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Identidade, de Nella Larsen | Resenha

Publicado em 1929, o livro narra a historia de duas amigas de infância, Irene e Clare, que acabam tomando rumos diferentes. Ambas são criadas no Harlem, bairro de Nova York, e “são negras de pele clara que podem se passar por brancas”. Enquanto Irene aceita a sua origem e a sua cor, Clare acaba tomando decisões baseadas na ideia de se passar por uma mulher branca na sociedade.

E as diferenças entre as vidas das duas personagens acabam produzindo um incômodo choque quando Irene e Clare se reencontram já adultas. Irene vive uma vida invejável, casou com um marido negro que a ama, tem dois filhos e uma boa condição financeira. No entanto, a volta de Clare acaba despertando questionamentos na personagem e a coloca de cara com a revoltante questão do racismo. Isso porque, além de representar a negação de um destino que Irene escolheu para si, Clare vem acompanhada de um marido muito preconceituoso e que desconhece as origens da esposa. É um conflito de identidades que acaba estremecendo a antiga relação entres as duas.

Como a narrativa é apresentada a partir da perspectiva de Irene, acabamos ficando mais contaminados pelas suas opiniões sobre a vida secreta da amiga. De fato, não somos apresentados aos motivos que levaram Clare a optar por esquecer a sua origem e as dificuldades que enfrentou nesse processo.

Achei a leitura simples e muito interessante, até por trazer uma perspectiva atual não tão abordada da temática racial, mas acabei sentindo falta de um aprofundamento melhor nos personagens e um desenvolvimento de algumas passagens (incluindo um final abrupto).

No entanto, é importante entender o quanto a obra foi importante para a época em que foi produzida, revelando uma postura revolucionária em relação ao cenário de discriminação existente. Nascida em 1891, Nella Larsen escreveu apenas três obras, mas é considerada como uma das principais influências da “Renascença do Harlem”. Uma interessante obra sobre uma perspectiva pouco abordada das questões raciais.

Cidadã de segunda classe, de Buchi Emecheta | Resenha

O título escolhido pela incrível autora nigeriana consegue definir bem a forma como Adah, a protagonista do livro, se sente na Inglaterra da década de 60. Muito embora Adah tenha nascido e sido criada na Nigéria, decidiu deixar o país e acompanhar os passos do marido em busca de uma vida mais promissora para si e para seus filhos. Mas o que a jovem não sabia é que naquele país a rotina seria de muita discriminação. A discriminação por ser estrangeira, negra e mulher.

E não bastasse a forma cruel com que a sociedade lhe trata, o ambiente íntimo familiar é ainda pior. Francis, seu marido, é o retrato daquele que suga até as últimas forças de sua companheira. O abuso psicológico e físico é algo constante na relação. E, mais que isso, a fragilidade e insegurança de Francis não consegue conviver com o fato de que é Adah quem sustenta a família com um trabalho, sobre o qual se somam os trabalhos domésticos e a criação dos filhos.

A força do relato sofrido da vida de Adah parece vir da própria história da autora nigeriana. Nascida em 1944, em Lagos, na Nigéria, Buchi Emecheta também perdeu os pais e foi dada em casamento ainda quando criança, também se mudou para uma Londres racista e xenofóbica e também foi vítima de um triste relacionamento abusivo.

A escrita é tranquila e, apesar do impacto e da crueza das passagens, consegue segurar o leitor. Ao longo do livro foram vários os momentos em que senti uma vontade de poder interferir naquela situação tão injusta, o que confirma a minha aproximação com a personagem.

Além dessa obra, já havia lido “As alegrias da maternidade” da mesma autora e a experiência com as duas obras foi muito marcante. Emecheta é uma daquelas autoras que, na minha opinião, merecem ainda mais destaque na literatura universal. Suas obras são uma denúncia de realidades muito frequentes, mas ainda pouco conhecidas. Por isso, se desejo que as palavras da autora possam ser espalhadas por todos os cantos, o que posso recomendar para vocês é que leiam seus livros! Recomendo muito!

