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Cloro, de Alexandre Vidal Porto | Resenha

Narrado a partir de um “personagem defunto”, ao estilo machadiano de Brás Cubas, “Cloro” é sobre a vida de um advogado bem-sucedido e típico pai de família, mas que passou seus dias atormentado pela sombra da sua sexualidade. Constantino, o personagem principal da obra, só se sente à vontade para falar dessa temática depois que morre, possuído pela ideia de que não teria mais nada a perder.

Assim, conhecemos o narrador a partir de passagens de sua vida, em que Constantino vai identificando situações em que se viu obrigado a abrir mão de suas verdadeiras escolhas para manter a imagem que a sociedade esperava dele. Sua vida é o retrato de muitos outros indivíduos que diariamente renunciam de sua verdadeira identidade ou seus interesses, sejam eles quais forem, por conta de uma sociedade que discrimina e julga. Constantino deixa o seu “Eu” de lado para casar, ter filhos e poder cumprir o seu papel.
No entanto, apesar de aparentemente se enquadrar nesse modelo de cidadão ideal, Constantino, na verdade, não conseguia ser um pai presente ou bom marido. A sensação de falha o perseguia. Até que um dia, se viu no meio de uma triste tragédia familiar, que acabou afrouxando um pouco as mordaças que o impediam de ser quem ele é. O protagonista ganha um pouco de coragem, ao perceber que talvez a vida não deveria ser vivida para os outros, e passa a se aventurar, vivendo uma vida dupla. Mas por quanto tempo será que ele consegue levar isso adiante?

A escrita de Vidal Porto é de fácil leitura e temperada com um humor e cinismo que deixam a obra mais interessante. Por outro lado, senti falta de um maior aprofundamento na construção dos personagens. O enfoque se concentra muito mais nos fatos do que no próprio conflito interno do protagonista, por exemplo.

Apesar disso, é inegavelmente um bom livro, que prende o leitor e que toca em temas extremamente relevantes, sobretudo o sofrimento da comunidade LGBTQ em uma sociedade intolerante para com aqueles que fogem dos padrões. Recomendo!

Gostaram da resneha? Alguém já leu esse livro?

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#DesafioBookster2019 | Maio

Maio – Meio ambiente
Livro escolhido: “A estrada”, de Cormac McCarthy
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Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do desafio @book.ster para esse mês e dar indicações de outros livros com a temática a ser abordada. Se você só chegou aqui agora, não tem problema! Comece o desafio a partir desse mês e busque aqui na página o post oficial para entender melhor como funciona.
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O tema do mês de maio foi um dos que trouxe mais dificuldades na hora de escolher a obra para a minha leitura. Talvez porque esse seja um tema de difícil abordagem em um livro de ficção. Fiz uma pesquisa mais aprofundada e logo a obra de McCarthy apareceu como uma das opções. E como eu nunca havia lido nada do autor norte americano e também não tinha lido muita coisa sobre “A estrada”, decidi que essa seria uma boa oportunidade de escolher um livro e um autor que eu tão pouco conhecia. Uma escolha um pouco no escuro…
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O pano de fundo para a narrativa é um meio ambiente devastado, típico de um cenário pós apocalíptico! “As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis”. Vamos acompanhar a trajetória de pai e filho, andando sem rumo e em busca da sobrevivência e salvação.
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Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática: “Vidas secas”, de Graciliano Ramos; “Não verás país nenhum”, de Ignácio Loyola Brandão, “As cidades invisíveis”, de Italo Calvino; “Grande sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa.
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E você, já escolheu sua leitura de maio?

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A cor púrpura, de Alice Walker | Resenha

Escrita por meio de cartas, a obra de Alice Walker é considerada uma das mais importantes da literatura norte-americana. Retratando a triste vida de Celie, uma mulher negra que nasceu em uma família pobre do sul dos Estados Unidos, a autora aborda temas de extrema relevância social, principalmente o difícil papel da mulher em uma sociedade opressora e patriarcal.
Desde a infância, Celie sofre abusos, tanto físicos como psicológicos. Essa violência contra a protagonista choca e incomoda o leitor e, logo nas primeiras páginas, já ficamos sabendo que, ainda criança, Celie fica grávida de seu próprio padrasto. Em uma situação de total desprezo à sua condição de ser humano, a personagem nem mesmo tem direito de ficar com seu filho. A única ideia de amor e afeto que Celie conhece vem de sua irmã, Nettie, cujo destino vai traçar caminhos distantes daqueles vividos pela protagonista.
E é a partir desse cenário que conhecemos as dificuldades vivenciadas por uma mulher nascida à margem da sociedade. Celie é tão humana que não há como não se comover com sua realidade e sentir vontade de tirá-la daquele ambiente tão violento. A construção da personagem é, realmente, incrível!
A escrita também é muito interessante e, para aproximar o leitor da realidade e da pobreza dos negros no sul dos EUA do começo do século XX, Walker se vale de uma linguagem extremamente coloquial. A gramática é deixada de lado e substituída pela oralidade e é o som das letras que constroem a mensagem de Celie.
Enfim, apesar de ser uma leitura impactante e que me causou muita indignação, terminei o livro com uma sensação de resistência e de perseverança de uma pessoa que enfrenta inúmeros problemas, mas que não desiste de seus objetivos – ainda que tão simples. É um clássico que merece ser lido e que nos desperta reflexões assustadoramente atuais.
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PS: Assisti ao filme depois e adorei!! ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
“Ele me bateu hoje porque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu podia tá cum uma coisa no olho, mas eu num pisquei. Eu nem olho prus home. Essa é que é a verdade. Eu olho pras mulher, sim, porque num tenho medo delas.”

