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Água de barrela, de Eliana Alves Cruz | Resenha

Escolhido para o mês de março do Desafio Bookster 2023, o livro traz um relato intenso sobre o brutal e centenário período de escravização que marcou o país. A narrativa é contada, sobretudo, a partir de personagens femininos, percorrendo várias gerações de uma família, desde a captura forçada de pessoas no continente africano, passando pela abolição da escravização, até os dias atuais.

E para escrever “Água de barrela”, a habilidosa escritora carioca foi atrás da história de sua própria família, utilizando da ficção para tapar os diversos buracos que o apagamento histórico da população escravizada sofreu. É uma impressionante mistura de aspectos históricos com a história de personagens que tiveram que enfrentar todos os tipos de violência para tentar sobreviver. São muitas mulheres fortes que sonham em ser tratadas da forma que merecem.

Há cenas bem explícitas que, apesar de terem respaldo em práticas recorrentes, são difíceis de ser lidas. É um retrato muito rico sobre um longo período da nossa história, que vai além da proibição legal da escravização. A autora consegue nos mostrar como tantos anos de sofrimento, que estão arraigados na estrutura social, não podem ser apagados de um dia para o outro.

A escrita é simples e fica difícil de largar a leitura. Um daqueles livros que merecem ser lidos. Recomendo muito! Para quem se interessar, ainda tem um bate-papo muito legal no canal do YouTube, que contou com a participação da autora e da historiadora Luciana Brito.

Serotonina, de Michel Houellebecq | Resenha

Você gosta de encontrar personagens que te causam raiva e uma sensação de aversão? Há autores que têm essa característica e conseguem, por meio das palavras, construir personas controversas, usando dessa habilidade para tocar em temas polêmicos e sensíveis.

Em Serotonina, um dos principais nomes da literatura francesa contemporânea nos apresenta um personagem detestável: Florent-Claude Labrouste. Na casa dos 40, o protagonista passa os dias reclamando de sua vida e enfrentando os efeitos colaterais dos antidepressivos que toma. Florent-Claude também analisa as situações ao seu redor, com críticas ácidas e controversas.

Sua vida sofre uma virada quando descobre que sua atual companheira fez vídeos pornográficos. Essa notícia faz com que o protagonista decida se mudar, passando a viver em um hotel. Seu trabalho também fica para trás. E com mais tempo livre, Florent-Claude passa a relembrar seu passado, sobretudo suas antigas relações amorosas.

E nessa nova fase de vida parece que o descontentamento do protagonista com o que existe ao seu redor aumenta. Ele entra em um estado ainda mais melancólico e carrancudo, o que causa uma certa tristeza no leitor. As suas viagens pela Normandia parecem ser uma possível resposta para dias melhores, mas cabe ao leitor aguardar. Na verdade, uma tragédia pode até piorar a situação.

Essa foi minha primeira leitura de uma obra de Houellebecq e confesso que gostei do seu estilo de criar personagens destestáveis. Será que nós, leitores, gostamos de acompanhar a desilusão pelo mundo? Com Florent-Claude, estamos diante de críticas à contemporaneidade, por meio de pensamentos problemáticos e embebidos de machismo e relator pornográficos. Uma leitura polêmica e que causa desconforto no leitor. Adorei!

O filho eterno, de Cristovão Tezza | Resenha

Publicado em 2007, o livro venceu os principais prêmios literários e aborda os conflitos de um pai que descobre que o seu filho recém nascido tem síndrome de Down. O romance também possui um forte aspecto autobiográfico, que deixa a realidade criada pelo autor ainda mais potente.

Confesso que, até ler O filho eterno, tinha lido poucos livros que abordavam a temática de pessoas com deficiência. E quando iniciei a leitura, fui surpreendido com um forte incômodo, já que o pai de Felipe não poupa o leitor na hora de expressar a sua decepção com o diagnóstico do filho. Ainda que a narrativa se passe no final do século passado, em que o conhecimento e as discussões sobre capacitismo fossem menos profundas, é difícil não sentir um desconforto com a figura do pai. Seus pensamentos chegam a ser cruéis, um reflexo de uma sociedade ignorante e repleta de preconceitos.

