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O encantador de pessoas, de Liv Soban | Resenha

Como lidar com a perda de alguém que amamos muito? A saudade é sempre inevitável e a tristeza vai mudando de formas ao longo do tempo. Quem perde alguém querido tenta de diferentes formas amenizar a dor e, quando pensamos em livros, é comum conhecer pessoas que buscam nas palavras escritas uma tentativa de dar voz ao próprio luto.

E é justamente essa a experiencia de Liv Soban, que nunca havia pensado em escrever um livro autobiográfico até vivenciar a triste perda de seu pai, carinhosamente chamado de Baboo. A partir disso, Liv sente a vontade de compartilhar com outros leitores as tão valiosas memórias que tem com seu pai. Mas, além desses bons momentos, a escrita também serve para dividir com o leitor a dificuldade de encarar uma doença que vai levando embora cada vez mais do paciente e os dias tão difíceis que antecedem o dia da morte.

E o que mais gostei da experiência de ler as memórias de Liv foi perceber como a autora consegue tratar de momentos tão difíceis de uma forma leve a emocionante. Não é um livro triste, mas sim um livro sensível e que acaba envolvendo o leitor na bela relação de um pai e de uma filha. A escrita é simples, mas consegue transmitir emoções para quem a lê! Recomendo para quem passou por alguma perda não tão recente ou deseja conhecer uma bela história!

A palavra que resta, de Stênio Gardel | Resenha

A leitura de “A palavra que resta” apenas me confirma o quanto a literatura é capaz de promover uma identificação do leitor com as histórias dos personagens. Apesar das imensas diferenças entre a minha vida e a de Raimundo, nascido na roça, em uma família pobre e sem nunca ter frequentado uma escola, conseguimos nos identificar cada vez mais à medida que nos aproximamos dos sentimentos e dos conflitos interiores.

Aos 71 anos, Raimundo, analfabeto, ainda guarda uma carta que recebeu de Cícero, sua primeira paixão, quando ainda eram muitos jovens. A carta foi uma despedida que os dois nunca tiveram, já que depois que suas famílias descobriram o amor que os dois compartilhavam, Raimundo precisou fugir de casa. É a saudade daquilo que nunca lhes foi permitido. Está é a realidade, ainda tão atual, daqueles que são considerados como marginais de uma sociedade que se denomina como tradicional.

Apesar de existir ao longo da leitura uma curiosidade para saber o conteúdo da carta, vamos percebendo com o passar das páginas que, mesmo fechada, a carta dá muita força para Raimundo durante todos esse anos em que a manteve sob o seu cuidado. A carta não é apenas a representação do que poderia ter sido, mas do que ainda pode ser! O que ainda pode ser se ele aceitar a sua orientação sexual, parar de repetir comportamentos dentro do padrão social e seguir em frente com os anos que ainda tem pela frente.

Essa mudança de perspectiva me fez pensar muito em minha experiência e de todos os gays que conseguiram “sair do armário” e se autoaceitar: deixamos de pensar em como a vida deveria ter sido, para entender como ela ainda pode ser boa quando nos permitimos viver plenamente. O livro, portanto, trata de forma muito sensível e verdadeira um conflito muito atual.

Para mim, a narrativa de Stênio Gardel se destaca da metade para a frente da obra, quando conseguimos de fato penetrar nas mais profundas angústias de Raimundo e de seus confrontos com o diferente. E se logo em seu romance de estreia o autor já conseguiu construir um personagem tão humano e real, mal podemos esperar pelo que vem pela frente!

Seminário dos ratos, de Lygia Fagundes Telles | Resenha

Quando me perguntam quais os meus autores nacionais favoritos, Lygia Fagundes Telles com certeza está no topo da lista. Apesar de ter escrito uma extensa variedade de contos, até esse ano eu só havia lido seus romances. E não porque são mais bem recomendados, mas talvez porque não sou uma pessoa tão fã desse gênero literário (acho que prefiro histórias mais longas, em que tenho tempo para me apegar aos personagens e à narrativa).

