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Os anos, de Annie Ernaux | Resenha

Atualmente, o meio literário só fala de Annie Ernaux, autora francesa que venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2022. Suas obras, no entanto, ainda estão aos poucos furando a bolha de quem já é leitor para atingir um público maior. E, com a leitura de Os anos, posso confirmar que a autora merece muito esse alcance.

Essa é a minha segunda obra de Annie Ernaux, conhecida por construir seus livros a partir de suas memórias. O primeiro foi O lugar, e confesso que não foi uma leitura que amei. Cada livro foca em momentos específicos de sua vida, sendo que Os anos seria o mais completo, que transcorreria de forma mais distante as últimas décadas.

Apesar de escrever sobre suas memórias, a autora cria uma autobiografia impessoal. Quem lê sem saber o que está por trás do livro, não conseguiria saber que as páginas guardam a história de quem as escreve. Além de fazer referência a uma outra mulher, Annie não se vale de uma narrativa linear, começa com trechos de memórias soltas. Lembranças curtas. Isso pode até parecer estranho para o leitor, mas continue que a história passa a fazer mais sentido.

O mais interessante da obra é que a vida de Annie Ernaux abrange períodos muito marcantes da História. É a geração nascida na década de 40, que cresce no pós Segunda Guerra Mundial. Apesar de não terem vivido todo o horror da guerra, crescem ouvindo os pais e avós falando constantemente sobre o tema. E a partir disso, vamos acompanhando outros momentos históricos, entrelaçados com experiências pessoais de Annie Ernaux, até chegar a atualidade, envolvendo tecnologia e questões polêmicas que passaram a ser discutidas nas últimas décadas e ainda não foram superadas.

A escrita é gostosa, mas levei mais tempo do que imaginei para terminar o livro. Os parágrafos são densos e, por isso, fui curtindo aos poucos. A minha dica é: não tenha e não se assuste se o começo parecer confuso. Lembre-se que são memórias, que nem sempre seguem uma linha temporal. Mas leiam, porque Annie Ernaux é uma escritora sensacional!

Uma tristeza infinita, de Antônio Xerxenesky | Resenha

Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, Uma tristeza infinita aborda dois temas dos quais gosto muito: medicina e saúde mental. O enredo é construído a partir da mudança de vida feita por Nicolas, um psiquiatra francês, e sua companheira, Anna. Os dois aceitam um convite para se mudarem para um pequeno vilarejo suíço, onde fica localizado o novo local de trabalho do protagonista: um hospital psiquiátrico.

Além de ser um cenário diferente, Xerxenesky escolhe um período atribulado da Europa: o período pós 2ª Guerra, em que nações tentam se reerguer e o clima de destruição, perdas, traumas e culpa adoeciam a população. Muitos dos pacientes atendidos nesse pequeno vilarejo são vítimas dessa guerra.

É justamente nessa época que se desenvolvem as primeiras drogas contra doenças como a depressão. Até aquele momento, o tratamento de choque era uma opção comum nos hospitais psiquiátricos, Nicolas dedica-se à busca por um tratamento humanizado, em que a conversa com o paciente contribui para a melhora.

Achei interessante como o autor traz temas relacionados à psiquiatria e saúde mental, ao mesmo tempo em que constrói uma atmosfera de melancolia (m personagem importante com o decorrer da narrativa) envolvendo o protagonista e o novo cenário em que vive. A partir da leitura é possível perceber a extensa pesquisa feita pelo autor sobre os assuntos.

Por outro lado, a narrativa em si não me agradou tanto quanto os temas abordados. Senti falta de um desenvolvimento maior dos personagens principais, que em alguns momentos pareciam estar deslocados daquele cenário e época escolhidos por Xerxenesky. Ainda assim, não há como negar a coragem do autor brasileiro de escrever sobre uma atmosfera tão distante do nosso Brasil.

A escrita é gostosa e fluida e, por conta da temática que tanto me interessa, li em poucos dias. Ansioso pelas próximas obras que um autor contemporâneo nacional com tanto talento ainda tem parar nos oferecer.

Amanhã, amanhã, e ainda outro amanhã, de Gabrielle Zevin | Resenha

Descobri este livro de uma forma curiosa: morando em Nova York, sentado em um café, quando escuto duas meninas na mesa ao lado conversando sobre um livro. Eu, que não nego ser curioso, logo começo a tentar escutar. Quando mencionaram que acharam Tolstói contemporâneo, não aguentei e resolvi perguntar. Tratava-se da obra de Gabrielle Zevin e a minha nova “amiga”, uma jovem russa, falou que eu deveria lê-lo! Isso ficou na minha cabeça, e qual não foi a minha felicidade quando recebi esse lançamento da Editora Rocco.