Aos poucos o protagonista começa uma trajetória em busca de especialistas que pudessem garantir uma condição melhor de vida para o Felipe. São poucos dias de vitórias, que se destacam a uma rotina difícil e frustrante. O pai tem dificuldades de lidar com as expectativas de que se filho se comportará igual a outras crianças típicas, mas com o tempo vemos um fortalecimento na relação entre os dois. Se no início existia uma certa rejeição na ideia de ter um filho com síndrome de Down, o personagem principal vai percebendo que não consegue mais se imaginar vivendo sem todo aquele amor.

É uma narrativa muito mais voltada ao pai, um escritor insatisfeito, com mergulhos nas suas memórias mais antigas. Felipe aparece de uma forma secundária, a partir da reação de seu pai com as dificuldades e conquistas da relação paternal. Uma das passagens que mais me tocou foi sobre a capacidade de amar que o filho possui. Felipe sabe amar incondicionalmente, o que o destaca em relação as demais crianças.

A leitura é impactante e, ao gerar um desconforto no leitor, nos faz refletir sobre temas importantíssimos relacionados a pessoas com deficiência e paternidade.

A gente mira no amor e acerta na solidão, de Ana Suy | Resenha

Esse é um daqueles livros que eu acabo conhecendo por conta de indicações que eu recebo de vocês. O livro de Ana Suy começou a aparecer com frequência aqui nas mensagens, com pessoas dizendo: “Acho que você vai gostar, já que adorou o Talvez você deva conversar com alguém”. E resolvi confiar na opinião de vocês, já que em grande parte das vezes vocês acertam!

Ana Suy é uma psicanalista brasileira que decidiu escrever um livro para abordar temas tão presentes em nosso dia, como amor e solidão, sem deixar de utilizar seu conhecimento técnico e sua experiência no consultório e nas salas de aula.

O título chama nossa atenção, já que vivemos quase uma epidemia de solidão. É comum ouvir reclamações sobre a dificuldade de encontrar alguém para formar um par e viver o resto de nossos dias. Mas por que a sociedade se sente assim? Há uma carência maior? O problema está apenas no outro? Existe algo como alma gêmea? Seria o amor um sentimento oposto à solidão?

São questões como essa que a autora discute nos curtos capítulos do livro, em um bom equilíbrio entre temas técnicos da psicanálise e uma conversa com base em exemplos e referências com os quais conseguimos nos identificar. Apesar de ser uma escrita acessível, confesso que senti dificuldade em alguns trechos e precisei voltar para conseguir compreender – o que, provavelmente, é uma consequência do meu pouco conhecimento sobre o tema. Freud e Lacan ainda demandam uma concentração maior, hehe.

Não tenho como me prolongar aqui, já que as reflexões ficam por conta de Ana Suy. O que posso adiantar é que a leitura é muito interessante e que as discussões trazidas já passaram em algum momento pela sua cabeça. Temas atuais e que nos permitem conhecer melhor os nossos sentimentos.

Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo | Resenha

Para quem já leu alguma obra de Conceição Evaristo, um dos principais nomes da literatura nacional, sabe que a potência de suas narrativas está, em boa parte, na força das suas personagens mulheres. Em “Canção para ninar menino grande”, no entanto, temos uma característica que a distingue dos demais livros: a narrativa tem como personagem principal uma figura masculina, Fio Jasmim. Mas, mesmo assim, as mulheres ainda têm papel central na obra, já que a vida do protagonista é contada a partir da perspectiva das mulheres com que se relacionou.

Trabalhando como assistente de maquinista de um trem, a cada parada o personagem conhece novas mulheres que vivem naquelas cidades por ele desconhecidas. E em cada capítulo, encontramos uma história diferente dessas mulheres que se apaixonaram e, de algum modo, foram abandonadas por esse personagem tão marcante.

E o que eu achei muito interessante é que, da mesma forma que a autora escreve sobre mulheres que sofrem com a desilusão de uma masculinidade tóxica, Conceição também aborda os problemas dos estereótipos que envolvem o homem negro. Como Fio Jasmim lida com a imagem de uma figura sempre viril e apaixonante? O que aos poucos vamos percebendo é que talvez essa vontade insaciável de Fio Jasmim também seja um reflexo da sua própria carência, em uma busca de preencher um vazio interno. É uma tentativa de exercer o papel de príncipe que a ele foi negado.

