Blog

Becos da memória, de Conceição Evaristo | Resenha

Com 75 anos, Conceição Evaristo é uma das principais escritoras nacionais. E foi por isso que escolhi essa obra para representar o Brasil no Bookster pelo Mundo. Não podemos esquecer, por sua vez, que a autora teve um reconhecimento muito tardio, em virtude de ser mulher, negra e de origem humilde em um país de ainda poucas oportunidades.

No livro, a autora consegue construir a memória coletiva do Brasil. De um país marcado pela miséria, pela violência e pelo sentimento de não pertencimento que recai sobre os marginalizados. Em um local ou data não revelados, acompanhamos um triste processo de desmonte de uma favela, de uma comunidade inteira, que se vê sem esperança e sem futuro.

E apesar de ter sido escrito há algumas décadas, o livro ainda se mostra
atual e denuncia uma realidade que pouco mudou nos grandes centros urbanos. É uma população que não bastasse ainda carregar um passado de sofrimento por seus ancestrais escravizados, se vê sem espaço na sociedade, como se pudesse ser facilmente descartada.

Mas o que a autora nos mostra é a humanidade que preenche todos os becos dessa comunidade. São personagens que precisam sobreviver com uma força que muitas vezes parece faltar. E apesar dos sonhos que todos levam consigo, o desespero parece ficar à espreita, rondando aqueles seres humanos.

A linguagem de Conceição é seca e direta, mas ainda assim consegue carregar uma poesia em suas palavras. O título do livro também é muito representativo. As histórias que nos são narradas na obra são fruto da memória dos mais velhos, que buscam nos cantos de seu passado os acontecimentos vividos pelos becos da favela.

Termino essa resenha com a definição de “escrevivência”, criado pela autora:

“O termo tem como imagem fundante as africanas e suas descendentes escravizadas dentro de casa. Uma das funções delas era contar histórias para adormecer os meninos da casa-grande. (…) Hoje a escrevivência das mulheres negras não precisa mais disso. Nossas histórias e escritas se dão com o objetivo contrário: incomodar e acordar os da casa-grande. Não estamos aqui para ninar mais ninguém nem apaziguar as consciências.”

Demian, de Hermann Hesse | Resenha

Quando você começa uma nova obra de um dos seus autores favoritos, é difícil de evitar as altas expectativas. “Demian” é um dos principais livros do escritor alemão Herman Hesse, que venceu o Prêmio Nobel da Literatura em 1964. Muitos leitores, inclusive, indicam esse livro como uma boa porta de entrada nas obras do autor, já que traz uma temática de adolescência, de formação de um jovem.

Emil Sinclair é o protagonista e narrador da história. Quando ainda criança, vive um momento comum na vida de muitos: a saída da bolha segura e confortável da casa dos pais para enfrentar o desconhecido e os possíveis conflitos com outros jovens de sua idade. Nesse momento, o protagonista conhece Max Demian, um colega de classe que parece ter ideias muito maduras para a sua idade. E é a partir dessa amizade pouco convencional que Sinclair começa a refletir sobre sua existência, sobre as contradições da condição humana e suas dualidades. Demian serve como um guia para Sinclair, que enxerga no amigo alguém à frente de seu tempo. Um guia para o seu autoconhecimento.

A temática me agrada bastante, mas confesso que a primeira parte do livro não me cativou tanto. Tive dificuldades de me apegar aos personagens e essa parte inicial me deixou confuso em alguns momentos (talvez por uma maior carga filosófica). Por outro lado, a segunda parte do livro, com Sinclair mais velho e mais maduro, me interessou muito mais – o que ficou evidente até no meu ritmo da leitura. Como se o personagem estivesse mais consciente sobre os seus conflitos internos e conseguisse passar isso de forma mais clara ao leitor.

Leia Herman Hesse, mas leia com calma e sabendo sobre as principais questões abordadas pelo autor. Não espere uma narrativa comum, repletas de acontecimentos, mas sim uma temática mais subjetiva e filosófica.

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves | Resenha

Sabe aquela leitura que você mal começa e já quer sair indicando? Então, com “Um defeito de cor” foi bem assim. Levei mais de 2 meses para ler as quase mil páginas e fiquei esse tempo todo ansioso para poder fazer essa resenha para vocês e recomendar a leitura!

O livro é uma verdadeira aula sobre a formação da sociedade brasileira e sua estreita relação com o triste processo de escravidão que marcou o nosso país. Acompanhamos a história de Kehinde, uma garota nascida no começo do século XIX em Savalu (atual Benin). Depois de vivenciar tragédias em sua família, acaba sendo capturada e transportada para o Brasil, uma terra totalmente desconhecida, com o objetivo de ser vendida para algum senhor de engenho. E a autora detalha todo esse traumático episódio, narrando as condições desumanas que os futuros escravizados sofriam nas embarcações e na chegada ao país.

