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Ramsés: O filho da luz, Christian Jacq | RESENHA

Como sempre falo por aqui, quando tenho alguma viagem programa, tento ler algum livro relacionado ao local de destino. Então, antes de ir para o Egito dei uma pesquisada e me recomendaram ler a série Ramsés, uma série com 5 livros. “O filho da luz” é o primeiro deles e traz o início da vida de Ramsés II, um dos principais faraós do Egito Antigo e que reinou por 60 anos – em uma época em que a expectativa de vida era em torno de 30 anos. Ramsés, filho mais novo do grande faraó Sethi, não é o primeiro da linha sucessória ao trono. Chenar, o primogênito, é reconhecido como o favorito para substituir seu pai. No entanto, a escolha é do próprio faraó, que passa a indicar uma certa preferência ao filho mais novo, criando uma forte e perigosa rivalidade entre os irmãos. E é nesse cenário que o autor consegue construir uma história muito prazerosa, mesclando romance e fatos históricos! A narrativa é recheada de descrições dos locais, como a grandiosidade dos templos construídos aos deuses, dos costumes, das tradições e da estrutura social e política da época.

É uma leitura fluída e simples, em que o autor não se preocupou tanto na densidade de informações e dados históricos colocados ao longo do livro. Na verdade, você acaba aprendendo ao longo da leitura, com os próprios personagens e acontecimentos. Isso eu senti lá no Egito. Em vários passeios que fiz pude identificar locais ou nome de figuras importantes que viveram na época de Ramsés II e que tinham sido mencionados na obra.
Por outro lado, senti um pouco de falta de um desenvolvimento mais profundo dos personagens. Mas acho que a intenção do autor foi criar um romance mais leve mesmo. Ou seja, se você busca um livro sobre a história do Egito, não recomendaria tanto a obra de Jacq. Mas se você gosta do tema Egito Antigo e de romances com dados históricos, então essa série pode ser uma boa opção para você. Ah, não posso negar que fiquei com vontade de ler os próximos volumes da série… Uma leitura agradável e interessante!

Editora: Bertrand Brasil
Ano de publicação: 1998
Número de páginas: 392
Link de compra: https://amzn.to/2RAVya7

Lolita, Vladimir Nabokov | RESENHA

Não é fácil fazer uma resenha de Lolita. Para falar sobre o livro, precisamos passar por um assunto muito polêmico: pedofilia. Nabokov narra a história de Humbert Humbert (H.H.), um homem de meia-idade, que se apaixona obcecadamente por uma garota de 12 anos, Dolores – apelidada de Lolita. Na verdade, quem narra a história é o próprio Humbert, que mergulha o leitor em seus pensamentos e em sua obsessão incontrolável por garotas jovens, que ele denomina como “ninfetas”.
E em nenhum momento H.H. nega que seu comportamento é reprovável. Há, na verdade, diversas passagens em que ele reconhece isso expressamente e se culpa por seus atos. Mas isso não é capaz de frear esse seu desejo interior. E é a partir dessa relação doentia, e não romântica, que Nabokov mostra o seu dom da escrita e a capacidade de construir personagens muito humanos.
O que mais me impressionou na obra é a forma como o narrador consegue manipular o leitor. Ele brinca com constantemente com a realidade, ao ponto de o leitor não saber o que é real ou o que é fruto de uma visão distorcida de Humbert. Será que a própria Lolita provocava H.H., como ele dá a entender? Eu passei a questionar os fatos a todo momento, pois, na verdade, não chegamos a conhecer a verdadeira Dolores, mas apenas a Lolita, na forma como é descrita por Humbert.
Importante dizer que a obra não traz passagens obscenas ou pornográficas. A relação entre H.H. e Lolita é narrada de forma sutil, com pinceladas de vulgaridade – e que ainda assim deixam dúvidas no leitor sobre o que de fato H.H. quer dizer com aquilo.
Além disso, apesar de uma visão totalmente parcial, H.H. se apresenta como honesto: escancara os seus sentimentos e seus conflitos internos. Ele sofre pelo que sente e isso pode gerar, em certos momentos, um sentimento de “compaixão” por Humbert, mas que logo passa.
É um obra sensacional e que, apesar de incomodar o leitor, não traz uma história romantizada da pedofilia, mas a visão manipuladora de um homem atormentado pela obsessão. Foi para a lista de favoritos!

