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Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro | RESENHA

Vencedor do Prêmio Nobel de literatura de 2017, Ishiguro é conhecido por sua escrita sensível, mesclando a realidade com a fantasia. Apesar de ter gostado da primeira obra que li do autor (“O gigante enterrado”), o escolhido para o mês de novembro do #DesafioBookster2018 não me agradou! A premissa da obra é instigante: um internato em que as crianças são tratadas de forma diferente, criadas para um propósito maior – mas que, para elas, é desconhecido. Nasceram para desempenharem a função de “doadores”.
A escrita de Ishiguro é muito boa, o que deixa a leitura mais fluida e me ajudou a não abandonar o livro. O problema para mim está no desenvolvimento da narrativa. Tive a sensação de que ela não evoluía e que as cenas eram extensas demais, sem contribuir para o desenvolvimento da obra. As questões abordadas pelo autor são interessantes, como ética e condição humana, mas não conseguiram me despertar reflexões. Os personagens também não me cativaram muito. Tentei me apegar a algum deles, mas não consegui me aprofundar nos seus questionamentos. Ao final, me pareceu mais um livro juvenil, que não conseguiu refletir, “através da ficção científica, a questão da existência humana” – como promete uma das sinopses.
Enfim, o livro não ME fisgou; tinha muito potencial, mas achei que foi pouco aproveitado. Por outro lado, recebi muitas mensagens de pessoas que adoraram a leitura! Ou seja, como sempre falo, umas das coisas mais interessantes da literatura é como cada leitor tem uma experiência única com uma obra. Se ficou curioso, leia e depois me conte o que achou! E para quem já leu, quero saber as opiniões! .

Trecho:  “É um momento gélido, esse, o da primeira vez em que você se vê através dos olhos de uma pessoa. É como passar diante de um espelho pelo qual passamos todos os dias de nossas vidas e de repente perceber que ele reflete outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora.”

Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2015
Número de páginas:  344
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Morreste-me, José Luís Peixoto

Que surpresa boa foi essa leitura! Cada dia gosto mais dessa nova geração de autores portugueses contemporâneos… “Morreste-me” foi meu primeiro contato com o trabalho de Peixoto e já terminei a leitura querendo conhecer mais das obras do autor.
O livro tem como tema principal o luto pela morte do pai. E é impressionante como um livro tão curto, com 62 páginas, pode impactar tanto o leitor. E não ache que a obra impacta por ser triste. O que o autor consegue é criar um texto de extrema sensibilidade, sem apelar somente para a melancolia que a perda de um pai pode trazer. Lógico que a tristeza e a dor existem, mas o luto narrado pelo autor tem muito mais que isso: é uma homenagem ao seu pai, uma visita às boas – e nem tão boas – memórias. É a falta de alguém sentida apenas ao olhar um canto da casa ou rememorar momentos banais.
E além de ser uma narrativa tão humana, em que Peixoto entrega sua alma, ela é construída com uma forte carga poética. O título, por si só, já anuncia o lirismo que o leitor encontrará ao longo da leitura. Enfim, um livro a ser lido em uma única sentada, mas que ficará na cabeça do leitor por vários dias… E para alguém que já perdeu uma pessoa amada, difícil não se identificar nas passagens da obra.

“E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.”

#DesafioBookster2018 – Dezembro

Mês: Dezembro – Livro publicado na década de 2010 – “Machado”, Silviano Santiago (2016)

Fim de ano chegando e com isso o Desafio Book.ster 2018 entra em seu último mês! Foi a primeira vez que fiz um desafio, mas já gostei muito. Acho que as melhores leituras desse ano foram de obras escolhidas para o desafio, ou seja, obras que eu provavelmente não teria escolhido espontaneamente. Também achei muito interessante acompanhar a evolução da literatura no século XX e conseguir criar um cenário temporal um pouco mais claro na minha cabeça sobre a publicação das principais obras desse período. Começamos em janeiro com um livro publicado entre os anos de 1900 e 1909.. agora terminamos com uma obra publicada a partir de 2010!

O escolhido foi o vencedor do Prêmio Jabuti 2017 de melhor livro e que retrata – com uma mistura de realidade e ficção – os últimos anos do mestre da literatura nacional: Machado de Assis. Pelo que li de algumas críticas, a obra promete ser mais do que um “romance”, como indica a capa do livro, trazendo uma profunda pesquisa histórica sobre a época e sobre figuras importantes que cruzaram a vida de Machado de Assis (início do séc. XX). E para fazer isso, o autor parte da análise de cartas trocadas entre o protagonista do livro e Mário de Alencar nos anos de 1905 e 1908. Para quem não conhece, Silviano Santiago possui diversas obras publicadas, já tendo inclusive se dedicado a escrever sobre a vida de nomes importantes da literatura brasileira, como Graciliano Ramos (“Em liberdade”). Confesso que a temática da obra foge da minha “zona de conforto” literária e, por isso, estou bem curioso – e sem tantas expectativas – com o que vou encontrar!