No Brasil, Kehinde será batizada e receberá o nome de Luisa, já que os colonizadores simplesmente ignoravam a cultura e tradições dos povos capturados no continente africano. Kehinde, no entanto, se recusa – da forma que pode – a esquecer seu passado. São muitas as dificuldades vividas por uma criança sozinha em um país desconhecido. A narrativa faz um mergulho tão profundo na vida de Kehinde que fica impossível a tarefa de contar sobre a sua trajetória em uma resenha.

Por isso, o importante é compartilhar o que aprendi. Aprendi sobre a origem de diversos elementos que compõem a cultura brasileira. Entendi o lento processo que culminou na abolição da escravidão no país, ao mesmo tempo que me revoltei muito pelo sofrimento a que os escravizados eram submetidos. Há passagens que demandam uma pausa, tamanha a crueldade do colonizador.

Também é muito interessante a construção da personagem principal. Ana Maria não pretende criar uma heroína, mas sim uma mulher real, que luta para sobreviver e proteger quem ama, mas que não deixa de apresentar defeitos e tomar atitudes com base apenas na emoção.

Esse é um livro que merece ser lido por todos. Não sei como ainda não foi traduzido para outros idiomas, já que é um retrato riquíssimo da história do nosso país.

Gente ansiosa, de Fredrik Backman | Resenha

Vivendo em um período em que a ansiedade é um grande vilão, não há como não se sentir atraído por esse título. Mas logo que me deparei com a sinopse do romance do autor sueco, que se tornou um best seller em vários países, fiquei um pouco na dúvida sobre de que maneira o título do livro poderia se relacionar com a história.

De forma bem resumida, Backman nos apresenta uma situação peculiar: um grupo de pessoas diferentes uma das outras é feito refém por um assaltante de banco estreante e bem atrapalhado. E é a partir do final dessa confusão que o autor vai nos revelando aos poucos como tudo começou e o que levou cada uma das pessoas a visitar aquele apartamento na véspera do ano novo.

Assim, o que parece ser apenas uma história engraçada sobre um roubo mal-sucedido e planejado, acaba se revelando uma incursão nos conflitos internos de cada um dos personagens. São traumas, angústias, arrependimentos, vontades e crises de relacionamento que, quando misturados, podem caber dentro desse guarda-chuva que o título parece nos indicar: somos todos gente ansiosa. Todos com nossas próprias questões, que costumam ficar bem escondidas quando nos apresentamos em um contexto social – como uma visita a um apartamento, por exemplo.

E toda a situação envolvendo os reféns parece estar relacionada, de alguma forma, com a história de um suicídio ocorrido em uma ponte da cidade há vários anos. A tragédia afetou, de forma única, muitos dos personagens dessa obra, inclusive os policiais – pai e filho – responsáveis por investigar o assalto ao banco. Nesse ponto, confesso que a parte dos interrogatórios me pareceu um pouco cansativa, atrapalhando o bom ritmo da história.

Também vale dizer que você não vai encontrar aqui um grande desenvolvimento sobre as questões psicológicas dos personagens. É muito mais um encontro com diferentes pessoas e seus próprios conflitos. A leitura desperta reflexões, ao mesmo tempo que nos emociona, nos faz rir e questionar sobre o que está além da máscara que cada um carrega no seu dia a dia. Leitura gostosa e interessante!

Na colônia penal, de Franz Kafka | Resenha

Publicado em 1919, a novela de Kafka aborda temas ainda muito atuais, sobretudo em uma sociedade conservadora em que a ideia de fazer justiça é vista como uma forma de entretenimento. Já na primeira página da obra, somos apresentados a uma máquina peculiar, um instrumento de execução capaz de marcar na pele do condenado – ou da vítima – os crimes que ele teria supostamente cometido.

E digo supostamente porque, nesse “espetáculo” que dura aproximadamente 12 horas até a execução, o condenado não sabe direito por que está lá. Não lhe dão o direito a entender suas acusações e, muito menos, um direito à defesa. E o que mais choca o leitor é que para o Oficial que opera a máquina, não há nada de errado, já que provavelmente o acusado mentiria se pudesse se defender.

E tudo se passa em uma colônia penal, como o próprio título da obra já indica. No começo do século XX, as colônias penais – prisões construídas em ilhas isoladas – eram ferramentas comumente utilizadas por diversos países para remover da sociedade aqueles cidadãos tidos como indesejáveis. Sem qualquer controle externo, os prisioneiros eram submetidos a punições e torturas.

Mas vale refletir: ainda que as colônias penais tenham deixado de existir, será que nosso sistema prisional está muito diferente? É claro que a máquina mencionada na obra é um extremo da injusta justiça feita pelas próprias mãos. Mas será que as nossas prisões superpopulosas, em condições degradantes, não revelam um sistema interessado unicamente em reprimir ao invés de prevenir?

