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Se a rua Beale falasse, de James Baldwin | Resenha

Considerado um dos grandes inovadores da literatura afro-americana nas décadas de 50/70, Baldwin cria uma romance carregado de reflexões sobre desigualdade social e racial. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O cerne da história é a relação de dois jovens, Fonny e Tish, que planejam um futuro juntos e em condições melhores, mas que precisam enfrentar uma sociedade que os discrimina por sua cor de pele e por sua condição social. O cenário é Harlem, um bairro do subúrbio de Nova Iorque, nos anos 70. Logo no início, o leitor recebe a notícia de que Fonny está preso, acusado de ter estuprado uma porto-riquenha, apesar da falta de provas nesse sentido. Tish, que carrega um filho de Fonny, passa a fazer de tudo para conseguir comprovar a inocência de seu companheiro. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A partir dessa situação, os capítulos passam a alternar entre o presente, com a luta pela libertação de Fonny, e o passado, por meio das memórias de Tish sobre o início de seu relacionamento com Fonny até os fatos que o levaram à prisão.
Ao longo da narrativa, fica nítida a dificuldade de se conseguir o acesso à justiça quando faltam recursos e quando se nasce em condições desfavoráveis. O desespero de Tish e de sua família é realmente comovente; todos passam a se esforçar ao máximo para conseguir, ao menos, pagar um advogado para Fonny. Por outro lado, a família do acusado pouco faz para ajudá-lo, criando até mesmo uma sensação incômoda no leitor: é a falta de afeto e humanidade naqueles que deveriam ser os primeiros a defendê-lo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É uma história sobre a condenação pela raça, de uma sentença sem defesa, em que o amor e a resistência podem ser as únicas armas para se defender. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Apesar de ser uma leitura muito fluida e prazerosa, com inúmeras referências a músicas de jazz e blues, confesso que senti um pouco de falta de maior aprofundamento nos personagens. O final também me pareceu um pouco abrupto, como se o autor tivesse pressa em finalizar a obra. De todo modo, recomendo a leitura, que me deixou com vontade de conhecer mais sobre as obras de Baldwin.
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“Não se podia comprar o tempo. A única moeda que o tempo aceitava era a vida.”

E aí, o que acharam? Alguém já leu?

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Escolhas da vez!

Demorei para fazer o post dos escolhidos de março, mas antes tarde do que nunca ! Costumo escolher as minhas leituras com base em quatro categorias: (1) clássico; (2) até 200 páginas; (3) autor contemporâneo/ ficção científica; e (4) não ficção/contos/poemas.
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Ou seja, escolho quatro livros e só vou começar um livro diferente depois que eu acabar a “leva” atual. Isso me tira da zona de conforto e me incentiva a ler obras de diferentes gêneros. Essa “técnica” também ajuda muito no ritmo da leitura, evitando que eu canse de alguma obra. E é importante dizer que eu não leio os 4 livros simultaneamente! Gosto de começar 2, e aí vou iniciando os próximos conforme finalizo as leituras, sem deixar nenhum de lado.
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Escolhas de vez (dessa vez acabei fugindo um pouco de uma das categorias, kkk):
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1 – Clássico: “Lavoura Arcaica”, Raduan Nassar – Livro incrível, de uma poética marcante! Já tem resenha aqui, então é só correr lá no último post para ler.
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2 – Até 200 páginas: “Se a rua Beale falasse”, James Baldwin – Escolhido da #leituraconjuntabookster ! Grande obra para conhecer um grande autor… Já quero partir para os próximos dele! ⠀

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3 – Autor contemporâneo: “Cloro”, Alezandre Vidal Porto – Estou no começo, mas já percebendo uma leitura bem fluida. O personagem principal está morto e a partir de suas memórias eles nos conta passagens importantes de sua vida e as dificuldades de esconder a sua homossexualidade em uma sociedade repressora.
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4 – Obra epistolar (em forma de cartas): “A cor púrpura”, Alice Walker – Estou quase terminando! Clássico da literatura americana, esse livro é pesado e, ao mesmo tempo, um exemplo de resistência humana.
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E vocês, estão lendo o que?

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar | Resenha

Raduan Nassar escreveu apenas dois romances em sua vida, já que desde 1984 decidiu parar de escrever e passou a se dedicar à vida no campo. Mas apesar de uma produção literária tão pequena em termos de páginas escritas, seu trabalho é tão impactante que deixa mais do que justificado o seu papel de destaque na literatura nacional. De fato, a leitura de Lavoura Arcaica deixa marcas no leitor e revela a invejável afinidade que Raduan tem com as palavras.
A obra, publicada em 1975, traz a história de André, nascido em uma família rural numerosa, mas que decidiu abandonar sua casa e se mudar para uma cidade do interior. No entanto, os motivos que o levaram a tomar essa decisão não são revelados logo de cara.

