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Anjo negro, de Nelson Rodrigues | Resenha

Já li muitos comentários sobre a força e crueza características das obras de Nelson Rodrigues, e a leitura de “Anjo Negro” serviu para confirmar essa visão. A peça ficou censurada por dois anos, entre o período de 1946 a 1948, diante da forma polêmica com que o autor tratava temáticas sensíveis em sua narrativa, tais como racismo, relacionamento abusivo e incesto.

Os personagens principais da peça são Ismael e Virgínia. O principal conflito que marca a história do casal é a cor da pele de cada um. Ismael nunca conseguiu aceitar o fato de ter nascido negro. Vive buscando aprovações da sociedade, tendo inclusive escolhido uma profissão com o único objetivo de ter reconhecimento das pessoas que estavam a sua volta.

Já Virgínia, uma mulher loira e branca, sofre diariamente nas mãos de Ismael por ter nascido com uma característica que o marido sempre quis e invejou. Ismael isola a esposa do mundo, como se não quisesse que Virgínia soubesse que existiam homens brancos que pudessem levá-la a algum tipo de tentação. É uma vida repleta de sofrimentos…

E essa diferença entre os personages traz efeitos devastadores em suas vidas, sobretudo em relação aos filhos do casal que acabam sempre morrendo depois de algum tempo. Na verdade, o início da peça já é mercado por uma triste cena do velório de uma dessas crianças. Mas o cenário trágico em que vive o casal é agravado por uma visita inesperada de Elias, irmão de Ismael. A partir disso, a história passa a tomar outros contornos, que acabam agravado mais o atrito entre Ismael e Virgínia.

Como já antecipei, a escrita é crua e gera um tremendo incômodo no leitor. Se hoje a narrativa já é considerada polêmica, é difícil imaginar a repercussão que teve na época de sua publicação, em 1948. E essa minha primeira experiência com Nelson Rodrigues já conseguiu me deixar com vontade de conhecer mais dessa escrita potente e que escancara atritos da nossa sociedade.

PS: O livro pode conter gatilhos de estupro e relacionamentos abusivos.

O amante, de Marguerite Duras | Resenha

Em pouco mais de 120 páginas, a obra publicada em 1984 – e que levou o Prêmio Goncourt no mesmo ano – marcou a literatura mundial e colocou Duras como um dos principais nomes da literatura francesa.

No livro, a palavra “amante” que estampa o título foge do conceito que estamos acostumados a ouvir. Não se trata de uma traição, mas sim de uma relação amorosa, é o amante como aquele que ama. E os amantes criados pela autora formam um casal pouco provável – e pouco aceito pela sociedade da Indochina pré-guerra, ainda colônia da França. Na verdade, os personagens não são totalmente criados por Duras, já que a obra revela uma carga autobiográfica, com semelhanças do passado da autora.

De um lado, temos uma jovem francesa. De outro, um rico comerciante chinês. É uma relação que esbarra no preconceito contra o oriental, por parte da família europeia da garota, e na diferença de idade entre os dois amantes. Ao mesmo tempo, senti até mesmo uma dúvida sobre os reais sentimentos dos personagens, o que realmente é amor ou apenas uma vontade de transgredir regras sociais.

E não se engane pelas poucas páginas que compõem o livro. A leitura é densa, sobretudo pelas mudanças narrativas que a autora faz durante as páginas. Isso demanda uma atenção maior do leitor, um tempo maior para aproveitar a escrita direta e envolvente de Duras. Vale a leitura!

#DesafioBookster2020 | Dezembro

Mês: Dezembro
Temática: Biografia
Livro escolhido: “A imperatriz de ferro”, de Jung Chang

Booksters, chegamos na última categoria do Desafio Bookster 2020! Foram TANTAS leituras boas esse ano que fiz por conta do desafio, que só tenho a agradecer quem entrou nessa comigo! Lembrando que para 2021, vai ter novidade MUITO LEGAL!!!!! Se preparem, sério… Já separem um livro por mês para ler comigo!

Não sou o maior fã de biografias e, quando leio, gosto das obras mais romanceadas. Por isso, pesquisei muito antes de escolher o livro desse mês. Ainda que não seja uma biografia tão romanceada, ela traz a história de uma mulher pouco conhecida no ocidente e foi escrita por uma autora muito renomada por suas obras.

