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#DesafioBookster2020 | Outubro

Mês: Outubro⁣
Temática: Humor e Ironia⁣
Livro escolhido: “Fun Home”, de Alison Bechdel⁣⁣
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Estava animado para esse mês! Depois de tantos livros intensos e que mexeram fortemente com nossas emoções, o que é tão recorrente na literatura, chegamos no momento de escolher um livro que carregue um pouco de humor em suas páginas. Mas não se animem tanto, até porque a gente não consegue deixar as temáticas sensíveis de lado. Acabei escolhendo uma obra tragicômica e, mais que isso, uma história em quadrinhos. Isso é bom para quem tem aquela velha – e equivocada – ideia de que HQs são apenas para o público infantil. Pelo contrária: Maus e Persépolis, por exemplo, foram dois livros que me marcaram muito! E, assim como essas duas obras, Fun Home sempre aparecia nas indicações de vocês quando eu pedia dicas de HQs. ⁣

“Fun Home”, de Alison Bechdel, é uma HQ bastante aclamada e considerada um marco dos quadrinhos autobiográficos. Pouco depois de contar para a família que é lésbica, Bechdel revere a notícia de que seu pai morreu em circunstâncias que podem indicar suicídio. Na história, a autora vai explorar a relação que teve com o pai com muito humor, além de mostrar também sua trajetória desde a infância. Ela trata desde os tempos em que cresceu na funerária da família até a juventude onde se encontrou nos livros e na arte. “Fun Home” foi eleito o livro do ano de 2015 pela revista Time e também foi transformado em um musical da Broadway. ⁣

Foi difícil escolher outras dicas, já que não conheço tantos livros nesse gênero. Deixem suas dicas por aqui! De qualquer forma, para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “Tudo pode ser roubado”, de Giovana Madalosso; “Adulta sim, madura nem sempre”, de Camila Fremder; “Depois a louça sou eu”, de Tati Bernardi; “História dos meus dentes”, de Valeria Luiselli; “Cadê você, Bernadette?”, de Maria Semple. ⁣
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Talvez você deva conversar com alguém, de Lori Gottlieb | Resenha

Se você leu o título do livro e achou que essa é mais uma obra que segue aquela antiga fórmula de autoajuda, com diversos exemplos e repetidas frases de efeito, você está totalmente enganado.

A psicoterapeuta norte-americana conseguiu criar um fenômeno de vendas ao trazer para o leitor a sua experiência real com conflitos e angústias universais do ser humano, tanto do ponto de vista do psicoterapeuta, como daquele que senta do outro lado do divã, o paciente. Como a própria autora confessa, “de todas as minhas credenciais como terapeuta, a mais significativa é eu ser membro de carteirinha da raça humana”.

Talvez, uma das características que mais conseguem aproximar o leitor da narrativa é a humanidade no relato de Lori. A autora nos conta a história de quatro pacientes, com diferentes questões que os afligem, e a sua própria experiência diante de cenários de vulnerabilidade e desamparo. Ao longo da leitura, me identifiquei com diversas passagens e questionamentos abordados pela autora e, sem qualquer dúvida, acho difícil algum leitor passar imune a essa identificação.

É legal dizer que, apesar de eu fazer análise há algum tempo, sei que o trabalho de Lori também pode ajudar muito a desmistificar velhas ideias sobre a terapia, que, ainda hoje, é vista como um tabu por muitas pessoas. Esse livro pode ser um bom início de um processo de autoconhecimento, em que a autora não busca trazer respostas para nossos problemas, mas sim despertar a nossa reflexão sobre as situações que vivemos. Como eu sempre falo, enxergar diferentes problemáticas a partir da perspectiva do outro passa, necessariamente, por uma autoanálise – ainda que não proposital.

A escrita também é muito convidativa, com referências acessíveis a teorias e a grandes nomes da Psicologia, permitindo uma leitura agradável, mas que não dá a sensação de ser uma abordagem superficial. Para o que a obra propõe, a minha experiência merece nota máxima.

A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin | Resenha

A premissa desse livro é muito interessante, sobretudo quando consideramos as temáticas por ele abordadas e a época em que foi lançado, em 1969. A história é construída a partir de uma missão diplomática, em que um ser humano, Genly Ai, é enviado para Gethen, um planeta extremamente distante da Terra, para tentar convencer os governantes a integrar uma comunidade interestelar. E, para a supresa de Genly Ai, os indivíduos de Gethen não possuem gênero, são andrógenos. ⁣

Cada indivíduo nasce com um gênero neutro e, em cada período sexual, se desenvolverá para o que biologicamente entendemos como homem e mulher. Considerada como uma das principais referências no gênero da ficção científica, Le Guin desperta discussões muito interessantes sobre os papéis e as relações de gênero. Por meio do choque cultural vivenciado pelo protagonista, percebemos como muitas das características que associamos ao homem e à mulher estão ligadas tão somente a construções sociais. ⁣