Já nas primeiras palavras, o leitor se deparada com um forte tom poético que vai estar presente ao longo de toda a obra. André é o narrador personagem e, logo nas primeiras cenas, somos apresentados ao seu irmão, Pedro, que faz uma visita para tentar convencê-lo a voltar para casa. A partir disso, os capítulos vão se alternando entre os diálogos dos irmãos com as memórias do autor, revelando, aos poucos, a fonte principal dos conflitos internos do personagem e que o levaram a decidir abandonar a família (paro por aqui, para evitar spoilers). Mas já adianto que é uma temática incômoda e que divide espaço com a escrita IMPECÁVEL de Raduan. A sensação é de que nenhuma palavra está lá por acaso.
Por fim, não dá para deixar de dizer que, apesar de encantadora, a escrita não é das mais fáceis. Além de se valer de inúmeras metáforas, o autor utiliza muito a técnica do fluxo de consciência. Ou seja, nos coloca nos pensamentos – confusos e não lineares – do narrador. Você inicia um capítulo e se vê atirado nesses pensamentos, que não terminam até o final do próximo capítulo (vários com apenas um ponto final!). Haja fôlego, mas o esforço é compensado por cada palavra lida.

Quero saber, alguém já leu esse livro? O que acharam?

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#DesafioBookster2019 | Abril

Abril – Intolerância religiosa
Livro escolhido: “Persépolis”, de Marjane Satrapi
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Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do #DesafioBookster2019 para esse mês e dar indicações de outros livros com a temática a ser abordada. Se você só chegou aqui agora, não tem problema! Comece o desafio a partir desse mês e busque aqui na página o post oficial para entender melhor como funciona.
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O escolhido foi um livro que já estava há um bom tempo pedindo para ser lido aqui em casa, principalmente diante das inúmeras recomendações positivas que eu recebi de vocês! E a escolha é um pouco diferente porque “Persépolis” é uma HQ, um livro em quadrinhos. Semana passado subi no YouTube um vídeo que fiz falando sobre “Maus”, uma HQ que havia acabado com um antiga ideia – ou até um certo preconceito literário – que eu tinha de que livros em quadrinho seriam mais juvenis e, portanto, não me interessariam. No entanto, “Maus” revelou o contrário e foi uma surpresa maravilhosa. Depois disso, já coloquei várias HQs na lista e “Persépolis” estava em primeiro lugar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A obra é uma autobiografia e traz a vida de Marjane, uma garota que com apenas 10 anos de idade se viu obrigada a usar o véu islâmico, dentro da sala de aula. Marjane assistiu ao início da revolução que transformou o país em uma república islâmica teocrática, sob o comando de um líder religioso. O problema é que a protagonista nasceu em uma família progressista e libertária e, por isso, passou a ter que seguir os preceitos religiosos contra a sua vontade. Uma obra que aborda a temática da imposição e intolerância religiosa a partir da perspectiva de uma jovem garota! Extremamente animado com essa leitura!
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Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática: “Infiel”, de Ayaan Hirsi Ali; “Hibisco Roxo”, de Chimamanda Adichie, “É isto um homem”, de Primo Levi; “Complô contra a América”, Philip Roth; “Submissão”, de Michel Houellebecq; “O diário de Anne Frank”, de Anne Frank; e “Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt, e “As montanhas de Buda”, Javier Moro.
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E você, já escolheu sua leitura de abril?

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Terra Sonâmbula, de Mia Couto | Resenha

