leitores e suas culpas, kkk). ⁣

Para o mês destinado ao suspense, preferi fugir das autoras mais conhecidas por mim (tem muita escritora sensacional!) e descobri um livro de uma autora japonesa que me chamou bastante a atenção – o que foi confirmado pelas avaliações positivas que li a seu respeito. Além da própria sinopse, também achei bem curioso que Kanae Minato começou a escrever meio ao acaso. Como consta no livro, a autora “é uma dona de casa e professora que escreveu Confissões entre uma tarefa e outra”. ⁣

“Confissões” fez um tremendo sucesso no Japão, tendo vendido mais de 3 milhões de exemplares. Na obra, acompanhamos a professora Yuko Moriguchi, que perdeu a sua filha em um evento trágico. Antes de pedir demissão, no entanto, a professora tem uma última lição para seus alunos, revelando que a filha foi morta por dois deles (e não por um acidente, como falavam). “Sua aula derradeira irá desencadear uma trama diabólica de vingança”. ⁣

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “E não sobrou nenhum”, de Agatha Christie; “Ladrão de cadáveres”, de Patrícia Melo; “A última festa”, de Lucy Foley; e “O homem de giz”, de C. J. Tudor; “Arquivos Serial Killers”, de Ilana Casoy e “Minha sombria Vanessa”, de Kate Russell.⁣⁣⁣

Anotações de um jovem médico, de Mikhail Bulgákov | Resenha

Quando recebi a notícia desse lançamento pela Editora 34, fiquei muito animado por dois motivos: o livro é do mesmo autor de “Mestre e Margarida”, uma obra que adorei (!), e tem com temática a profissão médica, um assunto que sempre me interessou! ⁣

Em “Anotações de um jovem médico”, o leitor vai se deparar com nove narrativas ficcionais que foram publicadas entre os anos de 1925 e 1926 em um jornal soviético destinado à área de medicina. E apesar de seu caráter ficcional, os textos têm uma forte origem autobiográfica, tendo em vista que Bulgákov se formou em medicina e exerceu a profissão por alguns anos. ⁣

Ao longo das narrativas, acompanhamos as experiências do Dr. Bomgard, um jovem médico recém-formado que é designado para trabalhar em um hospital muito pequeno no interior da Rússia – outra fato que também se assemelha com a própria história de vida do autor. Lá, o personagem é o único médico da cidade rural e, considerando a sua falta de experiências, enfrentará dificuldades e anseios no tratamento de seus novos pacientes. As doenças são as mais variadas e o médico precisa recorrer aos livros de medicina que encontra no local para conseguir se virar e não cometer qualquer fatalidade.⁣

E o cenário em que se passam as narrativas também é um dos grandes pontos da obra: uma cidadezinha do interior da Rússia, no início do século XX, povoada por mujiques (camponeses) simples e pobres, cuja qualidade de vida muito se difere da realidade nas grandes cidades da década de 20. É um cenário em que falta muito e o papel do médico local vai além de cuidar apenas das queixas físicas dos moradores.⁣

Enfim, recomendo muito! O autor consegue misturar de forma interessante as angústias do Dr. Bomgard com o seu dia a dia como médico naquele local. A escrita também é fluida e consegue transportar o leitor para um ambiente remoto e repletos de dificuldades.⁣

Ah, o livro serviu de inspiração para o seriado “A young Doctor’s notebook”, estrelado por Daniel Radcliffe.⁣

O quarto de Giovanni, de James Baldwin | Resenha

Ambientado em uma Paris boêmia da década de 50, o segundo romance de James Baldwin gira em torno da conflituosa relação entre David, um jovem norte-americano que tem uma namorada vivendo na Espanha, e Giovanni, um italiano que trabalha como garçom em um bar parisiense. ⁣

Se para Giovanni a sua orientação sexual é um ponto bem resolvido, David vive uma intensa experiência homossexual de forma angustiada e repleta de culpa. É uma constante batalha entre os seus próprios sentimentos e a necessidade de continuar levando a vida que tinha antes, ao lado da namorada Hella. ⁣

E o mais interessante do livro é como o autor consegue se aprofundar no psicológico do personagem principal, revelando esse sofrimento de alguém que não consegue se aceitar e como esse conflito pessoal acaba reverberando nas relações à sua volta. São as consequências do medo de amar livremente.⁣