A narrativa gira em torno da amizade entre Sam e Sadie, que se conhecem ainda crianças, e criam uma forte amizade. Com o tempo, separam-se e reencontram-se por acaso em uma estação de metrô, acompanhado de um disquete contendo um jogo eletrônico. Uma oportunidade para a retomada desta amizade tão bonita e a criação de jogos de videogame, que ocasiona no sucesso para os dois.

Acompanhamos quase 30 anos dessa relação, como em um romance de formação. São brigas, amores, tristezas e conquistas que atravessam pelo caminho dos dois, e o mais legal é acompanhar a evolução da tecnologia: Sadie e Sam começam na década de 90 até os dias de hoje.

A escrita da autora é bem gostosa, mas senti que o ritmo acabou caindo um pouco no meio do livro, como se algumas passagens fossem desnecessárias. Talvez essa sensação tenha se dado porque não sou o maior fã do mundo dos games, mas se você gostar, não vai achar que tem informação a mais pelas páginas.

A obra é uma ótima opção de leitura contemporânea que trata de temas atuais. Não consegui identificar a referência à escrita de Tolstói, como minha amiga falou, mas recomendo!

Escute as feras, de Nastassja Martin | Resenha

Imagina essa cena: você está de boa andando numa floresta coberta de neve quando, de repente, encontra um urso a poucos metros. E, para piorar, esse urso vem para a sua direção e te ataca. Bom, isso não é uma história de terror. Na verdade, até seja, mas ela não é ficção. A autora francesa Natassja Martin passou por isso em 2015 e sobreviveu para contar – apesar de diversos ferimentos.

Nessa obra de não ficção, Natassja traz diversas reflexões sobre a relação entre seres humanos e natureza a partir dessa experiência marcante em sua vida. A autora é antropóloga e estava estudando um povo que vive em um local isolado na Sibéria – os Evens – quando foi atacada pelo urso. São família que preferem viver afastadas da sociedade, encontrando refúgio nas florestas congelantes da região subártica.

A visão de Natassja, portanto, passa por uma interessante visão antropológica e que para muitos pode parecer uma reação pouco comum sobre o que ela vivenciou. É um mergulho nos pensamentos e questionamentos da autora. O que é o selvagem nesse contexto? Apenas o urso? E como um incidente como esse pode impactar a vida de alguém, para além das marcas físicas?

Confesso que, apesar das poucas páginas, a leitura é densa, focada muito mais em reflexões sobre os momentos posteriores em que estava se recuperando em diferentes hospitais da Rússia e França. Não é o tipo de livro que mais me agrada, mas foi, sem dúvidas, uma experiência surpreendente. Pode ser uma leitura desafiadora para alguns, mas ao final a experiência terá sido enriquecedora!

As Vinhas da Ira, John Steinbeck | Resenha

Lançado pela primeira vez em 1939 pela primeira vez, e ganhador do National Book Award e o Pulitzer de ficção, também foi citado com destaque quando Steinbeck recebeu o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1962. As Vinhas da Ira recebe agora uma nova edição, que conta com uma orelha de minha autoria. Deixo aqui para vocês trecho do meu texto sobre a obra:

“Assolada por uma forte crise econômica, a década de 1930 no sul dos Estados Unidos foi o cenário escolhido por John Steinbeck para construir um romance que deixou uma profunda marca na literatura norte-americana. Premiado com o Pulitzer, As vinhas da ira é, acima de tudo, a narrativa de uma fuga.

Assim como milhares de famílias, os Joad são forçados a deixar suas terras, que foram seu lar por décadas, para fugir da fome e da miséria. São descartados para dar lugar às inovações tecnológicas de um sistema voraz, que não sente pena de suas vítimas. E é nesse contexto que, para esses moradores de Oklahoma, o Oeste se mostra como a promessa de uma vida melhor, com emprego e comida na mesa.

