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Na colônia penal, de Franz Kafka | Resenha

Publicado em 1919, a novela de Kafka aborda temas ainda muito atuais, sobretudo em uma sociedade conservadora em que a ideia de fazer justiça é vista como uma forma de entretenimento. Já na primeira página da obra, somos apresentados a uma máquina peculiar, um instrumento de execução capaz de marcar na pele do condenado – ou da vítima – os crimes que ele teria supostamente cometido.

E digo supostamente porque, nesse “espetáculo” que dura aproximadamente 12 horas até a execução, o condenado não sabe direito por que está lá. Não lhe dão o direito a entender suas acusações e, muito menos, um direito à defesa. E o que mais choca o leitor é que para o Oficial que opera a máquina, não há nada de errado, já que provavelmente o acusado mentiria se pudesse se defender.

E tudo se passa em uma colônia penal, como o próprio título da obra já indica. No começo do século XX, as colônias penais – prisões construídas em ilhas isoladas – eram ferramentas comumente utilizadas por diversos países para remover da sociedade aqueles cidadãos tidos como indesejáveis. Sem qualquer controle externo, os prisioneiros eram submetidos a punições e torturas.

Mas vale refletir: ainda que as colônias penais tenham deixado de existir, será que nosso sistema prisional está muito diferente? É claro que a máquina mencionada na obra é um extremo da injusta justiça feita pelas próprias mãos. Mas será que as nossas prisões superpopulosas, em condições degradantes, não revelam um sistema interessado unicamente em reprimir ao invés de prevenir?

Apesar de a Constituição assegurar a qualquer cidadão o direito de não ser submetido a tortura ou a tratamento desumano, parte da sociedade aplaude a realidade em que sequer direitos mínimos ao prisioneiro são assegurados. Por isso, o trabalho de Kafka, apesar de chocante, revela um problema extremamente atual e que não pode ficar à margem de uma ilha isolada, esquecida pelo debate político e social.

Recomendo ler nessa edição da @antofagica, com textos de apoio que vão contribuir para a compreensão da obra e das reflexões que ela desperta. Além disso, as ilustrações enriquecem a experiência!

Nossa Senhora do Nilo, de Scholastique Mukasonga | Resenha

O genocídio de Ruanda, ocorrido em 1994, é um dos episódios mais tristes e brutais sobre os que já li. Cerca de 1 milhão de pessoas foram mortas em apenas 100 dias. Além disso, ter visitado o país em 2019 me permitiu ver de perto como esse acontecimento está marcado profundamente na sociedade, ao mesmo tempo que Ruanda vem demonstrado um forte exemplo de reestruturação social e econômica no continente africano.

Scholastique Mukasonga é ruandesa de origem Tutsi e, apesar de ter conseguido fugir e sobreviver ao genocídio, perdeu diversos membros da sua família. Em “Nossa Senhora do Nilo, Mukasonga se distancia do centro dos acontecimentos de 1994 e nos leva a um liceu católico de meninas, situada nos altos das montanhas da bacia do Nilo. Estamos anos antes ao massacre, mas já conseguimos enxergar no próprio microcosmo da escola como a segregação de etnias foi sendo construída no seio da sociedade ruandesa.

O liceu adota um sistema de cotas, em que 10% das vagas são separadas para as alunas da etnia Tutsi, a qual foi vítima dos crimes e das perseguições que culminaram no genocídio. As meninas, que vivem em uma sociedade machista e patriarcal, devem se submeter a rígidas regras impostas pelas freiras que controlam a instituição. As garotas Tutsis ainda sofrem com a crescente discriminação e desprezo das suas colegas.

A igreja é retratada de mãos atadas – e às vezes até apoiando o regime dos Hutus – em uma situação de extrema injustiça. A preocupação era muito mais de tentar catolicizar os ruandesas, tornando abomináveis qualquer culto às antigas tradições, do que proteger quem necessitava. Também é possível notar a inércia dos antigos colonizadores, representados pelos professores da instituição, diante do perigo que parte de suas alunas enfrentava. É um reflexo do comportamento dos países desenvolvidos no início da década de 90.

Vale pontuar que o livro não é focado apenas em acontecimentos. A autora se dedica a apresentar ao leitor características da sociedade ruandesa daquela época. Uma ótima introdução ao cenário que culminou na guerra civil e no genocídio de 10% da população ruandesa.

A cidadela, de A. J. Cronin | Resenha

Que eu sou um fã de livros com temática de medicina, isso já deixei bem claro por aqui! Por isso, foi com muita expectativa que comecei a ler A cidadela, em que são narradas as condições de trabalho de um jovem médico recém-formado no início do século XX. Além disso, em nossa conversa para o @dariaumlivropodcast, o livro havia sido indicado por Antônio Fagundes como um dos seus favoritos.

O protagonista da história, Dr. Andrew Manson, inicia sua carreira em uma pequena aldeia do País de Gales. Por não ter tido muita experiência com pacientes, conseguimos acompanhar a insegurança de um jovem com a enorme responsabilidade de lidar com a vida dos moradores de Drineffy. Porém, sempre buscando enxergar o seu paciente como um ser complexo, indo além da simples análise dos seus sintomas físicos, Dr. Manson começa a chamar a atenção na região em que atende.

Apesar de o início da leitura ter me prendido bastante a atenção, confesso que o desenvolvimento do meio da narrativa ficou um pouco lento. Tive a sensação de que a rotina do Dr. Manson teria ficado monótona, sem grandes acontecimentos.

Por sua vez, consegui retomar o ritmo no terço final da obra. Depois que se muda para Londres e começa a adentrar no círculo social dos pacientes ricos e importantes, o personagem passa a esbarrar em questões éticas interessantes. Foi como se o médico tão interessado no bem-estar do paciente passasse a ser corrompido por uma sociedade que vive pelo dinheiro e pelo poder. Há um crescente conflito interno entre sucesso profissional e os objetivos éticos da tão venerada profissão dos médicos… Temas que, na minha visão, ainda devem existir para quem vive nesse meio. Também é interessante ver como as questões profissionais acabam irradiando para o lado pessoal e familiar do protagonista.

Mesmo com esse ritmo mais lento no desenvolvimento da obra, a experiência da leitura foi bem prazerosa. Recomendo bastante a leitura para quem se interessa pelo tema e para quem gosta de romances que retratam a sociedade do início do século passado!

O encantador de pessoas, de Liv Soban | Resenha

Como lidar com a perda de alguém que amamos muito? A saudade é sempre inevitável e a tristeza vai mudando de formas ao longo do tempo. Quem perde alguém querido tenta de diferentes formas amenizar a dor e, quando pensamos em livros, é comum conhecer pessoas que buscam nas palavras escritas uma tentativa de dar voz ao próprio luto.

E é justamente essa a experiencia de Liv Soban, que nunca havia pensado em escrever um livro autobiográfico até vivenciar a triste perda de seu pai, carinhosamente chamado de Baboo. A partir disso, Liv sente a vontade de compartilhar com outros leitores as tão valiosas memórias que tem com seu pai. Mas, além desses bons momentos, a escrita também serve para dividir com o leitor a dificuldade de encarar uma doença que vai levando embora cada vez mais do paciente e os dias tão difíceis que antecedem o dia da morte.

E o que mais gostei da experiência de ler as memórias de Liv foi perceber como a autora consegue tratar de momentos tão difíceis de uma forma leve a emocionante. Não é um livro triste, mas sim um livro sensível e que acaba envolvendo o leitor na bela relação de um pai e de uma filha. A escrita é simples, mas consegue transmitir emoções para quem a lê! Recomendo para quem passou por alguma perda não tão recente ou deseja conhecer uma bela história!

A palavra que resta, de Stênio Gardel | Resenha

A leitura de “A palavra que resta” apenas me confirma o quanto a literatura é capaz de promover uma identificação do leitor com as histórias dos personagens. Apesar das imensas diferenças entre a minha vida e a de Raimundo, nascido na roça, em uma família pobre e sem nunca ter frequentado uma escola, conseguimos nos identificar cada vez mais à medida que nos aproximamos dos sentimentos e dos conflitos interiores.

Aos 71 anos, Raimundo, analfabeto, ainda guarda uma carta que recebeu de Cícero, sua primeira paixão, quando ainda eram muitos jovens. A carta foi uma despedida que os dois nunca tiveram, já que depois que suas famílias descobriram o amor que os dois compartilhavam, Raimundo precisou fugir de casa. É a saudade daquilo que nunca lhes foi permitido. Está é a realidade, ainda tão atual, daqueles que são considerados como marginais de uma sociedade que se denomina como tradicional.

Apesar de existir ao longo da leitura uma curiosidade para saber o conteúdo da carta, vamos percebendo com o passar das páginas que, mesmo fechada, a carta dá muita força para Raimundo durante todos esse anos em que a manteve sob o seu cuidado. A carta não é apenas a representação do que poderia ter sido, mas do que ainda pode ser! O que ainda pode ser se ele aceitar a sua orientação sexual, parar de repetir comportamentos dentro do padrão social e seguir em frente com os anos que ainda tem pela frente.

Essa mudança de perspectiva me fez pensar muito em minha experiência e de todos os gays que conseguiram “sair do armário” e se autoaceitar: deixamos de pensar em como a vida deveria ter sido, para entender como ela ainda pode ser boa quando nos permitimos viver plenamente. O livro, portanto, trata de forma muito sensível e verdadeira um conflito muito atual.

Para mim, a narrativa de Stênio Gardel se destaca da metade para a frente da obra, quando conseguimos de fato penetrar nas mais profundas angústias de Raimundo e de seus confrontos com o diferente. E se logo em seu romance de estreia o autor já conseguiu construir um personagem tão humano e real, mal podemos esperar pelo que vem pela frente!

Seminário dos ratos, de Lygia Fagundes Telles | Resenha

Quando me perguntam quais os meus autores nacionais favoritos, Lygia Fagundes Telles com certeza está no topo da lista. Apesar de ter escrito uma extensa variedade de contos, até esse ano eu só havia lido seus romances. E não porque são mais bem recomendados, mas talvez porque não sou uma pessoa tão fã desse gênero literário (acho que prefiro histórias mais longas, em que tenho tempo para me apegar aos personagens e à narrativa).

Apesar disso, de tempos em tempos eu me esforço para ler alguma coletânea de contos e Seminário dos ratos já estava na minha lista faz tempo. Que leitura!! Em grande parte dos contos, Lygia conseguiu me envolver na narrativa de uma forma que muitos romances nunca conseguiram. O seu dom de escrever sobre o ser humano, seus sentimentos e seu comportamento ficam muito evidentes nessa coletânea, assim como a sua capacidade de tratar de temas que estavam muito a frente do seu tempo (o livro foi publicado em 1977).

E é muito interessante perceber como os enredos contidos nas páginas de Seminário dos ratos são distintos entre si, sendo que a autora se vale muito da fantasia para transportar o leitor para outras realidades e do fluxo de consciência para permitir uma imersão maior no interior dos personagens. Temos, por exemplo, uma situação de mistério em que coisas começam a desaparecer de um quarto, e apenas formigas são vistas lá; a história de uma mulher que mantém uma tigresa em seu apartamento; e uma cidade que é invadida por ratos que passam a devorar tudo que veem pela frente.

É uma verdadeira viagem para a essência dos personagens nos mais diversos – e criativos – ambientes. Dentre os treze contos que compõem a coletânea, posso dizer que os meus favoritos foram “As formigas”, “Tigrela” e “Seminário dos ratos”.

Conversa no Catedral, de Mário Vargas Llosa | Resenha

Tem leituras que nos desafiam. A trajetória pode até ser desconfortável, mas uma das melhores sensações é terminar esse desafio com o sentimento de que valeu muito a pena. E foi justamente assim como esse livraço do autor peruano Vargas Llosa. E é interessante saber que esse livro não é apenas desafiador para quem o lê, mas também o foi para o próprio autor, que considera esta a obra que mais deu trabalho para escrever.

Mas por que esse livro foi desafiador? A resposta é a quantidade de vozes presentes em Conversa na catedral. A polifonia é uma característica bem presente nas obras de Vargas Llosa, mas parece que ele quis usar esse livro para experimentar bastante a multidão das vozes. São diálogos que se alternam e, principalmente nas primeiras partes, podem te deixar um pouco perdido no enredo. Inclusive, alguns assinantes do BookSter pelo Mundo montaram um esquema com as relações dos personagens, o que ajudou na leitura!

Na minha opinião, é essa habilidade do autor que faz a leitura ainda mais incrível. Ele consegue construir personagens muito vivos e intensos, sem muitas descrições, mas apenas pela forma com que se comunicam e se relacionam com os outros.

O pano de fundo é o Peru da década de 50, sob o poder do governo militar de Odría. De um lado, o autor nos mostra muito dos bastidores das artimanhas políticas e da pura troca de poderes e influência. De outro, vemos o cenário das universidades vítimas da censura e repressão pelo governo, assim como dos movimentos que resistiam ao regime vigente.

Não vou adentrar nos muitos personagens que compõem essa narrativa. Deixo aqui o desafio para vocês. Se aventurem nessa história e não se assustem com o começo. Leiam com calma que as dúvidas começam a ser esclarecidas ao longo da leitura. No final, é só ficar com as boas memórias de um livro escrito por um dos mais importantes escritores da América Latina.