Verificado “Nascido do crime”, de Trevor Noah | Resenha

Trevor Noah nasceu em uma África do Sul ainda marcada pelo apartheid. Um período triste e cruel da história do país, que se valeu das próprias diferenças de etnias que o país abarca para colocar a população negra em conflito e, assim, facilitar o domínio dos brancos. E é nesse cenário que o autor, um comediante muito aplaudido, inicia a sua autobiografia.⁣

A vida de Trevor é marcada por uma sensação de falta de pertencimento. Ainda criança, o garoto passou a sentir dificuldade de se encaixar nas rodas dos brancos ou dos negros. Isso porque, como o próprio título do livro indica, Trevor nasceu de um relacionamento proibido na época: um pai branco e uma mãe negra. Por conta disso, o garoto pertencia a uma “terceira classe”, dos mestiços (também chamados de “coloured”), que ficavam no meio termo em relação às restrições vividas pelos negros e os privilégios que recaiam sobre a minoria branca. É uma perspectiva que, até a leitura do livro, eu não havia conhecido…⁣

Além disso, o seu relato é muito marcado pela figura materna. Vivendo sob as normas da religião católica, a mãe de Trevor criou o filho de forma dura, mas sempre com a mentalidade de não se submeter aos absurdos do regime discriminatório e violento do apartheid. A figura da mãe é, realmente, inspiradora. ⁣

Apesar desse cenário triste que assolava o país, Trevor utiliza o seu dom com o humor para criar uma narrativa que, entre tantas reflexões, varia entre o cômico e o impactante. Aprendi muito sobre a história do país. Se você tem interesse pelo tema ou gosta de ler biografias inspiradoras, recomendo muito a leitura!

#DesafioBookster2020 | Outubro

Mês: Outubro⁣
Temática: Humor e Ironia⁣
Livro escolhido: “Fun Home”, de Alison Bechdel⁣⁣
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Estava animado para esse mês! Depois de tantos livros intensos e que mexeram fortemente com nossas emoções, o que é tão recorrente na literatura, chegamos no momento de escolher um livro que carregue um pouco de humor em suas páginas. Mas não se animem tanto, até porque a gente não consegue deixar as temáticas sensíveis de lado. Acabei escolhendo uma obra tragicômica e, mais que isso, uma história em quadrinhos. Isso é bom para quem tem aquela velha – e equivocada – ideia de que HQs são apenas para o público infantil. Pelo contrária: Maus e Persépolis, por exemplo, foram dois livros que me marcaram muito! E, assim como essas duas obras, Fun Home sempre aparecia nas indicações de vocês quando eu pedia dicas de HQs. ⁣

“Fun Home”, de Alison Bechdel, é uma HQ bastante aclamada e considerada um marco dos quadrinhos autobiográficos. Pouco depois de contar para a família que é lésbica, Bechdel revere a notícia de que seu pai morreu em circunstâncias que podem indicar suicídio. Na história, a autora vai explorar a relação que teve com o pai com muito humor, além de mostrar também sua trajetória desde a infância. Ela trata desde os tempos em que cresceu na funerária da família até a juventude onde se encontrou nos livros e na arte. “Fun Home” foi eleito o livro do ano de 2015 pela revista Time e também foi transformado em um musical da Broadway. ⁣

Foi difícil escolher outras dicas, já que não conheço tantos livros nesse gênero. Deixem suas dicas por aqui! De qualquer forma, para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “Tudo pode ser roubado”, de Giovana Madalosso; “Adulta sim, madura nem sempre”, de Camila Fremder; “Depois a louça sou eu”, de Tati Bernardi; “História dos meus dentes”, de Valeria Luiselli; “Cadê você, Bernadette?”, de Maria Semple. ⁣
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Talvez você deva conversar com alguém, de Lori Gottlieb | Resenha

Se você leu o título do livro e achou que essa é mais uma obra que segue aquela antiga fórmula de autoajuda, com diversos exemplos e repetidas frases de efeito, você está totalmente enganado.

A psicoterapeuta norte-americana conseguiu criar um fenômeno de vendas ao trazer para o leitor a sua experiência real com conflitos e angústias universais do ser humano, tanto do ponto de vista do psicoterapeuta, como daquele que senta do outro lado do divã, o paciente. Como a própria autora confessa, “de todas as minhas credenciais como terapeuta, a mais significativa é eu ser membro de carteirinha da raça humana”.

Talvez, uma das características que mais conseguem aproximar o leitor da narrativa é a humanidade no relato de Lori. A autora nos conta a história de quatro pacientes, com diferentes questões que os afligem, e a sua própria experiência diante de cenários de vulnerabilidade e desamparo. Ao longo da leitura, me identifiquei com diversas passagens e questionamentos abordados pela autora e, sem qualquer dúvida, acho difícil algum leitor passar imune a essa identificação.

É legal dizer que, apesar de eu fazer análise há algum tempo, sei que o trabalho de Lori também pode ajudar muito a desmistificar velhas ideias sobre a terapia, que, ainda hoje, é vista como um tabu por muitas pessoas. Esse livro pode ser um bom início de um processo de autoconhecimento, em que a autora não busca trazer respostas para nossos problemas, mas sim despertar a nossa reflexão sobre as situações que vivemos. Como eu sempre falo, enxergar diferentes problemáticas a partir da perspectiva do outro passa, necessariamente, por uma autoanálise – ainda que não proposital.

