Blog

A ilha, de Aldous Huxley | Resenha

Após sofrer um naufrágio, Will Farnaby acaba sendo arrastado para a costa de Pala, uma ilha por ele totalmente desconhecida. Aos poucos, o personagem vai descobrindo que os habitantes da ilha vivem guiados por regras que fogem muito da realidade em que vivemos. O objetivo é comum: a busca pela felicidade plena, abrindo mão do consumismo, da exploração predatória dos recursos naturais e do sucesso unicamente individual.
Último romance de um autor conhecido por seus romances distópicos, como “Admirável mundo novo”, “A ilha” também é ambientada em uma sociedade fictícia. No entanto, diferentemente de suas obras anteriores, Huxley apresenta ao leitor um cenário utópico, em que os valores coletivos estão à frente da individualidade.

É ao longo do desenvolver da obra que vamos, junto com Will, descobrindo as peculiaridades de Pala: desde um sistema educacional que foca no autoconhecimento do indivíduo, passando por conceitos de unidade familiar totalmente amplos, até uma valorização da genuína natureza sexual de cada um.
A premissa desse livro é surpreendente, mas para quem se interessar pela leitura, já deixo alguns avisos importantes (e que em nada buscam desestimular a leitura, pelo contrário: a ideia é que vocês embarquem nessa aventura preparados). Em primeiro lugar, esse livro pede uma leitura sem pressa. As passagens acontecem aos poucos, são detalhadas e nos levam para dentro de Pala. Por isso, escolham algum outro livro menos profundo para ler em paralelo. Isso vai permitir um ritmo bom de leitura, sem que vocês cansem de “A ilha”. Em segundo lugar, aproveitem as mensagens e questionamentos trazidos pelo autor. A gente reflete ao longo da obra que passamos a duvidar da possibilidade de uma sociedade realmente perfeita.

Por fim, a obra é bem filosófica. Um livro que mistura romance com desenvolvimento pessoal, mas fiquem tranquilos porque a linguagem é bem acessível e de fácil compreensão.
Foram cerca de 3 meses para terminar o livro. Ao final, a sensação é apenas uma: Aldous Huxley é um gênio, uma escritor à frente de seu tempo.

Ler “A ilha” foi uma experiência incrível e marcante!

#DesafioBookster2019 | Setembro

Tema de Setembro: Saúde mental
Livro escolhido: “O sofrimentos do jovem Werther“, de J. W. Goethe
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
IMPORTANTE: Antes de escolher a sua leitura, lembre-se que alguns dos livros abaixo sugeridos podem conter gatilhos para depressão, ansiedade e suicídio. O CVV possui atendimento gratuito e 24 horas para quem deseja conversar sobre o assunto: ligue 188.

Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês, assim como outras dicas ao final do post.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em setembro temos a campanha “setembro amarelo”, de prevenção ao suicídio, em que se discute muito a saúde mental. É muito comum eu receber mensagens de pessoas relatando que sofrem ou já sofreram com alguma doença, como depressão e ansiedade, e que tentam enfrentar essa dificuldade com a ajuda da leitura. De fato, ler pode nos ajudar a fugir um pouco de uma situação difícil que vivemos. Mas, ainda assim, é importantíssimo que esse assunto seja abertamente discutido, para que as pessoas se sintam à vontade para falar sobre o que enfrentam e busquem ajuda profissional para tratamento, como qualquer outra doença demanda.

Para podermos conversar um pouco sobre o tema e para que as pessoas que nunca conviveram com depressão ou ansiedade possam se colocar no lugar do outro, passando a respeitar e ajudar quem convive com isso, fiz uma seleção de livros que abordam o assunto. Para o desafio, escolhi um clássico da literatura alemã que traz um personagem que sofre com uma paixão não correspondida. Como indicado na sinopse, “muito se atribuiu ao desenlace trágico do livro as várias ondas de suicídio que se deram na Alemanha do fim do século XVIII”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Além do escolhido, indico: “O demônio do meio-dia”, de Andrew Soloman; “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath, “Meu ano de descanso e relaxamento“, de Ottessa Moshfegh; “Norwegian Wood”, de Haruki Murakami; “O sofrimento é opcional”, de Monja Cohen; “Serotonina”, de Michel Houellebecq; e “As horas”, de Michael Cunningham. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E você, já escolheu sua leitura de setembro?

