Mau hábito, de Alana Portero | Resenha

Um dos maiores destaques da literatura espanhola em 2023 foi o romance de estreia de Alana Portero. A autora nos apresenta de forma realista e sensível as dificuldades e angústias enfrentadas por uma criança trans. Mas a narrativa vai além do sofrimento, oferecendo ao leitor passagens comuns da vida de uma criança e adolescente. Seus gostos, medos, curiosidades, descobertas, primeira paixão… É um romance de formação de uma garota que cresce em um bairro operário na Madrid da década de 80.

Ainda que o destaque da obra seja o que se passa no interior da protagonista, Alana descreve um cenário interessantíssimo do bairro e das relações que a garota nutre com seus familiares e com os seus vizinhos. Há diversos personagens marcantes na obra, como Peruca e Raul.

Ao mergulharmos na juventude, conhecemos uma realidade ainda mais brutal, em que é possível sentir uma ameaça constante pela integridade física de uma pessoa que destoa do “padrão”. Como um membro da comunidade LGBT+, pude me identificar com alguma parcela do sentimento de inadequação da personagem. No entanto, as suas circunstâncias e o conflito com o próprio corpo me ensinaram sobre dores que estão muito distantes da minha vivência. E isso apenas confirma a relevância de lermos mais autoras e autores trans.

Além de um belíssimo texto literário, Alana faz um importante trabalho de elucidar discursos mentirosos e preconceituosos que orbitam a vivência de crianças trans. Um texto essencial e que recomendo muito!

O deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati | Resenha

Paciência. Tédio. Espera. Um dos maiores clássicos da literatura italiano, publicado em 1940, é um romance sobre a passagem do tempo. O jovem Giovanni Drogo é enviado para atuar como oficial do exército no Forte Bastiani. A notícia é recebida com grande entusiasmo, já que finalmente ele dará o primeiro passo no glorioso trabalho de defender o seu país.

O que Drogo não esperava é que no Forte Bastiani o dia a dia não oferece tantas emoções. O lugar é isolado, com vista para um imenso deserto e sem vida no seu entorno. Os oficiais que lá vivem cumprem funções repetitivas, oferecem proteção a um perigo que aparentemente não existe e aguardam o dia seguinte. O inimigo nunca vem… e o desespero logo toma conta do protagonista: ele precisa sair de lá.

Como vocês podem imaginar, essa não é uma leitura para quem gosta de enredos com grandes acontecimentos. É uma escrita mais densa, que envolve apreciar a construção daquele cenário isolado, a descrição do comportamento dos personagens e a esperança constante do que pode acontecer. Mas e se os
inimigos nunca aparecerem, seria a nossa vida um total desperdício?

Para quem vive em uma sociedade como a atual, em que o tempo de espera não é mais aceitável e o tédio se tornou um sentimento com o qual não sabemos mais lidar, a leitura se torna ainda mais interessante. São várias as reflexões despertadas no texto de Buzzati. Gostei muito, mas pode não agradar a todos!

Aurora (O Despertar da Mulher Exausta), de Marcela Ceribelli | Resenha

Quem vive em grandes centros urbanos, é usuário recorrente das redes sociais, precisa trabalhar para pagar os boletos e ainda tem uma lista longa de obrigações para tentar atender as exigências e pressões que a sociedade exerce em nós, está exausto. Estamos chegando – ou extrapolando – nossos limites e assuntos como saúde mental, solidão e falta de tempo livre vêm à tona.

Apesar de ser um livro destinado para as mulheres – exaustas -, posso dizer que me identifiquei muito com algumas discussões e reflexões trazidas por Marcela Ceribelli. A autora utiliza o acervo de conversas que teve no comando do podcast “Bom dia, Obvious” e, em conjunto com suas próprias vivências, discorre sobre os temas e angústias atuais vividos pelas novas gerações.

