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O peso do pássaro morto, de Aline Bei | Resenha

A leitura desse livro de pouco mais de 150 páginas chamou muito a minha atenção… e por vários motivos. Em primeiro lugar, pela forma como ele é escrito: um “romance em versos”, uma narrativa extremamente poética e que utiliza do próprio espaço daquela página, inicialmente em branco, para construir a sua história. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em segundo lugar, pela temática abordada: a perda. Acompanhamos a trajetória de uma protagonista sem nome, em diferentes fases da sua vida, que vão desde os 8 até os 52 anos de idade. É uma história repleta de perdas, com a certeza de que o presente é o que temos, o passado deixa saudades e que o futuro é assustadoramente imprevisível.
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Além disso, me chamou atenção também a idade da autora. No começo de seus trinta anos, Aline Bei consegue despertar reflexões no leitor, tratando de temas que exigem uma sensível e tocante maturidade – normalmente atribuída a alguém que já viveu muitos anos e muitas perdas. Algumas passagens me deixaram com uma sensação de que a autora poderia ter ido mais fundo, desenvolvido mais aquele momento vivido pela protagonista, mas isso é só um detalhe: a obra é muito impactante e realmente nos faz sentir – seja raiva, tristeza ou compaixão – enquanto os versos são lidos. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Por fim, me impressionou muito o fato de esse ser o romance de estreia de Bei. “O peso do pássaro morto” já foi ganhador de relevantes prêmios literários, mas o maior presente que ele nos dá é a certeza de que estamos acompanhando apenas o início de uma carreira que tem muita coisa boa a nos apresentar!
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“entendendo que o tempo
sempre leva
as nossas coisas preferidas no mundo
e nos esquece aqui
olhando pra vida
sem elas”

O que acharam da resenha?

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Silêncio, de Shusaku Endo | Resenha

Publicado em 1966 e vencedor do Prêmio Tanizaki (um dos principais prêmios literários do Japão), “Silêncio” é uma ficção histórica envolvente e que conseguiu me transportar para um período da História pouco conhecido, mas extremamente interessante: a ida de jesuítas europeus, principalmente portugueses, para tentar levar a fé cristã à população japonesa.

O enredo tem enfoque na vida de Sebastião Rodrigues, um missionário português que é enviado ao Japão para fortalecer a atuação da igreja no país. Nos últimos anos, a religião cristã estava sendo alvo de uma batalha do governo japonês contra o avanço das ideologias ocidentais, promovendo perseguições contra japoneses que haviam se convertido para o catolicismo e contra os próprios jesuítas missionários. Rodrigues também vai com a função de investigar a história de Ferreira, um padre jesuíta que supostamente teria cometido apostasia, isto é, renunciado à sua fé por conta da repressão japonesa. A igreja não conseguia acreditar nessa informação: um cristão deveria resistir a todo tipo de pressão e tortura e nunca abrir mão de sua fé.

Com a chegada de Rodrigues em território japonês, os missionários encontram populações de cristãos servos e pobres, que precisam se esconder para poder praticar sua fé. Quem é encontrado pelo governo é preso, torturado e, caso não aceite renunciar a fé, é até mesmo morto.

A partir disso, nos deparamos com um contraste fascinante entre ocidente e oriente, não só no que se refere a costumes e tradições, mas, principalmente, a crenças e à própria forma de enxergar uma religião. Assim, além de uma excelente ficção histórica, que às vezes pode conter passagens mais lentas, o livro traz questionamentos muito interessantes sobre o verdadeiro significado da fé e da crença.
Também achei legal saber que o autor tem uma forte relação com a temática da obra: Shusaku Endo é um japonês católico – como cerca de 1% da sociedade japonesa – que foi para o ocidente quando jovem para continuar seus estudos. Ou seja, o próprio autor vivenciou esses contrastes e soube transmitir isso para o seu leitor de forma notável!

E aé, alguem já leu?

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Lendo mais clássicos | Dica de leitura

A metamorfose”, de Franz KafKa, é inegavelmente um clássico: trata de sentimentos humanos atemporais. É a angústia e o desprezo sentidos por Gregor Samsa, um jovem caixeiro viajante que, de um dia para o outro, se vê transformado em um asqueroso inseto. São sensações de um personagem que vão muito além das páginas, atingindo o leitor e deixando uma marca que poucos livros conseguem deixar.

