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A pediatra, de Andréa del Fuego | Resenha

Para quem vê de fora, Cecília é uma mulher bem sucedida e que ama o que faz. Trabalha como pediatra há muitos anos e possui uma boa rede de pacientes. No entanto, o que o novo romance de Andréa del Fuego deixa claro é como podemos nos enganar pelas aparências. O que se passa na cabeça daqueles com quem convivemos? Será que nos surpreenderíamos se acessássemos os pensamentos do outro, mesmo daqueles que achamos serem tão “normais”?

Em “A pediatra”, estamos lado a lado com Cecília, mergulhados em seus pensamentos. E é isso que choca o leitor desde o início do livro, já que a realidade da personagem é muito distinta do que parece ser. Para começar, Cecília é uma pediatra que não é muito afeita a crianças. Isso mesmo! Além disso, não tem uma paixão por seu trabalho e o enxerga como uma tarefa mecânica, de protocolos, em que basta fazer o que aprendeu e terminar logo com suas obrigações.

Contudo, apesar de ter um consultório sempre cheio, Cecília percebe que os obstretas do hospital em que costuma trabalham passam a deixar de indicá-la para os partos. O novo pediatra neonatal preferido parece ser alguém ligado a uma linha mais humanista, em que nem sempre a ciência parece sustentar suas decisões. Ao mesmo tempo, a protagonista vive uma relação amorosa extremamente conturbada, sobretudo quando descobre que a esposa de seu “parceiro” está grávida.

A partir disso, a vida de Cecília vira de ponta cabeça e a sua rotina aparentemente estável começa a despertar um lado compulsivo da personagem. Com uma escrita irônica e ácida, a autora constrói uma protagonista com pensamentos – e atitudes – polêmicas e que podem causar uma forte estranheza do leitor.

Não posso me arriscar a falar mais sem correr o risco de estragar a surpresa que é conhecer melhor Cecília. Mas, será possível sentir compaixão por uma pessoa com atitudes tão imorais? E o pior: será que nos identificamos com a personagem em alguns momentos? Vale muito a leitura!

“Não tinha filhos, como eu, mas queria ter, diferente de mim. Criança nem pensar, acabaria minha naturalidade, me obrigaria a ser outra pessoa.”

Formas de voltar para casa, de Alejandro Zambra | Resenha

Escolhido como o livro do Chile no Bookster pelo mundo, “Formas de voltar para casa” é um livro de reconstrução da memória, tendo como pano de fundo o governo de Pinochet, no final do século XX. Desde sua infância até os dias atuais, o personagem vai descrevendo passagens de sua vida e da história do Chile com base no que viu e no que lhe contaram.

É um olhar sensível e poético sobre uma geração que teve que crescer embaixo da sombra de uma ditadura. A forma como a criança vai aos poucos compreendendo a realidade ao seu redor e perdendo a idealização que faz de seus pais e avós é muito real e tocante. Mas não espere um livro apenas sobre a ditadura, é mais que isso: é uma obra sobre vidas, cotidianos e pessoas que não podiam deixar de seguir enquanto a ditadura acontecia.

Para construir esse romance, o autor se utiliza muito da metalinguagem, já que o personagem principal revive suas memórias enquanto escreve seu próprio livro. Também não posso deixar de dizer que estou cada vez estou mais fascinado pela literatura latino-americana. Apesar das diferenças culturais e da História de cada país, é impossível não perceber a existência de laços que nos unem e que fazem de nossas histórias uma narrativa semelhante.

“Sabia pouco, mas pelo menos sabia isto: que ninguém fala pelos outros. Que, mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história.”

O avesso da pele, de Jeferson Tenório | Resenha

Começar o #DesafioBookster2022 com uma leitura tão impactante como essa é com certeza um sinal de quanto a literatura nacional contemporânea pode ser surpreendente!

Pedro, o protagonista da narrativa é um homem negro que vive em Porto Alegre. Por viver em um país racista e desigual, Pedro sofre diariamente com agressões motivadas unicamente pela sua cor de pele. Pedro vive em um sistema agressor, mas o que fica claro ao longo do livro é que as vítimas desse preconceito são infindáveis, inclusive os seus próprios antepassados. E é justamente com um deles que Pedro vai conversando ao longo da obra: Henrique, seu Pai, morto recentemente.

