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Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino | Resenha

Com um estilo que me lembrou o incrível “As travessuras da menina má”, de Vargas Llosa, Marçal Aquino constrói a história de uma relação intensa entre Cauby e Lavínia, uma personagem com um passado repleto de traumas. E o interessante da obra é que o autor foge da ideia do amor romântico e idealizado que costumamos ver em filmes e livros, passando a retratar de um amor mais real. O amor mais carnal, íntimo e cru.

Quem nos conduz pela obra é Cauby, narrador personagem, que vai alternando entre um presente de pouca importância com o passado marcante como Lavínia. O início pode até parecer um pouco confuso, já que as distinções dos tempos acontecem do nada, como se a mudança de cena acontecesse igual na televisão. Mas aos poucos passamos a entender esse vai e vem dos acontecimentos. E quando pensamos em um livro escrito em primeira pessoal, temos sempre que lembrar que a visão do narrador sobre os demais personagens e das situações descritas é parcial. E no caso desse livro, essa parcialidade pode ate gerar um certo incômodo no leitor, já que Cauby descreve Lavínia de uma maneira mais estereotipada, como uma mulher que sofre duas personalidades: a Lavínia mais contida, esposa do pastor local; e a outra mulher, sensual e sem pudores, que aparece apenas para o próprio narrador. E por que essas duas características não podem fazer parte de uma mesma pessoa?

Os demais personagens que fazem parte da narrativa apresentam sempre uma característica patológica, que os marca como à margem da sociedade. E o próprio ambiente também me passou uma sensação de marginalidade: uma cidade de garimpo do Pará, terra repleta de homicídios em que os interesses pessoais dos mais poderosos conduzem a vida dos seus moradores.

Quando a gente se propõe a incluir mais autores brasileiros contemporâneos nas nossas leituras, a gente percebe que tem muita coisa boa por aqui e que ainda não conseguiu o destaque que merece. A obra de Marçal Aquino me deixou com essa sensação… Terminei a leitura com vontade de conhecer mais!

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Rota 66, de Caco Barcellos | Resenha

Conhecido como um dos principais jornalistas brasileiros, nessa obra, Barcellos se aprofundou no perfil e nas estatísticas das mortes causadas por confrontos com policiais nas décadas de 70 e 80 em São Paulo. E quando digo se aprofundou é porque o autor fez uma pesquisa impressionante, que durou vários anos e que encontrou obstáculos na falta de transparência de informações para a população.

A denúncia tem como objetivo demonstrar que as vítimas da ROTA têm um perfil muito semelhante e recorrente na análise dos casos de morte pela polícia: o jovem negro e pobre das periferias de São Paulo. Para o autor, a imagem da polícia como instituição protetora naquela época só valia para uma determinada parcela privilegiada da população. Para os demais, o papel de protegido era substituído pelo papel de potencial vítima da respeitada “polícia que mata”.

Durante a leitura, fiquei impressionado com a coragem de Barcellos em desafiar e denunciar – sem qualquer restrição – os poderosos que controlavam o sistema policial do Estado de São Paulo. Mais especificamente a atuação da ROTA, conhecida unidade da Polícia Militar, na violenta e “eficaz” atuação contra o crime. A repercussão da obra na época da sua publicação foi tamanha que o autor precisou deixar o país com medo das ameaças que passou a receber.

Publicado em 1992, o livro-reportagem venceu o Prêmio Jabuti no ano seguinte e, apesar dos quase trinta anos desde o seu lançamento, a realidade exposta por Barcellos ainda continua muito atual. É uma leitura necessária, na medida em que nos apresenta um cenário que normalmente chega de forma distorcida para a população que não mora nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos. Apesar da grande quantidade de dados e casos analisados, Barcellos consegue construir uma narrativa fluida e diversificada, sem deixar o leitor cansado com a repetição de uma mesma temática.

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#DesafioBookster2019 | Dezembro

#desafiobookster2019
Tema de dezembro: Relações afetivas e estrutura familiar
Livro escolhido: “Léxico familiar“, de Natalia Ginzburg

Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês, assim como outras dicas ao final do post. Como já estamos no último mês, em 2020 lanço nosso #DesafioBookster2020! Não deixem de participar!!!

Dezembro é o mês dos eventos encontros familiares. Apesar de muita coisa boa acontecer, lembramos nesses encontros que toda relação tem seus problemas e que nenhuma família passa imune a isso. Então, nada mais apropriado do que lermos alguma obra que trate sobre os conflitos familiares – um tema atemporal e que podemos identificar ao longo de toda nossa história.