E pensar que, há três anos, até descobrir e ser influenciado por perfis literários nas redes sociais, eu era um leitor cheio de preconceitos literários. Um deles era justamente contra os clássicos. Tinha aquela ideia errada de que seriam livros antigos, difíceis de ler e meio enfadonhos (uma herança das leituras para o vestibular). Mas foi com a ajuda desses perfis literários – que muito inspiraram o @book.ster – que eu decidi sair da minha “zona de conforto” e criar coragem para conhecer um pouco das obras tão comentadas… E a certeza que eu tenho a cada dia mais é a seguinte: como eu estava perdendo tempo ao não ler os clássicos! Eles chegaram a essa categoria por um grande motivo: conseguem dialogar com o leitor, independentemente do momento em que foram escritos. São sempre atuais e nos revelam muito sobre o ser humano.
E com essa minha paixão cada vez maior pelos clássicos, não há como não ficar animado com uma nova editora como a @antofagica no mercado! Criada para reeditar os clássicos de uma forma mais ousada e atraente para o público jovem, a @antofagica escolheu “A metamorfose” para ser a primeira obra de seu catálogo. A edição está incrível: capa dura; ilustrações incríveis e fiéis às sensações causadas por Kafka; vários textos de apoio… E se as próximas edições continuarem nesse padrão, vou ter que abrir um grande espaço aqui na minha estante só para a @antofagica!

P.S.: A editora também produz um conteúdo muito interessante e bem feito sobre o universo da literatura no canal do YouTube. Corre lá para conferir!

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Rúdin, de Ivan Turguêniev | Resenha

Turguêniev foi o primeiro autor russo a se consagrar no ocidente e, por isso, suas obras costumam ser mais acessíveis. Inclusive, foi dele a primeira obra da literatura russa que li – “Pais e filhos” – e que logo entrou para a lista de livros favoritos da minha vida.

Depois dessa introdução, não preciso nem explicar por que de vez em quando aparece um livro dele por aqui!

Publicado em 1856, “Rúdin” foi o romance de estreia de Turguêniev e tem como objeto um tema que estava sendo abordado por outros autores da época: a construção do “homem supérfluo”. Esse termo foi utilizado para ilustrar a nova geração, marcada por jovens que iam para a Europa Ocidental para estudar, voltavam para a Rússia com vontade de fazer mudanças, mas se viam impossibilitados pelo governo do Tsar Nicolau I. O “homem supérfluo” é, portanto, o homem das ideias, o idealista que não consegue colocar em prática as suas ideias.

E nesse livro, o conceito do homem supérfluo está em Rúdin, o personagem principal, que passa a frequentar um círculo fechado de aristocratas rurais, causando sensações diferentes em cada um dos demais personagens. Nos deparamos com uma senhora rica e proprietária de terras; uma filha romântica e sentimental; um criado que quer agradar a patroa a todo custo; um amigo da família que causa repulsa com seus discursos machistas, e por aí vai. Os diálogos construídos pelo autor entre os personagens são muito inteligentes e com um toque recorrente de humor.

Por isso, a despeito de um enredo simples, o livro traz um excelente retrato da sociedade russa da época e desperta reflexões interessantes no leitor. E é nesse momento que percebemos o quanto são atuais as angústias de Rúdin. A partir desta obra, questionamos a nossa utilidade para a coletividade e a força que os nossos propósitos podem desempenhar.

Alguém já leu, o que acharam?

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Cloro, de Alexandre Vidal Porto | Resenha

Narrado a partir de um “personagem defunto”, ao estilo machadiano de Brás Cubas, “Cloro” é sobre a vida de um advogado bem-sucedido e típico pai de família, mas que passou seus dias atormentado pela sombra da sua sexualidade. Constantino, o personagem principal da obra, só se sente à vontade para falar dessa temática depois que morre, possuído pela ideia de que não teria mais nada a perder.

Assim, conhecemos o narrador a partir de passagens de sua vida, em que Constantino vai identificando situações em que se viu obrigado a abrir mão de suas verdadeiras escolhas para manter a imagem que a sociedade esperava dele. Sua vida é o retrato de muitos outros indivíduos que diariamente renunciam de sua verdadeira identidade ou seus interesses, sejam eles quais forem, por conta de uma sociedade que discrimina e julga. Constantino deixa o seu “Eu” de lado para casar, ter filhos e poder cumprir o seu papel.
No entanto, apesar de aparentemente se enquadrar nesse modelo de cidadão ideal, Constantino, na verdade, não conseguia ser um pai presente ou bom marido. A sensação de falha o perseguia. Até que um dia, se viu no meio de uma triste tragédia familiar, que acabou afrouxando um pouco as mordaças que o impediam de ser quem ele é. O protagonista ganha um pouco de coragem, ao perceber que talvez a vida não deveria ser vivida para os outros, e passa a se aventurar, vivendo uma vida dupla. Mas por quanto tempo será que ele consegue levar isso adiante?

