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O livro das semelhanças, de Ana Martins Marques | Resenha

Para muitos, assim como para mim, a poesia pode assustar um pouco. Acho que é a nossa tendência de querer racionalizar tudo, compreender as palavras de uma forma palpável. E foi conversando com muitos apaixonados pela poesia aqui pelo @book.ster que passei a entender que a mágica desse gênero literário está justamente na possibilidade de não precisar compreender tudo de forma tão objetiva. A leitura pode ir muito mais solta, na direção das sensações.

É muito mais sobre o sentir do que sobre o compreender.

E depois de pedir muitas dicas de livros para iniciantes, acabei escolhendo esse livro incrível da autora mineira Ana Martins Marques – que me foi muito bem recomendado. E, realmente, a obra me permitiu desapegar dessa necessidade constante de racionalização de uma forma gradual, já que a autora tem uma linguagem mais acessível e constrói poemas menos “abstratos”. Tanto isso é verdade que logo na primeira parte, Ana nos leva para uma viagem poética por meio do objeto livro, por suas partes que nos são tão bem conhecidas. É lindo demais!

Ao final, senti que estava mais próximo da Poesia e com muita mais vontade de me tornar um companheiro rotineiro desse gênero que vem encantando gerações há tanto tempo.

Bora ler mais poesia? Para aonde devo continuar nesse meu caminho?

Persuasão, de Jane Austen | Resenha

Depois de muito ensaiar, finalmente li meu primeiro livro de um dos nomes mais importantes da literatura mundial. Jane Austen é conhecida por seus romances “mais românticos”, escritos no final do século XVIII e início do século XIX, e que trazem consigo uma visão feminista muito à frente do seu tempo.

Apesar de “Orgulho e preconceito” figurar como sua obra mais conhecida, resolvi começar por um dos seus outros romances. Em “Persuasão”, conhecemos Anne Elliot, uma inteligente personagem feminina que vive em uma Inglaterra mais rural e se apaixona por um capitão da marinha, Frederick Wentworth.

O mais interessante é a ironia que Austen se vale para construir os pensamentos da personagem, de forma que a complexidade de Anne vai muito além de sua paixão por um homem. A garota é uma jovem aristocrata que vive rodada de convenções sociais, em que o papel da mulher deve se limitar ao cuidado do marido e da casa, sempre se atentando à sua imagem perante à alta sociedade. Mas Anne sabe que a sua felicidade vai de encontro com essas convenções… É um questionamento constante (e sutil) que encontramos na escrita da autora.

No entanto, apesar de eu ter gostado bastante dessa característica da obra, senti que a experiência não foi tão boa quanto esperava. Ao longo da leitura, não consegui entrar muito na narrativa ou me conectar com os demais personagens (que não fossem Anne). A leitura ficava truncada em alguns momentos… Por conta do número alto de personagens e nomes de lugares e famílias, talvez teria sido melhor ler esse livro de uma só, sem ficar alternando com outras obras como fiz na época dessa leitura.

De toda forma, é sempre bom lembrar: se não gostei tanto da leitura, isso não quer dizer que você também não irá gostar! Tanto isso é verdade que, nesse caso, o livro é adorado por muitos leitores. Inclusive, terminei “Persuasão” com vontade de conhecer outros livros de Austen, confiando em melhores experiências com as futuras leituras!

As inseparáveis, de Simone de Beauvoir | Resenha

Escrito em 1954, “As inseparáveis” é um romance póstumo inédito no Brasil, e foi a minha primeira experiência lendo a memorável Simone de Beauvoir. A leitura tem como pano de fundo a amizade entre duas amigas, Sylvie e Andrée. Mas, na verdade, a autora criou essas duas personagens para escrever um romance sobre a sua própria história e de sua amiga Élisabeth Lacoin, a Zaza. “As inseparáveis” pode, portanto, ser classificado com um romance autobiográfico, em que há elementos de ficção (em maior ou menor grau) junto com um narrador que conta a sua própria historia, em primeira pessoa.

