Baratas, de Scholastique Mukasonga | Resenha

“Baratas” é o termo pejorativo para se referir ao povo da etnia Tusti pelos Hutus, que são a maioria em Ruanda. A perseguição ao grupo minoritário era tão intensa que resultou em um massacre no ano de 1994, que vitimou brutalmente quase 1 milhão de pessoas em um período de apenas 100 dias. O Genocídio de Ruanda, como ficou conhecido, é um dos mais brutais acontecimentos da História recente.

A autora nasceu em Ruanda mas conseguiu fugir a tempo e sobreviver ao genocídio. No entanto, a maior parte da sua família não teve a mesma sorte e acabou se tornando mais um dentre tantos Tutsis mortos. E é justamente essas memórias de uma sobrevivente que encontramos em “Baratas”, um texto autobiográfico que alcança as mais antigas lembranças de Scholastique para nos criar um panorama pessoal sobre a escalada da perseguição ao seu povo.

O livro é, por si só, um ato extremamente corajoso, já que a autora precisa revisitar muitos acontecimentos relacionados à morte de sua família e ao medo constante que viveu em um grande período da sua vida. O principal objetivo era sobreviver, desde a sua infância, enquanto seus pais tentavam dar aos seus filhos uma vida o mais normal possível em um ambiente de total insegurança e sem poder chamar a atenção. Algo impossível, que termina na fuga da autora de sua própria terra.

É o meu terceiro livro de Scholastique e fico impressionado com a capacidade da autora de impactar o leitor. A leitura é difícil, com passagens que incomodam por revelarem o grau de violência enfrentado pelos Tutsis. Na minha opinião, é necessário conhecer mais sobre esse acontecimento histórico tão triste e recente, mas que ainda é pouco conhecido por nós. Fica até difícil acreditar que de trata de uma história real. A sensação de revolta é inevitável.

Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara | Resenha

Dilacerante! O romance de quase 800 páginas da autora norte-americana é alvo de polêmicas. Há quem leia e ame, mas há quem enxergue na obra um exagero do sofrimento, a banalização da dor. E em qual desses grupos eu me encaixo?

Bom, para começar, o enredo tem como ponto central a relação entre quatro amigos que se conhecem na universidade e cuja amizade invade os próximos anos de suas vidas. Hanya transita entre um presente e um passado para conseguir nos mostrar as particularidades e histórias de cada um daqueles homens. São dores, perdas e medos, mas que acabam encontrando naquela relação de amizade um amor que acolhe. O problema é que o passado extremamente sofrido de um dos amigos acaba exigindo a atenção de todos e impedindo um futuro sem dor.

Não há como negar que a autora despejou uma carga muito alta de sofrimento, que recai praticamente apenas sobre esse personagem. Às vezes, as repetidas tragédias podem até soar exageradas e inverossímeis, mas Hanya não escreveu somente uma história triste. Na minha opinião, a autora conseguiu construir uma narrativa com personagens extremamente bem desenvolvidos e que despertam a compaixão do leitor. E isso é sim uma consequência de um talento incrível da autora.

Ora, escrever sobre sofrimento não é uma garantia de prender ou impactar o leitor. Todo esse furor que “Uma vida pequena” causa, tem origem nesse universo tão real e humano criado por Hanya. A escrita também é muito cativante, com um mergulho na relação dos quatro personagens principais, ainda que a primeira parte do livro possa ter um ritmo mais arrastado. Há também muitos momentos felizes, emocionantes e que causam sensações boas em que lê a obra.

E o livro é tão impressionante que, muito embora eu tenha ficado com vontade de largá-lo, para não enfrentar mais o sofrimento, eu não consegui. Eu estava apegado demais àqueles amigos e precisava saber sobre o desenrolar daquela narrativa. Terminei o livro aos prantos, mas com a certeza de que os personagens ficaram marcados em mim. E isso, repito, é uma qualidade.

Ainda que eu tenha gostado muito, eu recomendo a leitura com MUITAS ressalvas. Leia ciente de que ele é muito triste e repleto de temas sensíveis, que podem ser gatilhos para diferentes leitores.