Como bem descreveu Jerferson Tenório, o autor de “O avesso da pele”, esta obra é um “mergulho na poética da escrevivência”. Gostei demais das histórias contadas por Evaristo e terminei o livro curto querendo saber mais sobre o que cada uma daquelas mulheres ainda tinha para contar. Leiam Conceição Evaristo!

Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez | Resenha

Que eu sou fã de carteirinha do Gabo, vocês já sabem. Mas eu tenho uma história de infância envolvendo essa obra. Nunca vou esquecer de, em uma viagem de navio que fiz com meus avós paternos, ver minha avó lendo um mesmo livro em vários momentos daquelas férias. Eu devia ter uns 10 anos e, como um bom curioso, resolvi fuçar para saber o título que ela tinha em mãos. Fiquei em choque quando eu vi: minha avó estava lendo uma obra sobre putas tristes? A minha imaginação foi longe para tentar descobrir qual seria a história naquelas páginas.

E foi só depois de cerca de 20 anos que resolvi dar a chance para a obra, que foi o último romance publicado pelo autor. Com um tema bem polêmico – e de difícil digestão – narra os dias de um homem que acaba de completar 90 anos. Enquanto relembra seu passado como jornalista e filho de uma família aristocrata em decadência, o personagem tentar encontrar o seu presente de aniversário: uma prostituta virgem.

Apesar de ser um frequentador costumeiro de prostíbulos, a experiência com uma virgem seria inédita. A situação fica ainda mais incômoda para o leitor quando se descobre que a mulher ofertada seria uma adolescente. Para um homem que nunca teve um amor em toda sua vida, a situação parece sair do controle depois que ele conhece a jovem.

É, acima de tudo, um relato de um velho decadente, que viveu uma vida solitária e mimada. Aos 90 anos, decide fazer um acerto de contas com seu passado enquanto percorre por suas memórias. Gosto muito da escrita do Gabo e de sua habilidade em contar histórias, e, apesar da polêmica de temas tratados, gostei muito da leitura. Na minha visão, não há uma romantização da relação do velho com a adolescente, mas sim o retrato melancólico da decadência humana. E a repulsa sentida pelo leitor é inevitável.

A amiga genial, de Elena Ferrante | Resenha

A tetralogia da autora italiana de identidade misteriosa virou um dos livros mais comentados dos últimos anos. Aqui no @book.ster, “A amiga genial” era uma das obras que vocês mais me pediam para ler. Ao mesmo tempo, alguns leitores opinavam que talvez a leitura não me agradaria e que, por envolver uma descrição tão íntima do universo feminino, não conseguiria ser captada de forma tão intensa por mim.

Na cidade de Nápoles, no sul da Itália, Elena narra a sua história sob o enfoque de sua amizade com uma garota excêntrica, Lila Cerulo. Ainda crianças, as duas compartilham seus desejos, medos e primeiros amores. As diferenças também geram intrigas e inveja, assim como aos poucos a maturidade vai ensinando que a amizade pode resistir a decepções. É uma relação muito bem construída por Ferrante, que retrata sentimentos e vivências com as quais podemos nos identificar – e é aqui que um mulher possa sentir uma maior identificação.

A educação também tem um papel central e a forma como vai ocupando a narrativa serve como uma denúncia das consequências de uma desigualdade social. Uma das meninas se vê impedida de perseguir seu sonho e a amizade acaba sofrendo com essa fenda que vai distanciando os seus caminhos.

Além de abordar o universo feminino, Ferrante consegue descrever a atmosfera caótica da cidade italiana de forma muito precisa, em um bairro barulhento e repleto de brigas e fofocas. A parte histórica fica por conta do cenário de pós-guerra, em que as famílias sofrem as consequências das mudanças sociais a depender de seu papel naquela comunidade.

Ainda que a primeira metade tenha sido mais lenta e desanimadora para mim, ao acompanhar uma fase infantil das personagens principais, gostei muito da escrita da autora. Na segunda parte, o ritmo de leitura melhorou e consegui entender um pouco mais o motivo de tantos leitores devorarem a tetralogia em pouco tempo. A últimas páginas são igual o final de capítulo de novela e já atiçam o leitor para seguir o caminho de vida das garotas. Com certeza não pararei por aqui!