A todo momento, Genly Ai acaba fazendo um paralelo com a nossa forma de sociedade, em que a mulher e o homem desempenham funções diferentes (imagine considerando a época em que foi publicado). Em Gethen, qualquer um pode gerar um filho e, quando não estão em sua fase sexual, vivem sem um instinto carnal influenciando suas decisões e atitudes. ⁣

Durante a leitura, também vamos encontrando reflexões sobre a sexualidade, relações de amizade e interesses políticos. A autora ainda se vale de uma escrita muito rica em sua obra. O foco não está apenas nos acontecimentos, mas também na forma como os cenários e sentimentos são descritos.⁣

Mas confesso que o livro demora um pouco para engatar, até mesmo pela quantidade de nomes e termos associados ao novo planeta. Da mesma forma, algumas passagens podem ter um ritmo mais lento, com divagações e pouca ação. Por isso, não comece o livro esperando uma leitura repleta de aventura, mas tente aproveitá-lo levando em conta as temáticas nele trazidas e o seu caráter inovador e questionador para a época em que foi publicado.

As bruxas da noite, de Ritanna Armeni | Resenha

Publicado em 2018 por uma jornalista italiana, a obra chegou ano passado aqui no Brasil, mas não tinha visto ninguém falar sobre ela ainda… Acabei descobrindo a obra por acaso, em pesquisas na internet para o Desafio Bookster. E que boa surpresa, sobretudo porque gosto dos livros jornalísticos que têm uma narrativa mais romanceadas, e menos informacional, exatamente como é o caso de “As bruxas da noite”. ⁣

A autora nos apresenta uma realidade que é muito esquecida pela História: a presença de mulheres nas linha de frente das guerras. No caso especifico, conhecemos a história de um regimento aéreo unicamente feminino, formado em 1942 para lutar pelo exército soviético na segunda guerra. E essa realidade é apresentada a partir dos relatos de Irina Rakobolskaya, antiga vice-comandante do regimento, que na época das entrevistas estava com 96 anos. Essas soldados passaram a ser conhecidas por “Bruxas da noite”, pois faziam os seus ataques durante o período noturno, quando os alemães não poderiam ver muita coisa.⁣

E é muito interessante entender não apenas o dia dia no campo de batalha, mas também todo o processo de formação de um regimento feminino, que contou com inúmeros obstáculos. Eram mulheres que queriam se voluntariar para lutar pelo pais e que, mesmo assim, eram vistas como “incapazes”. Já no exército, há uma nítido processo de desfeminização das mulheres: os cabelos cortados, os uniformes eram feito para os homens e elas deveriam mudar os comportamentos. Quando retornam da guerra, a realidade parece ainda mais ingrata…⁣

Durante a leitura, compreendi ainda mais a importância do trabalho da autora em escrever sobre esse tema. A entrevistada já tinha 96 anos e era a última sobrevivente… Se não tivesse feito isso, muito provavelmente nunca saberíamos de detalhes sobre a história dessas mulheres. E, com isso, é inevitável pensar como muitos acontecimentos acabaram sendo perdidas por conta de um filtro discriminatório da História.⁣

“Enquanto eu corria o risco de morrer, era adequada à Força Aérea e à vida militar. Depois, com a paz, já não precisavam mais de mim.”

#DesafioBookster2020 | Setembro

Mês: Setembro⁣
Temática: Suspense e Thriller⁣
Livro escolhido: “Confissões”, de Kanae Minato⁣
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Um dos aspectos mais positivos do Desafio Bookster para mim é o incentivo à leitura de obras e gêneros que não costumo ler muito. Apesar de serem extremamente populares, os livros de suspense não aparecem com tanta frequência na minha lista de leituras. Tanto é verdade que eu nunca havia lido nada de Agatha Christie até esse ano… Mas o fato de eu não ler tanto, não significa que eu não goste do gênero. Pelo contrário: termino sempre me culpando por não ler mais (leitores e suas culpas, kkk). ⁣

Para o mês destinado ao suspense, preferi fugir das autoras mais conhecidas por mim (tem muita escritora sensacional!) e descobri um livro de uma autora japonesa que me chamou bastante a atenção – o que foi confirmado pelas avaliações positivas que li a seu respeito. Além da própria sinopse, também achei bem curioso que Kanae Minato começou a escrever meio ao acaso. Como consta no livro, a autora “é uma dona de casa e professora que escreveu Confissões entre uma tarefa e outra”. ⁣

