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Pachinko, de Min Jin Lee | Resenha

Do início dos anos 1900 na Coreia, até o final do século XX no Japão, Min Jin Lee nos apresenta a história das gerações de uma família coreana que precisou sobreviver à pobreza da região rural e à violência da ocupação japonesa no país. É o exemplo de uma, dentre as milhares de famílias de imigrantes coreanos no Japão que precisaram esconder suas origens por conta do preconceito. Nessa obra, a autora consegue mesclar de forma muito habilidosa a vida dos personagens com o contexto histórico em que estavam inseridos.

Ao longo da narrativa, senti que o enfoque era dado à perspectiva das personagens mulheres, que sofriam por conta de uma cultura machista, que as acorrentava nas obrigações de cuidar da casa e da família, deixando de lado a possibilidade de amar ou ser independente. No enredo, leitor se depara com a força que a cultura e a tradição exercem nas escolhas de uma pessoa e como as consequências dessa escolha podem ecoar por anos.

Dentre as personagens, Sunja tem um papel principal e acaba vivendo uma vida bem sofrida, repleta de obstáculos e perdas. Após se apaixonar por um homem casado, Sunja é obrigada a deixar a pequena cidade onde vive e aceita se casar com um pastor japonês. E é no Japão que a personagem tem que criar os filhos em meio ao preconceito diário contra os coreanos e à dificuldade de encontrar um lugar para chamar de casa. É o sentimento de se sentir constantemente um estranho no próprio lugar em que vive; uma sensação de não pertencimento.

A escrita da autora de origem coreana é muito fluida e consegue nos transportar para o ambiente em que se passa o romance. Senti falta de saber mais do destino de Sunja e de outros personagens marcantes na parte final do livro, já que a autora acabou focando mais nos personagens secundários e deixou histórias “incompletas”. Mas isso também pode ter sido proposital por parte de Min Jin Lee, que buscava demonstrar como os “personagens principais” acabam perdendo sua importância ao longo dos anos e da vinda das novas gerações.

Super recomendado por Obama, Oprah e agora também pelo – muito menos importante – Bookster!?

O lobo da estepe, de Herman Hesse

A primeira leitura de 2021 já começou muito marcante para mim. Como comentei com vocês, fazia algum tempo que não me identificava tanto com um livro. Já era um grande fã de Hesse depois de ter lido “Sidarta” e “Knulp” e, depois de “O lobo da estepe”, talvez possa falar que o autor está no meu top 10 de escritores favoritos.

Nessa obra, Hesse apresenta ao leitor a história de Harry Haller, um homem na faixa dos 50 anos que vive crises existenciais, e é por meio dos diálogos internos do protagonista que o autor, influenciado pela psicanálise, traz reflexões interessantíssimas sobre a condição humana.

No começo da narrativa, nos deparamos com um Harry cansado da vida e que, constantemente, é acometido por pensamentos suicidas. Esse estado psicológico do personagem deixa o começo da leitura até mesmo mais parada_ talvez tenha sido algo intencional, a fim de refletir a melancolia de Harry_, mas um acontecimento pouco inusitado em sua vida coloca o personagem de frente com “O tratado do lobo da estepe” e com novas amizades que trarão uma vontade de viver a Harry. É a partir desse momento que a narrativa se desenrola de forma extraordinária!

Há, também, uma crítica constante à hipocrisia que recai muitas vezes sobre a classe burguesa. Isso porque o protagonista tece diversos comentários contra a burguesia, esquecendo, por sua vez, que ele mesmo se enquadra como uma luva nessa faixa social.

Achei interessante que, no posfácio da obra, o autor avisa que leitores mais próximos da meia idade tendem a se identificar ainda mais com os pensamentos do personagem. Se eu já me identifiquei muito, fiquei com vontade de fazer uma releitura daqui a 20 anos. Com certeza as reflexões serão diferentes e mais profundas! Recomendo muitíssimo!

A terceira vida de Grange Copeland, de Alice Walker | Resenha

Apesar de ser conhecida mundialmente por “A cor púrpura”, premiado romance que denunciou de forma impactante o racismo e machismo no sul dos Estados Unidos, Alice Walker tem uma ampla produção literária. No entanto, temos poucos de seus trabalhos publicados no Brasil e, por isso, a publicação de seu primeiro romance, “A terceira vida de Grange Copeland” (1970), foi recebida com muito entusiasmo – e, para alegria dos leitores, com uma crítica muito positiva.

