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Sonhos em tempo de guerra, de Ngugi Wa Thiong’o

Apesar de ser considerado um dos principais nomes da literatura africana contemporânea, nunca tinha lido nenhuma obra do autor. Resolvi começar por seu livro de memórias, especificamente memórias da sua infância e juventude.
Thiong’o nasceu em uma região rural do Quênia, na década de 40, e foi criado com base nos costumes e tradições das gerações antepassadas. Sua mãe, uma figura extremamente presente ao longo da vida do autor, era a terceira das quatro esposas de seu pai.
E é a partir da visão de uma criança nascida em uma família poligâmica no interior do Quênia que o leitor acompanha as mudanças que o colonialismo traz na vida de Thiong’o e dos que estão à sua volta. É um contraste, percebido em pequenos detalhes, entre os costumes da população local e o “novo” conceito de civilização trazido pela colonização britânica. Essas mudanças impostas pelos colonizadores vão ser percebidas dentro da própria casa, nas escolas, no idioma falado, na religião, nos jornais e em diversos aspectos da vida cotidiana.
A história do Quênia no período colonial e dos movimentos de resistência que surgiram em busca da independência está dissolvida de forma sutil ao longo de toda a obra. É um daqueles livros em que se aprende sem nem mesmo perceber!
Além de relatar suas memórias de forma envolvente, o autor conseguiu transmitir ao leitor de forma muito real o processo de perda de identidade do povo colonizado. É o sentimento de não pertencer a uma cultura, de perder as terras em que vive e, como mencionado pelo próprio Thiong’o, de se sentir como um “forasteiro” em seu próprio país. “Sonhos em tempo de guerra” é um relato autobiográfico inspirador e que ensina muito ao leitor não só sobre fatos históricos, mas também sobre a resiliência e determinação do ser humano. .

Trecho: “A crença em si mesmo é mais importante do que intermináveis temores acerca do que os outros pensam de você. Valorize-se, e os outros irão valorizá-lo. A melhor legitimação é a que vem de dentro.”

Editora: Biblioteca Azul

Ano de publicação: 2015

Número de páginas:  272

Link de compra: https://amzn.to/2W3FuRg

Como as democracias morrem, de Steven Levitsky & Daniel Ziblatt

Não é tão comum, mas às vezes gosto de escolher um livro que está sendo muito comentado, até para conferir se concordo com toda a atenção que o mercado editorial está dando para aquela obra. E como já tinha lido opiniões positivas sobre esse livro, resolvi tentar… Pela sinopse, Levitsky e Ziblatt prometem trazer uma “análise crua e perturbadora do fim das democracias em todo o mundo”. Por meio de uma análise histórica de governos autoritários, os dois professores de Ciência Política de Harvard constroem um cenário com as principais ameaças a um governo democrático, demonstrando como esses riscos estão sofrendo mudanças ao longos dos anos.
Muito embora os autores se concentrem bastante na situação política dos Estados Unidos, a leitura é, na minha opinião, muito relevante para o atual momento vivenciado pelo Brasil – e isso, importante registrar, independentemente da posição política do leitor. Tanto isso é verdade que os autores utilizam como exemplos de governos antidemocráticos tanto regimes liderados por partidos de esquerda, quanto de direita. Ou seja, o objetivo da obra é analisar a democracia como uma garantia ao cidadão e que está acima da identificação política de cada um.
No entanto, apesar de relatarem os acontecimentos históricos de modo “imparcial”, os autores deixam clara a sua oposição a governos atuais que seriam antidemocráticos, em especial, o governo de Donald Trump. A pergunta que eles tentam responder é a seguinte: como foi possível a chegada de um “outsider” como Trump ao poder?
Além disso, a partir de uma linguagem acessível e objetiva, os autores indicam os sinais que devem ser combatidos para evitar a ascensão de um regime antidemocrático. Também é muito interessante como o livro traz novos pontos de vista sobre os alicerces da democracia, revelando a importância das regras não escritas do jogo político.
Por fim, achei que a leitura ficou um pouco arrastada mais para a parte final da obra, quando o enfoque passou para a polarização da política norte-americana – o que inclusive contraria a premissa sobre a qual a obra é vendida aqui no Brasil.

Editora: Zahar

Ano de publicação: 2018

Número de páginas:  272

Link de compra: https://amzn.to/2MpZR6L

As meninas, de Lygia Fagundes Telles | RESENHA

Publicado em 1973, durante o governo de Médici, muito se questiona sobre como o livro teria escapado da censura imposta pelo Ato Institucional n. 5 (AI-5). Nesse romance, a autora apresenta a vida de Lorena, Lia e Ana Clara, três jovens com personalidades e passados muito diferentes, mas que vivem juntas em um pensionato de freiras paulistano. Lá partilham de uma amizade forte e vivem as angústias típicas da juventude. Apesar de um título comum e de uma sinopse aparentemente “inofensiva” para um governo autoritário, ao longo da narrativa, o leitor encontra fortes críticas ao regime vigente – contando, inclusive, com a descrição de uma sessão de tortura.

