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Clara lê Proust, de Stéphane Carlier | Resenha

Quando você pensa em “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, o que lhe vem à cabeça? Um livro longo, detalhista e difícil? Então, a história criada pelo francês Stéphane Carlier vai te ajudar a desconstruir essa impressão.

Clara, a protagonista, vive em uma cidade francesa e trabalha em um pequeno cabeleireiro local. Sua rotina é comum, sem grandes acontecimentos, ao lado do namorado cuja beleza chama a atenção da dona do salão. Um dia, ela se vê diante de um presente um pouco inusitado que vai modificar os seus dias – e, quem sabe, o seu futuro. Trata-se do livro “No caminho de Swann”, primeiro volume de um dos maiores clássicos da literatura mundial, “Em busca do tempo perdido”.

Logo nas primeira páginas, Clara se vê fisgada pela forma como o autor descreve os cenários criados em sua narrativa. As cenas minuciosas despertam lembranças de sua infância e a protagonista fica fascinada com a habilidade do autor em despertar emoções apenas com as palavras.

E no decorrer das páginas vamos acompanhando essa relação de Clara com a obra. Confesso que a narrativa envolvendo a vida da protagonista não me cativou muito, sendo o mais interessante da obra as partes em que o autor trazia as leituras de Proust. Apesar de o livro não ter grandes acontecimentos, é uma leitura fácil e gostosa de se fazer.

Com cerca de 150 páginas, a obra pode ser uma boa opção para quem quer fugir de livros mais densos e com temáticas mais pesadas. E não tenho dúvidas de que você vai terminar querendo garantir “Em busca do tempo perdido” nas suas estantes.

Pureza, de Garth Greenwell | Resenha

Como um homem gay que cresceu com pouca representatividade ao redor, fico muito feliz de ver obras contemporâneas com personagens LGBTQIA+ sendo publicadas por grandes editoras e sendo lidas por um público mais amplo. Esse é o segundo romance que eu leio do autor norte-americano Garth Greenwell. O primeiro livro, “O que te pertence”, também tinha como personagem principal um homem gay e acaba revelando um estilo semelhante com a sua nova obra.

Em “Pureza”, somos apresentados a uma professo americano que vive em Sófia, capital da Bulgária. A obra é dividida em partes, que não possuem uma relação de dependência entre si. O autor não faz o uso dos nomes dos personagens, se limitando a apresentar sua inicial, o que pode deixar um pouco confusa a identificação das histórias. De toda forma, a escrita é simples e pouco descritiva, ao mesmo tempo que consegue adentrar na intimidade do protagonista.

Senti que, diferentemente de “O que te pertence”, o novo livro mergulha menos em um aspecto de relacionamentos afetivos, com passagens mais longas e explícitas de encontros e relações sexuais. A capacidade de descrever essas cenas de uma forma crua e bem construída surpreende o leitor. Talvez tenham sido as cenas mais intensas que já li. Há, ainda, reflexões interessantes sobre a culpa relacionada aos desejos e fantasias sexuais, que acabam desgastando o protagonista e criando dúvidas. Quais seriam seus verdadeiros gostos e do que ele havia reprimido por conta da sociedade conservadora em que vive? Existiria vergonha no desejo?

A abordagem mais romântica da obra fica para as passagens em que o professor relembra de sua primeira paixão e os sofrimentos com o fim desse relacionamento. Também gostei da atmosfera mostrada pelo autor do cenário em que se passa a obra, revelando um pouco do contraste de um norte-americano vivendo em uma cidade com resquícios de um governo socialista.

Salvar o fogo, de Itamar Vieira Junior | Resenha

A expectativa do mercado literário estava grande, quase 40 mil exemplares vendidos na pré-venda, e não tinha como ser diferente. A obra antecessora do autor conseguiu um feito que não se via há décadas: um livro contemporâneo nacional furou a bolha para vender mais de 700 mil exemplares. Gostando ou não do livro, essa conquista deve ser muito celebrada por quem se importa com a leitura em nosso país.

E também não há como ignorar as recentes críticas acadêmicas negativas sobre a obra. No entanto, na minha opinião como leitor, o novo livro de Itamar já é um sucesso. É verdade que ele segue um estilo muito semelhante de “Torto arado”, mas em momento senti que a proposta do autor foi ser inovador. Há, inclusive, referência a personagem de seu primeiro romance.