Confesso que comecei a leitura com não tão altas expectativas, até porque tinha gostado muito de “A cor púrpura” e sabia que outro livro da autora dificilmente poderia superá-lo. A narrativa perpassa três gerações de uma família no sul dos Estados Unidos. Grange Copeland trabalha e depende da terra, que pouco tem a lhe oferecer. E cansado dessa pobreza e da falta de oportunidade para os negros, decide seguir rumo ao norte, deixando tudo – e todos – para trás. Mas a história se repete e, diferentemente do esperado, Copeland não encontra uma vida melhor. Diante disso, resolve retornar ao seu antigo “lar”, onde se depara com o pouco que restou de sua família.

É um cenário de extrema pobreza e repleto de violência. Copeland enxerga em seu filho, Brownfield, as consequências de uma violência que sempre vivenciou. A constante submissão vivida pelas mulheres e filhos nesse cenário é revoltante. A estrutura de poder que vai resistindo às gerações continua deixando marcas – às vezes fatais – em quem está por baixo.

E para construir esse enredo, Alice Walker se vale de uma escrita crua e capaz de transmitir ao leitor a brutalidade física e psicológica vivida pelos mais frágeis. Eu gostei muito do livro e me envolvi bastante com os personagens. Uma das partes que mais me marcou foi, no meio de tanta tristeza, a humanidade na relação de amizade nutrida entre Copeland e sua neta, filha de Brownfield. Isso mostra como a autora conhece sobre o ser humano e sobre a nossa necessidade de criar vínculos e afetos. Vale muito a pena a leitura!

Anjo negro, de Nelson Rodrigues | Resenha

Já li muitos comentários sobre a força e crueza características das obras de Nelson Rodrigues, e a leitura de “Anjo Negro” serviu para confirmar essa visão. A peça ficou censurada por dois anos, entre o período de 1946 a 1948, diante da forma polêmica com que o autor tratava temáticas sensíveis em sua narrativa, tais como racismo, relacionamento abusivo e incesto.

Os personagens principais da peça são Ismael e Virgínia. O principal conflito que marca a história do casal é a cor da pele de cada um. Ismael nunca conseguiu aceitar o fato de ter nascido negro. Vive buscando aprovações da sociedade, tendo inclusive escolhido uma profissão com o único objetivo de ter reconhecimento das pessoas que estavam a sua volta.

Já Virgínia, uma mulher loira e branca, sofre diariamente nas mãos de Ismael por ter nascido com uma característica que o marido sempre quis e invejou. Ismael isola a esposa do mundo, como se não quisesse que Virgínia soubesse que existiam homens brancos que pudessem levá-la a algum tipo de tentação. É uma vida repleta de sofrimentos…

E essa diferença entre os personages traz efeitos devastadores em suas vidas, sobretudo em relação aos filhos do casal que acabam sempre morrendo depois de algum tempo. Na verdade, o início da peça já é mercado por uma triste cena do velório de uma dessas crianças. Mas o cenário trágico em que vive o casal é agravado por uma visita inesperada de Elias, irmão de Ismael. A partir disso, a história passa a tomar outros contornos, que acabam agravado mais o atrito entre Ismael e Virgínia.

Como já antecipei, a escrita é crua e gera um tremendo incômodo no leitor. Se hoje a narrativa já é considerada polêmica, é difícil imaginar a repercussão que teve na época de sua publicação, em 1948. E essa minha primeira experiência com Nelson Rodrigues já conseguiu me deixar com vontade de conhecer mais dessa escrita potente e que escancara atritos da nossa sociedade.

PS: O livro pode conter gatilhos de estupro e relacionamentos abusivos.

O amante, de Marguerite Duras | Resenha

Em pouco mais de 120 páginas, a obra publicada em 1984 – e que levou o Prêmio Goncourt no mesmo ano – marcou a literatura mundial e colocou Duras como um dos principais nomes da literatura francesa.

No livro, a palavra “amante” que estampa o título foge do conceito que estamos acostumados a ouvir. Não se trata de uma traição, mas sim de uma relação amorosa, é o amante como aquele que ama. E os amantes criados pela autora formam um casal pouco provável – e pouco aceito pela sociedade da Indochina pré-guerra, ainda colônia da França. Na verdade, os personagens não são totalmente criados por Duras, já que a obra revela uma carga autobiográfica, com semelhanças do passado da autora.

