O parque das irmãs magníficas, de Camila Sosa Villada | Resenha

Já antecipo para vocês que esse livro de apenas 200 páginas conseguiu me emocionar e despertar tanta compaixão pelas personagens que, sem dúvidas, foi uma das melhores leituras de 2022.

E é engraçado que, para mim, é mais difícil escrever sobre livros que me impactam muito do que sobre as leituras que não deixam tantas marcas. Talvez porque o que mais conquista o leitor não são os aspectos mais objetivos de uma narrativa, mas os sentimentos que compartilhamos. E é essa parte subjetiva da experiência que exige mais de mim na hora de escrever uma resenha para vocês.

Nessa obra com fortes traços autobiográficos, Camila Villada, uma mulher trans, nos leva para a cidade argentina de Córdoba, para um parque que dá nome ao livro. Não bastasse as angústias de crescer em conflito com o próprio corpo, a protagonista enfrenta a rejeição da sociedade. E é nesse parque que um grupo de travestis que compartilham de suas doares a acolhem.

A realidade desse grupo, comandado por Tia Encarna, uma figura forte e amorosa, é marcada por violências. Marginalizadas pela sociedade, as travestis precisam se submeter a uma violência de seus corpos para conseguir sobreviver. Não bastasse isso, elas são vistas com repulsa por quem cruza seu caminho, em um constante sofrimento psicológico. E nessa realidade brutal, as irmãs magníficas são tudo o que lhes resta. Uma irmandade que ameniza o sofrimento.

Além de escrever de forma cativante e poética, a autora tempera a narrativa com uma mágica que desafia a realidade. Uma personagem se transforma em pássaro, outra vive muito mais de cem anos e tantos outros detalhes que deixam a leitura ainda mais impressionante. Talvez toda essa mágica seja uma forma de apaziguar tanta dor que as personagens sentem, uma tentativa de escapar por alguns segundos da triste realidade que não fica presa às páginas do livro, mas que toma conta de tantos outros parques, casas e corpos pelo mundo. Livro maravilhoso, triste, sensível, que merece a leitura de todos!

Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso | Resenha

Publicado em 2020, “Suíte Tóquio” é um livro que retrata contrastes extremamente atuais, com os quais nos deparamos diariamente. De um lado, temos Fernanda, mãe de uma menina e uma profissional bem sucedida – embora sobrecarregada. De outro, temos a realidade de Maju, que trabalha na casa de Fernanda como babá da sua filha, Cora. No dia a dia, Fernanda relega os cuidados da filha para Maju, que não só desenvolve uma forte relação de afeto com a menina, mas que também sonha em ser mãe.

É a partir de capítulos alternando a perspectiva de duas mulheres com vidas distintas que a narrativa cativante construída pela autora se desenrola. E o que prende o leitor logo nos primeiros capítulos é o sumiço de Cora, que teria sido sequestrada pela babá. A mãe, que demora várias horas para concluir pelo sumiço da filha, começa a buscar pistas do que poderia ter acontecido com Cora. Junto com uma sensação de desespero, que é compartilhada com o leitor, Fernanda reflete sobre suas falhas na maternidade, ao mesmo tempo que vive novas descobertas sobre a própria identidade.

Fica difícil de contar mais sobre o enredo sem deixar spoilers, as motivações para o possível sequestro da menina são relevados aos poucos. A realidade sobre a vida de Maju vai revelando sua personalidade e as razões que a levaram a desenvolver uma espécie de obsessão com a menina. E enquanto conhece o passado da babá, o leitor acompanha os problema enfrentados pelo plano arquitetado pela babá para conseguir levar Cora para sua nova vida.

São várias as reflexões que encontramos no texto de Giovana, que vão desde as dificuldades – e até um possível arrependimento – com a maternidade, até temas como desigualdade social e relacionamentos em decadência. A escrita da autora é fluída, com toques de um humor ácido. Por outro lado, confesso que não consegui me envolver tanto com as personagens que, na minha opinião, são um pouco previsíveis. É uma boa leitura, daquelas que pendem o leitor, confirmando a autora como um dos grandes nomes da nossa literatura contemporânea!
Nota 7,5/10

O ano do pensamento mágico, de Joan Didion | Resenha

Eu não sei se isso acontece com todo mundo, mas livros sobre perdas e luto me impactam muito. É claro que o tema, por si só, é muito sensível e causa comoção no leitor. Mas o que me atrai é a possibilidade de acompanhar o desenvolvimento dos sentimentos de quem – sejam uma obra ficcional ou não – enfrenta uma dor tão irreparável. É como se eu ajudasse, de alguma forma, aquela pessoa quando sobre a história compartilhada.