É uma escrita fácil e divertida, com passagens que me fizeram pensar: achei que só eu passava por isso. Ou seja, mais uma vez os livros nos mostram que não estamos sozinhos e a quantidade de “Auroras” vendidas nas livrarias deixa isso ainda mais evidente. A leitura ainda me ensinou mais sobre temas importantes relacionados à imagem que a sociedade tenta impor às mulheres, como maternidade e a relação com o corpo.

Não leio tanto livro de não ficção, mas fica minha super recomendação de uma leitura com temas atuais e que precisam ser debatidos. Ao trazer a opinião dos especialistas que passaram por seu podcast, a obra fica ainda mais rica e deixa de ser uma simples opinião para também ser um texto informativo.

Reparação, de Ian McEwan | Resenha

O autor britânico Ian McEwan sempre aparece na minha caixa de entrada, com leitores me recomendando algum de seus livros. E, sem qualquer dúvida, “Reparação” é o mais indicado e o queridinho de muitos por aí, ganhando maior repercussão depois que foi adaptado ao cinema, com o filme “Desejo e reparação”, indicado em várias categorias do Oscar de 2008. Mas será que é tudo isso que dizem?

Na minha opinião, é um livro maravilhoso e merece todos os elogios! Com pouco menos de 500 páginas, o romance de Ian McEwan serve um pouco de tudo: personagens bem construídos, pano de fundo histórico, escrita fluída e uma narrativa envolvente. O que mais podemos pedir? E o curioso é que demorei para seguir a recomendação de tantos seguidores por aqui, porque a sinopse não me chamava tanto a atenção. Mas o talento de McEwan nessa obra só me confirmou que eu preciso confiar mais em vocês!

A personagem principal é Briony Tallis, uma garota que passa o verão com sua família em uma casa de campo na década de 30, pré Segunda Guerra Mundial. Em um dia de muito calor, Briony vê da janela sua irmã mais velha tirando a roupa e entrando em uma fonte, enquanto um garoto a observa. Influenciada por esse acontecimento, a jovem acaba fazendo escolhas e acusações que vão segui-la por toda a sua vida. Um erro que poderá ser reparado?

A parte da infância de Briony, sua perspectiva do que está a sua volta e os fatos que circundam o acontecimento é, para mim, o ponto alto do livro. Mas o autor também consegue dar sequência à narrativa de forma impecável, desenvolvendo as complexidades psicológicas de cada personagem. Destaque também para a parte envolvendo a Segunda Guerra e para o epílogo.

“Reparação” é um daqueles livros que, durante a leitura, me pegava pensando: que incrível!!!!

Mata doce, de Luciany Aparecida | Resenha

Na narrativa criada em Mata Doce, a fronteira entre realidade e imaginação é fácil de ser ultrapassada. Maria Teresa, também conhecida como Filinha Mata-Boi, nasce em uma casa com duas mulheres fortes, guiadas pelo senso da espiritualidade e referências na comunidade local. Mariinha e Tuninha são companheiras e mães de uma garota, que pouco – ou quase nada – sabe de sua verdadeira origem.

Além da importância das pessoas que a criam, Maria Teresa é impactada pelo ambiente em que cresceu – e onde permanece para nos contar suas memórias. O casarão fica localizado em um município bem interiorano, de fazendas, que também serve de título para a obra. As rosas brancas que marcam a frente da residência acabam acompanhando a história de Maria Teresa.

No dia do seu casamento, no entanto, Maria Teresa testemunha uma tragédia e uma perda irreparável. O vestido de noiva passa a levar uma mancha que é impossível de se retirar. Mesmo a lavagem do tempo não é suficiente para desfazer manchas tão doídas. Desde esse dia, Filinha Mata-Boi segue uma vida diferente, sob a constante preocupação de suas mães.

A memória e os laços que ligam os marcantes personagens de Mata Doce são o guia dessa história. Em alguns momentos, senti falta de um ritmo que colocasse os acontecimentos em marcha Mas talvez tenha sido essa a intenção da autora: se aprofundar nas marcas da memória. A curiosidade de conhecer mais sobre a relação de Mariinha e Tuninha também me contaminou.