De um lado, temos uma jovem francesa. De outro, um rico comerciante chinês. É uma relação que esbarra no preconceito contra o oriental, por parte da família europeia da garota, e na diferença de idade entre os dois amantes. Ao mesmo tempo, senti até mesmo uma dúvida sobre os reais sentimentos dos personagens, o que realmente é amor ou apenas uma vontade de transgredir regras sociais.

E não se engane pelas poucas páginas que compõem o livro. A leitura é densa, sobretudo pelas mudanças narrativas que a autora faz durante as páginas. Isso demanda uma atenção maior do leitor, um tempo maior para aproveitar a escrita direta e envolvente de Duras. Vale a leitura!

#DesafioBookster2020 | Dezembro

Mês: Dezembro
Temática: Biografia
Livro escolhido: “A imperatriz de ferro”, de Jung Chang

Booksters, chegamos na última categoria do Desafio Bookster 2020! Foram TANTAS leituras boas esse ano que fiz por conta do desafio, que só tenho a agradecer quem entrou nessa comigo! Lembrando que para 2021, vai ter novidade MUITO LEGAL!!!!! Se preparem, sério… Já separem um livro por mês para ler comigo!

Não sou o maior fã de biografias e, quando leio, gosto das obras mais romanceadas. Por isso, pesquisei muito antes de escolher o livro desse mês. Ainda que não seja uma biografia tão romanceada, ela traz a história de uma mulher pouco conhecida no ocidente e foi escrita por uma autora muito renomada por suas obras.

O livro é “A imperatriz de ferro”, de Jung Chang. Do fim do século XIX até o começo do século XX, Cixi foi a mulher mais importante da história da China, responsável por levar o país da era medieval até a era moderna. Aos 16 anos, ela foi escolhida numa seleção nacional para ser uma das concubinas do imperador. Após a morte dele, é o filho que teve com o imperador, de apenas 5 anos de idade, quem assume o trono. Mas Cixi organiza um golpe contra os regentes e passa a comandar a China.

Cixi governou durante décadas, e Jung Chang mostra como ela lutou para modernizar o país, implementando atributos de um Estado moderno, construindo fábricas e ferrovias, levando a eletricidade para a China e promovendo, também, o reconhecimento dos direitos das mulheres. A biografia desmistifica a visão de que Cixi era uma déspota sanguinária e conservadora, e foi baseada em documentos que vieram à público recentemente.

Herdeiras do mar, de Mary Lynn Bracht | Resenha

Uma das maiores surpresas do ano, a obra é, em parte, ambientada na Coréia sob ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial – um período que conhecia muito pouco.

Hana, a personagem principal, nasceu em uma comunidade de mulheres que seguem uma tradição muito antiga, que remonta ao ano 434. Desde criança , as meninas aprendem a mergulhar no mar e retirar dali a sua fonte de sobrevivência. As mulheres são chamadas de “haenyeo”, as mulheres do mar. Confesso que nunca havia escutado a história das “haenyeo”, mas fiquei muito impressionado em ver como a tradição segue por tantos anos e a forma de organização dessa sociedade semi-matriarcal.

Mas apesar de estar destinada a seguir a mesma vida que sua mãe e avó viveu, Hana é capturada pelo exército japonês. A partir disso, a personagem encara um período triste e violento em sua vida. Isso porque, a personagem foi capturada para servir como uma “mulher de consolo”, a serviço dos soldados em bordéis, o que foi uma realidade muito comum durante a ocupação japonesa na Coréia.

A leitura é muito sofrida, muito mesmo. Mas mesmo assim a história e a força da personagem mantém o leitor nas páginas que estão por vir. Em algumas passagens precisei parar um pouco e recuperar o fôlego. E o mais triste é saber que até hoje as sobreviventes desse período tão sofrido lutam para que os crimes sejam reconhecidos pelo governo Japonês.

Em paralelo à história de Hana, a autora traz para o presente a narrativa de Emiko, irmã de Hana e que nunca soube o que realmente aconteceu após a captura pelo exército japonês. É uma busca por uma mínima verdade do passado…

O sofrimento das “mulheres consolo” me marcou muito e me deixou com a historia de Hana por muito tempo em minha cabeça. Apesar disso, a leitura é muito interessante, pois retrata momentos da história pouco divulgados ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa envolvente e com personagens bem desenvolvidas. Recomendo demais!