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Solução de dois Estados, de Michel Laub | Resenha

Em seu mais novo romance, um dos principais nomes da literatura contemporânea nacional aborda temáticas muito atuais, sobretudo a polarização que marca as discussões políticas e sociais do nosso tempo.

O enredo da obra tem como base a elaboração por uma cineasta alemã de um documentário sobre a violência em diferentes países, dentre eles o Brasil. Para desenvolver o seu trabalho no país, a cineasta opta por analisar um acontecimento de violência e que teve repercussão mundial: uma agressão pública sofrida por uma artista em uma apresentação em São Paulo.

É característico da produção de Laub escolher formas de escrita criativas e que fujam do comum. Assim, para construir a sua narrativa nesse livro, o autor vai alternando os capítulos entre as versões de Raquel – a vítima da agressão – e Alexandre, seu irmão, sobre o ocorrido. Os dois têm pensamentos muito antagônicos e para tentar encontrar os possíveis motivos para o episódio de agressão, acabam explorando o seus passados, de traumas na infância e perdas familiares, e o contexto político vivido pelos brasileiros no governo de Fernando Collor.

É impressionante perceber como a polarização torna quase impossível a tarefa de conciliar posições tão diferentes. Ao longo da leitura, até tentava entender de que forma os irmãos poderiam tentar reestabelecer seus laços ou, ao menos, um diálogo razoável, mas tive dificuldades de encontrar uma resposta.

Essa prejudicial consequência da polarização é um tema cada vez mais atual. O livro, portanto, desperta reflexões muito interessantes a partir de um caso aparentemente isolado e com características peculiares.

Da mesma forma que nos outros livros que li do autor, a escrita em “Solução de dois Estados” é agradável e também escancarada. Laub não poupa vocabulário na hora de descrever os acontecimentos e os sentimentos vividos pelos personagens. Recomendo muito!

Confissões, de Kanae Minato | Resenha

Até escolher o livro para a leitura conjunta do #desafiobookster2021, para o gênero de thriller, nunca tinha ouvido falar da autora japonesa Kanae Minato. Para a minha surpresa, a autora decidiu escrever já tarde, tendo “Confissões” sido sua obra de estreia, mas, por que fiquei surpreso com isso? O que me chamou a atenção, sobretudo após a leitura, foi como a autora conseguiu já em seu primeiro livro mexer tanto com o psicológico do leitor, despertando sensações incômodas e questionamentos interessantes.

A sinopse já tem uma premissa fora do comum: a protagonista, uma professora, planeja uma vingança contra crianças, seus próprios alunos. É que após a morte de sua filha de 4 anos, a professora Yuko Moriguchi revela que a filha não morreu por conta de um acidente, mas sim que a morte foi causada por dois de seus alunos. Por isso, sua última aula será a vingança que procura pela perda da filha!

Esse fato já é, por si só, capaz de perturbar a mente do leitor, mas confesso que ao longo da leitura a narrativa vai se desenvolvendo muito mais e fiquei bem impressionado com o número de reviravoltas.

Outro ponto que gostei bastante é que o livro é construído a partir das diferentes vozes dos personagens, ou seja, vamos descobrindo os detalhes da trama a partir de cada uma das perspectivas. Por causa disso, a leitura também desperta uma discussão interessante sobre aquele velho paradigma do bem e do mal, fazendo com que o leitor questione os possíveis motivos que estão por trás de atos repugnantes.

Por outro lado, essas múltiplas vozes também fizeram com que a leitura ficasse repetida em alguns momentos, mas nada que pudesse comprometer o ritmo construído pela autora. Também vale mencionar que em algumas passagens Minato trata da questão do vírus HIV de uma forma sensacionalista e sem a seriedade que merece (não sei se foi proposital ou não, mas pode gerar discussão).

Para quem gosta de thrillers ou para quem, assim como eu, não está acostumado com esse tipo de leitura, recomendo bastante “Confissões”: uma leitura rápida, inteligente e incômoda!

O mundo da escrita: como a literatura transformou a civilização, de Martin Puchner | Resenha

Como bem descrito pela revista britânica “The Bookseller”, o livro de Puchner pode ser considerado como “Sapiens para fanáticos por livros”. Ao longo das quase 500 páginas, o autor, que é professor de Literatura Comparada em Harvard, conseguiu conduzir o leitor por uma linha do tempo sobre a presença da escrita como ferramenta de comunicação.

São 16 mil anos de história, que começam desde a invenção do alfabeto e o desenvolvimento do papel que conhecemos hoje, as obras religiosas e até livros mais recentes e marcantes, como Harry Potter.