Oryx e Crake, de Margaret Atwood | Resenha

Da mesma autora do best-seller “O conto da Aia”, este livro é o primeiro de uma trilogia que compartilha o mesmo cenário: um futuro não tão distante, em que o conceito de civilização desapareceu. O planeta passou a ser habitado por criaturas pouco convencionais e fruto de manipulações genéticas. É no meio desse ambiente distópico que Atwood nos apresenta o personagem principal da história, conhecido como Homem das Neves, que se apresenta como o último ser humano. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Os capítulos vão se alternando entre o momento presente, em que acompanhamos o dia a dia desse personagem solitário, e o passado, quando o Homem das Neves ainda era conhecido como Jimmy, um garoto comum, com uma vida aparentemente normal. Com o desenrolar da narrativa, a autora vai, aos poucos, desvendando os acontecimentos que levaram Jimmy a um cenário pós-apocalíptico. O livro é preenchido de mistérios, que incluem até o próprio título da obra. Qual seria a relação do Homem das Neves com Oryx e Crake?

Se engana o leitor que espera encontrar uma narrativa simples, em que a curiosidade pelos próximos acontecimentos é o que nos faz continuar lendo. Assim como em seus outros romances, Atwood constrói um personagem complexo e conflituoso, que ainda se vê acorrentado a fatos do seu passado. A trajetória do personagem também esbarra em diferentes temáticas sensíveis, como limites da ciência, relações familiares conturbadas, exploração sexual infantil e valores da nossa sociedade atual. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A imersão mais profunda nos pensamentos dos personagens nos traz uma escrita mais densa e não tão fluida, mas não que isso represente um ponto negativo, pelo contrário: é uma das características que fazem os romances distópicos de Atwood se destacarem. Um livro atual e que caminha sobre uma linha tênue entre realidade e ficção.

Quero saber, alguém já leu? Gostaram?

Se gostou da resenha e quer comprar o livro, basta clicar AQUI!

O fim de Eddy, de Édouard Louis | Resenha

Romance autobiográfico que fez bastante sucesso na França, “O fim de Eddy” retrata as dificuldades e conflitos internos vividos por um garoto que ainda questiona a sua sexualidade. A discriminação sentida desde a infância é ainda mais reforçada pelo ambiente em que Eddy nasceu: uma pequena cidade de operários no interior da França, ainda extremamente marcada pelo conservadorismo na década de 90.
Escolhi esse livro para o#desafiobookster2019 do mês de junho, cujo tema era LGBTfobia, e posso dizer que a leitura consegue, de uma maneira impactante, transmitir ao leitor o sofrimento de quem é vítima desse preconceito. A gravidade dessa questão social fica latente no livro quando percebemos que nem a própria família do autor conseguiu poupar a discriminação contra uma criança. A falta de empatia chega a incomodar. A escola também se tornou um pesadelo para o garoto, que era constantemente vítima de agressões físicas e psicológicas. Para tentar se enquadrar em uma sociedade que não aceita o diferente, Eddy segue sua vida orientado por uma frase: “hoje vou ser um durão” (“aujourd’hui je serai un dur”). É a esperança de que o esforço poderá transformá-lo naquilo que todos esperam dele. É a homofobia presente na cabeça de Eddy a todo momento e que norteia os seus passos e escolhas. E o leitor acompanha os sofrimentos desse garoto que está descobrindo sua sexualidade, mas que se vê obrigado a esconder – até de si mesmo – o que sente. Eddy faz sua vida com base no que os outros vão aprovar.
A escrita do autor é bem crua e rápida. A história é construída a partir de uma sucessão de eventos marcantes na infância e adolescência do autor e que tiveram inegáveis reflexos durante toda a sua vida. Confesso que em alguns momentos senti a escrita um pouco simples demais e talvez isso possa ter se dado por problemas da tradução. Até recebi mensagens de pessoas que leram no original e adoraram o tom poético da escrita. Isso, infelizmente, não consegui perceber na versão em português. Mas de qualquer forma, o livro possui diversas qualidades e consegue colocar o leitor na perspectiva de quem sofre rotineiramente pela LGBTfobia.

Meu pequeno país, de Gaël Faye | Resenha

Se eu pudesse resumir esse livro em apenas um frase, seria: a dureza da guerra na perspectiva de uma criança. Gabriel, um narrador de apenas 10 anos, nos transporta para a guerra civil que assolou Ruanda, no início de 1992. Não espere encontrar um livro típico de guerra, com exércitos e campos de batalha. Nessa obra, o autor francês, que esteve na @flipse de 2019, constrói um relato sobre os impactos de um conflito violento na rotina de uma população. Apesar de se valer de uma escrita fluida, Faye tece uma narrativa dura e impactante. Essa potência da história segue um fluxo crescente com o passar dos capítulos. Nas primeiras páginas, encontramos um garoto tranquilo, nascido em uma família com boas condições financeiras e apenas com problemas que uma criança deve suportar. Filho de pai francês e mãe ruandesa, Gabriel divide sua rotina com a escola, a irmã mais nova e os amigos. Só que é justamente com o avançar da guerra que esse garoto vê a sua vida mudar as poucos. A mãe que deixa a casa; o preconceito dos amigos; até a incerteza sobre o dia seguinte.

