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As Vinhas da Ira, John Steinbeck | Resenha

Lançado pela primeira vez em 1939 pela primeira vez, e ganhador do National Book Award e o Pulitzer de ficção, também foi citado com destaque quando Steinbeck recebeu o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1962. As Vinhas da Ira recebe agora uma nova edição, que conta com uma orelha de minha autoria. Deixo aqui para vocês trecho do meu texto sobre a obra:

“Assolada por uma forte crise econômica, a década de 1930 no sul dos Estados Unidos foi o cenário escolhido por John Steinbeck para construir um romance que deixou uma profunda marca na literatura norte-americana. Premiado com o Pulitzer, As vinhas da ira é, acima de tudo, a narrativa de uma fuga.

Assim como milhares de famílias, os Joad são forçados a deixar suas terras, que foram seu lar por décadas, para fugir da fome e da miséria. São descartados para dar lugar às inovações tecnológicas de um sistema voraz, que não sente pena de suas vítimas. E é nesse contexto que, para esses moradores de Oklahoma, o Oeste se mostra como a promessa de uma vida melhor, com emprego e comida na mesa.

Deixando a cidade natal, os Joad iniciam uma travessia que compõe a maior parte da obra. O autor nos leva junto e nos permite acompanhar as dificuldades próprias de cada integrante da família. O ritmo dessa travessia é lento, marcado por uma escrita descritiva e que toca em temas de extrema relevância, como a desigualdade social, as precárias condições de trabalho e a sensação de não ter uma terra, de não pertencer. Ao mesmo tempo que tece críticas sociais, Steinbeck também se aprofunda nos conflitos dos personagens e na dinâmica familiar, com destaque para uma personagem que funciona como um elemento unificador: a mãe. (…)”

Para quem quiser continuar a leitura da resenha, estampada na orelha dessa edição, corre e já garante a sua!

Niketche – uma história de poligamia, de Paulina Chiziane | Resenha

Vencedora do Prêmio Camões em 2021, um dos prêmios mais importantes da literatura em língua portuguesa, a autora moçambicana vem ganhando maior destaque no Brasil nos últimos meses. Um reconhecimento merecidíssimo que, se não fosse pelos obstáculos que a literatura de países do continente africano encontra no Brasil, já existiria há mais tempo.

Vale dizer que em seu país, o trabalho da autora tem um papel histórico: Paulina foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. No caso de Niketche, o livro transborda cultura e tradições moçambicanas. A narrativa tem como personagem central Rami, uma mulher casada há duas décadas e que descobre que Tony, seu marido, tem uma amante. Isso, por si só, já gera uma tristeza avassaladora na personagem, que sente todo o seu esforço de exercer o papel de boa esposa sendo desprezado. Mas, para a infelicidade de Rami, a descoberta da amante é só o começo.

Iniciando um processo de confronto e busca de explicações do marido, a esposa oficial acaba se deparando com mais mulheres que também compartilham as migalhas de afeto e de recursos distribuídas por Tony. São mulheres com histórias distintas, mas que se conectam pelos laços criados por uma sociedade machista e patriarcal.

No entanto, aos poucos, o que poderiam ser motivos de desavenças entre as mulheres, acabam despertando força e coragem para tentar mudar sua posição de submissão e de eterna culpadas.

Gostei muito da história criada por Chiziane e da forma como ela revela os conflitos sociais e culturais existentes dentro de um mesmo país. São tradições que variam de acordo com cada região e que criam um país diverso e ainda em busca de uma maior identidade nacional.

Em alguns momentos senti que a narrativa se tornou um pouco repetitiva, mas acredito que essa sensação pode até sido criada de forma intencional pela autora, já que a repetição é um reflexo do psicológico de Rami, que fica remoendo a revolta, a tristeza e todos os questionamentos sobre a nova realidade de um relacionamento poligâmico.

Bora se aventurar na grandiosidade de Niketche?

Véspera, de Carla Madeira | Resenha

Eu adorei “Tudo é rio”, livro de Carla Madeira que vem conquistando leitores por todo o Brasil. Por isso, é difícil segurar as expectativas de ler um novo livro da mesma autora. E isso pode às vezes até afetar a experiência da leitura, já que muitas vezes queremos encontrar semelhanças com aquela primeira obra da qual gostamos tanto. Fica difícil não fazer comparações.

“Véspera”, no entanto, é bem diferente. Publicada 7 anos depois, a obra apresenta um enredo que promete prender o leitor até as últimas páginas. Em um total momento de descontrole, uma mãe sofrida por um casamento em ruínas abandona seu filho no meio da rua a caminho de sua escola. Vedina logo se arrepende da atitude absurda, mas quando volta para recuperar a criança, não consegue encontrá-la.