Isso desperta diferentes emoções no leitor em relação a David, que vão desde uma certa raiva pelo seu constante egoísmo até uma compaixão pela intensidade de seus conflitos internos. São muitas emoções reprimidas que encontram no pequeno e simples quarto de Giovanni a possibilidade de serem colocadas para fora.⁣

Na época de sua publicação, em 1956, Baldwin foi criticado por ter deixado de escrever sobre a temática do racismo e passado a retratar uma relação homoafetiva entre dois personagens brancos. Em sua defesa, o autor explicou que a homossexualidade e o racismo eram temas tão espinhosos para aquela época que abordar os dois em um mesmo livro seria um grande obstáculo. Isso, com certeza, revela a coragem de Baldwin em publicar um romance tão profundo sobre a relação conturbada entre David e Giovanni.⁣

Nas 232 páginas lidas, a escrita é fluida e sensível, conseguindo atingir no leitor o forte impacto dos sentimentos vividos pelos personagens. Na verdade, pela profundidade da obra, o que a gente sente falta na obra é a existência de mais páginas para acompanhar esses tão bem desenvolvidos personagens…

Verificado “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro | Leitura necessária

Em um momento em que a discussão sobre discriminação racial está em destaque, a leitura desse pequeno livro de Djamila, uma importantíssima ativista e filósofa contemporânea nacional, permanece tão necessário. Se você tem dúvidas sobre o tema ou se ainda não sabe como pode agir de forma antirracista – ou contra qualquer tipo de discriminação – essa é uma obra que você precisa ler. Do meu ou do seu lugar de privilégio, o desconhecimento não pode ser usado como justificativa para atitudes discriminatórias. ⁣

Um livro curto, acessível e muito direto sobre como o racismo acabou se enraizando em nossa sociedade, como podemos identificá-lo e como precisamos mudar nossos comportamentos. É aprender que a desigualdade não implica um tratamento igualitário, mas sim um tratamento dos desiguais na medida de sua desigualdade. ⁣

Em um dos capítulos, Djamila aborda a importância da diversidade nas leituras. Um tema que já vem sendo tratado há tanto tempo, mas que ainda precisa ser mais conhecido. É o impacto que uma escolha consciente dos livros pode produzir. E é justamente esse trabalho de pessoas tão essenciais na luta contra as desigualdades que eu quero tentar de alguma forma disseminar e mostrar meu total apoio por meio da leitura. É de textos como esse que eu aprendo muitas das mensagens que tento transmitir por aqui. Temos que estar abertos para aprender com o outro e dispostos a desconstruir nossos pré-conceitos…⁣

Não vou me alongar aqui, porque é com Djamila e outros ativistas que você precisa conhecer mais sobre o tema!⁣


“Acordar para os privilégios que certos grupos sociais têm e praticar pequenos exercícios de percepção pode transformar situações de violência que antes do processo de conscientização não seriam questionadas.”

Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom | Resenha

Que leitura gostosa e interessante! Confesso que o título até me causou um certo receio, já que eu conhecia muito pouco sobre o trabalho e vida de Friedrich Nietzsche. No entanto, você não precisa ter um conhecimento prévio para aproveitar essa leitura. Na verdade, você vai aprendendo sobre o trabalho do filosofo, e dos demais notórios personagens históricos mencionados no livro, ao longo de uma leitura instigante.

O cenário é a cidade de Viena, no final do século XIX. Dr. Breuer é um renomado médico da cidade, detentor de uma invejada capacidade de fazer bons diagnósticos. Depois de um encontro imprevisível com uma jovem russa, o médico se vê diante de uma difícil tarefa: tentar descobrir a origem dos horríveis sintomas, físicos e psicológicos, que acometem Nietzsche. O filósofo, que já se mostrou como um paciente nada fácil, ainda não era conhecido naquela fase da vida e seus livros mal haviam sido vendidos. Mesmo assim, o desafio instiga Dr. Breuer e, a partir disso, nasce uma interessantíssima relação entre o médico e Nietzsche.

E o mais interessante é acompanhar a evolução dessa relação que a todo instante passa a se confundir, de modo que às vezes o médico ocupa o lugar do paciente. São conversas interessantíssimas sobre angústias, relações amorosas, insatisfações e dúvidas sobre a nossa existência. O que o autor pretende é mostrar o início de um tratamento muito conhecido hoje, a psicoterapia. A narrativa fica ainda mais interessante com a presença do jovem Freud que, aos 26 anos e no início de sua carreira, desempenha um importante papel de amigo do Dr. Breuer.