“Salvar o fogo” nos leva a um cenário característico do nosso país. Tapera é uma comunidade na zona rural da Bahia e com moradores de origem afro-indígena. É o resultado de um país miscigenado, contando ainda com a presença do homem branco europeu a partir da figura da igreja católica.

O início da leitura já me prendeu. O mosteiro construído há alguns séculos se alterna como pano de fundo com a casa da família que será o centro da narrativa. As críticas à igreja e sua hipocrisia têm lugar relevante nessa primeira parte. Ao se deparar com os personagens que emprestarão sua voz para nos guiar na narrativa conseguimos compreender que, apesar de uma realidade de pobreza e faltas, a complexidade de suas vivências não os torna menores que os grandes donos das terras.

Luzia, a personagem mais fascinante da obra, é atacada pelos demais cidadãos de Tapera por seus supostos dons sobrenaturais. Sua deformidade física ainda a torna vítima de piadas. Mas é na força m de Luzia, e nos segredos que acompanham seu passado, que o autor consegue construir a sua personagem mais emblemática.

Senti que o ritmo diminuiu um pouco na segunda parte da obra, mas nada que tenha prejudicado a experiência da leitura. Com “Salvar o fogo”, Itamar se mantém como um dos principais nomes da literatura nacional e, o mais importante de tudo, atraindo novos leitores ao prazer da literatura.

O Diabo e outras histórias, de Liev Tolstói | Resenha

Falar em Tolstói pode dar um pouco de medo em alguns leitores. Eu mesmo tive receio de ler clássicos por muito tempo, acreditando que seriam livros difíceis ou que não fariam sentido para mim, sendo que literatura russa era uma escolha impensável. Se você pensa assim, confie em mim e dê uma chance. Mas comece aos poucos, por contos ou romances mais curtos, isso pode ajudar bastante. Fica uma dica aqui então de uma seleção incrível de contos de um dos maiores autores da literatura mundial.

Na minha opinião, ler Tolstói e se deparar com uma análise muito inteligente sobre as relações humanas e os diferentes papéis dos indivíduos de acordo com sua posição social. Nos textos dessa edição, traduzidos direto do russo, essa característica do autor fica bem evidente.

Gostei de todos os textos, o que nem sempre acontece em uma coletânea, sobretudo considerando que conto não é um gênero literário que eu costumo ler. Sou mais das novelas/romances, textos mais longos.

No conto que dá nome ao livro, vemos a história de um amor quase obsessivo e a culpa que segue o apaixonado pela traição. É o conflito entre desejo e moral. Em “Três mortes”, talvez o meu favorito, narra o destino que é comum a todos, mas que pode acontecer de formas diferentes, a depender de sua condição social.

“Kholstómer” é uma inteligentíssima crítica social a partir da relação e diálogos entre cavalos. Como é ser um diferente em uma sociedade que valoriza os iguais. Por fim, “Depois do baile”, o conto que menos me impressionou, é uma história sobre uma paixão que passa a ser questionada por conta de um conflito moral.

Leitura deliciosa e que, em poucas páginas, revela a genialidade do autor.

Desafio Bookster 2023 | Junho

#DesafioBookster2023
Mês: Junho
Tema: Império Russo
Livro: A Filha do Capitão, de Aleksandr Púchkin

Como o desafio desse ano é acontecimentos históricos, não podia deixar de fora a Rússia e a sua apaixonante literatura. O livro escolhido foi escrito por Púchkin, considerado por muitos como o pai da literatura russa moderna, e publicado em 1836. Apesar de adorar autores russos, nunca li nada de Púchkin e estou muito animado para ler seu principal trabalho em prosa.

Ah, e para quem nunca leu nada de literatura russa, venha sem medo, que essa é considerada uma boa opção lara iniciar nesse universo tão rico.

