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A estrada, de Corman McCarthy

Sabe aquele livro que você não tem tanta vontade de ler, mas que depois acaba te surpreendendo muito? Então, essa foi a minha experiência com “A estrada”. A sinopse pode não ser das mais atraentes para mim: “Num futuro não muito distante, o planeta encontra-se totalmente devastado. (…) Um homem e seu filho não possuem praticamente nada. Apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras com poucos alimentos e um revólver com algumas balas (…)”. Parece até roteiro de um daqueles filmes de zumbis que passam à tarde na televisão. Mas a verdade é que o livro é muito bem escrito e vai muito além dessa camada superficial de um pai e um filho fugindo de assassinos.
O cenário é chocante: o planeta realmente está devastado. A descrição do ambiente é tão recorrente que, depois de algumas páginas, o ar repleto de cinzas e o céu turvo ficam em nossa imaginação ao longo da leitura. E o que mais me marcou foi o lado psicológico da obra: a relação entre pai e filho em uma situação de extremo abandono e falta de esperança. Apesar de ser escrito em 3ª pessoa, a sensação que temos é que, em alguns momentos, a obra passa a ser contada a partir da perspectiva do homem, e, em outros, passamos a acompanhar os desafios dos personagens do ponto de vista do menino.
Então, seja pela descrição das cenas, seja pelos diálogos curtos e diretos (às vezes até demais), a angústia do pai pela sobrevivência do filho impacta o leitor. Ao mesmo tempo, a coragem do garoto e o seu desejo de não ser abandonado pela última pessoa que lhe resta no mundo despertam a compaixão de quem lê a história.
Além disso, é engraçado que, embora possua um forte lado psicológico, os personagens chegam a ser “universais”. Tanto o homem como o menino não possuem nome, não têm uma personalidade muito peculiar e também não nos contam muito sobre seu passado. São duas pessoas, um garoto e um adulto, compartilhando os anseios e as dúvidas sobre um futuro incerto.

É tão boa essa sensação de ser surpreendido por uma leitura sobre a qual você não tinha muitas expectativas! .
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“You never know what worse luck your bad luck has saved you from.”

Todas as cores do céu, de Amita Trasi | Parceria Bookster

O cenário desta história é a Índia do final da década de 90, retratando a sua estrutura social dividida em castas e a submissão do povo indiano às suas tradições.
Mukta, protagonista da obra, nasce em uma casta de mulheres que, em respeito aos deuses, devem colocar seus corpos à disposição dos homens. Seu destino, portanto, já está traçado desde sua infância e, inevitavelmente, ela trabalhará como uma prostituta. Sendo assim, com pouco mais de 10 anos, Mukta deve passar por seu ritual de iniciação: a perda da virgindade. A beleza da personagem se destaca e isso pode garantir um espaço nos prostíbulos das grandes cidades.
Entretanto, Mukta tem a sorte de ser salva por um homem desconhecido, que a leva para morar junto com sua família. Lá, ela conhece Tara, a filha única da casa. A partir disso, as diferenças de castas entre as garotas entra em conflito com uma possível relação de amizade que tenta se desenvolver. Quando a situação parece melhorar, Mukta é sequestrada e retorna à vida a que as mulheres de sua casta devem se submeter.
A obra é narrada por Mukta e Tara, por meio de capítulos que vão se alternando e revelando a triste vida de Mukta e a luta de Tara para reencontrar a “irmã” que nunca teve. A leitura é fluida e a autora consegue traçar um retrato muito interessante da Índia contemporânea, marcada pela exploração do sistema das castas e a pobreza das grandes cidades. Durante a leitura, cheguei a me questionar em alguns momentos: Como algo tão absurdo pode acontecer nos dias atuais? A obra ainda desperta reflexões sobre a condição da mulher, a força da amizade e a possibilidade de manter a esperança mesmo nas situações mais desafiadoras.
Confesso que em algumas passagens senti que a autora se perdeu no enredo, focando, desnecessariamente, em alguns fatos e criando situações não tão verossímeis. Mas isso não tira a qualidade e importância da obra, que impacta o leitor ao mesmo tempo em que ensina sobre cultura e crenças bem peculiares. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
“A esperança é como um pássaro. Quer se manter em movimento, por mais que se tente aprisioná-la.”#publi

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#DesafioBookster2019 | Junho