Além do escolhido, indico os seguintes livros publicados a partir de 2010: “Nemesis”, Philip Roth (2000);  “O filho de mil homens”, Valter Hugo Mãe (2011); “O professor”, Cristóvao Tezza (2014); “Quarenta dias”, Maria Valéria Rezende (2014); “Enclausurado”, Ian McEwan (2016); e “Zero K”, Don DeLillo.

E você, já escolheu sua leitura de dezembro? Ah, e fiquem ligados que o Desafio Book.ster de 2019 já está pronto! Divulgarei no final do mês…

#bookster

Escolhas da vez!

Quem me acompanha aqui há algum tempo sabe que eu costumo escolher as minhas leituras com base em 4 categorias: (1) clássico; (2) livro curto de até 200 páginas; (3) autor contemporâneo ou ficção científica; e (4) livro de não-ficção / de contos / poemas. .

Ou seja, escolho 4 livros e só vou começar um livro diferente depois que eu acabar a “leva” atual. Com isso, acabo saindo da zona de conforto e me incentivo a ler obras de diferentes temáticas e gêneros. Ah, mas isso não significa que eu leio os 4 livros simultaneamente! Gosto de começar 2 e aí vou iniciando os próximos conforme vou finalizando as leituras. E também não tem regra de qual ler no dia… O importante é não deixar nenhum livro de lado. Essa “técnica” ajuda muito no ritmo da leitura e evita que eu canse de determinada obra.

Escolhas de vez:

1 – Clássico: “Pedro Páramo”, Juan Rulfo – Livro escolhido para a #leituraconjuntabookster . Apesar de ser um livro não tão conhecido no Brasil, é considerado como o romance mais aclamado da literatura mexicana. Um livro curto, mas que promete impactar o leitor! Animado para a 1a live com vocês, no dia 25/11, às 21:30hrs.

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2 – Livro de até 200 páginas: “Do amor e outros demônios”, Gabriel García Márquez – Gosto muito das narrativas do autor colombiano. Nessa obra, o autor se vale de seu realismo fantástico para trazer a incrível história de uma garota, filha de um marquês, que aparenta estar possuída por um demônio. Mas será que é isso mesmo?

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3 – Autor contemporâneo: “Não me abandone jamais”, Kazuo Ishiguro – Escolha de novembro para o #desafiobookster2018. Obra do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2017. De acordo com a editora, a obra “reflete, através da ficção científica, a questão da existência humana”.

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4 – Livro de não-ficção: “Nú, de botas”, Antonio Prata – Estava querendo um livro mais leve e divertido para compensar as últimas leituras mais pesadas que fiz. Nessa obra, Antonio Prata promete reviver, com humor e inteligência, as memórias de sua infância.
E vocês, estão lendo o que?
#bookster

O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde | RESENHA

Publicado pela primeira vez em 1890, a obra de Wilde foi recebida com muitas críticas, principalmente por conter indícios de relações homossexuais entre os personagens. Diante disso, em 1891, o autor adaptou a obra, suavizando as passagens “imorais”, adicionando 7 capítulos e incluindo um prefácio muito interessante. Nesse prefácio, Wilde deixa um recado para quem criticou a primeira versão da obra: “Não existe livro moral ou imoral. Livros são bem escritos ou mal escritos. Isso é tudo”. Nesse clássico, conhecemos Dorian Gray, em um primeiro momento descrito como um jovem educado e inocente. Quando Basil Hallward, um conhecido pintor, conhece Dorian, fica fascinado com jovem e decide eternizar essa beleza em um retrato.
Lorde Henry, amigo de Basil, fica encantado pela obra e deseja conhecer aquele jovem. Essa amizade que nasce entre Henry e Dorian vai mudar radicalmente a vida e a própria “essência” do jovem rapaz. Lorde Henry valoriza extremamente o prazer e a beleza e tenta mostrar como Dorian deveria aproveitar mais esse lado bom da vida. Essa influência faz ainda mais efeito quando Dorian olha pela primeira vez o seu retrato e toma consciência de sua beleza. Com isso, passa a temer os efeitos do tempo e deseja nunca envelhecer, ficar para sempre com a aparência que vê no retrato.
A partir disso, levando uma vida voltada ao prazer e futilidades, o caráter de Dorian vai sendo aos poucos corrompido e, para sua surpresa, essas mudanças passam a ser refletidas em seu retrato. Enquanto Dorian permanece jovem e belo, o retrato passa a envelhecer, absorvendo o modo de vida do personagem.
Apesar de ter sido escrita no séc. XIX, a obra é atual e revela não só a obsessão do indivíduo pela beleza e juventude eternas, mas também a dificuldade de lidar com as decisões.
Sobre a escrita de Wilde, gostei muito e é possível perceber um tom poético e descritivo. Como li no original, tive certa dificuldade com um vocabulário mais rebuscado.
Por fim, senti que o personagem de Dorian poderia ter sido mais explorado e aprofundado. O destaque ficou para o Lorde Henry, com seus diálogos cheios de cinismo e humor.