Sinopse:
“Tida como a mais importante obra em prosa de Aleksandr Serguêievitch Púchkin (1799-1837), o fundador da literatura russa moderna, A filha do capitão é um experimento magistral com o gênero do romance histórico. Fruto de rigorosa pesquisa, construído com extraordinária economia de recursos e permeado de um lirismo preciso, tão característico da poesia do autor, A filha do capitão é ambientado na revolta camponesa de 1773, liderada pelo cossaco Emelian Pugatchóv, que reivindicava o trono russo passando-se pelo falecido tsar Pedro III, marido de Catarina II. Publicado em 1836, meses antes da morte de Púchkin em um duelo, o romance é narrado por Piotr Grinióv, jovem militar que é enviado para uma remota fortaleza e se apaixona pela filha do comandante local, quando irrompe a rebelião liderada por Pugatchóv.”

@editora34
208 pgs

Desafio Bookster 2023 | Maio

Mês: Maio
Tema: Segunda Guerra Mundial
Livro: As Pipas, de Romain Gary

A Segunda Guerra Mundial é um tema com muita presença na literatura. E para tentar sair de livros com cenários de quem combateu na linha da frente da guerra, decidi escolher uma obra que retratava a vida de pessoas comuns. “As pipas” foi escrito por um autor que já me emocionou demais com “A Vida Pela Frente”, queridíssimo por aqui. A obra foi publicada no ano de sua morte, em 1980. E aqui o autor usa a segunda guerra como pano de fundo para uma história cheia de delicadeza pelo olhar infantil, mostrando sua capacidade de contar uma grande história por meio de dramas cotidianos imaginando um mundo pós a ocupação nazista da França.

Sinopse:
“Ludo é um menino que cresce em uma pequena fazenda na Normandia sob os cuidados de seu tio, um excêntrico fabricante de pipas. Numa propriedade opulenta e aristocrática perto dali, passava os verões a jovem polonesa Lila, por quem Ludo se apaixona à primeira vista. O livro acompanha a trajetória dessa dupla improvável — um camponês sensível e uma aristocrata vaidosa — em meio à eclosão da Segunda Guerra. Com personagens que apostam tudo na luta para manter vivas as esperanças, As pipas é o apelo poético de Romain Gary a toda forma de resistência.”

Quem vem com a gente nessa? Tem link para compra do livro com desconto nos meus stories e, para entrar no grupo de discussão do Desafio no Telegram, é só entrar no link da bio.

@todavialivros
336 pgs

Enquanto eu respirar, de Ana Michelle Soares | Resenha

Me deparei com a incrível AnaMi, como era carinhosamente chamada, depois de ter lido o livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, da Dra. Ana Claudia Arantes, médica especializada em cuidados paliativos. Com a Dra. Ana Claudia, comecei a compreender a importância e o real significado da medicina paliativa. AnaMi era não apenas uma paciente, mas uma grande amiga da médica.

A ideia de escrever o livro surgiu depois que AnaMi foi diagnosticada com um câncer de mama metastático, quando tinha 32 anos. Ou seja, de acordo com os seus médicos, não havia cura para a sua doença, mas apenas uma possibilidade de controle, enquanto o paciente deveria aproveitar os anos que ainda tinha pela frente. A autora se viu de cara com a morte.

A realidade de AnaMi fez com que ela não passasse a sofrer diariamente com o medo do que viria pela frente, mas sim que aprendesse a viver intensamente o dia de hoje, que era a sua – e a nossa – única certeza. E é essa jornada que a autora compartilha com nós em “Enquanto eu respirar”, um belíssimo relato autobiográfico sobre cuidados paliativos, medo da morte, incertezas, mas, sobretudo, de alegria, bom humor e vontade de viver.

Além disso, grande parte da obra é voltada para a sua emocionante amizade com Renata, uma companheira de jornada e paciente paliativa que exalava sabedoria na forma com que lidava com as dificuldades. A relação entre as duas é inspiradora e nos faz refletir demais sobre o valor que damos a nossa saúde e aos dias que vivemos.

Terminei o livro com muitas lágrimas nos olhos e, por uma triste coincidência, fiquei sabendo que a AnaMi faleceu algumas horas depois. Recentemente, foi lançada uma obra póstuma da autora, “Entre a lucidez e a esperança”, em que ela discorre sobre os últimos anos e a sua lista de desejos. Vocês ainda podem continuar acompanhando o lindo trabalho que ela criou com o @paliativas!

Leiam AnaMi, assim temos a certeza de que suas palavras continuarão vivas por muitos tempo!