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“Frankenstein – o Prometeu moderno”, de Mary Shelley | Resenha

Pioneiro da literatura de horror e ficção científica, o livro publicado em 1818 ganhou diversas adaptações para as telas. E é aí que acaba vindo a surpresa para quem resolve ler o original: a narrativa é muito diferente daquele senso comum sobre a história que é reproduzida até hoje para um entretenimento mais infanto-juvenil. Já começa pelo título: assim como eu, muitos leitores também achavam que Frankenstein é o nome do “monstro”, quando, na verdade, é do cientista que o criou.

Mas esse detalhe está longe de ser causador de grandes surpresas no leitor. Isso porque, diferentemente do que imaginamos, não se trata de uma “historinha de terror”. Mary Shelley conseguiu, com apenas 19 anos, construir uma narrativa profunda e instigante sobre os “monstros” que habitam em todos os seres humanos.

De fato, a obra já começa com um médico ambicioso – Dr. Frankenstein – que consegue um feito inédito: dar vida a uma criatura. Mas o arrependimento é imediato e o horror de sua atitude o leva a abandonar a sua criação. Mas as consequências dessa rejeição serão sentidas pelo médico. Seria essa uma forma de vingança? Teria o “monstro” sentimentos? Quem seria o culpado? Na minha opinião, a parte mais interessante é justamente quando acompanhamos os conflitos e descobertas de um ser humano recém-criado, a partir de sua própria perspectiva. É um verdadeiro mergulho nos pensamentos da “criatura”!

Além disso, a autora cria um enredo que nos leva a questionar o que seria o certo ou o errado. Aqui não há uma visão maniqueísta de bem ou mal, mas sim conseguimos perceber que esses dois extremos se misturam e se confundem em cada um dos personagens.

Na semana da mulher, postar essa resenha é uma tentativa de homenagear uma autora brilhante que conseguiu, tão jovem e em uma época com tantos obstáculos às mulheres, publicar um livro de merecido destaque na literatura mundial.

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#DesafioBookster2020 | Março

#DesafioBookster2020

Mês: Março
Gênero: Clássico
Livro escolhido: “O quinze”, de Rachel de Queiroz

Tenho certeza que muitos de vocês imaginaram que eu escolheria um livro da Jane Austen, Simone de Beauvoir ou das irmãs Brontë. Mas por que não escolher um livro escrito por uma autora nacional, um clássico para a literatura brasileira? Na verdade, o que faz de um livro um clássico?

Antes de mergulhar um pouco mais nesse mundo da literatura, tinha a falsa ideia de que um clássico seria aquele livro muito famoso, conhecido por todo mundo e ensinado nas escolas. Mas a verdade é que eu nunca tinha parado para pensar por qual motivo aquele livro se diferenciava dos demais. Quando falamos nesse tema, gosto muito de lembrar da definição de Italo Calvino: clássicos são aquelas obras atemporais. Em outras palavras, clássicos são aqueles livros que vão fazer sentido para o leitor independentemente da época ou local em que ele foi escrito. E isso porque são livros que vão tratar de temas universais, em especial sobre a condição humana. É por isso que, ao ler um clássico do séc. XVII, por exemplo, ainda nos identificamos com os sentimentos e questionamentos dos personagens construídos pelo autor.
Portanto, resolvi escolher um livro nacional para mostrar que não precisamos pensar em literatura estrangeira para escolher um clássico. Clássico não é necessariamente aquele livro conhecido por todos, mas sim um livro que vai além do seu tempo. E a obra “O quinze”, de Rachel de Queiroz, é conhecida justamente por isso: tratar do ser humano. Não é apenas a história do povo sertanejo que sofre com a seca que assolou o Nordeste brasileiro em 1915, como traz a sinopse. A obra promete descrever a condição humana em situações extremas de pobreza e busca pela sobrevivência.

Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen; “A casa dos espíritos”, de Isabel Allende; “A hora da estrela”, de Clarice Lispector: “A cor púrpura”, de Alice Walker; “O sol é para todos”, de Harper Lee; e “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë.

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Léxico familiar, de Natalia Ginzburg | Resenha

Hoje em dia, quando se fala em escritora italiana, logo pensamos no sucesso Elena Ferrante. No entanto, a voz feminina na literatura italiana começou muito antes, com as obras de Natalia Ginzburg – e que, já aviso, não se assemelham com a forma de narrar histórias de Ferrante. “Léxico familiar” é um dos livros mais conhecidos da autora e foi a minha escolha para o mês de dezembro do #DesafioBookster2019, em que o tema era relações familiares.

E, como o título já indica, esse livro traz uma teia de afetos, encontros e separações entre os familiares de Ginzburg e aqueles cujas vidas de alguma forma passaram por essa família. Confesso que para um tema de relações familiares, dificilmente poderia ter feito uma escolha muito melhor. De fato, o leitor é convidado a participar, por meio das memórias de Ginzburg, do convívio íntimo de sua família – uma tradicional família judia italiana. São histórias das mais corriqueiras, até fatos que marcaram de forma permanente o destino das pessoas que estavam à sua volta. São histórias que revelam o caráter universal de um léxico familiar, por mais diverso que ele seja. Um livro publicado em 1963, mas que dificilmente ficará ultrapassado.

Além disso, apesar de a obra ser ambientada em um momento de “criação de leis raciais na Europa”, como indica a sinopse, esse é um tema que fica realmente em um segundo plano. As angústias e o sofrimento pela discriminação não são foco das lembranças da autora. Não espere encontrar uma obra com altos e baixos. “Léxico familiar” talvez não tenha sido escrito para prender a atenção, mas para ser aproveitado aos poucos, na medida em que vamos conseguindo nos aproximar mais dessa rede de memórias e nos sentirmos parte dessa família.

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Úrsula, de Maria Firmina dos Reis | Resenha

A importância histórica dessa obra já é, por si só, suficiente para que você a leia: publicado em 1859, “Úrsula” é considerar o primeiro romance de autoria negra e feminina publicado no Brasil. E para a felicidades de nós, leitores, a obra foi recentemente republicada por algumas editoras, trazendo o trabalho da autora maranhense para o público de fora do mundo das Letras. Na verdade, me causa espanto que essa obra não seja ensinada nas escolas como um marco da nossa literatura.

O enredo de “Úrsula” é bem característico de um “romance romântico”, já que envolve um triângulo amoroso e os sofrimentos causados por uma grande paixão. E confesso que, apesar de ser uma leitura agradável e envolvente, essa parte da narrativa não me encantou. A princípio, acabou me deixando com a sensação de ser uma história pouco original. E talvez se a gente só focar no enredo, a obra pode não agradar alguns leitores. Mas quando a gente para e pensa sobre o contexto histórico em que a obra foi escrita, a sua originalidade está no simples fato de ela ter sido publicada em um ambiente tão hostil para Maria Firmina.

Além disso, em paralelo a esse foco narrativo, também somos apresentados a três outros personagens: Túlio, Suzana e Antero. Três escravos, personagens criados por uma autora negra que vivia em uma época em que a escravidão ainda estava longe de ser proibida no Brasil. Esses aspecto do livro me impressionou bastante e revelou a coragem da autora em tratar – ainda que de forma sútil – uma temática muito complicada para a época. E isso também explica o motivo pelo qual o romance foi inicialmente publicado com um pseudônimo: “uma maranhense”. E no decorrer da leitura, há passagens que retratam os horrores da escravidão. Dentre elas, está a cena que mais me impressionou: a descrição da captura e viagem de uma escrava para o Brasil, brutalmente separada de sua família e seus filhos.

Ah, e se prepare para encontrar algumas palavras pouco conhecidas, reflexo da época em que a história foi construída. Mas fique tranquilo que isso não chega a prejudicar o ritmo da leitura.

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#DesafioBookster2020 | Fevereiro

#DesafioBookster2020
Mês: Fevereiro
Tema: Ficção histórica
Livro escolhido: “Eu, Tituba – bruxa negra de Salem”, de Maryse Condé

Vamos ao livro escolhido em fevereiro para o desafio Bookster 2020? Lembrando que se você não conhece o desafio ou quer começar a partir desse mês, corre lá no destaque dos stories chamado “Desafio2020”, que tem tudo explicado. 

O gênero literário do mês é a ficção histórica, que pode ser definido como uma obra que mescla aspectos históricos verídicos com ficção. Basicamente, o autor narra uma situação ficcional no passado, incorporando características reais daquele período. 

Apesar de ser um gênero bem comum, com diversos clássicos amplamente conhecidos, resolvi escolher um livro que chegou há pouco tempo no Brasil. Eu não o conhecia até receber no final de 2019 do @grupoeditorialrecord … e, logo quando vi a sinopse, fiquei muito interessado e com vontade de inclui-lo na lista de próximas leitura. 

Premiado com importantes prêmios literários, a obra da autora caribenha reconta o famoso caso dos julgamentos das bruxas de Salem, no final do século XVII, a partir da perspectiva de Tituba, uma personagem “silenciada por três séculos, devido à implacável historiografia racista”. Tituba era uma mulher negra, escravizada, originária de Barbados, e que passou a ser perseguida por uma histeria coletiva puritana, sendo acusada de bruxaria. E, por meio da ficção, a autora vai preenchendo as lacunas deixadas em nossa história.