O escolhido da vez é uma das principais obras da renomada escritora italiana, Natalia Ginzburg, que já confirmou a qualidade das obras de escritoras em seu país muito antes de Elena Ferrante. Em “Léxico familiar”, a autora constrói, a partir de suas memórias, as dificuldades enfrentadas por famílias judias nos anos 30, época de criação das leis raciais na Europa. Vamos acompanhar pela vida de seus familiares, a história dessa família judia e antifascista que precisa resistir ao horror e à perseguição. Como a autora já deixa claro no início da obra, “Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais”.

Além do escolhido, indico: “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe, “Ciranda de pedral”, de Lygia Fagundes Telles; “Os Maias”, de Eça de Queiroz; “Dois irmãos”, de Milton Hatoum; “Laços”, de Domenico Starnone; “Trilogia do adeus”, de João Anzanello Carrascoza; e “Pais e filhos”, de Ivan Turguêniev. ⠀⠀
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E você, já escolheu sua leitura de dezembro?

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A casa dos espíritos, de Isabel Allende | Resenha

Romance histórico, realismo mágico e narrativa acompanham as gerações de uma família. Essas são três características que me chamam bastante atenção em um livro. No caso de “A casa dos espíritos”, todas estão presentes!

Percorrendo grande parte do século XX, a escritora chilena constrói uma narrativa acompanhando três gerações de mulheres da família del Valle Trueba. A primeira delas, Clara, é a personagem central do livro e, na minha opinião, a mais marcante. A infância de Clara é marcada por acontecimentos trágicos e por uma peculiaridade: a garota tem poderes sobrenaturais: consegue pressentir os acontecimentos futuros, se comunicar com espíritos e mover objetos. Mas não pense que essa característica de Clara seja um aspecto tão relevante da obra. Na verdade, essas habilidades da personagem dão apenas um toque de fantasia e encantamento na história, sem conseguir distanciar o ambiente construído por Allende da realidade da sociedade chilena do início do século XX. Puro realismo mágico!

Em meio a imprevistos, Clara se casa com Esteban Trueba, um personagem com presença forte ao longo da obra. Trueba é a figura do conservador e da entidade patriarcal tão comum naquela época. Dessa união entre dois personagens tão diferentes nasce Blanca, que também herda um pouco da mágica da mãe. Blanca logo passa a fazer parte do rol de personagens bem construídos na obra. São tantos acontecimentos relevantes na vida de cada um que torna impossível a tarefa de resumir a história para vocês. O que posso contar, no entanto, é que por trás desses momentos narrativos tão bem contados encontramos diversas temáticas de reflexão. São os conflitos que se repetem ao longos das gerações.

Assim como Clara e Blanca, o leitor é apresentado a Alba, que inaugura a terceira geração de mulheres dessa família, mas o passar dos anos altera a realidade do Chile e, a partir de Alba, acompanhamos um momento histórico marcado por repressão e resistência. Como não podia deixar de ser, Alba também herda a magia e o protagonismo das mulheres tão fortes que a antecederam.
Uma das melhores leituras de 2019!

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“Os sofrimentos do jovem Werther”, de J. W. Goethe | Resenha

Publicado em 1774, esse clássico da literatura alemã – e mundial – teve um impacto tão grande que foi responsável por uma onda de suicídios entre os jovens da época. Mas como um livro pode ter impactado tanto um leitor a ponto de incentivá-lo a acabar com a própria vida? Não há uma resposta certa e as gerações posteriores nunca conseguirão compreender o que as palavras de Goethe representaram naquele momento, para aquela sociedade. Apesar disso, o livro ainda é atual na medida em que trata de temas sobre a condição do ser humano e seus conflitos internos. É isso que faz dele um clássico!

Construída a partir de cartas, a narrativa tem como norte os relatos de um jovem sobre a paixão que começa a consumi-lo após conhecer Carlota, que já está prometida em casamento para Alberto. É o retrato do romântico, daquele que prioriza o sentimento no lugar da razão. O drama já está indicado logo no início, no próprio título do livro. Werther sofre. Sofre tanto que me questionei: será que essa devoção toda não chega a ser um exagero?

Mas isso não importa. Para Werther, a única dúvida que cresce dentro de si é: será que a vida ainda faz sentido quando não se pode “ter” a pessoa amada?

