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A uruguaia, de Pedro Mairal | Resenha

Escrito pelo argentino Pedro Mairal, “A uruguaia” foi muito bem recebido pelos leitores brasileiros. A sinopse é um pouco atrapalhada e não revela muito do que vamos encontrar: Lucas, um escritor na casa dos 40 anos, precisa viajar ao Uruguai para resolver alguns problemas financeiros. Mas se a viagem tinha um objetivo meramente prático, o personagem aproveita a oportunidade e cogita se reencontrar com uma paixão proibida que viveu naquele país, quando foi convidado para um festival literário. Seu nome é Magali GUERRA.

A escrita é envolvente e, se valendo de idas e vindas temporais (flashbacks), Mairal consegue manter a atenção do leitor. Pelas ruas de Buenos Aires e – sobretudo – Montevidéu, acompanhamos um personagem sem muito ânimo com a vida, que se refugia nas lembranças de sua paixão proibida para continuar enfrentando os problemas de uma vida sem muitas conquistas recentes. O livro é curto e o desenrolar das cenas faz parte das surpresas que Mairal guarda para o leitor, o que me impede de descrever a narrativa com maiores detalhes.

Leituras rápidas e gostosas como essa ajudam a melhorar o ritmo de leitura e dão fôlego para o que vem pela frente… Não sei se é um livro que ficará muito marcado na cabeça, mas é inegável que ele me divertiu muito durante os momentos que passei com ele, revelando um autor competente e habilidoso na construção dos sentimentos de seus personagens! Recomendo!

Oleg, de Frederik Peeters | Resenha

Conhecido por seu sucesso com “Pílulas azuis”, em que conta a sua relação com uma mulher soropositiva, Peeters volta a publicar uma nova história em quadrinhos sobre experiências aparentemente pessoais. Se em “Pílulas azuis” encontramos um personagem bem jovem, em “Oleg” acompanhamos momentos de sua vida 20 anos depois: uma autobiografia do contemporâneo.

A narrativa é formada por pequenas crônicas sobre a vida de Oleg. Pai de uma adolescente e casado há anos, o personagem principal se vê em um momento de bloqueio criativo – autor de histórias em quadrinhos, não sabe sobre o que pode escrever. Durante essa crise profissional, vamos vivenciando ao lado de Oleg alguns questionamentos e insatisfações desse “pai de família”, aparentemente comum.

A partir de ilustrações muito expressivas e interessantes, o autor traz uma grande parte de diálogos entre o personagem e sua própria consciência. São reflexões muito atuais e que revelam angústia da sociedade contemporânea: como lidamos como a tecnologia e internet, como encaramos o papel que nossa profissão exerce em nossas vidas, como se relacionar com o outro e, até mesmo, como enfrentar o nosso principal medo de perder pessoas que amamos.

É uma HQ extremamente atual e cotidiana que apenas confirma que histórias em quadrinhos não são feitas apenas para crianças e adolescentes, mas podem trazer debates relevantes e pertinentes. Gostei muito e fiquei com uma baita vontade de conhecer o seu sucesso “Pílulas azuis”! Você encontra os dois livros pela @editoranemo. 

A imperatriz de ferro, de Jung Chang | Resenha

Considerada como uma das mulheres mais importantes da história da China, a imperatriz viúva Cixi governou o país por décadas. E é sobre a vida dessa polêmica governante, que morreu com mais de 70 anos, que a autora se debruça para apresentar ao leitor uma biografia completa e cheia de curiosidades.

Aos 16 anos, Cixi foi escolhida como uma das concubinas do imperador chinês. E é já nesse momento inicial que a história narrada chama a atenção do leitor, sobretudo pelas diferenças que marcavam a cultura e sociedade daquele país, no início do séc. XIX. Um verdadeiro choque de cultura, que muitas vezes me deixou bem incomodado com os costumes daquela época.

Com a morte do imperador, quem assume o trono é o filho que o governante teve com Cixi. Mas é a partir de um golpe político que a viúva consegue chegar ao poder, mesmo em um período em que o papel da mulher na sociedade era muito limitado.