Trecho: “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha, alma, meu pecado (…)”

Editora:  Alfaguara
Ano de publicação: 2011
Número de páginas: 392
Link de compra: https://amzn.to/2D3dSWc

 

Escolhas da vez!

Quem me acompanha aqui há algum tempo sabe que eu costumo escolher as minhas leituras com base em 4 categorias: (1) clássico; (2) livro curto de até 200 páginas; (3) autor contemporâneo ou ficção científica; e (4) livro de não-ficção / de contos / poemas.

Ou seja, escolho 4 livros e só vou começar um livro diferente depois que eu acabar a “leva” atual. Com isso, acabo saindo da zona de conforto e me incentivo a ler obras de diferentes temáticas e gêneros. Ah, mas isso não significa que eu leio os 4 livros simultaneamente! Gosto de começar 2 ao mesmo tempo e aí vou iniciando os próximos aos poucos. E também não tem regra de qual ler no dia… O importante é não deixar nenhum livro de lado. Essa “técnica” ajuda muito no ritmo da leitura e evita que eu canse de determinada obra.

Escolhas de vez:

1 – Clássico: “O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – Resolvi ler esse clássico da literatura mundial no original, depois te tantas recomendações nesse sentido. Já estou gostando muito da escrita de Wilde e, como muitos mostraram interesse, lancei aqui o #leituraconjuntabookster para esse livro.

2 – Livro de até 200 páginas: “Morreste-me”, José Luís Peixoto – Ganhei da @dublinense e quando mostrei aqui recebi MUITA mensagem positiva! Gosto muito de autores portugueses contemporâneos e estou com altas expectativas! “É o relato da morte do pai, o relato do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem, uma memória redentora”

3 – Autor contemporâneo: “Trilogia suja de Havana”, Pedro Juan Gutirérrez – Escolha de outubro para o #desafiobookster2018. Esse autor foi uma grande surpresa em 2017 quando li “O rei de Havana”. O livro traz o cotidiano de Cuba em plena crise econômica da década de 90, com uma escrita crua e sem pudores.

4 – Livro de não-ficção: “A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil”, Bruno Manso e Camila Dias – Lançamento da @todavialivros. Obra jornalística em que o leitor vai se deparar com as entranhas da organização criminosa, com base em entrevistas feitas com integrantes do PCC. Promete trazer um panorama completo sobre como a influência do PCC se consolidou no Brasil.

E vocês, estão lendo o que?
#bookster

Dias de abandono, Elena Ferrante | Resenha

Elena Ferrante é uma das autoras mais vendidas atualmente e é conhecida pelos seus romances que cativam e prendem o leitor. Não comecei por sua obra mais famosa, a Tetralogia Napolitana (série com 4 livros), porque queria uma obra que estivesse menos no “hype”! A escolha de “Dias de abandono” também foi influenciada por outra obra que li esse ano: “Laços”, de Domenico Starnone (já tem resenha aqui). Isso porque há um inegável diálogo entre os dois livros. Na verdade, como Elena Ferrante é um pseudônimo e sua identidade verdadeira nunca foi confirmada, há suspeitas de que a autora seja esposa de Starnone ou, até mesmo, o próprio autor de “Laços”.