Escrito em segunda pessoa, o protagonista vai reconstruindo a sua memória e a daqueles que vieram antes dele. É difícil atravessar essa leitura sem sentir momentos de aperto pelo sofrimento cotidiano de tantos que sobrevivem a uma realidade que os considera inferiores. Esse livro deixa muito claro o poder que a literatura tem de nos ensinar sobre a realidade do outro, sobre o que nos é diferente. Não há como terminar “O avesso da pele” e ainda assim defender que a ficção é perda de tempo!

Ao mesmo tempo que desperta reflexões tão importantes sobre o racismo estrutural em nossa sociedade, o autor também consegue adentrar nos nós e embaraços que constituem a relação de pai e filho. São as memórias usadas como ferramenta de enfrentamento do luto, da perda.

A escrita de Jeferson Tenório é gostosa de ler, flui bem e a forma com que optou por fazer Pedro dirigir as palavras ao próprio pai com certeza deu um aspecto único para o livro. Para quem quiser saber mais, o autor participou de um episódio do @dariaumlivropodcast. É só correr no Spotify para conferir!

Becos da memória, de Conceição Evaristo | Resenha

Com 75 anos, Conceição Evaristo é uma das principais escritoras nacionais. E foi por isso que escolhi essa obra para representar o Brasil no Bookster pelo Mundo. Não podemos esquecer, por sua vez, que a autora teve um reconhecimento muito tardio, em virtude de ser mulher, negra e de origem humilde em um país de ainda poucas oportunidades.

No livro, a autora consegue construir a memória coletiva do Brasil. De um país marcado pela miséria, pela violência e pelo sentimento de não pertencimento que recai sobre os marginalizados. Em um local ou data não revelados, acompanhamos um triste processo de desmonte de uma favela, de uma comunidade inteira, que se vê sem esperança e sem futuro.

E apesar de ter sido escrito há algumas décadas, o livro ainda se mostra
atual e denuncia uma realidade que pouco mudou nos grandes centros urbanos. É uma população que não bastasse ainda carregar um passado de sofrimento por seus ancestrais escravizados, se vê sem espaço na sociedade, como se pudesse ser facilmente descartada.

Mas o que a autora nos mostra é a humanidade que preenche todos os becos dessa comunidade. São personagens que precisam sobreviver com uma força que muitas vezes parece faltar. E apesar dos sonhos que todos levam consigo, o desespero parece ficar à espreita, rondando aqueles seres humanos.

A linguagem de Conceição é seca e direta, mas ainda assim consegue carregar uma poesia em suas palavras. O título do livro também é muito representativo. As histórias que nos são narradas na obra são fruto da memória dos mais velhos, que buscam nos cantos de seu passado os acontecimentos vividos pelos becos da favela.

Termino essa resenha com a definição de “escrevivência”, criado pela autora:

“O termo tem como imagem fundante as africanas e suas descendentes escravizadas dentro de casa. Uma das funções delas era contar histórias para adormecer os meninos da casa-grande. (…) Hoje a escrevivência das mulheres negras não precisa mais disso. Nossas histórias e escritas se dão com o objetivo contrário: incomodar e acordar os da casa-grande. Não estamos aqui para ninar mais ninguém nem apaziguar as consciências.”

Demian, de Hermann Hesse | Resenha

Quando você começa uma nova obra de um dos seus autores favoritos, é difícil de evitar as altas expectativas. “Demian” é um dos principais livros do escritor alemão Herman Hesse, que venceu o Prêmio Nobel da Literatura em 1964. Muitos leitores, inclusive, indicam esse livro como uma boa porta de entrada nas obras do autor, já que traz uma temática de adolescência, de formação de um jovem.

Emil Sinclair é o protagonista e narrador da história. Quando ainda criança, vive um momento comum na vida de muitos: a saída da bolha segura e confortável da casa dos pais para enfrentar o desconhecido e os possíveis conflitos com outros jovens de sua idade. Nesse momento, o protagonista conhece Max Demian, um colega de classe que parece ter ideias muito maduras para a sua idade. E é a partir dessa amizade pouco convencional que Sinclair começa a refletir sobre sua existência, sobre as contradições da condição humana e suas dualidades. Demian serve como um guia para Sinclair, que enxerga no amigo alguém à frente de seu tempo. Um guia para o seu autoconhecimento.

A temática me agrada bastante, mas confesso que a primeira parte do livro não me cativou tanto. Tive dificuldades de me apegar aos personagens e essa parte inicial me deixou confuso em alguns momentos (talvez por uma maior carga filosófica). Por outro lado, a segunda parte do livro, com Sinclair mais velho e mais maduro, me interessou muito mais – o que ficou evidente até no meu ritmo da leitura. Como se o personagem estivesse mais consciente sobre os seus conflitos internos e conseguisse passar isso de forma mais clara ao leitor.