É importante deixar claro que o leitor não irá encontrar aqui descrição de obras e/ou uma análise literária dos autores e livros mencionados. Na verdade, o que encontramos é uma aula de história que se desenvolve a partir da evolução da escrita. Por isso, o livro agradará não apenas quem gosta de leitura, mas também os amantes de História.

Ah, também vale dizer que a edição está bem bonita e conta com diversas ilustrações sobre obras e outros objetos mencionados por Puchner ao longo da sua narrativa.

Por fim, deixo uma dica para evitar que a leitura canse (já que a obra tem momentos bem densos): tente ler junto com uma leitura mais leve de ficção. Com isso, o ritmo vai melhorar e a leitura fica até mais agradável e interessante. Leia sem pressa, tem muita informação legal que precisa ser digerida neste livro!

Knulp, de Herman Hesse | Resenha

O meu primeiro contato com o ganhador do Prêmio Nobel de 1946 foi com “Sidarta”. Amei a leitura, sobretudo a forma como Hesse conseguiu em poucas páginas construir personagens profundos e nos conduzir por questionamentos existenciais.

Apesar de tratar de uma temática bem distinta, a verdade é que a leitura de “Knulp” me lembrou bastante o estilo de “Sidarta”.

Também em poucas páginas, acompanhamos algumas passagens da vida de Knulp, um andarilho sem muito rumo na Alemanha do final do século XIX. A sinopse até parece simples demais e, por isso, não há nem muito como desenvolver a narrativa por aqui. É um daqueles livros que parecem ser sem graça quando você tenta contar para alguém, mas que encantam pela simplicidade.

E essa simplicidade e pureza nos sentimentos do personagem me tocaram muito. Knulp é a imagem da liberdade e do desapego a bens materiais e a laços sociais mais profundos. Por outro lado, o modo de vida do personagem acaba gerando um certo incômodo nas pessoas que cruzam o seu caminho. Todos pensam que Knulp está deixando de aproveitar a vida quando opta por andar sem rumo e sem “objetivos”. Todavia, é justamente aí que aparecem as principais reflexões encontradas na leitura: a simplicidade não seria uma forma de curtir a vida?

É um verdadeiro ato de rebeldia para os padrões sociais da época. Na verdade, ainda que esse tipo de história costume aparecer com mais frequência hoje em dia, em que pessoas abrem mão das convenções sociais e da rotina “normal” e resolvem tomar novos rumos, a sociedade ainda enxerga essa decisão como um desvio do que é certo.

A escrita de Hesse é incrível e a leitura flui muito bem. Recomendo muito, até porque você só vai conseguir entender o valor desse livro após lê-lo.

“A morte é um dia que vale a pena viver” – Ana Claudia Arantes | Resenha

É muito comum ler críticas sobre livros de auto-ajuda, como se eles fossem um gênero inferior de leitura, sobretudo quando comparados a obras literárias. Como costumo falar por aqui, entendo que preconceitos literários e generalizações nos impedem de conhecer e diversificar nossas leituras e podem afastar alguns leitores da conversa sobre livros. Na verdade, acho que esses gêneros nem deveriam ser comparados, já que têm propostas totalmente diferentes e podem ser aproveitados por quem os lê.

Pessoalmente, gosto dos livros de não ficção – e que se enquadram na categoria de desenvolvimento pessoal – quando a autora/autor propõe reflexões e ensinamentos por meio da experiência na área que dominam. E é justamente isso que a Dra. Ana Claudia Arantes faz nesse livro!

Médica especializada em cuidados paliativos, assim definidos como ações que visam a melhorar a qualidade de vida do paciente e seus familiares diante de uma doença que ameace a vida, a autora se vale de sua vivência com centenas de pacientes para lidar com um assunto tão incômodo: a morte.

O que mais me impressionou na leitura foi a sensibilidade e a simplicidade com que os temas são abordados pela Dra. Ana. A proposta é despertar no leitor reflexões sobre os taboos que envolvem o tema, a relevância dos cuidados paliativos e a necessidade de “normalizarmos” a nossa relação com a morte.

Além de uma parte mais técnica sobre a temática dos cuidados paliativos, há também passagens bem emocionantes de relatos da autora com seus pacientes. É a atuação de um médico que não se limita aos conhecimentos sobre o corpo e as doenças, mas depende de uma visão muito mais completa do ser humano assistido.

Apesar de ser uma leitura muito agradável e convidativa, as palavras da autora podem causar um certo desconforto – muitas vezes necessário – e acabam ficando na nossa cabeça por muitos dias. Recomendo muito!