O livro é “A imperatriz de ferro”, de Jung Chang. Do fim do século XIX até o começo do século XX, Cixi foi a mulher mais importante da história da China, responsável por levar o país da era medieval até a era moderna. Aos 16 anos, ela foi escolhida numa seleção nacional para ser uma das concubinas do imperador. Após a morte dele, é o filho que teve com o imperador, de apenas 5 anos de idade, quem assume o trono. Mas Cixi organiza um golpe contra os regentes e passa a comandar a China.

Cixi governou durante décadas, e Jung Chang mostra como ela lutou para modernizar o país, implementando atributos de um Estado moderno, construindo fábricas e ferrovias, levando a eletricidade para a China e promovendo, também, o reconhecimento dos direitos das mulheres. A biografia desmistifica a visão de que Cixi era uma déspota sanguinária e conservadora, e foi baseada em documentos que vieram à público recentemente.

Herdeiras do mar, de Mary Lynn Bracht | Resenha

Uma das maiores surpresas do ano, a obra é, em parte, ambientada na Coréia sob ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial – um período que conhecia muito pouco.

Hana, a personagem principal, nasceu em uma comunidade de mulheres que seguem uma tradição muito antiga, que remonta ao ano 434. Desde criança , as meninas aprendem a mergulhar no mar e retirar dali a sua fonte de sobrevivência. As mulheres são chamadas de “haenyeo”, as mulheres do mar. Confesso que nunca havia escutado a história das “haenyeo”, mas fiquei muito impressionado em ver como a tradição segue por tantos anos e a forma de organização dessa sociedade semi-matriarcal.

Mas apesar de estar destinada a seguir a mesma vida que sua mãe e avó viveu, Hana é capturada pelo exército japonês. A partir disso, a personagem encara um período triste e violento em sua vida. Isso porque, a personagem foi capturada para servir como uma “mulher de consolo”, a serviço dos soldados em bordéis, o que foi uma realidade muito comum durante a ocupação japonesa na Coréia.

A leitura é muito sofrida, muito mesmo. Mas mesmo assim a história e a força da personagem mantém o leitor nas páginas que estão por vir. Em algumas passagens precisei parar um pouco e recuperar o fôlego. E o mais triste é saber que até hoje as sobreviventes desse período tão sofrido lutam para que os crimes sejam reconhecidos pelo governo Japonês.

Em paralelo à história de Hana, a autora traz para o presente a narrativa de Emiko, irmã de Hana e que nunca soube o que realmente aconteceu após a captura pelo exército japonês. É uma busca por uma mínima verdade do passado…

O sofrimento das “mulheres consolo” me marcou muito e me deixou com a historia de Hana por muito tempo em minha cabeça. Apesar disso, a leitura é muito interessante, pois retrata momentos da história pouco divulgados ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa envolvente e com personagens bem desenvolvidas. Recomendo demais!

Solução de dois Estados, de Michel Laub | Resenha

Em seu mais novo romance, um dos principais nomes da literatura contemporânea nacional aborda temáticas muito atuais, sobretudo a polarização que marca as discussões políticas e sociais do nosso tempo.

O enredo da obra tem como base a elaboração por uma cineasta alemã de um documentário sobre a violência em diferentes países, dentre eles o Brasil. Para desenvolver o seu trabalho no país, a cineasta opta por analisar um acontecimento de violência e que teve repercussão mundial: uma agressão pública sofrida por uma artista em uma apresentação em São Paulo.

É característico da produção de Laub escolher formas de escrita criativas e que fujam do comum. Assim, para construir a sua narrativa nesse livro, o autor vai alternando os capítulos entre as versões de Raquel – a vítima da agressão – e Alexandre, seu irmão, sobre o ocorrido. Os dois têm pensamentos muito antagônicos e para tentar encontrar os possíveis motivos para o episódio de agressão, acabam explorando o seus passados, de traumas na infância e perdas familiares, e o contexto político vivido pelos brasileiros no governo de Fernando Collor.