A partir disso, a autora passa a contar ao leitor os momentos que se seguiram ao desaparecimento do filho, ao mesmo tempo em que alterna capítulos com o passado de Vedina e de seu marido, Abel, que vive nas sombras do irmão. Aos poucos, vamos compreendendo os traumas e cicatrizes que marcam todo o relacionamento do casal.

Apesar de ter um enredo totalmente diferente de “Tudo é rio”, Carla Madeira nos mostra mais uma vez uma escrita com uma forte carga poética. Para mim, esse é o aspecto que mais me agradou na leitura. A forma como a autora divide os capítulos também é bem interessante, mas acabei me prendendo muito mais à parte do “passado” , isto é, à véspera do acontecimento trágico, do que aos momentos tensos que se seguiram. Talvez na intenção de prender o leitor com a curiosidade sobre o desfecho do desaparecimento, a parte do presente acaba ficando com um desenvolvimento lento – e que não me empolgou tanto.

Carla Madeira é uma autora que ainda vai nos presentear com muita coisa boa de ler! Termino essa leitura já animado pelo que ainda virá!

Maurice, E. M. Forster | Resenha

Sempre tento manter minhas leituras com obras que estão disponíveis no Brasil. Até porque, se minha intenção é incentivar vocês a ler os livros, não faz sentido ficar indicando algo que o leitor brasileiro não consiga encontrar. Mas e se, às vezes, eu tentar usar essa nossa força aqui para estimular a publicação (ou republicação) de obras esgotadas no Brasil, no caso de a recomendação despertar o interesse em vocês?

“Maurice” é um livro que já estava na minha lista de desejados há um bom tempo. Sempre que eu pedia dicas de livros com temática LGBTQIA+ para vocês, “Maurice” aparecia como uma obra relevante. Porém, está esgotado no Brasil. Quando encontrei essa edição portuguesa no aeroporto de Lisboa, não tive como não garantir a minha!

Bom, mas valeu a pena? Em primeiro lugar, é inegável a importância da obra de Forster para a literatura LGBTQIA+. O autor foi corajoso ao escrever, entre os anos de 1912 e 1913, uma narrativa que aborda paixões entre homens. No início do século passado, o tema ainda era um grande tabu e a possibilidade de retaliações contra o autor era grande. Pelo fato de a sociedade da época não conseguir compreender a obra, o desejo do autor foi que “Maurice” fosse publicado somente após a sua morte, o que ocorreu muitos anos depois, em 1971.

O enredo se concentra em Maurice, um jovem que passa a perceber uma atração por outros colegas, quando a sociedade espera que um adolescente sinta desejo por garotas. É uma história sobre autoaceitação, solidão, mas, acima de tudo, liberdade.

Confesso que demorei para engatar a leitura, mas após as primeiras 50 páginas, consegui me conectar com a obra. Além disso, é importante ter em mente que um romance gay não será abordado por um autor no início do século passado da mesma forma que encontramos hoje na literatura, sobretudo em relação ao retrato e profundidade das relações.

O destaque, para mim, foi o final da narrativa. Após lermos as notas escritas pelo autor, conseguimos entender ainda mais a importância do desfecho da obra! Leiam!

PS: entrei em contato com a @globolivros, mas não tive uma resposta se há pretensão de reimprimir o livro!

As doenças do Brasil, de Valter Hugo Mãe | Resenha

Gatilho: violência sexual

A admiração dos brasileiros pelas obras de Valter Hugo Mãe não é novidade, principalmente para os leitores que me acompanham aqui. O autor português foi um dos grandes responsáveis por despertar a minha paixão pela leitura, após uma adolescência mais adormecida, sobretudo pela forma incrível – e poética – como escreve. Isso já pode dar uma ideia de como foi emocionante mediar um papo com Valter na Bienal do Livro de São Paulo desse ano, acompanhado de centenas de leitores (vide fotos).

Em seu mais novo romance, que foi o grande tema da nossa conversa, VHM continua nos mostrando a sua habilidade com a língua portuguesa. A peculiaridade, nessa obra, está na forma com que o autor consegue usar as palavras – já conhecidas ou até mesmo inventadas – para criar uma relação com a natureza, o solo, a água, os animais e as tradições/culturas dos povos indígenas. Como o título já indica, o livro se passa em solo brasileiro e VHM dedica seu trabalho a Ailton Krenak, escritor, ambientalista e líder do movimento indígena.

