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Tudo é rio, de Carla Madeira | Resenha

“Tudo é rio” é surpreendente! E isso por diversos motivos. Em seu romance de estreia, a autora mineira revela uma escrita encantadora, entregando ao leitor uma obra poética, instigante e ardente. É uma narrativa simples e, ao mesmo, densa, que vai te deixar com vontade de sair marcando várias passagens.

Dalva e Venâncio formam um casal preenchido, em que a falta não é sentida. Mas é justamente a partir da chegada de mais um na vida desses dois, que uma tragédia acontece e os sentimentos mais conflituosos tomam conta de seus pensamentos. É como se apesar de completos, Venâncio – de forma doentia – não pudesse tolerar qualquer excesso.

E em paralelo, surge a figura de Lucy, uma prostituta que satisfaz e é atração dos homens da cidade. A mulher se gaba do prazer que sente com seus clientes e da capacidade de enfeitiçar um por um. A situação muda, no entanto, quando Lucy se vê ignorada e até mesmo rejeitada por Venâncio.

E é a partir da revelação do passado de cada um desses personagens que Carla Madeira vai criando uma narrativa com um ritmo impressionante. É no meio de sangue, sêmen, suor e lágrimas que o leitor se vê preso à correnteza das palavras da autora. São capítulos curtos, em que Lucy, Carla e Venâncio te impedem de parar.

Terminei a leitura com aquela vontade de sair falando para todo mundo: leiam “Tudo é rio”, leiam Carla Madeira! E, apesar de ser mera coincidência, publicar uma resenha nota 10 de uma obra escrita por autora nacional contemporânea em pleno dia da mulher só deixa mais evidente o quanto perdemos por conta de um mercado editorial que ainda resiste em valorizar escritoras brasileiras.

O conto da ilha desconhecida, de José Saramago | Resenha

Eita, falar de Saramago para mim não é fácil, porque sei que vou ficar lançando um elogio atrás do outro. E sempre que vou recomendar algum livro desse gênio para alguém, eu já faço um alerta: a leitura é densa e exige tempo. Tempo para aproveitar e digerir a habilidade que Saramago tem com as palavras e com a língua portuguesa. E quando me perguntam por qual livro começar, falo sem dúvidas: “O conto da ilha desconhecida”.

O livro é curtinho, um conto, e, por isso, não vai te demandar tanto (mas não duvide da sua profundidade). Conheço pessoas que começam a ler Saramago, se assustam com aquelas frases longas e acabam deixando de lado. Por isso, “O conto da ilha desconhecida” vai te “assustar” menos. Mas não é para ter medo das obras de Saramago, até porque elas não são difíceis… A forma como o autor usa – ou deixar de usar – a pontuação pode causar certa estranheza, mas o leitor se acostuma. Na verdade, como já falei, basta paciência e atenção! Se você conseguir seguir assim, a experiência é muito enriquecedora.

E como o livro é tão curto, fica difícil de falar muito sobre o seu enredo. É, como a própria sinopse indica, uma parábola do senho realizado. O sonho de um viajante que pede ao rei um barco para conseguir chegar até uma ilha desconhecida. Se a história é simples, você vai se surpreender com a sensibilidade da escrita e das mensagens por trás do desejo desse viajante. No final, o que essa ilha desconhecida representa em nossas vidas?

“Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós…”

Pão de açúcar, de Afonso Reis Cabral | Resenha

Com apenas 30 anos, o escritor português venceu o Prêmio Saramago com este livro que, de forma gradual, insere o leitor no cenário de um crime chocante e muito dolorido. O fato histórico sobre o qual o romance é construído é verídico: em 2006, Gisberta, uma transexual brasileira, foi torturada e morta por jovens, na cidade de Porto, em Portugal.

Pouco se sabe sobre o que teria motivado os jovens a cometer o assassinato e foi justamente a partir desse vácuo de informações que o autor, se valendo do seu frutífero imaginário, cria sua narrativa. É uma forma de tentar levar ao público um pouco mais da vida de Gisberta e, ao mesmo tempo, dar uma versão para a historia dos agressores, a partir da voz de Rafael.