Junho – LGBTfobia
Livro escolhido: “O fim de Eddy“, de Édouard Louis
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Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês e dar indicações de outros livros com a temática a ser abordada. Se você só chegou aqui agora, não tem problema! Comece o desafio a partir desse mês e busque aqui na página o post oficial para entender melhor como funciona.
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O tema de junho foi bastante discutido na semana passada, em que o Supremo Tribunal Federal formou a maioria a favor da votação para criminalizar a LGBTfobia. De acordo com os ministros que votaram, na falta de uma lei específica, a discriminação pela orientação sexual ou identidade de gênero deve ser equiparada ao crime de racismo.
O livro escolhido para o tema foi “O fim de Eddy”, uma autobiografia de um jovem autor francês contemporâneo. Desde criança, Édouard sofria pela dificuldade de se enquadrar em uma comunidade conservadora do interior da França. O autor cresceu tentando reprimir a sua orientação sexual, que não era aceita pela família e colegas.
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“Todas as manhãs, enquanto me arrumava no banheiro, eu repetia a mesma frase sem parar, tantas vezes que ela terminaria por perder o sentido, passaria a não ser mais do que uma sucessão de sílabas, de sons. Eu parava e retomava a frase: Hoje eu vou ser um durão. (…) Hoje eu vou ser um durão (e eu choro enquanto escrevo estas linhas: choro porque eu acho essa frase ridícula e horripilante, essa frase que, durante anos, me acompanhou e que de certa forma ocupou, não creio que haja exagero em dizer isso, o centro da minha vida).”⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática: “Fun home: uma tragicomédia em família”, de Alison Bechdel; “O quarto de Giovanni”, de James Baldwin, “Fabián e o caos”, de Pedro Juan Gutiérrez; “Amora”, Natália Polesso; “Devassos no paraíso”, de João Silvério Trevisan; e “O que te pertence”, de Garth Greenwell.
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E você, já escolheu sua leitura de junho?

O peso do pássaro morto, de Aline Bei | Resenha

A leitura desse livro de pouco mais de 150 páginas chamou muito a minha atenção… e por vários motivos. Em primeiro lugar, pela forma como ele é escrito: um “romance em versos”, uma narrativa extremamente poética e que utiliza do próprio espaço daquela página, inicialmente em branco, para construir a sua história. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em segundo lugar, pela temática abordada: a perda. Acompanhamos a trajetória de uma protagonista sem nome, em diferentes fases da sua vida, que vão desde os 8 até os 52 anos de idade. É uma história repleta de perdas, com a certeza de que o presente é o que temos, o passado deixa saudades e que o futuro é assustadoramente imprevisível.
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Além disso, me chamou atenção também a idade da autora. No começo de seus trinta anos, Aline Bei consegue despertar reflexões no leitor, tratando de temas que exigem uma sensível e tocante maturidade – normalmente atribuída a alguém que já viveu muitos anos e muitas perdas. Algumas passagens me deixaram com uma sensação de que a autora poderia ter ido mais fundo, desenvolvido mais aquele momento vivido pela protagonista, mas isso é só um detalhe: a obra é muito impactante e realmente nos faz sentir – seja raiva, tristeza ou compaixão – enquanto os versos são lidos. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Por fim, me impressionou muito o fato de esse ser o romance de estreia de Bei. “O peso do pássaro morto” já foi ganhador de relevantes prêmios literários, mas o maior presente que ele nos dá é a certeza de que estamos acompanhando apenas o início de uma carreira que tem muita coisa boa a nos apresentar!
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“entendendo que o tempo
sempre leva
as nossas coisas preferidas no mundo
e nos esquece aqui
olhando pra vida
sem elas”

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Silêncio, de Shusaku Endo | Resenha

Publicado em 1966 e vencedor do Prêmio Tanizaki (um dos principais prêmios literários do Japão), “Silêncio” é uma ficção histórica envolvente e que conseguiu me transportar para um período da História pouco conhecido, mas extremamente interessante: a ida de jesuítas europeus, principalmente portugueses, para tentar levar a fé cristã à população japonesa.

O enredo tem enfoque na vida de Sebastião Rodrigues, um missionário português que é enviado ao Japão para fortalecer a atuação da igreja no país. Nos últimos anos, a religião cristã estava sendo alvo de uma batalha do governo japonês contra o avanço das ideologias ocidentais, promovendo perseguições contra japoneses que haviam se convertido para o catolicismo e contra os próprios jesuítas missionários. Rodrigues também vai com a função de investigar a história de Ferreira, um padre jesuíta que supostamente teria cometido apostasia, isto é, renunciado à sua fé por conta da repressão japonesa. A igreja não conseguia acreditar nessa informação: um cristão deveria resistir a todo tipo de pressão e tortura e nunca abrir mão de sua fé.

Com a chegada de Rodrigues em território japonês, os missionários encontram populações de cristãos servos e pobres, que precisam se esconder para poder praticar sua fé. Quem é encontrado pelo governo é preso, torturado e, caso não aceite renunciar a fé, é até mesmo morto.

