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O 11º mandamento, Abraham Verghese

Um romance no ponto certo e que tem a medicina como fio condutor! O cenário é a pobre Adis Abeba, capital da Etiópia, em 1954. Shiva e Marion são irmãos gêmeos siameses, nascidos com as cabeças grudadas. Os meninos são fruto de uma relação proibida e nada convencional entre um médico inglês e uma freira indiana. A mãe morre no parto e os bebês são logo submetidos a uma cirurgia de separação, sendo em seguida abandonados pelo pai para serem criados por um casal de missionários médicos. No entanto, apesar de fisicamente separados, essa união que marcou o início da vida de Shiva e Marion vai deixar marcas profundas e permanentes.

O leitor acompanha o crescimento dos garotos em uma cidade marcada pela pobreza. Como os pais de criação são médicos, Shiva e Marion vivenciam de perto as dificuldades e a precariedade do sistema hospitalar de um país pobre. Mas isso não os impede de seguir a mesma carreira.

Além disso, a infância dos irmãos é atormentada por dúvidas sobre o seu passado e que nunca foram respondidas.

Com desenvolvimento do enredo, o autor consegue trazer ao leitor uma descrição extremamente interessante da realidade da Etiópia, inclusive com fatos históricos verídicos que marcaram o país.

Uma leitura muito envolvente, às vezes mais densa, e com personagens bem desenvolvidos. Para quem é da área ou gosta do assunto, é uma leitura indispensável, revelando aspectos muito interessantes da relação entre médico e pacientes e do exercício da profissão em condições tão precárias. É a visão do médico como ser humano, aquele que se doa ao próximo. Talvez o fato de o autor também ser médico possa ter contribuído para a sensibilidade de sua visão sobre o tema. Excelente leitura!

 

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Nós, Ievguêni Zamiátin

Distopia é a descrição de uma sociedade “que deu errado” no futuro, geralmente governada por uma autoridade autoritária, que regula e limita a liberdade de seus cidadãos. Ou seja, é o oposto da sociedade utópica – perfeita – descrita pela primeira vez por Thomas Morus. Muito embora não seja o mais conhecido de seu gênero, “Nós” é considerado como o romance distópico original, o primeiro, e, inclusive,  como responsável por influenciar grande autores como George Orwell e Aldous Huxley.

O enredo de “Nós” se passa em um futuro distante, em que uma guerra entre a cidade e o campo dizimou quase a totalidade da população. Hoje, os indivíduos são regulados pelo “Estado Único”, que estabeleceu regras extremamente rígidas: cada cidadão, designado por uma sigla, tem função exata e deve trabalhar e viver sempre pensando no coletivo, para permitir o funcionamento das engrenagens dessa sociedade “ideal”. Em “Nós”, a noção da individualidade é ultrapassada e a imaginação é considerada uma doença.
A narrativa é construída a partir do diário de D-503, uma matemático responsável por construir uma nave especial projetada para disseminar para outras galáxias os benefícios e segredos dessa sociedade perfeita. Assim, em seus relatos, D-503 discorre sobre a filosofia do Estado Único e sobre o seu dia a dia sempre previsível.
Não há como negar que as premissas adotadas por Zamiátin ao criar o universo de “Nós” são interessantes e revelam a genialidade do autor ao inovar. No entanto, infelizmente não gostei da forma com que a história foi desenvolvida. Achei a escrita extremamente truncada, com passagens confusas, que comprometem a fluidez do texto e até mesmo a compreensão do leitor. Além disso, os personagens são construídos de forma superficial e não conseguiram me cativar. Não descarto a possibilidade de essas características da obra terem sido intencionalmente construídas pelo autor, para refletir a cabeça confusa e desprovida de sentimentos de um cidadão do “Estado Único”. Mas se essa foi a ideia de Zamiátin, na minha opinião acabou prejudicando muito a experiência do leitor. No final, a leitura estava entediante e eu só queria terminar logo o livro …
Ou seja, é uma leitura interessante, principalmente por seu papel inovador, mas que deixou muito a desejar. A edição que ganhei da Editora Aleph é digna de elogios e traz textos de apoio que enriquecem a leitura.
Trecho do livro:
“Não existe revolução final, as revoluções são infinitas.” 
 
Edição: Editora Aleph (2017)
Número de páginas: 332
Ano original da publicação: 1924

Escolhidos do mês

Quem me acompanha aqui há algum tempo sabe que eu costumo escolher as minhas leituras com base em 4 categorias, que podem ser assim resumidas: (1) um clássico; (2) um livro curto (até 200 páginas); (3) um autor contemporâneo ou uma ficção científica; e (4) um livro de não-ficção, de contos ou poemas.  

Ou seja, escolho 4 livros e só vou começar um livro diferente depois que eu tiver terminado essa última “ eva”. Com isso, eu acabo me incentivando a sair da zona de conforto e a ler obras de diferentes temáticas e gêneros.