E os próximos capítulos da história da imperatriz são bem conturbados, tendo Cixi se envolvido em sérias polêmicas que a deixaram com a fama de uma governante sanguinária. No entanto, a autora tenta desmistificar muito essa imagem criada sobre Cixi, a fim de garantir o seu papel merecido na História – que muitas vezes foram roubados das mulheres. O papel da mulher responsável por levar a China da Idade Média para a Idade Moderna.

Confesso que as partes da obra que descrevem os detalhes da rotina da imperatriz e dos demais que vivem a sua volta me deixaram muito mais interessado quando comparado com as partes dedicadas aos fatos políticos. De toda forma, fica clara a densidade da pesquisa da autora e a relevância de Cixi para a história da China. A edição também possui várias imagens sobre a vida da imperatriz e do país ao longo do século XIX. Para quem gosta de biografias mais extensas, essa é uma excelente escolha!

Tudo é rio, de Carla Madeira | Resenha

“Tudo é rio” é surpreendente! E isso por diversos motivos. Em seu romance de estreia, a autora mineira revela uma escrita encantadora, entregando ao leitor uma obra poética, instigante e ardente. É uma narrativa simples e, ao mesmo, densa, que vai te deixar com vontade de sair marcando várias passagens.

Dalva e Venâncio formam um casal preenchido, em que a falta não é sentida. Mas é justamente a partir da chegada de mais um na vida desses dois, que uma tragédia acontece e os sentimentos mais conflituosos tomam conta de seus pensamentos. É como se apesar de completos, Venâncio – de forma doentia – não pudesse tolerar qualquer excesso.

E em paralelo, surge a figura de Lucy, uma prostituta que satisfaz e é atração dos homens da cidade. A mulher se gaba do prazer que sente com seus clientes e da capacidade de enfeitiçar um por um. A situação muda, no entanto, quando Lucy se vê ignorada e até mesmo rejeitada por Venâncio.

E é a partir da revelação do passado de cada um desses personagens que Carla Madeira vai criando uma narrativa com um ritmo impressionante. É no meio de sangue, sêmen, suor e lágrimas que o leitor se vê preso à correnteza das palavras da autora. São capítulos curtos, em que Lucy, Carla e Venâncio te impedem de parar.

Terminei a leitura com aquela vontade de sair falando para todo mundo: leiam “Tudo é rio”, leiam Carla Madeira! E, apesar de ser mera coincidência, publicar uma resenha nota 10 de uma obra escrita por autora nacional contemporânea em pleno dia da mulher só deixa mais evidente o quanto perdemos por conta de um mercado editorial que ainda resiste em valorizar escritoras brasileiras.

O conto da ilha desconhecida, de José Saramago | Resenha

Eita, falar de Saramago para mim não é fácil, porque sei que vou ficar lançando um elogio atrás do outro. E sempre que vou recomendar algum livro desse gênio para alguém, eu já faço um alerta: a leitura é densa e exige tempo. Tempo para aproveitar e digerir a habilidade que Saramago tem com as palavras e com a língua portuguesa. E quando me perguntam por qual livro começar, falo sem dúvidas: “O conto da ilha desconhecida”.

O livro é curtinho, um conto, e, por isso, não vai te demandar tanto (mas não duvide da sua profundidade). Conheço pessoas que começam a ler Saramago, se assustam com aquelas frases longas e acabam deixando de lado. Por isso, “O conto da ilha desconhecida” vai te “assustar” menos. Mas não é para ter medo das obras de Saramago, até porque elas não são difíceis… A forma como o autor usa – ou deixar de usar – a pontuação pode causar certa estranheza, mas o leitor se acostuma. Na verdade, como já falei, basta paciência e atenção! Se você conseguir seguir assim, a experiência é muito enriquecedora.

E como o livro é tão curto, fica difícil de falar muito sobre o seu enredo. É, como a própria sinopse indica, uma parábola do senho realizado. O sonho de um viajante que pede ao rei um barco para conseguir chegar até uma ilha desconhecida. Se a história é simples, você vai se surpreender com a sensibilidade da escrita e das mensagens por trás do desejo desse viajante. No final, o que essa ilha desconhecida representa em nossas vidas?

“Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós…”

Pão de açúcar, de Afonso Reis Cabral | Resenha

Com apenas 30 anos, o escritor português venceu o Prêmio Saramago com este livro que, de forma gradual, insere o leitor no cenário de um crime chocante e muito dolorido. O fato histórico sobre o qual o romance é construído é verídico: em 2006, Gisberta, uma transexual brasileira, foi torturada e morta por jovens, na cidade de Porto, em Portugal.

Pouco se sabe sobre o que teria motivado os jovens a cometer o assassinato e foi justamente a partir desse vácuo de informações que o autor, se valendo do seu frutífero imaginário, cria sua narrativa. É uma forma de tentar levar ao público um pouco mais da vida de Gisberta e, ao mesmo tempo, dar uma versão para a historia dos agressores, a partir da voz de Rafael.

E talvez o mais chocante é perceber que os agressores não passam de crianças, meninos que vivem semi abandonados em abrigos da cidade. Em nenhum momento o autor tenta justificar o ocorrido, mas o que faz é ao menos dar uma visão sobre a realidade vivida pelos garotos. Em Porto, é no esqueleto de um prédio abandonado que os jovens começam a criar uma relação com Gisberta, uma relação que oscila entre admiração e repulsa e termina de forma trágica. Confesso que os últimos capítulos são de difícil leitura por conta da crueldade que envolveu o crime…

Também vale dizer que, por ser escrito em “português de Portugal”, senti um pouco de estranheza nas primeiras 50 páginas, o que talvez até tenha dificultado a minha conexão com a leitura. Mas, ao poucos, me acostumei e logo passei a ficar muito ligado à conflituosa relação dos garotos com Gisberta, sofrendo por um final que já estava marcado nos jornais e na belíssima música gravada por Maria Bethania (“Balada de Gisberta”).

Além de permitir ao leitor uma experiência literária marcante, “Pão de Açúcar” também exerce um papel necessário na denúncia das consequências brutais que uma sociedade preconceituosa pode trazer para a vida de uma cidadã inocente e marginalizada. Gisberta vive nessas páginas.

Torto Arado, de Itamar Vieira Junior | Resenha

Não tenho dúvidas de que 2020 foi o ano do “Torto arado”. Vencedor de dois prêmios literários de extrema relevância (Prêmio Jabuti e Oceanos), o livro de Itamar também conquistou o gosto do público leitor. E com tanta crítica positiva sobre o livro, fica até difícil fazer comentários, seja pelo risco de ser repetitivo, seja pelo medo de fazer algum comentário que possa ir contra a opinião do público.

Por meio da voz das irmãs Bibiana e Belonísia, o autor constrói de forma sensível e humana a herança de um passado escravagista que perdura no território brasileiro, mais especificamente no sertão baiano. E quando a gente fala em dar “voz” às personagens, Itamar dá voz aos silenciados. Talvez seja esse o significado por trás da marcante cena que inaugura a narrativa e que vai perseguir os moradores de Água Negra: a mutilação de quem desde criança já está condenado à submissão social. É a mutilação pela memória.

Ao redor de Bibiana e Belonísia, outras vidas são apresentadas ao leitor. Histórias muito bem entrelaçadas por Itamar e que deixam clara a dureza da vida no sertão nordestino. Vive-se com muito pouco, porque não se pode ter mais. Deve-se obedecer para poder seguir vivo e manter viva a família. Se de um lado há poucos que se aproveitam dessa situações, são tantos aqueles que sofrem para sustentá-la. Todo esse cenário é acompanhado não só pelo leitor, mas também por Santa Rita Pescadeira, uma entidade que já há muito tempo compartilha o sofrimento desse povo cheio de fé.

Uma leitura fluida, mas que merece o seu próprio tempo para capturar tamanha densidade em poucas páginas. É refletir sobre a denúncia de uma sociedade que ainda é profundamente marcada pelo seu passado em que a escravidão era tolerada. Se depois de tanto tempo uma lei veio para proibir, será que a realidade realmente obedeceu a letra que mancha o papel?