Apesar disso, de tempos em tempos eu me esforço para ler alguma coletânea de contos e Seminário dos ratos já estava na minha lista faz tempo. Que leitura!! Em grande parte dos contos, Lygia conseguiu me envolver na narrativa de uma forma que muitos romances nunca conseguiram. O seu dom de escrever sobre o ser humano, seus sentimentos e seu comportamento ficam muito evidentes nessa coletânea, assim como a sua capacidade de tratar de temas que estavam muito a frente do seu tempo (o livro foi publicado em 1977).

E é muito interessante perceber como os enredos contidos nas páginas de Seminário dos ratos são distintos entre si, sendo que a autora se vale muito da fantasia para transportar o leitor para outras realidades e do fluxo de consciência para permitir uma imersão maior no interior dos personagens. Temos, por exemplo, uma situação de mistério em que coisas começam a desaparecer de um quarto, e apenas formigas são vistas lá; a história de uma mulher que mantém uma tigresa em seu apartamento; e uma cidade que é invadida por ratos que passam a devorar tudo que veem pela frente.

É uma verdadeira viagem para a essência dos personagens nos mais diversos – e criativos – ambientes. Dentre os treze contos que compõem a coletânea, posso dizer que os meus favoritos foram “As formigas”, “Tigrela” e “Seminário dos ratos”.

Conversa no Catedral, de Mário Vargas Llosa | Resenha

Tem leituras que nos desafiam. A trajetória pode até ser desconfortável, mas uma das melhores sensações é terminar esse desafio com o sentimento de que valeu muito a pena. E foi justamente assim como esse livraço do autor peruano Vargas Llosa. E é interessante saber que esse livro não é apenas desafiador para quem o lê, mas também o foi para o próprio autor, que considera esta a obra que mais deu trabalho para escrever.

Mas por que esse livro foi desafiador? A resposta é a quantidade de vozes presentes em Conversa na catedral. A polifonia é uma característica bem presente nas obras de Vargas Llosa, mas parece que ele quis usar esse livro para experimentar bastante a multidão das vozes. São diálogos que se alternam e, principalmente nas primeiras partes, podem te deixar um pouco perdido no enredo. Inclusive, alguns assinantes do BookSter pelo Mundo montaram um esquema com as relações dos personagens, o que ajudou na leitura!

Na minha opinião, é essa habilidade do autor que faz a leitura ainda mais incrível. Ele consegue construir personagens muito vivos e intensos, sem muitas descrições, mas apenas pela forma com que se comunicam e se relacionam com os outros.

O pano de fundo é o Peru da década de 50, sob o poder do governo militar de Odría. De um lado, o autor nos mostra muito dos bastidores das artimanhas políticas e da pura troca de poderes e influência. De outro, vemos o cenário das universidades vítimas da censura e repressão pelo governo, assim como dos movimentos que resistiam ao regime vigente.

Não vou adentrar nos muitos personagens que compõem essa narrativa. Deixo aqui o desafio para vocês. Se aventurem nessa história e não se assustem com o começo. Leiam com calma que as dúvidas começam a ser esclarecidas ao longo da leitura. No final, é só ficar com as boas memórias de um livro escrito por um dos mais importantes escritores da América Latina.

Herança, de Miguel Bonnefoy | Resenha

Quando recentemente estive na França, via “Heritage” em evidência nas estantes das livrarias que visitei. Curioso, fui logo pesquisar mais do livro, que venceu o Prix des Libraires 2021, e percebi que era o mesmo que há pouco havia recebido da @editoravestigio! Comecei a leitura sem saber o que esperar, já que a obra chegou recentemente nas livrarias brasileiras e ainda não tinha visto a opinião de alguém que já tivesse se aventurado por essas páginas… E que surpresa maravilhosa!

Já falei várias vezes por aqui que sou fã do realismo mágico, tipo de narrativa que, para minha felicidade, marca essa obra de Bonnefoy. Ao contar a trajetória da família Lonsonier, o autor nos envolve com sua escrita belíssima, com detalhes envolventes que desafiam a realidade e com personagens muito bem desenvolvidos. Inclusive, senti uma grande semelhança com a escrita de Isabel Allende em “A casa dos espíritos”, um livro que está na lista dos meus favoritos.

O cenário principal do romance é a cidade de Santiago do Chile. Lá se instalou o patriarca da família, após deixar a França no final do século XIX. A partir disso, acompanhamos a trajetória das próximas gerações, chegando até o Chile de Pinochet na década de 70. As personagens femininas na obra são, de longe, as mais marcantes:Thérèse e sua fixação pela beleza dos pássaros; Margot e sua paixão pela liberdade da aviação.