Apesar de a Constituição assegurar a qualquer cidadão o direito de não ser submetido a tortura ou a tratamento desumano, parte da sociedade aplaude a realidade em que sequer direitos mínimos ao prisioneiro são assegurados. Por isso, o trabalho de Kafka, apesar de chocante, revela um problema extremamente atual e que não pode ficar à margem de uma ilha isolada, esquecida pelo debate político e social.

Recomendo ler nessa edição da @antofagica, com textos de apoio que vão contribuir para a compreensão da obra e das reflexões que ela desperta. Além disso, as ilustrações enriquecem a experiência!

Nossa Senhora do Nilo, de Scholastique Mukasonga | Resenha

O genocídio de Ruanda, ocorrido em 1994, é um dos episódios mais tristes e brutais sobre os que já li. Cerca de 1 milhão de pessoas foram mortas em apenas 100 dias. Além disso, ter visitado o país em 2019 me permitiu ver de perto como esse acontecimento está marcado profundamente na sociedade, ao mesmo tempo que Ruanda vem demonstrado um forte exemplo de reestruturação social e econômica no continente africano.

Scholastique Mukasonga é ruandesa de origem Tutsi e, apesar de ter conseguido fugir e sobreviver ao genocídio, perdeu diversos membros da sua família. Em “Nossa Senhora do Nilo, Mukasonga se distancia do centro dos acontecimentos de 1994 e nos leva a um liceu católico de meninas, situada nos altos das montanhas da bacia do Nilo. Estamos anos antes ao massacre, mas já conseguimos enxergar no próprio microcosmo da escola como a segregação de etnias foi sendo construída no seio da sociedade ruandesa.

O liceu adota um sistema de cotas, em que 10% das vagas são separadas para as alunas da etnia Tutsi, a qual foi vítima dos crimes e das perseguições que culminaram no genocídio. As meninas, que vivem em uma sociedade machista e patriarcal, devem se submeter a rígidas regras impostas pelas freiras que controlam a instituição. As garotas Tutsis ainda sofrem com a crescente discriminação e desprezo das suas colegas.

A igreja é retratada de mãos atadas – e às vezes até apoiando o regime dos Hutus – em uma situação de extrema injustiça. A preocupação era muito mais de tentar catolicizar os ruandesas, tornando abomináveis qualquer culto às antigas tradições, do que proteger quem necessitava. Também é possível notar a inércia dos antigos colonizadores, representados pelos professores da instituição, diante do perigo que parte de suas alunas enfrentava. É um reflexo do comportamento dos países desenvolvidos no início da década de 90.

Vale pontuar que o livro não é focado apenas em acontecimentos. A autora se dedica a apresentar ao leitor características da sociedade ruandesa daquela época. Uma ótima introdução ao cenário que culminou na guerra civil e no genocídio de 10% da população ruandesa.

A cidadela, de A. J. Cronin | Resenha

Que eu sou um fã de livros com temática de medicina, isso já deixei bem claro por aqui! Por isso, foi com muita expectativa que comecei a ler A cidadela, em que são narradas as condições de trabalho de um jovem médico recém-formado no início do século XX. Além disso, em nossa conversa para o @dariaumlivropodcast, o livro havia sido indicado por Antônio Fagundes como um dos seus favoritos.

O protagonista da história, Dr. Andrew Manson, inicia sua carreira em uma pequena aldeia do País de Gales. Por não ter tido muita experiência com pacientes, conseguimos acompanhar a insegurança de um jovem com a enorme responsabilidade de lidar com a vida dos moradores de Drineffy. Porém, sempre buscando enxergar o seu paciente como um ser complexo, indo além da simples análise dos seus sintomas físicos, Dr. Manson começa a chamar a atenção na região em que atende.

Apesar de o início da leitura ter me prendido bastante a atenção, confesso que o desenvolvimento do meio da narrativa ficou um pouco lento. Tive a sensação de que a rotina do Dr. Manson teria ficado monótona, sem grandes acontecimentos.

Por sua vez, consegui retomar o ritmo no terço final da obra. Depois que se muda para Londres e começa a adentrar no círculo social dos pacientes ricos e importantes, o personagem passa a esbarrar em questões éticas interessantes. Foi como se o médico tão interessado no bem-estar do paciente passasse a ser corrompido por uma sociedade que vive pelo dinheiro e pelo poder. Há um crescente conflito interno entre sucesso profissional e os objetivos éticos da tão venerada profissão dos médicos… Temas que, na minha visão, ainda devem existir para quem vive nesse meio. Também é interessante ver como as questões profissionais acabam irradiando para o lado pessoal e familiar do protagonista.

Mesmo com esse ritmo mais lento no desenvolvimento da obra, a experiência da leitura foi bem prazerosa. Recomendo bastante a leitura para quem se interessa pelo tema e para quem gosta de romances que retratam a sociedade do início do século passado!