Isso já mostra a preocupação do autor com a proteção à memória e aos direitos das pessoas indígenas. A colonização é um tema muito forte no enredo e achei muito interessante como VHM colocou a pessoa indígena no centro da narrativa, se distanciando dos trabalhos históricos que narram o tema sob a perspectiva do colonizador.

É a história da dor e do sofrimento que os portugueses trouxeram aos povos que já habitavam essas terras. A cultura, tradição e – o pior de tudo – a própria existência das pessoas indígenas foi totalmente atacada e violentada. Somos apresentados a Honra, nascido de uma mãe Abaeté que foi vítima de estupro por um homem branco. O
sofrimento é interminável e se perpetua em Honra, com uma crise de identidade e vontade de vingança.

O livro confirma o amor que o autor nutre pelo Brasil. Foi uma experiência de leitura muito interessante, mas já adianto: não é das leituras mais fáceis, sobretudo pela linguagem usada por VHM. As primeiras páginas são as mais desafiadoras e com o decorrer da leitura você vai se adaptando melhor à escrita.

Os supridores, de José Falero | Resenha

Moradores de uma comunidade em Porto Alegre, Pedro e Marques são os grandes “heróis” dessa brilhante narrativa. E o cenário de atuação “heróica” (de novo entre aspas) dos dois personagens não podia ser um retrato mais real e rotineiro das grandes cidades do Brasil: um supermercado de uma grande rede, daqueles que vemos aos montes pelo país.

Saturados de tanta desigualdade, e de (sobre)viver a uma vida de injustas dificuldades, Pedro tem um plano que pode tirá-lo da pobreza: vender maconha na vila em que mora. Para conseguir desenvolver sua estratégia, precisa de um comparsa e logo consegue convencer seu colega de trabalho, Marques. O disfarce dos dois é bem convincente: são supridores do supermercado Fênix, isto é, são responsáveis por reabastecer as estantes e cuidar do estoque do local. Pedro parece confiar no seu plano, e nos baixos riscos que ele apresentaria… mas não precisa de muita vivência para saber que isso não passa de um otimismo desesperado.

A escrita de Falero conquista facilmente o leitor. Uma linguagem coloquial, intercalada com um narrador bem eloquente, que desperta boas reflexões. Não sei se eu fui conquistado logo na primeira página, mas não tenho duvidas que foram poucas páginas para que isso acontecesse. O autor retrata uma sociedade atual e extremamente desiludida. Não há esperanças de melhora e isso pode colocar o cidadão a repensar muito dos seus valores.

Não é uma tentativa fe defender a escolha de ninguém. Mas sim uma denuncia do dia a dia desse país pelas ruas e ruelas de realidades que muitas vezes sequer vamos conhecer.

Mais uma prova de que nossa literatura nacional contemporânea promete muito! Desafio Bookster 2022 está sendo incrível!

Meninas, de Lyudmila Ulitskaya | Resenha

Já contei várias vezes aqui para vocês que sou fã da literatura russa. Dostoiévski, Tolstói e Turguêniev são autores que me conquistaram e cujas obras figuram na minha lista de livros favoritos (ainda que nem eu saiba direito quantos livros tem nessa lista ?). Apesar disso, nunca tinha lido alguma obra de escritor russo contemporâneo. Por isso, quando vi o lançamento de “Meninas”, a temática abordada no livro e o fato de ter sido escrito por uma mulher, fiquei muito interessado em ler!

A obra é uma coletânea de contos em que as protagonistas são garotas de 9 a 11 anos que vivem na Rússia stalinista, por volta da década de 50. E apesar de trazerem histórias independentes, os contos têm uma ligação entre si e as personagens vão reaparecendo ao longo das páginas. São relatos individuais e íntimos da vida de cada uma das meninas, mas que é compartilhado em pequenos detalhes em uma rede de relações. Um “romance fractal”, como definido pela própria autora.

O contexto histórico da Rússia é um pano de fundo bem sutil das narrativas. O interessante é perceber como a autora retrata a rotina das pessoas comuns, sobretudo das crianças, em meio a conflitos políticos e sociais. A sensação é de que a vida íntima, as intrigas, os medos e amores continuam mesmo nas mais atípicas circunstâncias. O crescimento das meninas não pode ser interrompido.

Deixo meu destaque para os contos das gêmeas, “A enjeitada”. Achei a construção das personagens muito impactante, ainda que em poucas páginas. “Catapora” também foi um dos meus contos favoritos. Me deixou com vontade de ler mais obras de Lyudmila Ulitskaya. Espero que essa seja só a primeira de outras obras da autora que ainda serão publicadas no Brasil. Ah, e a tradução é direto do russo!