A história das duas garotas começa ainda na infância, quando Sylvie e Andrée se conhecem no colégio Desir, em Paris. A relação entre duas meninas tão diferentes acaba se desenrolando em uma amizade intensa e conflituosa, sobretudo em virtude dos contrastes na educação que cada uma recebe dentro de casa. Um contaste entre mulheres que aceitavam ou se opunham às imposições de uma sociedade conservadora e religiosa do início do século XX.

E é a partir das diferenças de pensamentos, e de como Sylvie se opunha aos pensamentos da conservadores da família de Andrée, que podemos ver pontos que posteriormente marcariam a filosofia da autora sobre as diferenças de gênero.

Além das questões mais ideológicas, o que temos nesse livro é uma narrativa sobre uma amizade marcante e que faz sofrer. A autora enfrenta angústias da sua infância e adolescência, passando por temas como primeiro amor, religião e a dificuldade do amadurecimento.

A edição conta com fotos de Simone e sua melhor amiga e cartas trocadas entre as duas amigas, além de um ótimo prefácio escrito pela filha da autora, Sylvie Le Bon de Beauvoir. Um romance curto, delicioso e que ficará marcado para leitor!

A fazenda dos animais, de George Orwell | Resenha

Fazer essa releitura foi marcante por alguns motivos. Em primeiro lugar, a mudança do título que marca a nova tradução feita por Paulo H. Britto para essa edição sensacional. Apesar de representar algo aparentemente pequeno em uma obra tão relevante, a mudança de “Revolução dos bichos” para “A fazenda dos animais” aproxima muito mais a obra do título original (“Animal farm”). Eu adorei a novidade, até porque quando vou ler um livro traduzido para o português, desejo ler a versão mais similar possível ao que a autora ou autor pretenderam criar para o leitor, sem contar que o título anterior teria sido escolhido para fazer parte de uma “propaganda anticomunista” do governo da época em que foi publicado (1964).

Superado esse ponto inicial, é inegável que a leitura desse livro no momento atual é bem pertinente e dialoga com problemas políticos e sociais que vivemos. Para quem não conhece a história por trás dessa obra, podemos resumir assim: depois de serem muito explorados, os animais da “Fazenda do Solar” se revoltam contra o seu dono e decidem instituir um “governo” dos animais, baseado em um sistema igualitário. A partir disso, a fazenda seria comandada apenas pelos bichos, sem qualquer tipo de privilégio. No entanto, com o tempo, as promessas de um sistema de igualdades acaba se afastando da realidade imposta por quem estava no comendo.

E o mais genial por trás da obra é que o autor conseguiu transmitir de forma simples e instigante assuntos de extrema relevância social. A história não passa de uma alegoria aos governos totalitários, em especial ao regime de Stalin na União Soviética.

Para mim, “A fazenda dos animais” tem um papel bem importante, já que foi uma das leituras responsáveis por despertar o meu gosto por livros! E se o meu primeiro contato já deixou tantas marcas, é incrível ver como tantos anos depois a leitura foi tão enriquecedora. A maturidade me permitiu refletir sobre diferentes questões e identificar uma crítica social mais latente.

Só elogios para essa edição em capa dura, com ilustrações lindas e um conteúdo de apoio riquíssimo! Leitura necessária!

A uruguaia, de Pedro Mairal | Resenha

Escrito pelo argentino Pedro Mairal, “A uruguaia” foi muito bem recebido pelos leitores brasileiros. A sinopse é um pouco atrapalhada e não revela muito do que vamos encontrar: Lucas, um escritor na casa dos 40 anos, precisa viajar ao Uruguai para resolver alguns problemas financeiros. Mas se a viagem tinha um objetivo meramente prático, o personagem aproveita a oportunidade e cogita se reencontrar com uma paixão proibida que viveu naquele país, quando foi convidado para um festival literário. Seu nome é Magali GUERRA.

A escrita é envolvente e, se valendo de idas e vindas temporais (flashbacks), Mairal consegue manter a atenção do leitor. Pelas ruas de Buenos Aires e – sobretudo – Montevidéu, acompanhamos um personagem sem muito ânimo com a vida, que se refugia nas lembranças de sua paixão proibida para continuar enfrentando os problemas de uma vida sem muitas conquistas recentes. O livro é curto e o desenrolar das cenas faz parte das surpresas que Mairal guarda para o leitor, o que me impede de descrever a narrativa com maiores detalhes.