Ah, mas isso não significa que eu leio os 4 livros simultaneamente! Gosto de começar 2 ao mesmo tempo e aí vou iniciando os próximos de acordo com o ritmo das leituras. Na minha opinião, ler mais de um livro ao mesmo tempo ajuda muito no ritmo da leitura e evita que eu canse de determinada obra.
Como estamos em mês de copa, resolvi escolher apenas livros de escritores russos:

1 – Clássico: “O mestre e margarida”, Mikhail Bulgákov – Escolha de julho para o #desafiobookster2018 .
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2 – Livro de até 200 páginas: “A moça do internato”, Nadiêjda Khvoschínskaia – Obra de uma autora russa, que retrata a condição da mulher na segunda metade do século XIX, em uma sociedade de clara dominância masculina. Presente da @zouk
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3 – Ficção científica: Nós, Ievguêni Zamiatin – Considerado o primeiro romance distópico e responsável por influenciar clássicos como “1984” e “Admirável mundo novo”. Recebi da incrível @aleph.
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4 – Livro de contos: “Memórias de um caçador”, Ivan Turguêniev – Um dos meus autores favoritos! Nessa obra, Turguêniev traz 25 contos abordando a difícil vida dos camponeses e servos nas matas e aldeias russas do século XIX.
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E vocês, estão lendo o que?
#bookster4em1 #bookster #instabooks #leitura #ler

Ciranda de pedra, Lygia Fagundes Telles

Sensibilidade. Se eu tivesse que definir essa obra de Lygia Fagundes Telles em apenas uma palavra, seria sensibilidade. Em “Ciranda de pedra”, a autora conseguiu narrar o drama de uma família desestruturada a partir da visão de uma criança, Virgínia, de uma forma extremamente humana, que envolve e toca o leitor.

Filha caçula de um casal separado, Virgínia precisa desde criança conviver com a loucura da mãe, a falta da afeto do pai e o isolamento por parte de suas duas irmãs mais velhas. Após um episódio de traição, a protagonista passa a viver com a mãe e seu amante, enquanto suas irmãs ficam morando com o pai. Virgínia é constantemente excluída pelas irmãs e passa a sua infância buscando uma certa aceitação.
A obra é dividida em duas partes. Na primeira, Virgínia é ainda criança e tem um olhar infantil e imaturo – mas repleto de emoções – sobre os problemas que vive. Já na segunda parte, o leitor acompanha a personagem no final da adolescência, com ideias e reflexões mais complexas sobre os impactos que esses problemas enfrentados na infância surtiram, e continua surtindo, em sua juventude. Ou seja, é um romance sobre o amadurecimento em um ambiente caótico, conflituoso, mas que não é nem um pouco irreal.
É impressionante a capacidade da autora, já em seu primeiro romance, de colocar um drama familiar no papel tão humano, sem tornar a trama exagerada ou pouco provável. Apesar de sua extrema sensibilidade, os diálogos também são muito bem construídos e dão fluidez ao texto.
Uma excelente obra escrita por uma autora nacional e que deve ser muito valorizada! Pronto e animado para conhecer mais do trabalho de Lygia Fagundes Telles…
Trecho da obra:
“Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa.” 

Abusado, Caco Barcellos

Com um trabalho jornalístico incrível, Caco Barcellos conseguiu não apenas apresentar ao seu leitor o dia a dia das favelas cariocas dominadas pelo poder dos traficantes de drogas, mas também mostrar essa história a partir do ponto de vista dos moradores das favelas e dos próprios chefes do tráfico. É uma rotina em que a morte e a violência estão sempre presentes. É a rotina marcada pelo medo, pela incerteza e pela falta de oportunidades.

E toda essa temática é narrada seguindo a história de um personagem principal: Marcinho VP, chefe do Morro da Dona Marta. Sua infância, juventude e formação para ocupar o lugar de um dos criminosos mais conhecidos no Rio de Janeiro são o norte para a construção da obra. E ao mesmo tempo que apresenta as barbáries cometidas por um chefe de morro, Caco Barcellos também apresenta Marcinho VP – no livro é substituído pelo pseudônimo Juliano VP – como um ser humano, que também sente medo, tem dúvidas e que se preocupa com a qualidade de vida dos moradores da sua comunidade. É, sem dúvidas, uma vida de contrastes, que faz o leitor se questionar sobre aquela ideia de existir o lado do bem e o lado do mal.

Além disso, é importante ter em mente que, muito embora hoje a existência de excessos na atividade da polícia e o sofrimento vivido pela população das comunidades sejam questões muito debatidas, no ano de 2003, quando publicado o livro, esse tema ainda era um certo tabu. Ou seja, não bastasse a qualidade do trabalho jornalístico apresentado, o autor foi extremamente corajoso ao entrar nas favelas para conversar com os líderes do morro, em um cenário marcado pela violência, e conseguir divulgar essa realidade para toda a população.

