Amanhã, amanhã, e ainda outro amanhã, de Gabrielle Zevin | Resenha

Descobri este livro de uma forma curiosa: morando em Nova York, sentado em um café, quando escuto duas meninas na mesa ao lado conversando sobre um livro. Eu, que não nego ser curioso, logo começo a tentar escutar. Quando mencionaram que acharam Tolstói contemporâneo, não aguentei e resolvi perguntar. Tratava-se da obra de Gabrielle Zevin e a minha nova “amiga”, uma jovem russa, falou que eu deveria lê-lo! Isso ficou na minha cabeça, e qual não foi a minha felicidade quando recebi esse lançamento da Editora Rocco.

A narrativa gira em torno da amizade entre Sam e Sadie, que se conhecem ainda crianças, e criam uma forte amizade. Com o tempo, separam-se e reencontram-se por acaso em uma estação de metrô, acompanhado de um disquete contendo um jogo eletrônico. Uma oportunidade para a retomada desta amizade tão bonita e a criação de jogos de videogame, que ocasiona no sucesso para os dois.

Acompanhamos quase 30 anos dessa relação, como em um romance de formação. São brigas, amores, tristezas e conquistas que atravessam pelo caminho dos dois, e o mais legal é acompanhar a evolução da tecnologia: Sadie e Sam começam na década de 90 até os dias de hoje.

A escrita da autora é bem gostosa, mas senti que o ritmo acabou caindo um pouco no meio do livro, como se algumas passagens fossem desnecessárias. Talvez essa sensação tenha se dado porque não sou o maior fã do mundo dos games, mas se você gostar, não vai achar que tem informação a mais pelas páginas.

A obra é uma ótima opção de leitura contemporânea que trata de temas atuais. Não consegui identificar a referência à escrita de Tolstói, como minha amiga falou, mas recomendo!

Escute as feras, de Nastassja Martin | Resenha

Imagina essa cena: você está de boa andando numa floresta coberta de neve quando, de repente, encontra um urso a poucos metros. E, para piorar, esse urso vem para a sua direção e te ataca. Bom, isso não é uma história de terror. Na verdade, até seja, mas ela não é ficção. A autora francesa Natassja Martin passou por isso em 2015 e sobreviveu para contar – apesar de diversos ferimentos.

Nessa obra de não ficção, Natassja traz diversas reflexões sobre a relação entre seres humanos e natureza a partir dessa experiência marcante em sua vida. A autora é antropóloga e estava estudando um povo que vive em um local isolado na Sibéria – os Evens – quando foi atacada pelo urso. São família que preferem viver afastadas da sociedade, encontrando refúgio nas florestas congelantes da região subártica.

A visão de Natassja, portanto, passa por uma interessante visão antropológica e que para muitos pode parecer uma reação pouco comum sobre o que ela vivenciou. É um mergulho nos pensamentos e questionamentos da autora. O que é o selvagem nesse contexto? Apenas o urso? E como um incidente como esse pode impactar a vida de alguém, para além das marcas físicas?

Confesso que, apesar das poucas páginas, a leitura é densa, focada muito mais em reflexões sobre os momentos posteriores em que estava se recuperando em diferentes hospitais da Rússia e França. Não é o tipo de livro que mais me agrada, mas foi, sem dúvidas, uma experiência surpreendente. Pode ser uma leitura desafiadora para alguns, mas ao final a experiência terá sido enriquecedora!

As Vinhas da Ira, John Steinbeck | Resenha

Lançado pela primeira vez em 1939 pela primeira vez, e ganhador do National Book Award e o Pulitzer de ficção, também foi citado com destaque quando Steinbeck recebeu o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1962. As Vinhas da Ira recebe agora uma nova edição, que conta com uma orelha de minha autoria. Deixo aqui para vocês trecho do meu texto sobre a obra:

“Assolada por uma forte crise econômica, a década de 1930 no sul dos Estados Unidos foi o cenário escolhido por John Steinbeck para construir um romance que deixou uma profunda marca na literatura norte-americana. Premiado com o Pulitzer, As vinhas da ira é, acima de tudo, a narrativa de uma fuga.