Nota 10/10

As pequenas chances, de Natalia Timerman | Resenha

A preservação da memória daqueles que amamos e a busca pela história de quem antecedeu. É a partir de um texto pessoal, com are de autoficção, que Natalia nos apresenta esses temas tão sensíveis.

Tudo começa com um encontro não marcado: a protagonista, que leva o mesmo nome da autora, encontra o médico de cuidados palitivos que atendeu o seu pai nos seus últimos dias de vida. Um breve dialogo entre os dois desperta na protagonista as memórias da perda e dos impactos que um doença tão agressiva trouxe para as pessoas próximas do paciente. E quando a morte chega, a sua marca é sentida para sempre. Não adianta lutar, mas será que é possível nos reconciliarmos com a falta definitiva?

Quem já perdeu alguém próximo não consegue passar intocado pelas palavras da autora. Seu texto desperta identificações em quem lê, como uma recordação de que com os livros encontramos um eco das dores que vivemos. E, ao compartilhar todo o ambiente familiar que circunda a personagem, essa dor acaba encontrando acolhimento.

Também gostei muito da segunda parte do livro, em que a autora parte em busca da história de sua família. Toda essa situação despertou em mim a vontade de procurar saber mais sobre aqueles que, apesar de compartilharem tanto comigo, são muito pouco conhecidos por mim.

Talvez por conhecer a autora e a similaridades com sua história, não conseguir ler o livro como um romance, mas sim como um texto autobiográfico. A relação dela com os acontecimentos nos dá a certeza de que muitos daqueles sentimentos vêm de experiências pessoais, o que aproxima o leitor. As alegrias, a saudade e a dor da ausência são reais e muito bem descritas. Livro lindo e sensível!

Mau hábito, de Alana Portero | Resenha

Um dos maiores destaques da literatura espanhola em 2023 foi o romance de estreia de Alana Portero. A autora nos apresenta de forma realista e sensível as dificuldades e angústias enfrentadas por uma criança trans. Mas a narrativa vai além do sofrimento, oferecendo ao leitor passagens comuns da vida de uma criança e adolescente. Seus gostos, medos, curiosidades, descobertas, primeira paixão… É um romance de formação de uma garota que cresce em um bairro operário na Madrid da década de 80.

Ainda que o destaque da obra seja o que se passa no interior da protagonista, Alana descreve um cenário interessantíssimo do bairro e das relações que a garota nutre com seus familiares e com os seus vizinhos. Há diversos personagens marcantes na obra, como Peruca e Raul.

Ao mergulharmos na juventude, conhecemos uma realidade ainda mais brutal, em que é possível sentir uma ameaça constante pela integridade física de uma pessoa que destoa do “padrão”. Como um membro da comunidade LGBT+, pude me identificar com alguma parcela do sentimento de inadequação da personagem. No entanto, as suas circunstâncias e o conflito com o próprio corpo me ensinaram sobre dores que estão muito distantes da minha vivência. E isso apenas confirma a relevância de lermos mais autoras e autores trans.

Além de um belíssimo texto literário, Alana faz um importante trabalho de elucidar discursos mentirosos e preconceituosos que orbitam a vivência de crianças trans. Um texto essencial e que recomendo muito!

O deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati | Resenha

Paciência. Tédio. Espera. Um dos maiores clássicos da literatura italiano, publicado em 1940, é um romance sobre a passagem do tempo. O jovem Giovanni Drogo é enviado para atuar como oficial do exército no Forte Bastiani. A notícia é recebida com grande entusiasmo, já que finalmente ele dará o primeiro passo no glorioso trabalho de defender o seu país.

O que Drogo não esperava é que no Forte Bastiani o dia a dia não oferece tantas emoções. O lugar é isolado, com vista para um imenso deserto e sem vida no seu entorno. Os oficiais que lá vivem cumprem funções repetitivas, oferecem proteção a um perigo que aparentemente não existe e aguardam o dia seguinte. O inimigo nunca vem… e o desespero logo toma conta do protagonista: ele precisa sair de lá.