Independente disso, fato é que o meu primeiro contato com a autora italiana começou muito bem, mas não terminou da forma que esperava. O enredo gira em torno de Olga, uma mulher que depois de 15 anos casada com Mario, recebe a notícia de que está sendo abandonada. Olga perde o chão. A partir daí têm início os seus dias de abandono, ou melhor, de sofrimento, em um apartamento onde vive com seus dois filhos e um cão. Com uma narrativa em primeira pessoa, o leitor passa a acompanhar os pensamentos de Olga, que a paralisam e são encobertos pelo desespero, medo e angústia. Sim, é um livro perturbador (!!) e, no começo, a personagem de Olga descrita e desenvolvida como alguém que perde o suporte emocional é extremamente interessante. É o retrato da dificuldade de aceitação de uma perda, misturada com o sentimento de tentar se reconstruir e conviver com essa nova realidade. Em algumas passagens, tive a sensação de que a personagem estava delirando e que os seus pensamentos não condiziam com a realidade.

Apesar da inegável qualidade de escrita da autora, que se vale de uma linguagem fluída, crua e econômica, ao final da leitura senti que Ferrante se perdeu um pouco e passou a recorrer a lugares-comuns, terminando com uma personagem exagerada e de certa forma previsível. É um livro curto, mas que traz várias reflexões sobre relações humanas e sofrimento.

Trecho: “Tornara-me uma esposa obsoleta, um corpo negligenciado, minha doença é só a vida feminina que ficou fora de uso.”
Editora: Biblioteca Azul
Ano de publicação: 2016
Número de páginas: 184
Link de compra: https://amzn.to/2yNLId5

 

A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksiévitch | Resenha

Vencedora do Prêmio Nobel de literatura de 2015, Svetlana expõe nesta obra uma visão completamente esquecida da guerra: o sofrimento vivido pelas milhares de mulheres que já lutaram pelo seu país. É inegável que os livros e filmes retratam a guerra como um evento masculino, deixando para a mulher um papel secundário, de quem fica em casa aguardando o retorno – ou não! – dos homens da família. Mas Svetlana quebra esse silêncio e, por meio de diversas entrevistas com mulheres soviéticas que lutaram na 2 Guerra Mundial, traz para o público essa tão necessária versão da guerra.
São, em sua maioria, histórias de jovens que tinham vontade de defender e ser útil ao seu país. Entraram com uma imagem idealizada da guerra, mas saíram – se saíam – com marcas profundas e eternas, não só no corpo, mas nas memórias que não podem ser apagadas. Os relatos mostram as mais diversas dificuldades enfrentadas por essas mulheres que, independente do papel que desempenharam na guerra, deixaram suas famílias e cidades e foram para o campo de batalha. E o chocante é que os problemas não foram vivenciados apenas no período da guerra, como o machismo no ambiente do exército, a ausência de estrutura e equipamentos próprios para uma soldada mulher, a intensa presença da morte e a perda da própria feminilidade. Na verdade, o sofrimento foi agravado quando, apesar de vitoriosas ao final da guerra, encontraram uma sociedade repleta de preconceitos.
“Quem iria se casar com uma dessas mulheres? O que elas faziam no meio de tantos homens no campo de batalhas?” Essa mentalidade passou a ser o novo inimigo dessas corajosas mulheres.
Ou seja, a obra de Svetlana é uma leitura essencial e perturbadora, com a inegável capacidade de mudar a visão do leitor sobre a guerra. Não há como terminar a leitura sem se solidarizar por esses relatos que por tanto tempo foram reprimidos.
Uma dica: recomendo que essa leitura seja feita aos poucos e em paralelo com algum romance mais linear. Isso porque o livro traz um grande número de relatos, todos com uma mesma temática e que, ao final, podem cansar o leitor.

Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2016
Número de páginas: 392
Link de compra: https://amzn.to/2OMNQfp

#DesafioBookster2018 – Outubro

Mês: Outubro – Livro publicado na década de 1990 – “Trilogia suja de Havana”, Pedro Juan Gutiérrez (1998)
Para quem ainda não conhece, criei Desafio Book.ster 2018 com o objetivo de, incentivar a leitura de obras clássicas publicadas no século XX, seguindo uma ordem cronológica. A ideia é simples: 12 livros, 12 décadas. Por exemplo, em janeiro lemos um livro publicado entre 1900 e 1909, em fevereiro da década de 1910… e por aí vai!
Se você não começou, ainda dá tempo de participar: é só escolher um livro para esse mês e que tenha sido publicado na década de 90.
Alguns dias antes de começar cada mês, posto para vocês o livro escolhido, assim como algumas sugestões de obras publicadas na mesma década!