No caso de “O ano do pensamento mágico”, a autora traz um relato autobiográfico não só de uma perda concreta, mas do medo constante com a possibilidade de perder alguém tão amado a qualquer instante. Isso porque Joan perde o seu marido, John, por conta de um ataque cardíaco, na mesma época em que sua única filha é internada em estado crítico.

Então, ao mesmo tempo, Joan Didion enfrenta o luto pelo fim de uma relação de várias décadas e passa meses na esperança de melhora de sua filha, Quintana. E é todo esse furacão de emoções que a autora compartilha com nós, leitores, em suas quase 250 páginas. É uma trajetória que mistura momentos de alívio e alegria, com dias de um medo paralisante. Me lembrou bastante a leitura de Paula, de Isabel Allende, um livro que me fez derrubar muitas lágrimas.

E além de trazer muito de um relato pessoal, a escritora norte-americana, que nos deixou no final de 2021, utiliza sua experiência como jornalista para trazer uma parte mais objetiva de tudo que está passando. Talvez isso tenha tornado a leitura uma experiência menos emotiva quando comparo com a obra de Allende. Inclusive, em vários momentos, Joan nos conta sobre o quadro médico médico de Quintana e sobre o próprio processo do luto, com um embasamento científico. Mas isso, em momento algum, tira a beleza e sensibilidade de seu texto.

Gostei muito da leitura, que foi uma das melhores de 2022. Entendo que esse livro pode não encantar todos os leitores, mas ainda assim recomendo para refletirmos a nossa mortalidade e daqueles que estão a nossa volta. A vida muda em um instante.

Corpo desfeito, de Jarid Arraes | Resenha

Com apenas 128 páginas, essa é, sem dúvidas, uma das histórias mais doloridas que li. Em alguns momentos cheguei até mesmo a questionar o motivo de tanto sofrimento. Mas a triste verdade é que, apesar de ser um livro de ficção, Jarid Arraes narra a história de muitas crianças espalhadas pelo nosso Brasil. É tanto sofrimento, porque é um retrato de uma realidade que não queremos conhecer.

Amanda vive em uma pequena cidade no interior do Ceará. A garota de 12 mora com sua mãe e sua avó. Apesar da idade, Amanda vive em um ambiente extremamente conturbado, sendo vítimas de brutais abusos físicos e psicológicos. A pessoa que deveria protegê-la é, na verdade, quem mais lhe faz mal, deixando marcas irreparáveis em seu todo. Fiquei com vontade de resgatar a personagem do ambiente que vivia para mostrar que nem tudo precisa ser sofrimento.

E o maior motivo do ódio que preenche a casa de Amanda é o fanatismo religioso de sua avó. Nos deparamos com um extremismo sem limites e, se não contido, pode ser tornar irreversível. É o uso da agressão para defender o amor ao próximo. É a repressão para defender as palavras sagradas.

Fiquei impressionado com a autora cearense consegue, em tão poucas páginas e logo em seu romance de estreia, criar uma narrativa de tamanho impacto no leitor. A escrita é envolvente e crua, mas confesso que tive dificuldades de encarar tamanho sofrimento, mesmo sabendo que a história é um retrato de muitas realidade. Eu não conseguia parar de ler para ver se a vida da protagonista melhoraria em algum momento. Por outro lado, a força de Amanda é impressionante, criando uma armadura para sobreviver a tantos obstáculos.

Para mim, a dor de Amanda chegou até a deixar a leitura cansativa, o que prejudicou um pouco a minha experiência. Talvez eu não estivesse preparado para o que viria. De qualquer forma, é um ótimo livro!

PS: o livro contem diversos gatilhos de abuso físico e psicológico.

Arroz de Palma, de Francisco Azevedo | Resenha

100 ano de história de uma família. É essa a proposta de “Arroz de Palma”, belíssimo romance sobre imigrantes que vêm de Portugal para o Brasil no início do século passado. O ponto de partida da narrativa é um casamento celebrado em 1908. Só que diferentemente do que você imagina, o mais importante desse evento não é apenas a história dos noivos, mas também os grãos de arroz que são jogados sobre eles para desejar prosperidade e fertilidade.

Ao ver o arroz esquecido na porta da igreja, Palma, a irmã do noivo, decide catar grão por grão como forma de recordação daquele momento tão importante e presenteá-los aos noivos. O que ela não imagina é que esse gesto dá início a uma tradição que seguirá os descendente dessa família por um século, sendo testemunho de novos amores, brigas e reconciliações.

Confesso que romances geracionais como esse estão no topo dos estilos favoritos de leitura. Gosto de acompanhar as novas gerações, com o amadurecimento dos personagens, ao mesmo tempo que percebo as mudanças no cenário político e social. E, na minha opinião, Francisco Azevedo faz isso com muita habilidade. O autor consegue não apenas criar personagens bem construídos e um enredo interessante, mas também se vale de uma escrita poética. E para dar um toque a mais na narrativa, “Arroz de Palma” ainda apresenta elementos do realismo mágico, atrelados à figura de Palma.