#DesafioBookster2020 | Novembro

Mês: Novembro
Temática: Romance romântico ⁣
Livro escolhido: “Persuasão”, de Jane Austen⁣

Antes de contar um pouco sobre a obra escolhida, vale fazer uma rápida – e importante ⁣⁣⁣- observação sobre o gênero do mês. É muito comum confundir o gênero literário “romance” com a ideia de uma história de amor. Mas, na verdade, quando se fala em livros, romance é um gênero narrativo muito mais amplo, que envolve uma história completa composta por “enredo, temporalidade, ambientação e personagens definidos de maneira clara”.

Se pensarmos em inglês, os conceitos ficam mais claros, já que o idioma possui uma palavra para designar o gênero narrativo (“novel”) e outra para uma história como uma relação de amor (“romance”). Por isso, lembre-se que gostar de ler romances é algo bem amplo, que não está restrito a enredos de amor.

⁣No mês de novembro, a ideia é ler um romance que aborde a temática romântica. Escolhi uma obra de uma figura importantíssima da literatura mundial e que eu ainda não tinha lido: Jane Austen. Nascida em 1775, escreveu contos, novelas e romances desde jovem, e muitos de seus livros foram publicados sob pseudônimos — descoberta que seria feita apenas após a sua morte. Suas histórias que tratam do amor, das convenções sociais e da vida de nobres em uma Inglaterra rural do século XVIII se tornaram grandes clássicos da literatura mundial.

Escrito por volta de 1816, “Persuasão” foi lançado em 1818, um ano após a morte da escritora. É seu último romance completo, escrito logo após “Emma”. Nele Austen apresenta Anne Elliot, filha de um esnobe baronete, que se apaixona por Frederick Wentworth, um jovem ambicioso, mas sem influência entre as importantes famílias de Bath. Orientada pela família a não se casar com ele, Anne sacrifica seu amor e se fecha para os relacionamentos. Mas anos depois, Wentworh retorna mais velho e rico, abalando a vida de Anne.

Tem link para compra do livro nos stories!⁣⁣
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Lembrando que se você não conhece o desafio, fiz um destaque dos stories explicando tudo!

Wolf Hall, de Hilary Mantel | Resenha

Quando pensamos em Henrique VIII, é difícil não lembrar das polêmicas e jogos políticos que preencheram o seu reinado. No caso de “Wolf Hall”, primeiro volume de uma trilogia e vencedor do Man Booker Prize, esse interessante e atraente período da monarquia inglesa é construído a partir de um relevante personagem, Thomas Cromwell, que esteve ao lado do Rei Henrique VIII nos momentos mais decisivos de seu governo.⁣

Nesse volume, vamos acompanhar a trajetória de Cromwell desde uma humilde e violenta infância até chegar à Corte e se aproximar do rei. É nesse cenário que Mantel consegue humanizar uma figura controversa como Cromwell, que vive nesse período tragédias e perdas pessoais.⁣

Entretanto, o que mais chama atenção no livro é o estilo da autora que, vale dizer, foge totalmente do padrão dos romances históricos que estou acostumado a ler. Na obra de Mantel, o ritmo mais objetivo dos acontecimentos é substituído por diálogos profundos e pela construção detalhada dos bastidores dos jogos de poder. E se, por um lado, isso confere uma personalidade única à obra, essa inovação também pode causar certa estranheza a alguns leitores.⁣

No meu caso, devo dizer que senti dificuldades de me acostumar com o estilo da autora, tendo inclusive que precisar voltar páginas em alguns momentos para me contextualizar. No entanto, ainda que o estilo não tenha me prendido desde o início, confesso que fiquei MUITO impressionado com a capacidade da autora em se aprofundar nos detalhes das tramas, o que deve não apenas ter demandado uma extensa pesquisa, mas também exigido uma invejável criatividade para preencher tantas lacunas deixadas pela História.⁣

Assim, a qualidade literária do trabalho da autora é inegável. O importante, nesse caso, é estar ciente do estilo de narrativa que você vai encontrar. Para o leitor faminto por narrativas históricas detalhadas, essa obra irá agradar muito. Por outro lado, para o leitor que esteja acostumado a uma leitura mais rápida, que valoriza o ritmo dramático da obra, é importante estar ciente do estilo de livro que irá encontrar!⁣

Ps.: Dica que irá ajudar na leitura: A autora utiliza MUITO o pronome “Ele”, o que deixa o leitor confuso sobre a qual personagem ela estaria fazendo referência. O que descobri ao longo da leitura é que na grande maioria das vezes ela está se referindo ao próprio Cromwell.