E talvez o mais chocante é perceber que os agressores não passam de crianças, meninos que vivem semi abandonados em abrigos da cidade. Em nenhum momento o autor tenta justificar o ocorrido, mas o que faz é ao menos dar uma visão sobre a realidade vivida pelos garotos. Em Porto, é no esqueleto de um prédio abandonado que os jovens começam a criar uma relação com Gisberta, uma relação que oscila entre admiração e repulsa e termina de forma trágica. Confesso que os últimos capítulos são de difícil leitura por conta da crueldade que envolveu o crime…

Também vale dizer que, por ser escrito em “português de Portugal”, senti um pouco de estranheza nas primeiras 50 páginas, o que talvez até tenha dificultado a minha conexão com a leitura. Mas, ao poucos, me acostumei e logo passei a ficar muito ligado à conflituosa relação dos garotos com Gisberta, sofrendo por um final que já estava marcado nos jornais e na belíssima música gravada por Maria Bethania (“Balada de Gisberta”).

Além de permitir ao leitor uma experiência literária marcante, “Pão de Açúcar” também exerce um papel necessário na denúncia das consequências brutais que uma sociedade preconceituosa pode trazer para a vida de uma cidadã inocente e marginalizada. Gisberta vive nessas páginas.

Torto Arado, de Itamar Vieira Junior | Resenha

Não tenho dúvidas de que 2020 foi o ano do “Torto arado”. Vencedor de dois prêmios literários de extrema relevância (Prêmio Jabuti e Oceanos), o livro de Itamar também conquistou o gosto do público leitor. E com tanta crítica positiva sobre o livro, fica até difícil fazer comentários, seja pelo risco de ser repetitivo, seja pelo medo de fazer algum comentário que possa ir contra a opinião do público.

Por meio da voz das irmãs Bibiana e Belonísia, o autor constrói de forma sensível e humana a herança de um passado escravagista que perdura no território brasileiro, mais especificamente no sertão baiano. E quando a gente fala em dar “voz” às personagens, Itamar dá voz aos silenciados. Talvez seja esse o significado por trás da marcante cena que inaugura a narrativa e que vai perseguir os moradores de Água Negra: a mutilação de quem desde criança já está condenado à submissão social. É a mutilação pela memória.

Ao redor de Bibiana e Belonísia, outras vidas são apresentadas ao leitor. Histórias muito bem entrelaçadas por Itamar e que deixam clara a dureza da vida no sertão nordestino. Vive-se com muito pouco, porque não se pode ter mais. Deve-se obedecer para poder seguir vivo e manter viva a família. Se de um lado há poucos que se aproveitam dessa situações, são tantos aqueles que sofrem para sustentá-la. Todo esse cenário é acompanhado não só pelo leitor, mas também por Santa Rita Pescadeira, uma entidade que já há muito tempo compartilha o sofrimento desse povo cheio de fé.

Uma leitura fluida, mas que merece o seu próprio tempo para capturar tamanha densidade em poucas páginas. É refletir sobre a denúncia de uma sociedade que ainda é profundamente marcada pelo seu passado em que a escravidão era tolerada. Se depois de tanto tempo uma lei veio para proibir, será que a realidade realmente obedeceu a letra que mancha o papel?

Pachinko, de Min Jin Lee | Resenha

Do início dos anos 1900 na Coreia, até o final do século XX no Japão, Min Jin Lee nos apresenta a história das gerações de uma família coreana que precisou sobreviver à pobreza da região rural e à violência da ocupação japonesa no país. É o exemplo de uma, dentre as milhares de famílias de imigrantes coreanos no Japão que precisaram esconder suas origens por conta do preconceito. Nessa obra, a autora consegue mesclar de forma muito habilidosa a vida dos personagens com o contexto histórico em que estavam inseridos.

Ao longo da narrativa, senti que o enfoque era dado à perspectiva das personagens mulheres, que sofriam por conta de uma cultura machista, que as acorrentava nas obrigações de cuidar da casa e da família, deixando de lado a possibilidade de amar ou ser independente. No enredo, leitor se depara com a força que a cultura e a tradição exercem nas escolhas de uma pessoa e como as consequências dessa escolha podem ecoar por anos.

Dentre as personagens, Sunja tem um papel principal e acaba vivendo uma vida bem sofrida, repleta de obstáculos e perdas. Após se apaixonar por um homem casado, Sunja é obrigada a deixar a pequena cidade onde vive e aceita se casar com um pastor japonês. E é no Japão que a personagem tem que criar os filhos em meio ao preconceito diário contra os coreanos e à dificuldade de encontrar um lugar para chamar de casa. É o sentimento de se sentir constantemente um estranho no próprio lugar em que vive; uma sensação de não pertencimento.