É impressionante perceber como a polarização torna quase impossível a tarefa de conciliar posições tão diferentes. Ao longo da leitura, até tentava entender de que forma os irmãos poderiam tentar reestabelecer seus laços ou, ao menos, um diálogo razoável, mas tive dificuldades de encontrar uma resposta.

Essa prejudicial consequência da polarização é um tema cada vez mais atual. O livro, portanto, desperta reflexões muito interessantes a partir de um caso aparentemente isolado e com características peculiares.

Da mesma forma que nos outros livros que li do autor, a escrita em “Solução de dois Estados” é agradável e também escancarada. Laub não poupa vocabulário na hora de descrever os acontecimentos e os sentimentos vividos pelos personagens. Recomendo muito!

Confissões, de Kanae Minato | Resenha

Até escolher o livro para a leitura conjunta do #desafiobookster2021, para o gênero de thriller, nunca tinha ouvido falar da autora japonesa Kanae Minato. Para a minha surpresa, a autora decidiu escrever já tarde, tendo “Confissões” sido sua obra de estreia, mas, por que fiquei surpreso com isso? O que me chamou a atenção, sobretudo após a leitura, foi como a autora conseguiu já em seu primeiro livro mexer tanto com o psicológico do leitor, despertando sensações incômodas e questionamentos interessantes.

A sinopse já tem uma premissa fora do comum: a protagonista, uma professora, planeja uma vingança contra crianças, seus próprios alunos. É que após a morte de sua filha de 4 anos, a professora Yuko Moriguchi revela que a filha não morreu por conta de um acidente, mas sim que a morte foi causada por dois de seus alunos. Por isso, sua última aula será a vingança que procura pela perda da filha!

Esse fato já é, por si só, capaz de perturbar a mente do leitor, mas confesso que ao longo da leitura a narrativa vai se desenvolvendo muito mais e fiquei bem impressionado com o número de reviravoltas.

Outro ponto que gostei bastante é que o livro é construído a partir das diferentes vozes dos personagens, ou seja, vamos descobrindo os detalhes da trama a partir de cada uma das perspectivas. Por causa disso, a leitura também desperta uma discussão interessante sobre aquele velho paradigma do bem e do mal, fazendo com que o leitor questione os possíveis motivos que estão por trás de atos repugnantes.

Por outro lado, essas múltiplas vozes também fizeram com que a leitura ficasse repetida em alguns momentos, mas nada que pudesse comprometer o ritmo construído pela autora. Também vale mencionar que em algumas passagens Minato trata da questão do vírus HIV de uma forma sensacionalista e sem a seriedade que merece (não sei se foi proposital ou não, mas pode gerar discussão).

Para quem gosta de thrillers ou para quem, assim como eu, não está acostumado com esse tipo de leitura, recomendo bastante “Confissões”: uma leitura rápida, inteligente e incômoda!

O mundo da escrita: como a literatura transformou a civilização, de Martin Puchner | Resenha

Como bem descrito pela revista britânica “The Bookseller”, o livro de Puchner pode ser considerado como “Sapiens para fanáticos por livros”. Ao longo das quase 500 páginas, o autor, que é professor de Literatura Comparada em Harvard, conseguiu conduzir o leitor por uma linha do tempo sobre a presença da escrita como ferramenta de comunicação.

São 16 mil anos de história, que começam desde a invenção do alfabeto e o desenvolvimento do papel que conhecemos hoje, as obras religiosas e até livros mais recentes e marcantes, como Harry Potter.

É importante deixar claro que o leitor não irá encontrar aqui descrição de obras e/ou uma análise literária dos autores e livros mencionados. Na verdade, o que encontramos é uma aula de história que se desenvolve a partir da evolução da escrita. Por isso, o livro agradará não apenas quem gosta de leitura, mas também os amantes de História.

Ah, também vale dizer que a edição está bem bonita e conta com diversas ilustrações sobre obras e outros objetos mencionados por Puchner ao longo da sua narrativa.

Por fim, deixo uma dica para evitar que a leitura canse (já que a obra tem momentos bem densos): tente ler junto com uma leitura mais leve de ficção. Com isso, o ritmo vai melhorar e a leitura fica até mais agradável e interessante. Leia sem pressa, tem muita informação legal que precisa ser digerida neste livro!