Quero saber, alguém já leu? Se sim, o que acharam?

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Se a rua Beale falasse, de James Baldwin | Resenha

Considerado um dos grandes inovadores da literatura afro-americana nas décadas de 50/70, Baldwin cria uma romance carregado de reflexões sobre desigualdade social e racial. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O cerne da história é a relação de dois jovens, Fonny e Tish, que planejam um futuro juntos e em condições melhores, mas que precisam enfrentar uma sociedade que os discrimina por sua cor de pele e por sua condição social. O cenário é Harlem, um bairro do subúrbio de Nova Iorque, nos anos 70. Logo no início, o leitor recebe a notícia de que Fonny está preso, acusado de ter estuprado uma porto-riquenha, apesar da falta de provas nesse sentido. Tish, que carrega um filho de Fonny, passa a fazer de tudo para conseguir comprovar a inocência de seu companheiro. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A partir dessa situação, os capítulos passam a alternar entre o presente, com a luta pela libertação de Fonny, e o passado, por meio das memórias de Tish sobre o início de seu relacionamento com Fonny até os fatos que o levaram à prisão.
Ao longo da narrativa, fica nítida a dificuldade de se conseguir o acesso à justiça quando faltam recursos e quando se nasce em condições desfavoráveis. O desespero de Tish e de sua família é realmente comovente; todos passam a se esforçar ao máximo para conseguir, ao menos, pagar um advogado para Fonny. Por outro lado, a família do acusado pouco faz para ajudá-lo, criando até mesmo uma sensação incômoda no leitor: é a falta de afeto e humanidade naqueles que deveriam ser os primeiros a defendê-lo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É uma história sobre a condenação pela raça, de uma sentença sem defesa, em que o amor e a resistência podem ser as únicas armas para se defender. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Apesar de ser uma leitura muito fluida e prazerosa, com inúmeras referências a músicas de jazz e blues, confesso que senti um pouco de falta de maior aprofundamento nos personagens. O final também me pareceu um pouco abrupto, como se o autor tivesse pressa em finalizar a obra. De todo modo, recomendo a leitura, que me deixou com vontade de conhecer mais sobre as obras de Baldwin.
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“Não se podia comprar o tempo. A única moeda que o tempo aceitava era a vida.”

E aí, o que acharam? Alguém já leu?

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Escolhas da vez!

Demorei para fazer o post dos escolhidos de março, mas antes tarde do que nunca ! Costumo escolher as minhas leituras com base em quatro categorias: (1) clássico; (2) até 200 páginas; (3) autor contemporâneo/ ficção científica; e (4) não ficção/contos/poemas.
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Ou seja, escolho quatro livros e só vou começar um livro diferente depois que eu acabar a “leva” atual. Isso me tira da zona de conforto e me incentiva a ler obras de diferentes gêneros. Essa “técnica” também ajuda muito no ritmo da leitura, evitando que eu canse de alguma obra. E é importante dizer que eu não leio os 4 livros simultaneamente! Gosto de começar 2, e aí vou iniciando os próximos conforme finalizo as leituras, sem deixar nenhum de lado.
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Escolhas de vez (dessa vez acabei fugindo um pouco de uma das categorias, kkk):
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1 – Clássico: “Lavoura Arcaica”, Raduan Nassar – Livro incrível, de uma poética marcante! Já tem resenha aqui, então é só correr lá no último post para ler.
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2 – Até 200 páginas: “Se a rua Beale falasse”, James Baldwin – Escolhido da #leituraconjuntabookster ! Grande obra para conhecer um grande autor… Já quero partir para os próximos dele! ⠀

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3 – Autor contemporâneo: “Cloro”, Alezandre Vidal Porto – Estou no começo, mas já percebendo uma leitura bem fluida. O personagem principal está morto e a partir de suas memórias eles nos conta passagens importantes de sua vida e as dificuldades de esconder a sua homossexualidade em uma sociedade repressora.
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4 – Obra epistolar (em forma de cartas): “A cor púrpura”, Alice Walker – Estou quase terminando! Clássico da literatura americana, esse livro é pesado e, ao mesmo tempo, um exemplo de resistência humana.
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E vocês, estão lendo o que?