“Confissões” fez um tremendo sucesso no Japão, tendo vendido mais de 3 milhões de exemplares. Na obra, acompanhamos a professora Yuko Moriguchi, que perdeu a sua filha em um evento trágico. Antes de pedir demissão, no entanto, a professora tem uma última lição para seus alunos, revelando que a filha foi morta por dois deles (e não por um acidente, como falavam). “Sua aula derradeira irá desencadear uma trama diabólica de vingança”. ⁣

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “E não sobrou nenhum”, de Agatha Christie; “Ladrão de cadáveres”, de Patrícia Melo; “A última festa”, de Lucy Foley; e “O homem de giz”, de C. J. Tudor; “Arquivos Serial Killers”, de Ilana Casoy e “Minha sombria Vanessa”, de Kate Russell.⁣⁣⁣

Anotações de um jovem médico, de Mikhail Bulgákov | Resenha

Quando recebi a notícia desse lançamento pela Editora 34, fiquei muito animado por dois motivos: o livro é do mesmo autor de “Mestre e Margarida”, uma obra que adorei (!), e tem com temática a profissão médica, um assunto que sempre me interessou! ⁣

Em “Anotações de um jovem médico”, o leitor vai se deparar com nove narrativas ficcionais que foram publicadas entre os anos de 1925 e 1926 em um jornal soviético destinado à área de medicina. E apesar de seu caráter ficcional, os textos têm uma forte origem autobiográfica, tendo em vista que Bulgákov se formou em medicina e exerceu a profissão por alguns anos. ⁣

Ao longo das narrativas, acompanhamos as experiências do Dr. Bomgard, um jovem médico recém-formado que é designado para trabalhar em um hospital muito pequeno no interior da Rússia – outra fato que também se assemelha com a própria história de vida do autor. Lá, o personagem é o único médico da cidade rural e, considerando a sua falta de experiências, enfrentará dificuldades e anseios no tratamento de seus novos pacientes. As doenças são as mais variadas e o médico precisa recorrer aos livros de medicina que encontra no local para conseguir se virar e não cometer qualquer fatalidade.⁣

E o cenário em que se passam as narrativas também é um dos grandes pontos da obra: uma cidadezinha do interior da Rússia, no início do século XX, povoada por mujiques (camponeses) simples e pobres, cuja qualidade de vida muito se difere da realidade nas grandes cidades da década de 20. É um cenário em que falta muito e o papel do médico local vai além de cuidar apenas das queixas físicas dos moradores.⁣

Enfim, recomendo muito! O autor consegue misturar de forma interessante as angústias do Dr. Bomgard com o seu dia a dia como médico naquele local. A escrita também é fluida e consegue transportar o leitor para um ambiente remoto e repletos de dificuldades.⁣

Ah, o livro serviu de inspiração para o seriado “A young Doctor’s notebook”, estrelado por Daniel Radcliffe.⁣

O quarto de Giovanni, de James Baldwin | Resenha

Ambientado em uma Paris boêmia da década de 50, o segundo romance de James Baldwin gira em torno da conflituosa relação entre David, um jovem norte-americano que tem uma namorada vivendo na Espanha, e Giovanni, um italiano que trabalha como garçom em um bar parisiense. ⁣

Se para Giovanni a sua orientação sexual é um ponto bem resolvido, David vive uma intensa experiência homossexual de forma angustiada e repleta de culpa. É uma constante batalha entre os seus próprios sentimentos e a necessidade de continuar levando a vida que tinha antes, ao lado da namorada Hella. ⁣

E o mais interessante do livro é como o autor consegue se aprofundar no psicológico do personagem principal, revelando esse sofrimento de alguém que não consegue se aceitar e como esse conflito pessoal acaba reverberando nas relações à sua volta. São as consequências do medo de amar livremente.⁣

Isso desperta diferentes emoções no leitor em relação a David, que vão desde uma certa raiva pelo seu constante egoísmo até uma compaixão pela intensidade de seus conflitos internos. São muitas emoções reprimidas que encontram no pequeno e simples quarto de Giovanni a possibilidade de serem colocadas para fora.⁣

Na época de sua publicação, em 1956, Baldwin foi criticado por ter deixado de escrever sobre a temática do racismo e passado a retratar uma relação homoafetiva entre dois personagens brancos. Em sua defesa, o autor explicou que a homossexualidade e o racismo eram temas tão espinhosos para aquela época que abordar os dois em um mesmo livro seria um grande obstáculo. Isso, com certeza, revela a coragem de Baldwin em publicar um romance tão profundo sobre a relação conturbada entre David e Giovanni.⁣

Nas 232 páginas lidas, a escrita é fluida e sensível, conseguindo atingir no leitor o forte impacto dos sentimentos vividos pelos personagens. Na verdade, pela profundidade da obra, o que a gente sente falta na obra é a existência de mais páginas para acompanhar esses tão bem desenvolvidos personagens…