Como vocês podem imaginar, essa não é uma leitura para quem gosta de enredos com grandes acontecimentos. É uma escrita mais densa, que envolve apreciar a construção daquele cenário isolado, a descrição do comportamento dos personagens e a esperança constante do que pode acontecer. Mas e se os
inimigos nunca aparecerem, seria a nossa vida um total desperdício?

Para quem vive em uma sociedade como a atual, em que o tempo de espera não é mais aceitável e o tédio se tornou um sentimento com o qual não sabemos mais lidar, a leitura se torna ainda mais interessante. São várias as reflexões despertadas no texto de Buzzati. Gostei muito, mas pode não agradar a todos!

Aurora (O Despertar da Mulher Exausta), de Marcela Ceribelli | Resenha

Quem vive em grandes centros urbanos, é usuário recorrente das redes sociais, precisa trabalhar para pagar os boletos e ainda tem uma lista longa de obrigações para tentar atender as exigências e pressões que a sociedade exerce em nós, está exausto. Estamos chegando – ou extrapolando – nossos limites e assuntos como saúde mental, solidão e falta de tempo livre vêm à tona.

Apesar de ser um livro destinado para as mulheres – exaustas -, posso dizer que me identifiquei muito com algumas discussões e reflexões trazidas por Marcela Ceribelli. A autora utiliza o acervo de conversas que teve no comando do podcast “Bom dia, Obvious” e, em conjunto com suas próprias vivências, discorre sobre os temas e angústias atuais vividos pelas novas gerações.

É uma escrita fácil e divertida, com passagens que me fizeram pensar: achei que só eu passava por isso. Ou seja, mais uma vez os livros nos mostram que não estamos sozinhos e a quantidade de “Auroras” vendidas nas livrarias deixa isso ainda mais evidente. A leitura ainda me ensinou mais sobre temas importantes relacionados à imagem que a sociedade tenta impor às mulheres, como maternidade e a relação com o corpo.

Não leio tanto livro de não ficção, mas fica minha super recomendação de uma leitura com temas atuais e que precisam ser debatidos. Ao trazer a opinião dos especialistas que passaram por seu podcast, a obra fica ainda mais rica e deixa de ser uma simples opinião para também ser um texto informativo.

Reparação, de Ian McEwan | Resenha

O autor britânico Ian McEwan sempre aparece na minha caixa de entrada, com leitores me recomendando algum de seus livros. E, sem qualquer dúvida, “Reparação” é o mais indicado e o queridinho de muitos por aí, ganhando maior repercussão depois que foi adaptado ao cinema, com o filme “Desejo e reparação”, indicado em várias categorias do Oscar de 2008. Mas será que é tudo isso que dizem?

Na minha opinião, é um livro maravilhoso e merece todos os elogios! Com pouco menos de 500 páginas, o romance de Ian McEwan serve um pouco de tudo: personagens bem construídos, pano de fundo histórico, escrita fluída e uma narrativa envolvente. O que mais podemos pedir? E o curioso é que demorei para seguir a recomendação de tantos seguidores por aqui, porque a sinopse não me chamava tanto a atenção. Mas o talento de McEwan nessa obra só me confirmou que eu preciso confiar mais em vocês!

A personagem principal é Briony Tallis, uma garota que passa o verão com sua família em uma casa de campo na década de 30, pré Segunda Guerra Mundial. Em um dia de muito calor, Briony vê da janela sua irmã mais velha tirando a roupa e entrando em uma fonte, enquanto um garoto a observa. Influenciada por esse acontecimento, a jovem acaba fazendo escolhas e acusações que vão segui-la por toda a sua vida. Um erro que poderá ser reparado?

A parte da infância de Briony, sua perspectiva do que está a sua volta e os fatos que circundam o acontecimento é, para mim, o ponto alto do livro. Mas o autor também consegue dar sequência à narrativa de forma impecável, desenvolvendo as complexidades psicológicas de cada personagem. Destaque também para a parte envolvendo a Segunda Guerra e para o epílogo.

“Reparação” é um daqueles livros que, durante a leitura, me pegava pensando: que incrível!!!!