O que mais impressiona na obra, por sua vez, é a construção da história e dos personagens. É um romance em movimento, por meio do qual Lygia vai alternando o foco narrativo entre as três personagens. E é por meio da perspectiva dessas três jovens que Lygia traz o universo feminino sob uma perspectiva moderna, rompendo com questões morais até então impostas por uma sociedade machista. Uma temática muito atual!

O começo da leitura pode até parecer confuso, porque a autora se vale muito da técnica do fluxo de consciência, isto é, tenta inserir o leitor dentro dos pensamentos – desordenados – de cada uma das jovens. São várias vozes se alternando a todo momento. Mas como as três personagens são tão bem construídas, com personalidades marcantes e com um estilo peculiar de se expressar, o leitor vai aos poucos conseguindo identificar quem conduz a narrativa em cada momento.

Para evitar a confusão entre as narradoras, dou uma dica que me ajudou MUITO na compreensão da história: consulte a orelha dessa edição ao longo da leitura, pois nela há uma breve descrição de cada uma das personagens.

Enfim, foi muito interessante acompanhar a vida das três jovens e entrar na intimidade de cada uma a partir de seus próprios pensamentos. Mas lembre-se de que as três apresentam uma visão parcial dos fatos e, por isso, não são totalmente confiáveis. Recomendo muito a obra! Entrou para uma das melhores leituras de 2018! #bookster

#DesafioBookster2019 | Janeiro

Janeiro – Migração e Xenofobia
Livro escolhido: “Minha casa é onde estou”, de Igiaba Scego

Como havia prometido, antes de cada mês, vou mostrar para vocês a minha escolha para o mês seguinte e dar indicações de livros com a temática a ser abordada. Eu sei que o mês de Janeiro já começou e esse post vem atrasado, mas nos próximos meses vou cumprir a promessa de fazer esse post com antecedência. De qualquer forma, a minha primeira escolha para o #desafiobookster2019 é um livro curto, com 160 páginas, então, quem quiser vir comigo ainda dá tempo de terminar a leitura até o final de Janeiro.

O escolhido foi “Minha casa é onde estou”, de uma autora filha de somalis e nascida na Itália. Ano passado, li “Adua”, outra obra da autora que também aborda a temática da imigração, e fiquei muito bem impressionado com a capacidade de Igiaba em escrever um romance curto, mas que impacta o leitor. E o mais legal foi conhecer pessoalmente a autora na Flip de 2018, onde pude assistir uma mesa de debates em que Igiaba contou um pouco da experiência de escrever o livro autobiográfico “Minha casa é onde estou”. Nele, Igiaba – filha de imigrantes somalis – relata os primeiros anos de sua vida na Itália, país onde nasceu e cresceu sem conseguir identificá-lo como sua terra natal. “Se o livro é um mapa, o destino ao qual ele leva a autora e os leitores é o tesouro mais precioso: a identidade fugidia de uma imigrante de segunda geração, este ‘outro’, a um só tempo familiar e estranho, que somos cada um de nós.”

Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática “Migração e Xenofobia”: “Americanah”, de Chimamanda Adichie; “O xará”, de Jhumpa Lahiri; “A hora da estrela”, Clarice Lispector; “Existem crocodilos no mar”, de Fabio Geda; “A imensidão íntima dos carneiros”, de Marcelo Maluf; “A fantástica vida breve de Oscar Wao”, de Junot Diaz; e “Muito além do inverno”, de Isabel Allende.

E você, já escolheu sua leitura de janeiro?

#DesafioBookster2019 : A literatura como meio de reflexão!

Em 2018, lancei o primeiro Desafio Book.ster e fiquei muito feliz com o resultado: muitas pessoas aderiram ao desafio e eu descobri leituras incríveis – e que dificilmente teria escolhido por conta própria. Agora, com o ano chegando ao fim, venho apresentar o #DesafioBookster2019!
A ideia é a mesma: ler um livro por mês, mas a temática e o critério de escolha das obras são completamente diferentes. Enquanto em 2018 lemos clássicos do século XX em ordem cronológica, em 2019 as escolhas dos livros vão ser baseadas em temas atuais e de grande relevância social. O objetivo é entender o papel da literatura como responsável por disseminar diferentes pontos de vista e despertar reflexões sobre temas que precisam ser discutidos.
E, assim como no ano passado, você pode participar de duas formas: ou fazer as escolhas desde agora, montando a sua lista para o ano de 2019, ou escolher as obras ao longo dos meses, com base nas minhas sugestões. Isso porque, um pouco antes do início de cada mês, vou mostrar o livro que escolhi para o desafio e indicar outros títulos que se encaixam no tema daquele mês.
Ah, a intenção é escolher uma obra (de ficção ou não) que aborde o tema de alguma forma e não necessariamente buscar um livro que tenha como objeto unicamente a discussão daquele assunto. Com isso, vamos perceber, por exemplo, como um romance ou uma coletânea de contos podem despertar – ao longo do desenvolvimento da obra – a reflexão de um ou mais assuntos tão importantes, contribuindo para nossa formação como cidadãos!

Bom, feitas as introduções, vamos para a lista (o n. 1 corresponde a Janeiro, e assim por diante): .