Leia Herman Hesse, mas leia com calma e sabendo sobre as principais questões abordadas pelo autor. Não espere uma narrativa comum, repletas de acontecimentos, mas sim uma temática mais subjetiva e filosófica.

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves | Resenha

Sabe aquela leitura que você mal começa e já quer sair indicando? Então, com “Um defeito de cor” foi bem assim. Levei mais de 2 meses para ler as quase mil páginas e fiquei esse tempo todo ansioso para poder fazer essa resenha para vocês e recomendar a leitura!

O livro é uma verdadeira aula sobre a formação da sociedade brasileira e sua estreita relação com o triste processo de escravidão que marcou o nosso país. Acompanhamos a história de Kehinde, uma garota nascida no começo do século XIX em Savalu (atual Benin). Depois de vivenciar tragédias em sua família, acaba sendo capturada e transportada para o Brasil, uma terra totalmente desconhecida, com o objetivo de ser vendida para algum senhor de engenho. E a autora detalha todo esse traumático episódio, narrando as condições desumanas que os futuros escravizados sofriam nas embarcações e na chegada ao país.

No Brasil, Kehinde será batizada e receberá o nome de Luisa, já que os colonizadores simplesmente ignoravam a cultura e tradições dos povos capturados no continente africano. Kehinde, no entanto, se recusa – da forma que pode – a esquecer seu passado. São muitas as dificuldades vividas por uma criança sozinha em um país desconhecido. A narrativa faz um mergulho tão profundo na vida de Kehinde que fica impossível a tarefa de contar sobre a sua trajetória em uma resenha.

Por isso, o importante é compartilhar o que aprendi. Aprendi sobre a origem de diversos elementos que compõem a cultura brasileira. Entendi o lento processo que culminou na abolição da escravidão no país, ao mesmo tempo que me revoltei muito pelo sofrimento a que os escravizados eram submetidos. Há passagens que demandam uma pausa, tamanha a crueldade do colonizador.

Também é muito interessante a construção da personagem principal. Ana Maria não pretende criar uma heroína, mas sim uma mulher real, que luta para sobreviver e proteger quem ama, mas que não deixa de apresentar defeitos e tomar atitudes com base apenas na emoção.

Esse é um livro que merece ser lido por todos. Não sei como ainda não foi traduzido para outros idiomas, já que é um retrato riquíssimo da história do nosso país.

Gente ansiosa, de Fredrik Backman | Resenha

Vivendo em um período em que a ansiedade é um grande vilão, não há como não se sentir atraído por esse título. Mas logo que me deparei com a sinopse do romance do autor sueco, que se tornou um best seller em vários países, fiquei um pouco na dúvida sobre de que maneira o título do livro poderia se relacionar com a história.

De forma bem resumida, Backman nos apresenta uma situação peculiar: um grupo de pessoas diferentes uma das outras é feito refém por um assaltante de banco estreante e bem atrapalhado. E é a partir do final dessa confusão que o autor vai nos revelando aos poucos como tudo começou e o que levou cada uma das pessoas a visitar aquele apartamento na véspera do ano novo.

Assim, o que parece ser apenas uma história engraçada sobre um roubo mal-sucedido e planejado, acaba se revelando uma incursão nos conflitos internos de cada um dos personagens. São traumas, angústias, arrependimentos, vontades e crises de relacionamento que, quando misturados, podem caber dentro desse guarda-chuva que o título parece nos indicar: somos todos gente ansiosa. Todos com nossas próprias questões, que costumam ficar bem escondidas quando nos apresentamos em um contexto social – como uma visita a um apartamento, por exemplo.

E toda a situação envolvendo os reféns parece estar relacionada, de alguma forma, com a história de um suicídio ocorrido em uma ponte da cidade há vários anos. A tragédia afetou, de forma única, muitos dos personagens dessa obra, inclusive os policiais – pai e filho – responsáveis por investigar o assalto ao banco. Nesse ponto, confesso que a parte dos interrogatórios me pareceu um pouco cansativa, atrapalhando o bom ritmo da história.

Também vale dizer que você não vai encontrar aqui um grande desenvolvimento sobre as questões psicológicas dos personagens. É muito mais um encontro com diferentes pessoas e seus próprios conflitos. A leitura desperta reflexões, ao mesmo tempo que nos emociona, nos faz rir e questionar sobre o que está além da máscara que cada um carrega no seu dia a dia. Leitura gostosa e interessante!