Trilogia suja de Havana, Pedro Juan Gutiérrez | RESENHA

A obra reúne pequenos contos, em sua maioria autobiográficos, e todos com um ponto em comum: o cenário! Apesar de histórias diferentes, todas se passam em uma Havana caótica, suja e pobre. Uma Havana assolada pela crise econômica enfrentada por Cuba na década de 90. É a rotina de cidadãos rodeados pelo sexo, pelo álcool, pelas drogas e pela falta de oportunidades. Estão fadados a essa vida e, por isso, se preocupam em garantir o dinheiro para conseguir comer, beber e sobreviver. E em uma sociedade tão pobre e cerceadora de liberdade, o corpo é uma das poucas coisas que ainda sobrou para o indivíduo usar e abusar. E é isso que vemos na obra: a presença intensa do sexo. Mas não se trata de uma obra erótica, é a vulgaridade e o lado animal do ser humano que representam um pausa da miséria de todos os dias. Sem medir as palavras que usa, o autor conta boas histórias e ainda consegue tecer uma crítica social, expondo a realidade que viveu.
Apesar de se valer de uma escrita econômica e direta, o autor tem a enorme capacidade de transportar o leitor para aquele ambiente caótico, descrevendo sensações, cheiros e sabores. A primeira obra que li de Gutiérrez foi em 2017 e me surpreendeu muito – O rei de Havana. As duas obras trazem as características do autor e acho que fiz certo ao não começar por essa obra. Por serem muitos os relatos, e alguns com temática e ritmo parecidos, a leitura pode causar certo cansaço no leitor que se depara com o estilo de Gutiérrez pela primeira vez. Independentemente de qual livro escolher, não deixem de conhecer esse autor cubano. “Trilogia suja de Havana” é uma obra visceral e que recomendo muito! .

“Sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, se reduz a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada”

#DesafioBookster2018 – Novembro

Mês: Novembro –

Livro publicado na década de 2000 – “Não me abandone jamais”, Kazuo Ishiguro (2005)

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Para quem ainda não conhece, criei o Desafio Book.ster 2018 para incentivar a leitura de obras clássicas publicadas a partir do século XX, seguindo uma ordem cronológica. A ideia é simples: 12 livros, 12 décadas. Por exemplo, em janeiro lemos um livro publicado entre 1900 e 1909, em fevereiro da década de 1910… e por aí vai!
Se você não começou, ainda dá tempo de participar: é só escolher um livro para esse mês e que tenha sido publicado entre 2000 e 2009.
Alguns dias antes de começar cada mês, posto para vocês o livro escolhido, assim como algumas sugestões de obras publicadas na mesma década!

Estamos chegando ao final do desafio desse ano e o escolhido para o penúltimo mês foi uma obra do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2017, o escritor japonês Kazuo Ishiguro. Eu já li uma obra do autor, “O gigante enterrado”, e gostei bastante. A narrativa é bem incomum, mas de uma sensibilidade intensa (tem resenha aqui!). Na verdade, uma das características mais enaltecidas de Ishiguro é essa capacidade de inserir na obra uma carga emocional contagiante. No livro escolhido para novembro, “Não me abandone jamais”, Ishiguro narra a história de Kathy e sua passagem por um internato inglês, chamado Halisham, onde trabalhou como cuidadora. O internato, no entanto, guarda muitos mistérios. A sinopse ainda promete um livro que “reflete, através da ficção científica, a questão da existência humana”. .

Além do escolhido, indico os seguintes livros publicados na década de 2000 (tem MUITA coisa boa, foi difícil escolher): “A marca humana”, Philip Roth (2000); “Dois irmãos”, Milton Hatoum (2000); “A festa do bode”, Mario Vargas Llosa (2000); “Reparação”, Ian McEwan (2001); e “Kafka à beira-mar”, Haruki Murakami (2002); e “Equador”, Miguel Sousa Tavares (2003).

E você, já escolheu sua leitura de novembro? Além disso, já leu alguma obra de Ishiguro?