Leituras rápidas e gostosas como essa ajudam a melhorar o ritmo de leitura e dão fôlego para o que vem pela frente… Não sei se é um livro que ficará muito marcado na cabeça, mas é inegável que ele me divertiu muito durante os momentos que passei com ele, revelando um autor competente e habilidoso na construção dos sentimentos de seus personagens! Recomendo!

Oleg, de Frederik Peeters | Resenha

Conhecido por seu sucesso com “Pílulas azuis”, em que conta a sua relação com uma mulher soropositiva, Peeters volta a publicar uma nova história em quadrinhos sobre experiências aparentemente pessoais. Se em “Pílulas azuis” encontramos um personagem bem jovem, em “Oleg” acompanhamos momentos de sua vida 20 anos depois: uma autobiografia do contemporâneo.

A narrativa é formada por pequenas crônicas sobre a vida de Oleg. Pai de uma adolescente e casado há anos, o personagem principal se vê em um momento de bloqueio criativo – autor de histórias em quadrinhos, não sabe sobre o que pode escrever. Durante essa crise profissional, vamos vivenciando ao lado de Oleg alguns questionamentos e insatisfações desse “pai de família”, aparentemente comum.

A partir de ilustrações muito expressivas e interessantes, o autor traz uma grande parte de diálogos entre o personagem e sua própria consciência. São reflexões muito atuais e que revelam angústia da sociedade contemporânea: como lidamos como a tecnologia e internet, como encaramos o papel que nossa profissão exerce em nossas vidas, como se relacionar com o outro e, até mesmo, como enfrentar o nosso principal medo de perder pessoas que amamos.

É uma HQ extremamente atual e cotidiana que apenas confirma que histórias em quadrinhos não são feitas apenas para crianças e adolescentes, mas podem trazer debates relevantes e pertinentes. Gostei muito e fiquei com uma baita vontade de conhecer o seu sucesso “Pílulas azuis”! Você encontra os dois livros pela @editoranemo. 

A imperatriz de ferro, de Jung Chang | Resenha

Considerada como uma das mulheres mais importantes da história da China, a imperatriz viúva Cixi governou o país por décadas. E é sobre a vida dessa polêmica governante, que morreu com mais de 70 anos, que a autora se debruça para apresentar ao leitor uma biografia completa e cheia de curiosidades.

Aos 16 anos, Cixi foi escolhida como uma das concubinas do imperador chinês. E é já nesse momento inicial que a história narrada chama a atenção do leitor, sobretudo pelas diferenças que marcavam a cultura e sociedade daquele país, no início do séc. XIX. Um verdadeiro choque de cultura, que muitas vezes me deixou bem incomodado com os costumes daquela época.

Com a morte do imperador, quem assume o trono é o filho que o governante teve com Cixi. Mas é a partir de um golpe político que a viúva consegue chegar ao poder, mesmo em um período em que o papel da mulher na sociedade era muito limitado.

E os próximos capítulos da história da imperatriz são bem conturbados, tendo Cixi se envolvido em sérias polêmicas que a deixaram com a fama de uma governante sanguinária. No entanto, a autora tenta desmistificar muito essa imagem criada sobre Cixi, a fim de garantir o seu papel merecido na História – que muitas vezes foram roubados das mulheres. O papel da mulher responsável por levar a China da Idade Média para a Idade Moderna.

Confesso que as partes da obra que descrevem os detalhes da rotina da imperatriz e dos demais que vivem a sua volta me deixaram muito mais interessado quando comparado com as partes dedicadas aos fatos políticos. De toda forma, fica clara a densidade da pesquisa da autora e a relevância de Cixi para a história da China. A edição também possui várias imagens sobre a vida da imperatriz e do país ao longo do século XIX. Para quem gosta de biografias mais extensas, essa é uma excelente escolha!