A importância da obra se revela nas reflexões que encontram o leitor durante a leitura. É um livro que vai muito além da “história” contada. Então, inicie a leitura com essa ideia em mente. Os temas ali espalhados vão desde saúde mental até a própria dificuldade em entender o problema do outro. Talvez a ideia do amor excessivo que consome o personagem seja utilizada de forma proposital para nos mostrar como, ainda que não nos faça sentido, o problema para o outro é real e doloroso.

É interessante mencionar que a história da obra tem uma certa identidade com o momento de vida de Goethe e algumas situações que vivenciou. Assim, as reflexões que encontramos podem ter sido as mesmas que passavam genuinamente pela cabeça do autor quando escreveu a obra. E a dica que dou é: leia sem pressa, aproveite a poética da escrita e tente acompanhar a construção do personagem no decorrer das páginas!

gatilho: depressão e suicídio

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#DesafioBookster2019 | Novembro

#desafiobookster2019
Tema de novembro: Racismo
Livro escolhido: “Úrsula“, de Maria Firmina dos Reis

Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês, assim como outras dicas ao final do post. Se você só chegou agora por aqui, comece o desafio a partir desse mês!

No mês em que se celebra o “Dia da consciência negra”, o livro escolhido é o primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher negra, em 1859. Pela data de publicação, conseguimos ter uma breve noção das adversidades em meio às quais Maria Firmina dos Reis escreveu a sua obra. Isso, por si só, já revela a importância do livro para a história brasileira. O que me espanta, no entanto, é o motivo pelo qual demorei tanto para conhecer o livro. E não acho que seja uma percepção só minha: apesar de sua importância, “Úrsula” foi uma obra esquecida por muito tempo e apenas recentemente contou com novas edições que tentam resgatá-la. Então, para tentar dar destaque a uma obra esquecida, nada melhor do que lê-la! •
Nessa narrativa, Maria Firmina dos Reis constrói um romance conturbado entre Tancredo e Úrsula, ao mesmo tempo que traça críticas à escravidão. “Retrata homens autoritários e cruéis, mostrando atos inimagináveis de mando patriarcal e senhorial em um sistema que não lhes impõe limites”.

Além do escolhido, indico: “O sol é para todos”, de Harper Lee, “O olho mais azul”, de Toni Morrison; “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves; “A cor púrpura”, de Alice Walker; “A cabana do pai Tomás”, de Harriet Beecher Stowe; “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, de Maya Angleou”; “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro; e “Americanah”, de Chimamanda Adichie. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E você, já escolheu sua leitura de novembro?

Meu ano de descanso e relaxamento, de Ottessa Moshfegh | Resenha

Começar esse livro foi fácil, até porque tinha sido recomendado por dois leitores em quem confio muito. Mas a literatura não seria tão incrível se todo mundo tivesse a mesma opinião sobre determinado livro, não é mesmo? E, contrariando minhas expectativas, não tive uma experiência muito boa com essa leitura…

A premissa da narrativa de Moshfegh é bem atual e interessante: uma jovem e bem sucedida moradora de Nova York decide abrir mão de sua vida por um ano. Isso mesmo: a narradora quer ficar à base de fortíssimos remédios antidepressivos durante esse período, como se estivesse em um estado de hibernação. Os motivos para essa excêntrica decisão parecem até fazer sentido: cansou do mundo e das exigências que a sociedade faz para uma jovem dos anos 2000.

Na verdade, esse comportamento da personagem principal é uma crítica ácida ao padrão de busca por uma vida ideal e feliz, com um trabalho bem sucedido e com bons relacionamentos, mas que na verdade acaba se perdendo e sendo vítima de uma forte pressão social. É uma reflexão sobre as novas gerações e a frequente necessidade de recorrer aos medicamentos para conseguir se manter nesse ritmo.

O problema é que, na minha opinião, a autora acabou deixando essas reflexões muito em segundo plano – não sei se de forma proposital ou não -, focando muito no processo de tomar remédios e mais remédios. Com isso, a leitura ficou perdida e cansativa. Senti também falta de um maior aprofundamento na personagem e em seus questionamentos…. Os motivos para a decisão da personagem são apresentados no início, mas não foram desenvolvidos ao longo da obra. Por causa disso, os momentos de reflexão que as temáticas abordadas poderiam trazer ficaram muito escassos. Isso acabou até mesmo dificultando que eu sentisse uma maior empatia pela narradora. Os demais personagens, principalmente a amiga da narradora, são até melhor construídos, na minha opinião.

Por outro lado, os pontos positivos são a fluidez da escrita, as passagens repletas de um humor inteligente e a desconstrução de alguns estereótipos sobre saúde mental.
Gatilho: depressão

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