A escrita é fácil e envolvente, conseguindo prender o leitor. O livro não é curto, com cerca de 600 páginas, e confesso que em alguns momentos a temática se torna um pouco repetitiva. Independentemente disso, é um livro essencial e muito atual, que revela cruamente a realidade nas favelas dominadas pelo crime, com uma forte crítica social.

 

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#DesafioBookster2018 – Julho

– Mês: Julho – Categoria: Livro publicado na década de 1960
– Livro escolhido: “O mestre e a margarida”, Mikhail Bulgákov (1967)

Para quem ainda não conhece, o Desafio Book.ster 2018 foi lançado com o objetivo de, seguindo uma ordem temporal, incentivar a leitura de obras clássicas publicadas no século XX. A ideia é simples: 12 livros, 12 décadas. Por exemplo, em janeiro lemos um livro publicado entre 1900 e 1909. E por aí vai… Se você ainda não começou, ainda dá tempo de participar, é só escolher um livro para esse mês e que tenha sido publicado na década de 50…
No início de todo mês venho aqui apresentar o livro escolhido, assim como algumas sugestões para de obras publicadas na década respectiva!
O livro de julho foi escolhido em clima de copa. Como eu sempre falo aqui, a literatura russa foi uma grande surpresa para fim. Faz dois anos que li o primeiro e, desde então, sempre tento encaixar alguma dessas obras em minhas escolhas. Por isso, não podia faltar um livro russo no #desafiobookster2018 . Em  “O mestre e a margarida”, o leitor acompanha a visita do diabo à Moscou comunista dos anos 1930 e encontra, por trás da narrativa, uma forte crítica ao regime soviético. Na visita, encontram poetas, burocratas, editores, isto é, diversos tipos de pessoas características da sociedade russa da época. A obra de Bulgakóv é conhecida por ser um pouco difícil, uma leitura que exige mais do leitor. Recentemente, a #Editora34 lançou essa nova edição, com uma tradução nova e que aparenta ser mais acessível. Independentemente disso, é considerado como um dos principais romances do século XX.

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Além de “O mestre e a margarida”, indico os seguintes livros publicados na década de 1960: “Laços de família”, Clarice Lispector (1960); “O sol é para todos”, Harper Lee (1960); “O jogo da amarelinha”, Julio Cortázar (1963); “Cem anos de solidão”, Gabriel Garcia Marquez (1967); e “2001: uma odisséia no espaço”, Arthur C. Clarke (1968).
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E você, já escolheu sua leitura de julho?
#desafiobookster2018 #bookster #desafioliterario #literatura #omestreeamargarida #literaturarussa

A humilhação, Philip Roth

Como costuma acontecer após a morte de um autor renomado, Roth ganhou um maior destaque na mídia e no mercado editorial, deixando clara a sua inegável contribuição para a literatura mundial. Como nunca havia lido nada do autor, acabei sendo fisgado pelas recentes matérias que abordaram sobre a genialidade do autor. Então, peguei um livro que já tinha comprado há algum tempo, sem muito saber o que eu encontrar. Na verdade, até recebi comentários de seguidores dizendo que “Humilhação” seria considerada como uma dos livros mais fracos de Roth. Mesmo assim, segui em frente!

Na obra, o leitor se depara com Simon Axler, um ator renomado que, aos 65 anos, sofre uma crise “existencial”: o protagonista passa a se ver impossibilitado de atuar, não acredita mais em sua capacidade. O público não reconhece mais o seu sucesso e, extremamente inseguro, o personagem começa a recusar as propostas de retorno aos palcos. Para piorar, sua mulher resolve deixá-lo. Nesse ponto, Axler chega no seu limite e acredita que o próximo passo seria o suicídio. Decide, portanto, se internar em uma clínica psiquiátrica, para evitar uma tragédia fatal.

A partir daí, a sua vida muda completamente. Se apaixona por uma jovem homossexual, filha de um casal de amigos. Se vê obcecado pelo desejo sexual insaciável. Suas condutas o tornam irreconhecível. Talvez não passem de uma reação automática ao vazio existencial por ele sentido, como se buscasse algo que pudesse preenchê-lo. Mas será isso o suficiente?

Fiquei impressionado como em um livro tão curto um personagem consegue sofrer tantas mudanças, de forma natural e gradativa. Roth demonstra uma incrível capacidade de construir o seu personagem. Apesar de não ser um livro marcante, a leitura foi muito (mesmo!) interessante e prazerosa! Se esse é um dos mais fracos de Roth, fico ansioso pelo que vou encontrar em suas obras mais faladas.

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“Quando você representa o papel de uma pessoa que está entrando em parafuso, a coisa tem organização e ordem; quando você observa a si próprio entrando em parafuso, desempenhando o papel de sua própria queda, aí a história é outra, uma história de terror e medo.”

 

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