Publicado em 1992, no mesmo ano em que teve fim a guerra civil moçambicana, o primeiro romance de Mia Couto é o relato da busca pela identidade de uma nação assolada pela guerra. Considerada uma das melhores obras da literatura africana do século XX, o cenário da narrativa é a terra árida e destruída, povoada por indivíduos sem memória ou perspectiva de vida. Com uma escrita extremamente poética e onírica, o autor consegue transmitir ao leitor a sensação de caos e abandono vivenciada por cada um dos personagens por ele construído. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A história tem início com as andanças – sem destino – de Muidinga, um jovem que esqueceu seu passado, e Tuahir, um velho sábio. Tentando fugir da guerra, os dois personagens se deparam com um ônibus queimado, repleto de corpos carbonizados. Próximo de um dos corpos, Muidinga descobre um diário e logo começa a lê-lo. O diário foi escrito por um jovem chamado Kindzu, que vivenciou por muitos anos a guerra civil que destruiu seu país. A partir disso, os capítulos vão se alternando entre, de um lado, a relação do garoto e do velho sábio, e, de outro, as aventuras de Kindzu.
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Ao longo de toda a obra, Mia Couto mistura de uma forma incrível a realidade com a fantasia. Na verdade, tanto para Muidinga e Tuahir, como para Kindzu, a fantasia e o sonho servem como uma fuga para a dura realidade em que vivem. Enquanto a leitura do diário pode levar o garoto e o velho para um outro cenário, em que a fome e a solidão não são nem mesmo sentidas, Kindzu sonha em ser um guerreiro lendário, como se isso pudesse dar um sentido à própria vida. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Nesse meio tempo, somos apresentados a novos personagens, alguns mais marcantes que outros, mas todos com uma mensagem a ser passada. A leitura não é fácil, com frases densas e repletas de figuras de linguagem, o que demanda uma atenção maior. O leitor deve se deixar levar pela imaginação poética de Mia Couto, sem se importar com o que é ou não real – se é que podemos fazer essa distinção. Só assim será possível perceber a excepcionalidade da obra que se tem nas mãos.

E aí, gostou?

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A mulher de pés descalços, de Scholastique Mukasonga | Resenha

Sobrevivente da guerra civil que assolou a Ruanda no começo da década de 90, Mukasonga escreveu alguns livros para relatar as atrocidades e sofrimentos que vivenciou. Em “A mulher de pés descalços”, a autora faz uma homenagem à sua mãe, Stefania, uma das vítimas do massacre do povo Tutsi. No entanto, apesar de tratar da violência sofrida pela etnia minoritária do país (em comparação com os Hutus, que correspondiam a mais de 90% da população), Mukasonga se concentra em reconstruir a figura de sua mãe a partir de suas memórias de infância relacionadas com as tradições do seu povo. Para isso, a autora transita entre temas como a figura da mulher nas relações familiares dos ruandeses, até detalhes culturais como moradia, alimentação e casamento.
A maior parte da narrativa se passa em Nyamata, uma cidade no sudeste da Ruanda, para onde a sua e outras famílias Tutsis foram deportadas na década de 60. O leitor aprende sobre a história do país e de seu povo por meio de uma escrita sensível e impactante.
Ao longo do livro também é possível identificar os impactos que a colonização trouxe para a vida dos ruandeses. Embora seja nítida a imposição dos costumes pelos colonizadores, uma parte das tradições consegue sobreviver e se adaptar à nova ideia de civilização. De fato, ao mesmo tempo que Stefania acreditava e conhecia “as plantas de bom augúrio”, não deixava de ir às missas católicas todos os domingos.
Ao se propor a refazer a memória de sua mãe, Mukasonga na verdade conseguiu refazer a memória de todo um povo e de milhares de mães da Ruanda, vítimas de um massacre assustador e que deixou suas marcas permanentes na história. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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“Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não entendia – para realizar aquilo que você me pediu. E estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.”

#DesafioBookster2019 | Março

Março – Feminismo
Livro escolhido: “A cor púrpura”, de Alice Walker
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Março é o mês do Dia Internacional da Mulher e, não por acaso, o tema do desafio escolhido para esse mês foi feminismo. Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha e dar indicações de outros livros com a temática a ser abordada. Se você só chegou aqui agora, não tem problema! Comece o desafio a partir desse mês e busque aqui na página o post oficial para entender como funciona.
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O escolhido foi “A cor púrpura”, uma das mais importantes obras da literatura norte-americana e mundial. Vencedor do Prêmio Pulitzer e já adaptado para o cinema, o livro é ambientado no sul dos EUA, começo do século XX, e retrata a vida de Celie, uma mulher negra e pobre. Além de sofrer em uma sociedade marcada por diferenças sociais, Celie também é mais uma vítima da desigualdade de gênero. Na infância, foi abusada pelo padrasto. Já adulta, vive presa a um relacionamento violento e abusivo. No entanto, como indica a sinopse, “apesar da dramaticidade de seu enredo, A cor púrpura se mostra muito atual e nos faz refletir sobre as relações de amor, ódio e poder”. É a leitura como meio de reflexão, como oportunidade de se colocar no papel do outro e aprender com a experiência. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática: “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins; “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf, “Vox”, de Christina Dalcher; “O feminismo é para todo mundo”, Bell Hooks; “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë; “O conto da aia”, de Margaret Atwood; “Calibã e a bruxa”, Silva Federeci; e “Mulheres, raça e classe”, de Angela Davis.