A visão de Gabriel sobre os motivos da guerra pode até ser rasa, tendo em vista seus apenas 10 anos, mas os tormentos vividos pelo personagem e sua família escancaram para essa criança que a sua condição de mestiço, tutsi e francês, passa a determinar se ele deve sobreviver ou morrer. Os tutsis são conhecidos como “baratas”, já que devem ser exterminados. Por que um simples tom de pele e o formato de nariz despertam no outro a vontade de matar? Uma pergunta que parece simples, mas cuja complexidade da resposta revela algumas das muitas fraquezas do ser humano.

Fica aqui a dica de uma leitura marcante e necessária sobre a violência e o sofrimento de um cidadão comum em uma guerra. As últimas páginas do livro chegam a dar um nó na garanta.

Gostou da resenha e ficou animado para ler o livro, compre AQUI!

#DesafioBookster2019 | Agosto

Tema de Agosto: Desigualdade social
Livro escolhido: “Germinal”, de Émile Zola
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês e dar indicações de outros livros com a temática a ser abordada. Se você só chegou aqui agora, não tem problema! Comece o desafio a partir desse mês e busque aqui na página o post oficial para entender melhor como funciona.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para o tema de agosto, fiquei bem inclinado a escolher um romance brasileiro. No entanto, Os principais que vinham à minha cabeça, eu já havia lido (e estão na lista de indicações no final do post ?). Então, acabei cedendo para aquele livro que vinha em primeiro lugar quando eu pensava na temática desigualdade social: o clássico Germinal, do Émile Zola, um dos mais consagrados autores franceses.

A obra tem como pano de fundo a denúncia das condições de trabalho da classe operária do século XIX. É a descrição, de forma crua e realista, das condições de vida das classes menos abastadas. É o marco para o momento em que os operários tomam consciência do abuso que sofrem e, diante disso, resolvem protestar, entrar em greve. Para conseguir transmitir essa realidade ao leitor, Zola chegou a trabalhar durante um tempo nas minas de carvão, ambiente em que os personagens da obra passam a maior parte das suas vidas. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática: “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus; “Capitães da areia”, de Jorge Amado, “Vidas secas”, de Graciliano Ramos; “A hora da estrela”, de Clarice Lispector; “As vinhas da ira”, de John Steinbeck; e “Uma orquestra de minorias”, de Chigozie Obioma. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀

⠀⠀⠀
E você, já escolheu sua leitura de agosto? #bookster

Pátria, de Fernando Aramburu | Resenha

Ganhador do Prêmio Nacional de Narrativa de 2017 (Espanha), “Pátria” pode ser uma excelente escolha para quem gosta de um bom romance histórico. O cenário por trás da narrativa é marcado pelos conflitos no País Basco entre os governos espanhol e francês e o grupo terrorista ETA, que buscava sua independência. Para conseguir transportar o leitor a essa história, Fernando Aramburu constrói seu romance a partir da vida de duas mulheres afetadas pela violência constante: Bittori e Miren. Duas grandes amigas que, por motivos políticos e ideológicos, cortaram relações. Apesar de cada uma defender seu ponto de vista, é visível a saudade que cada uma nutre pelos tempos de amizade. O estopim para essa separação está em Txato, marido de Bittori, que é vítima de um cruel assassinato praticado pelos membros do grupo terrorista. Acompanhamos, então, como a separação entre duas famílias afeta cada um dos personagens, não só as matriarcas, mas também os maridos e filhos.

A escrita é bem cativante e fluida, mesmo que a narrativa não siga uma forma linear. Gostei da forma como o autor alterna entre o narrador em 1ª e 3ª pessoa, aproximando mais o leitor dos personagens. No começo pode até ficar um pouco confuso, mas eu logo me acostumei com esse estilo de Fernando Aramburu.
Além de nos ensinar sobre os conflitos no País Basco, sendo que o próprio autor nasceu nessa região, “Pátria” é uma obra que nos faz refletir sobre um tema extremamente atual: o fanatismo irracional por um pensamento ou posição política. É o abrir mão de valores, de relações e do próprio senso crítico por ideias coletivas e inquestionáveis. No meio de tantos personagens, a história de Arantxa, filha de Miren, foi a que mais me fascinou, pois foge dessa visão extremista e polarizada em que o povo do País Basco vivia.

Senti, no entanto, que o autor se estendeu em algumas passagens que pouco contribuíram para o desenvolvimento da narrativa. Fora isso, o livro é realmente excelente e muito recomendado!
Livro recebido pelo #intrínsecos, clube do livro da @intrinseca e estará em breve nas lojas!