Ainda que esse encontro entre Nietzsche e Breuer não tenha realmente acontecido, não se preocupe em ficar tentando diferenciar o que é ficção ou realidade. Essa mistura faz parte da qualidade literária de Yalom. O que é inegável, por sua vez, é que o livro revela – de uma forma acessível e nem um pouco técnica – muito dos pensamentos de Nietzsche, Freud e Breuer no curso da narrativa. Ah, o início pode parecer um pouco mais lento, mas não desanime que depois de algumas páginas você já será fisgado pela história.

Verificado A peste, de Albert Camus | Resenha

Acho que não preciso explicar o motivo de ter escolhido essa leitura para o momento… Confesso que no começo da quarentena não fiquei com vontade de iniciar a leitura. Até porque, não bastasse o assunto da pandemia estar sendo falado por todos os lados, achei que a hora da leitura poderia ser uma “fuga”. E pela simples sinopse você já percebe as semelhanças com o momento atual que vivemos: a cidade de Orã, na Argélia, é tristemente surpreendida por uma doença que passa a vitimar a população. ⁣

Mas, com o tempo, acabei ficando curioso principalmente para entender de que forma o autor teria abordado o comportamento da sociedade em uma situação como a que estamos vivendo. Seria possível “antecipar” todo esse caos, angústia e incerteza? ⁣

Para a minha grande surpresa, há inúmeros paralelos entre a dinâmica da disseminação da doença em Orã e o alastramento da COVID pelo mundo. Já começa pela própria descrença de muitos com a seriedade da doença logo após os primeiros casos. Ninguém sabia o que estava acontecendo e a intenção inicial era evitar um pânico da população. No entanto, com o desenvolvimento da peste, medidas mais sérias tiveram que ser tomadas e a cidade de Orã se vê fechada para o resto do mundo. O leitor acompanha toda essa situação a partir da perspectiva de um médico, Dr. Bernard Rieux, e de outros personagens que estão de alguma forma relacionados com Rieux.⁣

Não vou me debruçar mais sobre o enredo, porque acho interessante que o leitor vá entendendo as consequências que a doença traz para aquela cidade de acordo com o ritmo proposto pelo autor. Mas já adianto que, apesar da temática, a leitura não é tão fluida – até porque a densidade dos textos é uma característica de Camus. Por isso, leia aos poucos, sem pressa e sabendo que a peste – como doença é – é utilizada pelo autor como a porta de entrada de diversas outras discussões e reflexões que a obra desperta. Inclusive, há quem afirme que “A peste”, publicada em 1946, seria uma alegoria da atrocidade da ocupação nazista. Recomendo!⁣

#DesafioBookster2020 | Agosto

Mês: Agosto⁣
Temática: Drama⁣
Livro escolhido: “Cidadã de segunda classe”, de Buchi Emecheta
⁣⁣
Na literatura, o termo Drama pode ter dois sentidos: (i) como gênero literário, Drama se refere ao teatro, às peças teatrais, ao texto feito para ser encenado; (ii) como classificação literária, o Drama se refere a narrativas mais ligadas às emoções dos personagens, isto é, com uma carga dramática maior. Para o desafio Bookster, a escolha do livro de agosto foi feita a partir deste último significado do termo Drama.⁣

Buchi Emecheta foi uma influente autora nigeriana, que tinha como objetivo denunciar a difícil realidade da mulher nigeriana e africana, abordando temáticas relacionadas à maternidade, colonialismo e submissão da mulher. O livro escolhido será o meu segundo contato com a autora, já que li há cerca de 3 anos “As alegrias da maternidade”. Foi uma leitura muito marcante, que levou nota máxima, e me deixou com mais vontade de conhecer as obras de Emecheta. ⁣

Em “Cidadã de segunda classe”, acompanhamos a imigração de Adah, que deixa a Nigéria e vai para Londres em busca de melhores condições de vida para uma mulher. Adah leva seus filhos, mas a expectativa por uma situação melhor acaba sendo traída pelos obstáculos que o novo destino apresenta, como o racismo e a xenofobia. A protagonista também “se depara com uma recepção nada acolhedora de seus próprios compatriotas, enfrenta a dominação do marido e a violência doméstica e aprende que, dos cidadãos de segunda classe, espera-se apenas submissão”, como indica a sinopse do livro.⁣

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles; “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath; “Adua”, de Igiaba Scego; e “A hora da estrela”, de Clarice Lispector; e “O caminho de casa”, de Yaa Gyasi.⁣⁣