O escolhido dessa vez foi um clássico da literatura latino americana. Gutiérrez é considerado um dos principais autores cubanos e meu primeiro contato com a sua obra foi no ano passado, quando li o incrível “O rei de Havana”. Tem resenha aqui já (não deixe de ler)! Gostei tanto do livro que no final do ano fiz um post e classifiquei o livro como um dos 5 melhores lidos em 2017. E o mais legal é que não conhecia o autor, que foi indicação por acaso de um vendedor em uma livraria. Depois dessa grande surpresa, fiquei com muita vontade de ler mais de sua produção literário e, por isso, logo inclui a sua obra mais famosa no Desafio de 2018.
Em “Trilogia suja de Havana”, o autor traz o cotidiano de Cuba em meio à crise econômica vivida nos anos 90, abordando temas como a fome, sexo, pobreza, álcool e drogas. A escrita do autor é extremamente explícita, direta e, como senti lendo o “O rei de Havana”, flui muito bem! .

Além do escolhido, indico os seguintes livros publicados na década de 1990: “O evangelho segundo Jesus Cristo”, José Saramago (1991); “O mundo de Sofia”, Jostein Gaarder (1991); “Rota 66”, Caco Barcellos (1992); “Harry Potter e a pedra filosofal”, J. K. Rowling (1997); e “Os detetives selvagens”, Roberto Bolaño (1998) .

E você, já escolheu sua leitura de outubro? .

Crônica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez | Resenha

Como conseguir prender a atenção do leitor quando você já conta o final da história logo na primeira frase? É com essa habilidade que Gabriel García Márquez, ou Gabo para os mais íntimos, constrói “Crônica de uma morte anunciada”. O destino infeliz de Santiago Nasar, protagonista da obra e vítima de um crime, é revelado desde o momento inicial da leitura.
Depois de anos do evento, o narrador personagem, amigo de Santiago, passa a investigar como foi o último dia do protagonista. Ele conversa com as pessoas que se encontraram com Santiago no dia de seu assassinato para tentar refazer os seus passos e compreender as circunstâncias de sua morte.
Nesses relatos, o leitor vai percebendo que o destino de Santiago era sabido por todos que estavam a sua volta, mas que nada fizeram para tentar evitá-lo. Esse cenário desperta uma sensação de revolta e impotência no leitor, que não consegue acreditar na omissão e negligência dos demais habitantes dessa pacata cidade. E nas entrelinhas da obra, o autor faz uma crítica implícita a uma sociedade marcado por pessoas que fingem não ver os problemas que passam em sua frente, como se eles não fossem de “sua conta”. Também é muito interessante perceber como são diferentes as versões contadas por cada um e como esses personagens tentam utilizam essa conversa com o relator para justificar – ou tentar aliviar – a sua atitude omissa com o crime. Essa gama de versões ainda contribui para que o leitor possa construir uma visão mais completa do ocorrido, criando a sensação de que está se deparando uma história real.
Com menos de 200 páginas, a obra traz uma escrita rápida e muito cativante… um livro que provavelmente será lido em pouquíssimos dias! Acho que é uma ótima opção para quem quer conhecer a obra de Gabo, sem ir direto para os incríveis – e densos – “Cem anos de solidão” e “O amor nos tempos do cólera”. Mais uma excelente leitura concluída para o #desafiobookster2018!
Editora: Record
Ano de publicação: 1981
Número de páginas: 160
Link de compra: https://amzn.to/2Ri4Mcc
Trecho: “No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo.