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Os sete maridos de Evelyn Hugo, de Taylor Jenkins Reid | Resenha

Com mais de 1 milhão de exemplares vendidos no mundo todo, o livro foi escolhido por vocês! Apesar de muitos elogios, também recebi várias mensagens de leitores que acharam puro “hype” ou sem qualquer valor literário. Mas, e aí?

Inicialmente, vale dizer que esse argumento de “valor literário” é polêmico e passa por questões mais delicadas sobre o propósito e a “elitização” da leitura. Eu não gosto de analisar os livros dessa forma e busco sempre compartilhar a minha experiência de leitura.

A sinopse não tinha me atraído muito. Evelyn Hugo, uma estrela de Hollywood da década de 60, decide contar a história de sua vida quando está aposentada e próxima dos 80 anos… Mas a situação não é tão simples quanto parece. Primeiro, porque Evelyn teve uma vida bastante agitada, colecionando 7 casamentos. Em segundo lugar, a estrela de Hollywood exige que sua história seja contada apenas para uma jovem jornalista, Monique Grant. Não há nenhuma relação aparente entre as duas e isso já cria um ar de mistério.

Confesso que nas primeiras 20 páginas fiquei bem preocupado com o que viria pela frente. Achei um começo bem sem graça e com uma linguagem mais adolescente. No entanto, a construção da história começou a tomar um rumo interessante e, a partir dos 30%, fisguei a isca jogada pela autora. É uma obra “page turner”, que você quer saber o que vai acontecer e fica difícil de parar.

Além disso, a autora aborda temáticas importantes, sobretudo em relação à comunidade LGBTQIA+ e à discriminação racial. Achei que seria um livro clichê sobre o universo de Hollywood e dos famosos, mas não foi isso que encontrei. São muitos diálogos que preenchem a obra e, apesar de isso ajudar na fluidez, acabou prejudicando um pouco a construção dos personagens. A própria Evelyn e seu amigo Harry foram os personagens com que mais me conectei. Também esperava mais do final!

Enfim, não é o tipo de narrativa que mais gosto, mas a experiência foi gostosa e li o livro em poucos dias. Uma ótima opção dica para quem está querendo criar o hábito: leitura rápida e fácil, com temas interessantes.

Mandíbula, de Mónica Ojeda | Resenha

Você já leu literatura equatoriana? No Brasil, ainda encontramos muita dificuldade de acessar autoras de países mais periféricos do mercado editorial. É importante valorizar quando editoras fazem esse movimento de trazer obras pouco conhecidas, o que é o caso de “Mandíbula”, da equatoriana Mónica Ojeda, que agora povoa as livrarias após a publicação da @autentica.contemporanea !

Antes de iniciar a leitura, procurei ler opiniões na internet, um hábito que tenho na hora de escolher os livros. Me deparei com opinões bem diferentes umas das outras. No entanto, algo que estava presente em quase todas as críticas era o quanto o romance de Ojeda era perturbador!

A narrativa tem como ponto de partida o sequestro de uma aluna do ensino médio por sua professora de literatura, Miss Clara. Uma situação bastante inusitada e que logo no início já aguça a curiosidade do leitor: qual seria o motivo disso? Com o passar dos capítulos, vamos adentrando às memórias da professora e da aluna para compreender o presente. Aos poucos o leitor vai descobrindo que o passado da professora é muito mais complexo e cheio de traumas. Por outro lado, conhecemos um pouco mais de uma estudante fascinada por histórias de terror e com ideias arrepiantes.

E o que deixa mais perturbadora a obra não é o enredo em si, mas a escrita de Ojeda. Uma linguagem crua, que toca em temas sensíveis como relações familiares, sobretudo a relação entre mãe e filha, sexualidade e violência. Tudo isso junto e misturado. É uma paranoia, um horror de verdade, um livro sobre o medo íntimo.

A leitura me prendeu e no começou gostei bastante. O problema é que senti falta de um melhor desenvolvimento da narrativa. Acho que fiquei esperando mais acontecimentos quando, na verdade, o objetivo da autora foi focar nos traumas e no passado dos personagens. Isso acabou prejudicando minha experiência com o livro e, apesar de ter lido super rápido, fiquei com a sensação de que faltou algo a mais. O problema com expectativas…

Se a premissa do livro te interessou, vai com tudo! Mas lembre-se, essa não é uma leitura para qualquer um.

A cabeça do santo, de Socorro Acioli | Resenha

Quando o assunto é literatura, tem duas coisas que amo: Gabriel García Márquez e realismo mágico (obras que contêm uma visão realística do mundo, mas com elementos mágicos). A obra da autora brasileira Socorro Acioli reúne os dois, tendo desenvolvido “A cabeça do santo” em uma oficina ministrada por ninguém menos que o incrível Gabo (apelido para os íntimos, hehe).

O cenário é a cidade de Candeia, no sertão cearense. Samuel vai até a pequena e abandonada cidade para cumprir o último desejo de sua mãe: ir em busca do pai, a quem nunca conheceu. A premissa é bem parecida com o livro “Pedro Páramo”, um clássico da literatura mexicana e que inspirou o estilo de García Márquez. Mas apesar das semelhanças iniciais, o desenvolver da narrativa toma um caminho bem diferente – e muito criativo.

Ao chegar na cidade e se deparar com um cenário de abandono, Samuel busca abrigo em um local nada comum e que marcou a história de Candeia. Trata-se da cabeça oca de um santo, que nunca chegou a ser colocada no topo da estátua para a qual foi projetada. Não bastasse a peculiaridade do refúgio, o personagem passa a escutar vozes femininas quando está dentro da cabeça do santo. E a pergunta que fica é: o que essas vozes têm em comum? Estaria Samuel imaginando coisas?

A escrita de Socorro é fácil e nos transporta para uma história deliciosa de se ler! Tem romance, bom humor, mistério, drama… Daqueles livros coringas, que é difícil de alguém não gostar. E depois da leitura, não deixe de escutar o episódio do @dariaumlivropodcast com a autora para saber a inspiração – verídica – da história! Super recomendo!

Mayombe, de Pepetela | Resenha

Escritor angolano, vencedor de vários prêmios literários, Pepetela foi o escolhido para representar o seu país no Bookster pelo Mundo! Mayombe é um de seus livros mais importantes, tendo sido incluído por vários anos em listas de vestibulares aqui no Brasil.

Publicado em 1979, a obra narra a luta dos combatentes do MPLA pela libertação de seu país contra as tropas portuguesas. O cenário principal é Mayombe, uma floresta tropical em que soldados de diferentes tribos da Angola passam um longo período à espera de um conflito armado contra o inimigo comum. A floresta e a guerra são personagens importantíssimos da narrativa e estão presentes ao longo de toda a leitura.

Ao mesmo tempo, há diversos personagens humanos que compartilham a tarefa de narrar a história. São vozes de diferentes tribos angolanas e que mostram a diversidade cultural e social no país. É uma Angola que busca não só a libertação do colonizador, mas também uma identidade e união interna. O autor ainda consegue mostrar o lado humano daqueles que vivem a guerra na linha de frente. E os próprios apelidos dos personagens são capazes de revelar suas características.

Confesso que, inicialmente, a leitura não foi das mais fáceis. Tive dificuldade de identificar os personagens nas cenas iniciais e diálogos construídos pelo autor – e acho que os apelidos pouco comum dos combatentes possa ter contribuído para isso. Mas a partir da segunda parte do livro, consegui me envolver mais com a história e entender melhor a dinâmica de conflitos que preenchem a obra. Para finalizar, a live que fizemos no Clube do livro com uma especialista no tema foi essencial para enriquecer a experiência da leitura!

Um livro denso que reune de forma muito interessante os conflitos armados que marcaram a história da Angola com os aspectos humanos, mais profundos, que compunham a sociedade daquela época! Recomendo uma leitura sem pressa e com atenção aos detalhes e à escrita poética do autor.

Pacientes que curam, de Julia Rocha | Resenha

Adoro livros que envolvem o universo médico e, por conta disso, já havia recebido várias indicações do livro da Julia Rocha, – mulher, negra, mãe, cantora e que, além de tudo isso, também é médica da família. Em textos curtos, a autora compartilha com os leitores a sua vivência como médica do Sistema Único de Saúde (SUS – aliás, viva o SUS!).

É um livro muito interessante e gostoso de ler, apesar das temáticas sensíveis abordadas pela autora. Isso porque, ao invés de focar apenas nos sintomas ou na queixa dos seus pacientes, Julia nos apresenta uma visão muito mais humana do atendido. Enfrentando obstáculos como o tempo curto das consultas e o número grande de pacientes aguardando um atendimento, ela se esforça para conseguir confortar o paciente e enxergar os sintomas de forma conjunta com outras deficiências que contaminam a condição de vida periférica do brasileiro.

E o conjunto dos textos da autora nos mostra como a situação da saúde brasileira é delicada, e como a falta de informação e a necessidade de um diagnóstico rápido acabam dificultando que o paciente receba o tratamento adequado. O que muitas vezes aparenta ser um sintoma simples, pode esconder problemas muito maiores daquele paciente, que se estendem à sua saúde mental e às suas relações sociais. Sem tempo ou interesse para investigar esses outros pontos, maiores as chances de as queixas não serem resolvidas e de aquele paciente retornar em busca de ajuda.

A obra é uma verdadeira denúncia da miséria, do machismo, do racismo, da negligência à saúde mental e da falta de informação. Ao mesmo tempo, é um livro necessário para entendermos o que está por trás do complexo conceito de um bom profissional – e isso não apenas na área de medicina. Leiam!

Violeta, de Isabel Allende | Resenha

Já imaginou ler a história de alguém que nasceu em meio a gripe espanhola, na década de 20, e viveu para testemunhar o mundo paralisado pela pandemia em pleno 2020? Bom, é justamente essa linha de tempo contemplada por “Violeta” que, ainda por cima, conta com a escrita fantasiosa de Allende.

São diversos os momentos históricos que a autora atravessa por meio de seu último livro (best seller em diversos países). Violeta del Valle foi a primeira garota em uma família repleta de meninos. Talvez esse fato tenha tornado Violeta uma mulher que sempre buscava se destacar no ambiente em que vivia. Mas essa tarefa não foi fácil, e nem sempre bem sucedida. Tendo nascido no início do século XX, Violeta vivenciou passagens históricas que afetaram sua trajetória. Ao leitor, toda essa intensa narrativa é apresentada por meio de uma carta dedicada a Camilo, uma figura que até então desconhecemos.

Enquanto ainda criança, a protagonista teve que deixar a vida das cidades e se “refugiar” em um local isolado do país, que não nos é especificado por Allende, tudo como forma de proteção do pai contra a grande crise financeira que afetou o mundo no ano de 1929. E é nesse ambiente rodeado por natureza, com a presença de descendentes de povos indígenas e sob a tutoria de uma jovem europeia que Violeta cresce.

A escrita é bem fluida e gostosa de ler, como é de se esperar dos livros de Allende. Confesso que no meio do livro o ritmo acaba ficando mais lento, mas a autora consegue recuperá-lo na última parte. Talvez isso até seja proposital, já que a autora pretendia mostrar como tantos acontecimentos históricos vão acontecendo em uma vida de alguém aparentemente comum, que não é a heroína, nem a vilã de uma história. Violeta é uma mulher que vive seus amores, sofre suas perdas e questiona injustiças que passam à sua frente.

Nesse ponto, achei bem interessante como a autora aborda algumas questões sociais relevantes sobre as quais nunca havia lido nada tão específico em seus outros romances. É o sinal de que alguns assuntos não podem ficar de lado nos tempo em que vivemos! Leitura que recomendo para todo mundo!

É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Carrara | Resenha

Junto com “Se Deus me chamar não vou”, os títulos dos livros de Mariana Carrara são uma experiência por si só. Já no seu conteúdo, a jovem paulistana me surpreendeu com a sua capacidade de escrever assuntos sensíveis sobre nossa condição e que exigem um alto nível de vivência e amadurecimento.

Nessa leitura, o tema central transita entre maternidade, morte e esquecimento. Aurora, a protagonista, é uma senhora que acaba sendo encontrada sem memória em uma estrada. De lá, é levada para um abrigo, onde fica aos cuidados de Rosa. As duas passam dias em longas conversas para tentar descobrir o passado de Aurora e os motivos do esquecimento. No entanto, de uma coisa a protagonista tem certeza: um dos personagens principais de sua vida é Camila.

O problema é que todo dia Aurora acorda com uma versão de sua história. Em algumas, Camila era uma grande amiga de infância que acabou escolhendo caminhos diferentes, que se distanciaram da trajetória de Aurora. Em outros, os momentos de lembrança são mais dolorosos: Camila foi sua filha. E o verbo está no passado, pois Aurora viveu a maior dor que um ser humano pode viver: a dor da perda de um filho.

É nesse ponto que talvez o esquecimento venha para aliviar as dores de Aurora. Vale a pena relembrar um momento terrível de sua história favorita? Apesar do sofrimento, a protagonista quer saber o que aconteceu. Só que a tarefa não é das mais fáceis, já que todo dia a versão muda. São muitas as versões da morte de uma filha. Uma mais triste e brutal que a outra. Também Aurora teria vivido muitos momentos diferentes com sua amiga Camila.

Eu gostei bastante da leitura! Acho que algumas pessoas não perceberam que cada capítulo era uma nova versão da possível história de Aurora sendo contada para Rosa. Esse fato pode ter deixado a experiência da leitura confusa para alguns. Para mim, essa criação da autora trouxe um aspecto experimental interessante na obra. Confesso que em alguns momentos senti a leitura um pouco repetitiva. Mas nada que atrapalhe ou prejudique a experiência! Mariana é, com certeza, um dos grandes nomes da ficção nacional.