O aspecto histórico abordado por Bonnefoy deixa a obra ainda mais interessante. Conhecemos desde os traumas das trincheiras na primeira guerra mundial, os bombardeios aéreos que marcaram a segunda grande guerra e os sofrimentos de presos revolucionários em plena ditadura militar no Chile. Vale muito a leitura!

Paula, de Isabel Allende | Resenha

Começar um livro sobre uma mãe que aguarda a morte de sua filha doente ao seu lado é algo que pode ser impensável para muitos. Temos nossos limites em conhecer o sofrimento do outro, mas a verdade é que esse livro não trata apenas da tristeza e do medo de uma perda irreparável. Nesse livro autobiográfico e muito pessoal, Isabel Allende alterna sua própria história com os meses angustiantes que passou ao lado de sua filha, Paula, em virtude de uma doença grave que a acometeu ao final de 1991.

Para lidar com o medo e a angústia, Isabel se vale da escrita para contar para sua filha e para nós, leitores, a história de sua própria vida, como filha, esposa e mãe. A autora também nos conta sobre a trajetória de sua família e nos insere em um ambiente conturbado do Chile, após o golpe militar de 1973.

É um texto sensível e que toca em assuntos difíceis, sem se deixar levar por uma visão extremamente melancólica. Talvez por conta dessa alternância entre os momentos em que reza pela vida da filha, com a leitura de suas memórias, faz a leitura ser menos dolorosa.

Me emocionei bastante com a obra, sobretudo pela forma como a autora tira forças do amor pela filha para conseguir enfrentar momentos que nunca imaginou ter que vivenciar. Nos sentimos ao lado de Isabel, ao lado de Paula e daqueles que torciam pela sua recuperação. Um livro que nos relembra como a escrita pode ser mais uma forma de lidar com a dor e com o medo.

Também é muito interessante acompanhar toda a trajetória de uma jovem cheia de segredos que, aos poucos, se tornou uma das maiores escritoras da atualidade e com livros vendidos em dezenas de países. Além de gostar da forma como Isabel cria suas histórias, passei a admirar ainda mais a sua relação com os livros. Pronto para o próximo da autora!

O homem que escutava as abelhas, de Christy Lefteri | Resenha

Destruição. Essa é a palavra que marca toda a narrativa. E não é apenas a destruição física da cidade de Alepo, na Síria, de onde fogem os protagonistas do romance, mas também a destruição dos que mais amamos e da esperança por dias melhores.

Nuri é um criador de abelhas que, junto com sua esposa Afra e seu filho, vivia em uma Síria “normal”. No entanto, com com o início das guerras, até a ruína total da cidade, Nuri e Afra veem a sua vida desabar quando sofrem uma perda devastadora. E é em meio a tanta tristeza e saudades que os dois ainda precisam buscar forças para tentar sobreviver.

Diante da falta de qualquer esperança, o casal decide tomar o rumo que milhões de pessoas são forçadas a tomar ao redor do mundo: o refúgio. A travessia é repleta de obstáculos, que muitas vezes deixam os personagens perto do seu limite físico e psicológico.

Ao trazer essa realidade tão atual para os leitores, Christy consegue dar voz ao sofrimento dos refugiados, deixando claro para qualquer um que fugir de seu país não é uma escolha, mas sim a única alternativa contra a morte. Vale dizer que a autora nos conta isso com base na sua própria experiência trabalhando em campos de refugiados na Europa, o que torna o enredo ainda mais verossímil.

Confesso que fiquei muito chocado com os detalhes que Christy traz em sua narrativa. Nos deparamos com situações em que o conceito de humanidade fica completamente perdido. Uma realidade em que uma criança é descartável e que a vida não vale nada.

A escrita é bem simples e não conseguiu me mostrar uma grande profundidade dos personagens. Mesmo assim, e apesar das cenas fortes, essa leitura tem um papel muito importante para conscientizar o leitor sobre a seriedade e urgência com que o tema dos refugiados deve ser tratado. É um combate à carga de desinformação que vemos sendo disseminada nos meios de comunicação. Recomendo!