1 (janeiro) – Migração e xenofobia;

2 – Guerras e violência; .

3 – Feminismo;

4 – Intolerância religiosa;

5 – Meio ambiente e direito dos animais;

6 – LGBTfobia;

7 – Bioética e os limites da tecnologia;

8 – Desigualdade social;

9 – Saúde mental;

10 – Democracia;

11 – Racismo;

12 – Relações afetivas e estrutura familiar.

E aí, o que acharam? Marquem os amigos para participarem nesse desafio com vocês! Quem vem nessa comigo em 2019?

Pedro Páramo, Juan Rulfo | RESENHA

Considerado o romance mais aclamado da literatura mexicana, Pedro Páramo é uma leitura única e que exige do leitor. A sinopse e as pouco mais de 100 páginas podem deixar o leitor em dúvida sobre a real força desse romance. Na verdade, nem se pode falar tanto do enredo do livro sem correr o risco de dar grandes spoilers – ou de tirar do futuro leitor a curiosidade no decorrer das páginas. O que posso adiantar desse romance é que ele tem início com uma promessa. No leito de morte de sua mãe, Juan Preciado prometer sair em busca de seu pai, Pedro Páramo. Ao chegar na pequena cidade, o protagonista logo descobre que Pedro Páramo já faleceu faz tempo e que, aparentemente, todos na cidade se foram. No entanto, um clima de assombro e incertezas começa a tomar conta do enredo, ficando claro para o leitor que naquela cidade – repleta de ecos e vozes – nada é o que parecer ser.

E é esse mistério por trás da obra que vai, aos poucos, revelando a genialidade de Juan Rulfo, sem que ele precise se valer de uma narrativa complexa ou de uma escrita rebuscada. Pelo contrário! A escrita é muito econômica, tendo o autor se preocupado em cortar ao máximo frases e palavras, para restar apenas o essencial. Tanto isso é verdade, que algumas das passagens ficam em aberto, cabendo ao leitor a tarefa de ligar as pontas soltas com sua própria imaginação.
O cenário em que se passa a obra também é muito simples. É um ambiente árido, quente e rural. Mas mesmo em meio a essa simplicidade, a narrativa consegue despertar no leitor a reflexão sobre questões relevantes e delicadas, como o papel da igreja, coronelismo, incesto, miséria e amor não correspondido.
Foi por meio dessa obra que Juan Rulfo teria iniciado o realismo mágico, técnica que inspirou muito as obras de Gabriel García Marquez e outros tantos escritores.
Esse é, com certeza, um livro que precisa ser relido. Você termina se fazendo perguntas e tentando construir as suas próprias versões da história.
Recomendo muito! Ler Pedro Páramo foi uma experiência engrandecedora!

Trecho: “Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras.”

Editora: BestBolso

Ano de publicação: 2008

Número de páginas:  140

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“Nu, de botas”, de Antonio Prata

Escolhi esse livro depois de pedir indicações para vocês de uma leitura mais leve, já que eu vinha em uma sequência de obras mais densas e impactantes. Fiquei muito satisfeito com essa sugestão! “Nu, de botas” é uma coletânea de crônicas que tem como temática momentos da infância do autor. E, de fato, como promete, a leitura é muito fácil e bem-humorada. O leitor não encontra um livro de memórias, mas sim uma narrativa criada a partir do ponto de vista de uma criança. Assuntos sérios e delicados são relatados com o vocabulário de um adulto, mas com a inocência e a ingenuidade características de uma criança, em que a cada dia há uma nova descoberta.
A construção desse narrador infantil é feita de forma tão inteligente que em inúmeras passagens me identifiquei com os seus pensamentos. Imagino que quem tenha nascido na década de 70, como o autor, possa se conectar ainda mais com as referências contidas em cada uma das crônicas, como programas de televisão, brincadeiras e acontecimentos históricos. Para mim, que nasci na década de 90, já foi uma oportunidade muito legal de revisitar as memórias da infância!
Recomendo muito! .

Trecho:
“Hoje em dia, se a polícia para um carro e flagra uma criança nessa posição, o motorista deve perder a carta, talvez até a guarda dos filhos, mas estávamos em 1984 e o mundo era outro, não se usava cinto de segurança nem protetor solar, as pessoas não andavam por aí com garrafinhas d’água, como se fosse o elixir da vida eterna, fazíamos cinzeiros de argila para os pais nas aulas de artes e o colesterol era apenas uma vaga ameaça de gente paranoica, como a CIA ou a KGB, (…)”(p. 91) “De início, todos na rua tinham o mesmo poder aquisitivo e os bens per capita se resumiam a uma bicicleta, uma bola de futebol e uma caixa onde se misturavam Playmobils (…). Com o lançamento do álbum de figurinhas da Copa de 82, contudo, percebemos uma ligeira diferença na distribuição de renda: uns recebiam cinco pacotinhos por dia, outros tinham direito a dez, mas nada que ameaçasse nosso equilíbrio socioeconômico.”(p. 95)

Editora: Companhia das Letras

Ano de publicação: 2013

Número de páginas:  144

Link de compra: https://amzn.to/2Vp6mLr