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar | Resenha

Raduan Nassar escreveu apenas dois romances em sua vida, já que desde 1984 decidiu parar de escrever e passou a se dedicar à vida no campo. Mas apesar de uma produção literária tão pequena em termos de páginas escritas, seu trabalho é tão impactante que deixa mais do que justificado o seu papel de destaque na literatura nacional. De fato, a leitura de Lavoura Arcaica deixa marcas no leitor e revela a invejável afinidade que Raduan tem com as palavras.
A obra, publicada em 1975, traz a história de André, nascido em uma família rural numerosa, mas que decidiu abandonar sua casa e se mudar para uma cidade do interior. No entanto, os motivos que o levaram a tomar essa decisão não são revelados logo de cara.

Já nas primeiras palavras, o leitor se deparada com um forte tom poético que vai estar presente ao longo de toda a obra. André é o narrador personagem e, logo nas primeiras cenas, somos apresentados ao seu irmão, Pedro, que faz uma visita para tentar convencê-lo a voltar para casa. A partir disso, os capítulos vão se alternando entre os diálogos dos irmãos com as memórias do autor, revelando, aos poucos, a fonte principal dos conflitos internos do personagem e que o levaram a decidir abandonar a família (paro por aqui, para evitar spoilers). Mas já adianto que é uma temática incômoda e que divide espaço com a escrita IMPECÁVEL de Raduan. A sensação é de que nenhuma palavra está lá por acaso.
Por fim, não dá para deixar de dizer que, apesar de encantadora, a escrita não é das mais fáceis. Além de se valer de inúmeras metáforas, o autor utiliza muito a técnica do fluxo de consciência. Ou seja, nos coloca nos pensamentos – confusos e não lineares – do narrador. Você inicia um capítulo e se vê atirado nesses pensamentos, que não terminam até o final do próximo capítulo (vários com apenas um ponto final!). Haja fôlego, mas o esforço é compensado por cada palavra lida.

Quero saber, alguém já leu esse livro? O que acharam?

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#DesafioBookster2019 | Abril

Abril – Intolerância religiosa
Livro escolhido: “Persépolis”, de Marjane Satrapi
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Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha do #DesafioBookster2019 para esse mês e dar indicações de outros livros com a temática a ser abordada. Se você só chegou aqui agora, não tem problema! Comece o desafio a partir desse mês e busque aqui na página o post oficial para entender melhor como funciona.
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O escolhido foi um livro que já estava há um bom tempo pedindo para ser lido aqui em casa, principalmente diante das inúmeras recomendações positivas que eu recebi de vocês! E a escolha é um pouco diferente porque “Persépolis” é uma HQ, um livro em quadrinhos. Semana passado subi no YouTube um vídeo que fiz falando sobre “Maus”, uma HQ que havia acabado com um antiga ideia – ou até um certo preconceito literário – que eu tinha de que livros em quadrinho seriam mais juvenis e, portanto, não me interessariam. No entanto, “Maus” revelou o contrário e foi uma surpresa maravilhosa. Depois disso, já coloquei várias HQs na lista e “Persépolis” estava em primeiro lugar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A obra é uma autobiografia e traz a vida de Marjane, uma garota que com apenas 10 anos de idade se viu obrigada a usar o véu islâmico, dentro da sala de aula. Marjane assistiu ao início da revolução que transformou o país em uma república islâmica teocrática, sob o comando de um líder religioso. O problema é que a protagonista nasceu em uma família progressista e libertária e, por isso, passou a ter que seguir os preceitos religiosos contra a sua vontade. Uma obra que aborda a temática da imposição e intolerância religiosa a partir da perspectiva de uma jovem garota! Extremamente animado com essa leitura!
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Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática: “Infiel”, de Ayaan Hirsi Ali; “Hibisco Roxo”, de Chimamanda Adichie, “É isto um homem”, de Primo Levi; “Complô contra a América”, Philip Roth; “Submissão”, de Michel Houellebecq; “O diário de Anne Frank”, de Anne Frank; e “Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt, e “As montanhas de Buda”, Javier Moro.
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E você, já escolheu sua leitura de abril?

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