A escrita também é muito convidativa, com referências acessíveis a teorias e a grandes nomes da Psicologia, permitindo uma leitura agradável, mas que não dá a sensação de ser uma abordagem superficial. Para o que a obra propõe, a minha experiência merece nota máxima.

A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin | Resenha

A premissa desse livro é muito interessante, sobretudo quando consideramos as temáticas por ele abordadas e a época em que foi lançado, em 1969. A história é construída a partir de uma missão diplomática, em que um ser humano, Genly Ai, é enviado para Gethen, um planeta extremamente distante da Terra, para tentar convencer os governantes a integrar uma comunidade interestelar. E, para a supresa de Genly Ai, os indivíduos de Gethen não possuem gênero, são andrógenos. ⁣

Cada indivíduo nasce com um gênero neutro e, em cada período sexual, se desenvolverá para o que biologicamente entendemos como homem e mulher. Considerada como uma das principais referências no gênero da ficção científica, Le Guin desperta discussões muito interessantes sobre os papéis e as relações de gênero. Por meio do choque cultural vivenciado pelo protagonista, percebemos como muitas das características que associamos ao homem e à mulher estão ligadas tão somente a construções sociais. ⁣

A todo momento, Genly Ai acaba fazendo um paralelo com a nossa forma de sociedade, em que a mulher e o homem desempenham funções diferentes (imagine considerando a época em que foi publicado). Em Gethen, qualquer um pode gerar um filho e, quando não estão em sua fase sexual, vivem sem um instinto carnal influenciando suas decisões e atitudes. ⁣

Durante a leitura, também vamos encontrando reflexões sobre a sexualidade, relações de amizade e interesses políticos. A autora ainda se vale de uma escrita muito rica em sua obra. O foco não está apenas nos acontecimentos, mas também na forma como os cenários e sentimentos são descritos.⁣

Mas confesso que o livro demora um pouco para engatar, até mesmo pela quantidade de nomes e termos associados ao novo planeta. Da mesma forma, algumas passagens podem ter um ritmo mais lento, com divagações e pouca ação. Por isso, não comece o livro esperando uma leitura repleta de aventura, mas tente aproveitá-lo levando em conta as temáticas nele trazidas e o seu caráter inovador e questionador para a época em que foi publicado.

As bruxas da noite, de Ritanna Armeni | Resenha

Publicado em 2018 por uma jornalista italiana, a obra chegou ano passado aqui no Brasil, mas não tinha visto ninguém falar sobre ela ainda… Acabei descobrindo a obra por acaso, em pesquisas na internet para o Desafio Bookster. E que boa surpresa, sobretudo porque gosto dos livros jornalísticos que têm uma narrativa mais romanceadas, e menos informacional, exatamente como é o caso de “As bruxas da noite”. ⁣

A autora nos apresenta uma realidade que é muito esquecida pela História: a presença de mulheres nas linha de frente das guerras. No caso especifico, conhecemos a história de um regimento aéreo unicamente feminino, formado em 1942 para lutar pelo exército soviético na segunda guerra. E essa realidade é apresentada a partir dos relatos de Irina Rakobolskaya, antiga vice-comandante do regimento, que na época das entrevistas estava com 96 anos. Essas soldados passaram a ser conhecidas por “Bruxas da noite”, pois faziam os seus ataques durante o período noturno, quando os alemães não poderiam ver muita coisa.⁣

E é muito interessante entender não apenas o dia dia no campo de batalha, mas também todo o processo de formação de um regimento feminino, que contou com inúmeros obstáculos. Eram mulheres que queriam se voluntariar para lutar pelo pais e que, mesmo assim, eram vistas como “incapazes”. Já no exército, há uma nítido processo de desfeminização das mulheres: os cabelos cortados, os uniformes eram feito para os homens e elas deveriam mudar os comportamentos. Quando retornam da guerra, a realidade parece ainda mais ingrata…⁣

Durante a leitura, compreendi ainda mais a importância do trabalho da autora em escrever sobre esse tema. A entrevistada já tinha 96 anos e era a última sobrevivente… Se não tivesse feito isso, muito provavelmente nunca saberíamos de detalhes sobre a história dessas mulheres. E, com isso, é inevitável pensar como muitos acontecimentos acabaram sendo perdidas por conta de um filtro discriminatório da História.⁣

“Enquanto eu corria o risco de morrer, era adequada à Força Aérea e à vida militar. Depois, com a paz, já não precisavam mais de mim.”