A escrita da autora de origem coreana é muito fluida e consegue nos transportar para o ambiente em que se passa o romance. Senti falta de saber mais do destino de Sunja e de outros personagens marcantes na parte final do livro, já que a autora acabou focando mais nos personagens secundários e deixou histórias “incompletas”. Mas isso também pode ter sido proposital por parte de Min Jin Lee, que buscava demonstrar como os “personagens principais” acabam perdendo sua importância ao longo dos anos e da vinda das novas gerações.

Super recomendado por Obama, Oprah e agora também pelo – muito menos importante – Bookster!?

O lobo da estepe, de Herman Hesse

A primeira leitura de 2021 já começou muito marcante para mim. Como comentei com vocês, fazia algum tempo que não me identificava tanto com um livro. Já era um grande fã de Hesse depois de ter lido “Sidarta” e “Knulp” e, depois de “O lobo da estepe”, talvez possa falar que o autor está no meu top 10 de escritores favoritos.

Nessa obra, Hesse apresenta ao leitor a história de Harry Haller, um homem na faixa dos 50 anos que vive crises existenciais, e é por meio dos diálogos internos do protagonista que o autor, influenciado pela psicanálise, traz reflexões interessantíssimas sobre a condição humana.

No começo da narrativa, nos deparamos com um Harry cansado da vida e que, constantemente, é acometido por pensamentos suicidas. Esse estado psicológico do personagem deixa o começo da leitura até mesmo mais parada_ talvez tenha sido algo intencional, a fim de refletir a melancolia de Harry_, mas um acontecimento pouco inusitado em sua vida coloca o personagem de frente com “O tratado do lobo da estepe” e com novas amizades que trarão uma vontade de viver a Harry. É a partir desse momento que a narrativa se desenrola de forma extraordinária!

Há, também, uma crítica constante à hipocrisia que recai muitas vezes sobre a classe burguesa. Isso porque o protagonista tece diversos comentários contra a burguesia, esquecendo, por sua vez, que ele mesmo se enquadra como uma luva nessa faixa social.

Achei interessante que, no posfácio da obra, o autor avisa que leitores mais próximos da meia idade tendem a se identificar ainda mais com os pensamentos do personagem. Se eu já me identifiquei muito, fiquei com vontade de fazer uma releitura daqui a 20 anos. Com certeza as reflexões serão diferentes e mais profundas! Recomendo muitíssimo!

A terceira vida de Grange Copeland, de Alice Walker | Resenha

Apesar de ser conhecida mundialmente por “A cor púrpura”, premiado romance que denunciou de forma impactante o racismo e machismo no sul dos Estados Unidos, Alice Walker tem uma ampla produção literária. No entanto, temos poucos de seus trabalhos publicados no Brasil e, por isso, a publicação de seu primeiro romance, “A terceira vida de Grange Copeland” (1970), foi recebida com muito entusiasmo – e, para alegria dos leitores, com uma crítica muito positiva.

Confesso que comecei a leitura com não tão altas expectativas, até porque tinha gostado muito de “A cor púrpura” e sabia que outro livro da autora dificilmente poderia superá-lo. A narrativa perpassa três gerações de uma família no sul dos Estados Unidos. Grange Copeland trabalha e depende da terra, que pouco tem a lhe oferecer. E cansado dessa pobreza e da falta de oportunidade para os negros, decide seguir rumo ao norte, deixando tudo – e todos – para trás. Mas a história se repete e, diferentemente do esperado, Copeland não encontra uma vida melhor. Diante disso, resolve retornar ao seu antigo “lar”, onde se depara com o pouco que restou de sua família.

É um cenário de extrema pobreza e repleto de violência. Copeland enxerga em seu filho, Brownfield, as consequências de uma violência que sempre vivenciou. A constante submissão vivida pelas mulheres e filhos nesse cenário é revoltante. A estrutura de poder que vai resistindo às gerações continua deixando marcas – às vezes fatais – em quem está por baixo.

E para construir esse enredo, Alice Walker se vale de uma escrita crua e capaz de transmitir ao leitor a brutalidade física e psicológica vivida pelos mais frágeis. Eu gostei muito do livro e me envolvi bastante com os personagens. Uma das partes que mais me marcou foi, no meio de tanta tristeza, a humanidade na relação de amizade nutrida entre Copeland e sua neta, filha de Brownfield. Isso mostra como a autora conhece sobre o ser humano e sobre a nossa necessidade de criar vínculos e afetos. Vale muito a pena a leitura!