A escrita de Vidal Porto é de fácil leitura e temperada com um humor e cinismo que deixam a obra mais interessante. Por outro lado, senti falta de um maior aprofundamento na construção dos personagens. O enfoque se concentra muito mais nos fatos do que no próprio conflito interno do protagonista, por exemplo.

Apesar disso, é inegavelmente um bom livro, que prende o leitor e que toca em temas extremamente relevantes, sobretudo o sofrimento da comunidade LGBTQ em uma sociedade intolerante para com aqueles que fogem dos padrões. Recomendo!

Gostaram da resneha? Alguém já leu esse livro?

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#DesafioBookster2019 | Maio

Maio – Meio ambiente
Livro escolhido: “A estrada”, de Cormac McCarthy
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Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês e dar indicações de outros livros com a temática a ser abordada. Se você só chegou aqui agora, não tem problema! Comece o desafio a partir desse mês e busque aqui na página o post oficial para entender melhor como funciona.
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O tema do mês de maio foi um dos que trouxe mais dificuldades na hora de escolher a obra para a minha leitura. Talvez porque esse seja um tema de difícil abordagem em um livro de ficção. Fiz uma pesquisa mais aprofundada e logo a obra de McCarthy apareceu como uma das opções. E como eu nunca havia lido nada do autor norte americano e também não tinha lido muita coisa sobre “A estrada”, decidi que essa seria uma boa oportunidade de escolher um livro e um autor que eu tão pouco conhecia. Uma escolha um pouco no escuro…
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O pano de fundo para a narrativa é um meio ambiente devastado, típico de um cenário pós apocalíptico! “As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis”. Vamos acompanhar a trajetória de pai e filho, andando sem rumo e em busca da sobrevivência e salvação.
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Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática: “Vidas secas”, de Graciliano Ramos; “Não verás país nenhum”, de Ignácio Loyola Brandão, “As cidades invisíveis”, de Italo Calvino; “Grande sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa.
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E você, já escolheu sua leitura de maio?

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A cor púrpura, de Alice Walker | Resenha

Escrita por meio de cartas, a obra de Alice Walker é considerada uma das mais importantes da literatura norte-americana. Retratando a triste vida de Celie, uma mulher negra que nasceu em uma família pobre do sul dos Estados Unidos, a autora aborda temas de extrema relevância social, principalmente o difícil papel da mulher em uma sociedade opressora e patriarcal.
Desde a infância, Celie sofre abusos, tanto físicos como psicológicos. Essa violência contra a protagonista choca e incomoda o leitor e, logo nas primeiras páginas, já ficamos sabendo que, ainda criança, Celie fica grávida de seu próprio padrasto. Em uma situação de total desprezo à sua condição de ser humano, a personagem nem mesmo tem direito de ficar com seu filho. A única ideia de amor e afeto que Celie conhece vem de sua irmã, Nettie, cujo destino vai traçar caminhos distantes daqueles vividos pela protagonista.
E é a partir desse cenário que conhecemos as dificuldades vivenciadas por uma mulher nascida à margem da sociedade. Celie é tão humana que não há como não se comover com sua realidade e sentir vontade de tirá-la daquele ambiente tão violento. A construção da personagem é, realmente, incrível!
A escrita também é muito interessante e, para aproximar o leitor da realidade e da pobreza dos negros no sul dos EUA do começo do século XX, Walker se vale de uma linguagem extremamente coloquial. A gramática é deixada de lado e substituída pela oralidade e é o som das letras que constroem a mensagem de Celie.
Enfim, apesar de ser uma leitura impactante e que me causou muita indignação, terminei o livro com uma sensação de resistência e de perseverança de uma pessoa que enfrenta inúmeros problemas, mas que não desiste de seus objetivos – ainda que tão simples. É um clássico que merece ser lido e que nos desperta reflexões assustadoramente atuais.
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PS: Assisti ao filme depois e adorei!! ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
“Ele me bateu hoje porque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu podia tá cum uma coisa no olho, mas eu num pisquei. Eu nem olho prus home. Essa é que é a verdade. Eu olho pras mulher, sim, porque num tenho medo delas.”

Quero saber, alguém já leu? Se sim, o que acharam?

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