Assim como milhares de famílias, os Joad são forçados a deixar suas terras, que foram seu lar por décadas, para fugir da fome e da miséria. São descartados para dar lugar às inovações tecnológicas de um sistema voraz, que não sente pena de suas vítimas. E é nesse contexto que, para esses moradores de Oklahoma, o Oeste se mostra como a promessa de uma vida melhor, com emprego e comida na mesa.

Deixando a cidade natal, os Joad iniciam uma travessia que compõe a maior parte da obra. O autor nos leva junto e nos permite acompanhar as dificuldades próprias de cada integrante da família. O ritmo dessa travessia é lento, marcado por uma escrita descritiva e que toca em temas de extrema relevância, como a desigualdade social, as precárias condições de trabalho e a sensação de não ter uma terra, de não pertencer. Ao mesmo tempo que tece críticas sociais, Steinbeck também se aprofunda nos conflitos dos personagens e na dinâmica familiar, com destaque para uma personagem que funciona como um elemento unificador: a mãe. (…)”

Para quem quiser continuar a leitura da resenha, estampada na orelha dessa edição, corre e já garante a sua!

O fim de Eddy, de Édouard Louis | Resenha

Romance autobiográfico que fez bastante sucesso na França, “O fim de Eddy” retrata as dificuldades e conflitos internos vividos por um garoto que ainda questiona a sua sexualidade. A discriminação sentida desde a infância é ainda mais reforçada pelo ambiente em que Eddy nasceu: uma pequena cidade de operários no interior da França, ainda extremamente marcada pelo conservadorismo na década de 90.
Escolhi esse livro para o#desafiobookster2019 do mês de junho, cujo tema era LGBTfobia, e posso dizer que a leitura consegue, de uma maneira impactante, transmitir ao leitor o sofrimento de quem é vítima desse preconceito. A gravidade dessa questão social fica latente no livro quando percebemos que nem a própria família do autor conseguiu poupar a discriminação contra uma criança. A falta de empatia chega a incomodar. A escola também se tornou um pesadelo para o garoto, que era constantemente vítima de agressões físicas e psicológicas. Para tentar se enquadrar em uma sociedade que não aceita o diferente, Eddy segue sua vida orientado por uma frase: “hoje vou ser um durão” (“aujourd’hui je serai un dur”). É a esperança de que o esforço poderá transformá-lo naquilo que todos esperam dele. É a homofobia presente na cabeça de Eddy a todo momento e que norteia os seus passos e escolhas. E o leitor acompanha os sofrimentos desse garoto que está descobrindo sua sexualidade, mas que se vê obrigado a esconder – até de si mesmo – o que sente. Eddy faz sua vida com base no que os outros vão aprovar.
A escrita do autor é bem crua e rápida. A história é construída a partir de uma sucessão de eventos marcantes na infância e adolescência do autor e que tiveram inegáveis reflexos durante toda a sua vida. Confesso que em alguns momentos senti a escrita um pouco simples demais e talvez isso possa ter se dado por problemas da tradução. Até recebi mensagens de pessoas que leram no original e adoraram o tom poético da escrita. Isso, infelizmente, não consegui perceber na versão em português. Mas de qualquer forma, o livro possui diversas qualidades e consegue colocar o leitor na perspectiva de quem sofre rotineiramente pela LGBTfobia.