A partir disso, nos deparamos com um contraste fascinante entre ocidente e oriente, não só no que se refere a costumes e tradições, mas, principalmente, a crenças e à própria forma de enxergar uma religião. Assim, além de uma excelente ficção histórica, que às vezes pode conter passagens mais lentas, o livro traz questionamentos muito interessantes sobre o verdadeiro significado da fé e da crença.
Também achei legal saber que o autor tem uma forte relação com a temática da obra: Shusaku Endo é um japonês católico – como cerca de 1% da sociedade japonesa – que foi para o ocidente quando jovem para continuar seus estudos. Ou seja, o próprio autor vivenciou esses contrastes e soube transmitir isso para o seu leitor de forma notável!

E aé, alguem já leu?

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Lendo mais clássicos | Dica de leitura

A metamorfose”, de Franz KafKa, é inegavelmente um clássico: trata de sentimentos humanos atemporais. É a angústia e o desprezo sentidos por Gregor Samsa, um jovem caixeiro viajante que, de um dia para o outro, se vê transformado em um asqueroso inseto. São sensações de um personagem que vão muito além das páginas, atingindo o leitor e deixando uma marca que poucos livros conseguem deixar.

E pensar que, há três anos, até descobrir e ser influenciado por perfis literários nas redes sociais, eu era um leitor cheio de preconceitos literários. Um deles era justamente contra os clássicos. Tinha aquela ideia errada de que seriam livros antigos, difíceis de ler e meio enfadonhos (uma herança das leituras para o vestibular). Mas foi com a ajuda desses perfis literários – que muito inspiraram o @book.ster – que eu decidi sair da minha “zona de conforto” e criar coragem para conhecer um pouco das obras tão comentadas… E a certeza que eu tenho a cada dia mais é a seguinte: como eu estava perdendo tempo ao não ler os clássicos! Eles chegaram a essa categoria por um grande motivo: conseguem dialogar com o leitor, independentemente do momento em que foram escritos. São sempre atuais e nos revelam muito sobre o ser humano.
E com essa minha paixão cada vez maior pelos clássicos, não há como não ficar animado com uma nova editora como a @antofagica no mercado! Criada para reeditar os clássicos de uma forma mais ousada e atraente para o público jovem, a @antofagica escolheu “A metamorfose” para ser a primeira obra de seu catálogo. A edição está incrível: capa dura; ilustrações incríveis e fiéis às sensações causadas por Kafka; vários textos de apoio… E se as próximas edições continuarem nesse padrão, vou ter que abrir um grande espaço aqui na minha estante só para a @antofagica!

P.S.: A editora também produz um conteúdo muito interessante e bem feito sobre o universo da literatura no canal do YouTube. Corre lá para conferir!

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Rúdin, de Ivan Turguêniev | Resenha

Turguêniev foi o primeiro autor russo a se consagrar no ocidente e, por isso, suas obras costumam ser mais acessíveis. Inclusive, foi dele a primeira obra da literatura russa que li – “Pais e filhos” – e que logo entrou para a lista de livros favoritos da minha vida.

Depois dessa introdução, não preciso nem explicar por que de vez em quando aparece um livro dele por aqui!

Publicado em 1856, “Rúdin” foi o romance de estreia de Turguêniev e tem como objeto um tema que estava sendo abordado por outros autores da época: a construção do “homem supérfluo”. Esse termo foi utilizado para ilustrar a nova geração, marcada por jovens que iam para a Europa Ocidental para estudar, voltavam para a Rússia com vontade de fazer mudanças, mas se viam impossibilitados pelo governo do Tsar Nicolau I. O “homem supérfluo” é, portanto, o homem das ideias, o idealista que não consegue colocar em prática as suas ideias.

E nesse livro, o conceito do homem supérfluo está em Rúdin, o personagem principal, que passa a frequentar um círculo fechado de aristocratas rurais, causando sensações diferentes em cada um dos demais personagens. Nos deparamos com uma senhora rica e proprietária de terras; uma filha romântica e sentimental; um criado que quer agradar a patroa a todo custo; um amigo da família que causa repulsa com seus discursos machistas, e por aí vai. Os diálogos construídos pelo autor entre os personagens são muito inteligentes e com um toque recorrente de humor.

Por isso, a despeito de um enredo simples, o livro traz um excelente retrato da sociedade russa da época e desperta reflexões interessantes no leitor. E é nesse momento que percebemos o quanto são atuais as angústias de Rúdin. A partir desta obra, questionamos a nossa utilidade para a coletividade e a força que os nossos propósitos podem desempenhar.

Alguém já leu, o que acharam?

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