Nas cartas datilografadas por Filinha, encontramos a beleza da esperança de ser ouvido por quem não se sabe onde está e a tristeza que os traumas do passado insistem em alimentar. E, no fim, são esses os sentimentos que encontramos nas folhas e flores de Mata Doce.

Ratos e homens, de John Steinbeck | Resenha

Escolhi “Ratos e homens” para representar a época da Grande Depressão, o tema do mês de outubro do Desafio Bookster 2023. No livro publicado em 1937, do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, o contexto histórico é apresentado de forma sutil, em um ambiente de uma fazenda da Califórnia durante o período de recessão e em uma narrativa com poucos personagens. Os protagonistas são uma dupla de amigos, George e Lennie, que acabam migrando de um trabalho – em condições escassas – para outro na luta pela sobrevivência.

O livro é curto, com menos de 150 páginas, e a leitura é marcante. O ponto alto é a peculiaridade da relação entre os dois amigos, que acaba oscilando entre desentendimentos e uma necessidade de proteção e afeto. George acaba sendo o guia da dupla e quem se preocupa com as dificuldades de Lennie, um personagem com um porte físico forte e grande, mas que contrasta com seus problemas de relacionamento. A humanização daqueles personagens, que vivem em um cenário de tanta falta, é cativante.

Ao longo da leitura, vamos percebendo a falta de perspectivas daqueles personagens. Não há uma saída daquela situação, não há um plano B, mas apenas a necessidade de se apegar a um futuro imaginário. Caso contrário, a falta de esperança consome aqueles homens que estão condenados a uma situação de miséria. A injusta relação entre os donos de terra e os explorados também é abordada por Steinbeck.

Não é à toa que o livro se tornou um clássico da literatura norte-americana do século passado, junto com outra obra incrível do autor, “Vinhas da ira”. Os diálogos também são criados para refletir a simplicidade e o modo “caipira” dos trabalhadores da fazenda. Acho interessante como o processo de tradução em situações como essa deve ser desafiador. Nessa edição, a tradutora Ana Ban conseguiu fazer um ótimo trabalho. Recomendo muito, adorei a leitura!

PS: tem vídeo sobre a leitura, com especialistas no tema, em meu canal do YouTube.

A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro | Resenha

Luxúria. Foi a partir desse pecado capital que João Ubaldo Ribeiro escreveu uma de suas principais obras, que virou um clássico nacional da literatura erótica. Sem filtros e sem medo de impactar e causar incômodo no leitor, o autor dá vida às memórias de uma mulher misteriosa, que se denomina pelas siglas CLB.

E por trás de tantas descrições e fantasias sexuais, pode-se perceber uma mulher que não tem medo de ser livre para g0zar da forma que bem entender. É um chacoalhão em uma sociedade moralista e hipócrita. Mas até os mais “cabeça aberta” podem ser surpreendidos pelos relatos de CLB. Para mim, há momentos que foram difíceis de digerir.

E talvez se esse livro tivesse sido escrito hoje em dia, seria difícil fazer a leitura sem maiores críticas. Mas, tendo sido escrito no final do século passado, fica claro que a mentalidade por trás da construção das memórias eróticas de uma mulher é um reflexo daqueles tempos. Um homem pretender escrever sobre a libertação de uma mulher? Não seria uma visão distorcida, contaminada pelo imaginário masculino sobre o t3são da mulher?

O humor ácido e as críticas contidas na construção do texto foram, para mim, o ponto alto. São muitos os temas – polêmicos – que o autor aborda por meio de sua narradora. Fui com muitas expectativas e, por conta disso, talvez tenha me decepcionado um pouco. Achei interessante o conjunto da obra, mas não foi um livro que amei. Estou doido para assistir à adaptação da obra comandada por Fernanda Torres.