Deixando a cidade natal, os Joad iniciam uma travessia que compõe a maior parte da obra. O autor nos leva junto e nos permite acompanhar as dificuldades próprias de cada integrante da família. O ritmo dessa travessia é lento, marcado por uma escrita descritiva e que toca em temas de extrema relevância, como a desigualdade social, as precárias condições de trabalho e a sensação de não ter uma terra, de não pertencer. Ao mesmo tempo que tece críticas sociais, Steinbeck também se aprofunda nos conflitos dos personagens e na dinâmica familiar, com destaque para uma personagem que funciona como um elemento unificador: a mãe. (…)”

Para quem quiser continuar a leitura da resenha, estampada na orelha dessa edição, corre e já garante a sua!

Niketche – uma história de poligamia, de Paulina Chiziane | Resenha

Vencedora do Prêmio Camões em 2021, um dos prêmios mais importantes da literatura em língua portuguesa, a autora moçambicana vem ganhando maior destaque no Brasil nos últimos meses. Um reconhecimento merecidíssimo que, se não fosse pelos obstáculos que a literatura de países do continente africano encontra no Brasil, já existiria há mais tempo.

Vale dizer que em seu país, o trabalho da autora tem um papel histórico: Paulina foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. No caso de Niketche, o livro transborda cultura e tradições moçambicanas. A narrativa tem como personagem central Rami, uma mulher casada há duas décadas e que descobre que Tony, seu marido, tem uma amante. Isso, por si só, já gera uma tristeza avassaladora na personagem, que sente todo o seu esforço de exercer o papel de boa esposa sendo desprezado. Mas, para a infelicidade de Rami, a descoberta da amante é só o começo.

Iniciando um processo de confronto e busca de explicações do marido, a esposa oficial acaba se deparando com mais mulheres que também compartilham as migalhas de afeto e de recursos distribuídas por Tony. São mulheres com histórias distintas, mas que se conectam pelos laços criados por uma sociedade machista e patriarcal.

No entanto, aos poucos, o que poderiam ser motivos de desavenças entre as mulheres, acabam despertando força e coragem para tentar mudar sua posição de submissão e de eterna culpadas.

Gostei muito da história criada por Chiziane e da forma como ela revela os conflitos sociais e culturais existentes dentro de um mesmo país. São tradições que variam de acordo com cada região e que criam um país diverso e ainda em busca de uma maior identidade nacional.

Em alguns momentos senti que a narrativa se tornou um pouco repetitiva, mas acredito que essa sensação pode até sido criada de forma intencional pela autora, já que a repetição é um reflexo do psicológico de Rami, que fica remoendo a revolta, a tristeza e todos os questionamentos sobre a nova realidade de um relacionamento poligâmico.

Bora se aventurar na grandiosidade de Niketche?

Véspera, de Carla Madeira | Resenha

Eu adorei “Tudo é rio”, livro de Carla Madeira que vem conquistando leitores por todo o Brasil. Por isso, é difícil segurar as expectativas de ler um novo livro da mesma autora. E isso pode às vezes até afetar a experiência da leitura, já que muitas vezes queremos encontrar semelhanças com aquela primeira obra da qual gostamos tanto. Fica difícil não fazer comparações.

“Véspera”, no entanto, é bem diferente. Publicada 7 anos depois, a obra apresenta um enredo que promete prender o leitor até as últimas páginas. Em um total momento de descontrole, uma mãe sofrida por um casamento em ruínas abandona seu filho no meio da rua a caminho de sua escola. Vedina logo se arrepende da atitude absurda, mas quando volta para recuperar a criança, não consegue encontrá-la.

A partir disso, a autora passa a contar ao leitor os momentos que se seguiram ao desaparecimento do filho, ao mesmo tempo em que alterna capítulos com o passado de Vedina e de seu marido, Abel, que vive nas sombras do irmão. Aos poucos, vamos compreendendo os traumas e cicatrizes que marcam todo o relacionamento do casal.

Apesar de ter um enredo totalmente diferente de “Tudo é rio”, Carla Madeira nos mostra mais uma vez uma escrita com uma forte carga poética. Para mim, esse é o aspecto que mais me agradou na leitura. A forma como a autora divide os capítulos também é bem interessante, mas acabei me prendendo muito mais à parte do “passado” , isto é, à véspera do acontecimento trágico, do que aos momentos tensos que se seguiram. Talvez na intenção de prender o leitor com a curiosidade sobre o desfecho do desaparecimento, a parte do presente acaba ficando com um desenvolvimento lento – e que não me empolgou tanto.

Carla Madeira é uma autora que ainda vai nos presentear com muita coisa boa de ler! Termino essa leitura já animado pelo que ainda virá!