Maryse Condé foi vencedora do The New Academy Prize in Literature, premiação criada como alternativa ao Nobel Prize de 2018, suspenso após a polêmica de abusos sexuais. A edição conta com prefácio de ninguém menos que Conceição Evaristo e com tradução premiada da Natalia Borges Polesso.

Quem aí vai me acompanhar na leitura? Para quem preferir outra escolha, seguem algumas indicações: “Kindrer”, de Octavia Butler; “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen; “A mulher de pés descalços”, de Scholastique Mukasonga; “O tempo entre costuras”, de Maria Dueñas; e “A casa dos espíritos”, de Isabel Allende.

Pantaleão e as visitadoras, de Mario Vargas Llosa | Resenha

Sou fã de Llosa e de sua capacidade de escrever obras que transitam entre as mais diversas temáticas. Já li várias obras do autor, mas a lista de desejados ainda é grande e “Pantaleão e as visitadoras” estava no topo. O livro foi muito recomendado pelos booksters, principalmente quando pedi dicas de livros bem humorados (já que o que a gente mais lê é história triste ? ).

A premissa da obra é realmente inusitada: um capitão do exército peruano recebe a missão de criar um serviço secreto de prostitutas para acalmar os ânimos dos soldados isolados na Amazônia. E apesar da relutância inicial de Pantaleão Pantojas em assumir a sua tarefa, o militar acaba se mostrando um administrador extremamente habilidoso para os serviços… Mas o que era sigiloso, acaba caindo na boca dos habitantes dos pequenos vilarejos da região e a situação complica para o protagonista! E para deixar a história ainda mais sinistra, há uma seita religiosa que começa a crucificar corpos na região, sem que as pessoas entendam muito os motivos por trás de tais atos…

No início senti um pouco de dificuldade com os diálogos apresentados sem muita distinção entre os personagens e as situações narradas (vc acaba identificando que falou aquilo só nos finais das frases, não se assustem)… mas a leitura logo me cativou! E realmente me deparei com muitas passagens hilárias e reveladoras da inteligência do autor. 


Além disso, a narrativa é construída intercalando capítulos com uma prosa mais tradicional, repleta de diálogos, e capítulos com a transcrição de documentos oficiais do exército, relatando os problemas e o sucesso da operação. E foram justamente essas partes mais “documentais” que acabaram tornando a experiência da leitura menos agradável do que eu esperava. Ficou um pouco arrastada…

De toda a forma, foi uma leitura muito interessante e engraçada, que me mostrou um lado um pouco mais experimental do autor! Recomendo!!

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O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe | Resenha

Em 2019, resolvi fazer a releitura dessa obra que é única em sua sensibilidade e na forma como aborda o afeto e as relações humanas. Quem me acompanha aqui há um tempo sabe da minha admiração pelo autor, que foi um dos responsáveis por despertar a vontade de conhecer um universo mais amplo de livros, que não se limitava apenas aos autores mais conhecidos ou às listas de mais vendidos. E, na minha opinião, o que mais se destaca nos livros de @valterhugomae é a sua escrita. É a poesia que preenche as suas frases, como se cada palavra tivesse sido escolhida a dedo.

Em “O filho de mil homens”, a narrativa é construída a partir de situações simples. É a história de um pescador solitário, Crisóstomo, que conhece um garoto órfão, chamado Camilo. É a história de uma família criada a partir de laços que fogem do convencional. E para acompanhar as emoções que percorrem a história de Crisóstomo e Camilo, o autor nos apresenta diferentes personagens, cada um com seus próprios conflitos. Cada um vive e sofre do seu jeito os problemas que encontram na pequena aldeia, mas que também estão presentes em todo canto: machismo, homofobia e outras formas de discriminação. Mas é justamente no meio dessas falhas de uma sociedade, que cada busca no outro um pedaço daquele seu vazio, daquela metade que lhe falta… E não é para isso que deveriam servir o amor e o afeto?

Fica até difícil para mim, como leitor, contar mais sobre o que você pode encontrar nesse livro. Até porque, como sempre falo, um livro vai muito além de uma história. Nesse caso, a leitura de “O filho de mil homens” vale pela experiência, que nos deixa marcas – e também exige muitas marcações (haja post-its). Por isso, a recomendação é fácil e serve para qualquer um que quer um conhecer um pouco do ser humano, do que é ser humano.

E antes que me perguntem: acho que esse livro é uma boa opção para quem quer iniciar na obra de @valterhugomae !

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