Se a rua Beale falasse, de James Baldwin | Resenha

Considerado um dos grandes inovadores da literatura afro-americana nas décadas de 50/70, Baldwin cria uma romance carregado de reflexões sobre desigualdade social e racial. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O cerne da história é a relação de dois jovens, Fonny e Tish, que planejam um futuro juntos e em condições melhores, mas que precisam enfrentar uma sociedade que os discrimina por sua cor de pele e por sua condição social. O cenário é Harlem, um bairro do subúrbio de Nova Iorque, nos anos 70. Logo no início, o leitor recebe a notícia de que Fonny está preso, acusado de ter estuprado uma porto-riquenha, apesar da falta de provas nesse sentido. Tish, que carrega um filho de Fonny, passa a fazer de tudo para conseguir comprovar a inocência de seu companheiro. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A partir dessa situação, os capítulos passam a alternar entre o presente, com a luta pela libertação de Fonny, e o passado, por meio das memórias de Tish sobre o início de seu relacionamento com Fonny até os fatos que o levaram à prisão.
Ao longo da narrativa, fica nítida a dificuldade de se conseguir o acesso à justiça quando faltam recursos e quando se nasce em condições desfavoráveis. O desespero de Tish e de sua família é realmente comovente; todos passam a se esforçar ao máximo para conseguir, ao menos, pagar um advogado para Fonny. Por outro lado, a família do acusado pouco faz para ajudá-lo, criando até mesmo uma sensação incômoda no leitor: é a falta de afeto e humanidade naqueles que deveriam ser os primeiros a defendê-lo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É uma história sobre a condenação pela raça, de uma sentença sem defesa, em que o amor e a resistência podem ser as únicas armas para se defender. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Apesar de ser uma leitura muito fluida e prazerosa, com inúmeras referências a músicas de jazz e blues, confesso que senti um pouco de falta de maior aprofundamento nos personagens. O final também me pareceu um pouco abrupto, como se o autor tivesse pressa em finalizar a obra. De todo modo, recomendo a leitura, que me deixou com vontade de conhecer mais sobre as obras de Baldwin.
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“Não se podia comprar o tempo. A única moeda que o tempo aceitava era a vida.”

E aí, o que acharam? Alguém já leu?

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Lavoura arcaica, de Raduan Nassar | Resenha

Raduan Nassar escreveu apenas dois romances em sua vida, já que desde 1984 decidiu parar de escrever e passou a se dedicar à vida no campo. Mas apesar de uma produção literária tão pequena em termos de páginas escritas, seu trabalho é tão impactante que deixa mais do que justificado o seu papel de destaque na literatura nacional. De fato, a leitura de Lavoura Arcaica deixa marcas no leitor e revela a invejável afinidade que Raduan tem com as palavras.
A obra, publicada em 1975, traz a história de André, nascido em uma família rural numerosa, mas que decidiu abandonar sua casa e se mudar para uma cidade do interior. No entanto, os motivos que o levaram a tomar essa decisão não são revelados logo de cara.

Já nas primeiras palavras, o leitor se deparada com um forte tom poético que vai estar presente ao longo de toda a obra. André é o narrador personagem e, logo nas primeiras cenas, somos apresentados ao seu irmão, Pedro, que faz uma visita para tentar convencê-lo a voltar para casa. A partir disso, os capítulos vão se alternando entre os diálogos dos irmãos com as memórias do autor, revelando, aos poucos, a fonte principal dos conflitos internos do personagem e que o levaram a decidir abandonar a família (paro por aqui, para evitar spoilers). Mas já adianto que é uma temática incômoda e que divide espaço com a escrita IMPECÁVEL de Raduan. A sensação é de que nenhuma palavra está lá por acaso.
Por fim, não dá para deixar de dizer que, apesar de encantadora, a escrita não é das mais fáceis. Além de se valer de inúmeras metáforas, o autor utiliza muito a técnica do fluxo de consciência. Ou seja, nos coloca nos pensamentos – confusos e não lineares – do narrador. Você inicia um capítulo e se vê atirado nesses pensamentos, que não terminam até o final do próximo capítulo (vários com apenas um ponto final!). Haja fôlego, mas o esforço é compensado por cada palavra lida.

Quero saber, alguém já leu esse livro? O que acharam?

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