Por tudo o que escrevi, e pelo que ainda você vai encontrar na leitura, “Arroz de palma” é um livro delicioso, daqueles que dificilmente alguém não vai gostar. Só faço uma consideração: em um momento, quando trata de um personagem gay, o narrador – um senhor de 88 anos – faz menção ao termo opção sexual. Talvez isso seja um reflexo de o livro ter sido escrito há mais de 10 anos, mas ainda assim acho importante destacar que o correto é sempre orientação sexual. Nunca é uma escolha.

A natureza da mordida, de Carla Madeira

Carla Madeira é sinônimo de sucesso e muitas vendas. Com isso, quando tem livro novo nas estantes, há altas expectativas. Quando esperamos muito, o risco de uma decepção é maior. Como será que foi a minha experiência com a 3ª leitura de uma obra de Carla Madeira?

Já no começo identifiquei uma característica da autora que eu gosto muito: a poesia na sua escrita. Durante toda a obra me deparei com trechos lindos, que deixaram o livro todo marcado com flags.

É um livro sobre perdas e dificuldade de superação. Quantos de nós não passamos a vida com diversos sentimentos pendurados, que nunca conseguimos deixar para trás. Essa falta pesa e transparece em quem somos. É por isso que Biá logo pergunta para Olívia: “O que você não tem mais que te entristece tanto?”

As duas se conhecem por acaso em uma banca ao ar livre, que também vende livros usados. Depois de uma primeira conversa, uma mesa simples daquela espécie de sebo para ser o ponto de encontro de Biá e Olivia aos domingos. As duas compartilham um pouco de suas vivências: Olivia é uma jovem jornalista, enquanto Biá é uma aposentada apaixonada por literatura. Apesar das diferenças de histórias, compartilham perdas em suas vidas.

A amizade que vai sendo construída me envolveu bastante, assim como os segredos que vão sendo desvendados aos poucos. Os capítulos são alternados entre as anotações de Biá e os relatos de Olivia sobre os encontros dominicais. Foi muito acompanhar as conversas das duas e os ensinamentos que Biá, com sua idade mais avançada (e sua memória um pouco falha), pode dar a quem ainda tem muito a viver.

O livro revela muitos acontecimentos, que prefiro deixar que o leitor descubra. Adianto ser uma construção de personagens muito bem feita, na qual nos envolvemos com as dores reveladas. Às vezes, sentia vontade de sentar com as duas naquele sebo e ficar papeando sobre a vida!

Carla Madeira é, sem dúvidas, uma autora excepcional de sua geração, consegue atingir um público amplo, furando a bolha de quem já tem o hábito de ler e despertando a curiosidade em novos – ou esquecidos – leitores.

A Última Filha, de Fatima Daas | Resenha

Um livro, acima de tudo, sobre a busca por uma identidade. “A última filha” é uma obra diferente de tudo que você que já leu, principalmente pela forma como a autora constrói sua narrativa. Mistura de autobiografia com ficção, em que o ritmo cadenciado das frases marcam os capítulos curtos. Como a sinopse indica, o ritmo de Fatima Daas ecoa “o rap ou o slam, ou ainda as rezas do alcorão”. Difícil de explicar para quem ainda não leu.

Além da escrita, os temas abordados pela autora são interessantíssimos. Fatima Daas é francesa, descendente de pais argelinos. Sua vida é marcada pelos conflitos. Como sentir a França como sua casa se seus pais não se identificam com o lugar e cultura? Como lidar com o choque cultural de ser criada em uma família muçulmana praticante em um país majoritariamente católico?

Mas os conflitos não param por aí. Fatima faz parte da comunidade LGBTQIA+ e nos conta sobre sua paixão por uma mulher, portanto, se vê como uma pecadora. Isso não a impede de viver o que ela realmente é, da forma que se identifica. Será possível ser muçulmana, religiosa, e divergir do padrão heterossexual?

A definição de Fatima pela própria autora deixa mais nítido o que encontraremos no livro: “Eu me chamo Fatima Daas. Sou a mazoziya, a caçula, a última filha. Aquela para a qual não estamos preparados. Francesa de origem argelina. Muçulmana praticante. Uma suburbana que observa os comportamentos parisienses. Sou uma mentirosa, uma pecadora. Adolescente, sou uma aluna instável. Adulta, sou hiperinadaptada. Escrevo histórias para evitar viver a minha.”

Um livro muito interessante, daqueles que a gente lê em poucos dias. Vale a experiência de partir para uma leitura diferente do que estamos acostumados a fazer, tratando de temas muito atuais.