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Brava Serena, de Eduardo Krause | Resenha

“Brava Serena” é um daqueles livros realmente gostosos de se ler. A partir da narrativa construída por Krause, o leitor se diverte, ao mesmo tempo que se emociona e reflete sobre a perda, a velhice e as surpresas que a vida pode apresentar!

Viúvo e aposentado, Roberto Bevilacqua decide se mudar para a Itália, com planos de começar um curso para melhorar o idioma no novo destino. Extremamente planejado e metódico, o protagonista vive uma vida cheia de limitações impostas pela idade e por recomendações médicas. A dificuldade de superar a perda de sua esposa também dificulta que Roberto conseguia curtir a vida sem um forte tom de melancolia.

Ao chegar na Itália, as certezas do personagem começam a se desestabilizar por conta de novas amizades que faz ao acaso. A principal delas é a jovem Serena, filha da proprietário do apartamento alugado por Roberto. São muitas conversas regadas a vinho e uma boa comida que despertarão, aos poucos, uma reflexão sobre a possibilidade de se reinventar, independentemente da idade e do momento de vida.

Sei que a narrativa pode até parecer clichê em um primeiro momento, mas garanto que o desenvolvimento da história vão te surpreender. A escrita também é bem tranquila e você vai percorrendo as páginas sem se dar conta, acompanhado a trajetória de personagens bem construídos. Krause ainda consegue nos trazer um pouco da Itália e de suas delícias, deixando o leitor sedento para se refugiar naquele país. Uma excelente recomendação de leitura leve, gostosa e divertida, sem deixar de apresentar boas reflexões!

A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz | Resenha

Vencedor do Prêmio Pulitzer de ficção em 2008, a obra do autor domenicano Junot Díaz estava esgotada das prateleiras brasileiras há um tempo e ganhou nova edição da @editorarecord! E que coisa boa foi poder ler esse livro e saber que outros leitores também poderão encontrá-lo facilmente nas livrarias!

Antes de contar um pouco sobre esse romance, preciso dizer que o estilo de Díaz foge de qualquer tentativa simples de categorização. Ele mistura aspectos históricos (e muitos), com cultura nerd e um humor ácido, tudo isso sem abrir mão de personagens complexos e bem construídos.

O personagem principal é Oscar Wao, que dá nome ao livro. Mas diferentemente do que o título indica, o jovem Wao não tem uma vida fantástica. O protagonista tem origem domenicana, mas vive uma vida pouco sociável e rodeada de cultura nerd em um gueto de New Jersey. A busca por um primeiro beijo e um primeiro amor parece nunca ter fim na sua adolescência. Sua mãe e sua irmã também têm um papel importante no romance, sobretudo considerando a relação conturbada – e até mesmo violenta – que existe entre as duas. La Inca, avuela do garoto, também se destaca!

Aos poucos vamos conhecendo um pouco mais sobre o passado dos familiares de Oscar, que viveram na República Dominicana, assim como aprendemos sobre a história sangrenta do país, quando foi governado pelo ditador Trujillo (eu já havia lido A festa do bode, de Llosa, que trata sobre o mesmo período histórico). E, aparentemente, as tragédias que recaem sobre esse jovem têm origem em Fukú, uma antiga maldição que está presa na sua família.

Eu amei a leitura! O início pode parecer um pouco confuso com a troca dos narradores, mas aos poucos você se acostuma. O autor traz muitas referências a filmes, livros, músicas, o que deixa a obra ainda mais interessante (algumas dessas referências eu não conhecia, mas tá tudo bem)! Sei que pode não ser um livro coringa, que agrada a todos, mas eu te convido a dar uma chance de ter uma leitura marcante e diferente do que estamos acostumados a ler! Excelente!

Um jogador, Fiódor Dostoiévski | Resenha

A literatura russa consegue ser uma caixinha de boas surpresas! “Um jogador” é uma novela de Dostoiévski que já estava na minha lista há um tempo, já que era frequentemente indicada como uma obra que trazia humor junto da habilidade de escrita do autor. E é isso que ele entrega: uma boa história, sem deixar de lado a sua interessante análise sobre o psicológico dos personagens.

A obra se passa em Roletemburgo, uma cidade fictícia que se assemelha a uma pequena cidade alemã (confesso que pesquisei o nome da cidade para descobrir onde ficava). O protagonista é Aleksei Ivanovitch, um jovem russo que trabalha como professor e que esconde um vício em jogos e cassino. A trama vai se desenrolando nessa pequena cidade acompanhando a relação de Aleksei com personagens de diferentes nacionalidades (russos, alemães, franceses, ingleses), mas que compartilham um interesse em comum: o dinheiro. Na verdade, o dinheiro é o que conduz a vida dos que habitam Roletemburgo.

Para mim, o início da leitura foi um pouco lento e confuso, com tantos nomes de personagens. No entanto, aos poucos, a narrativa foi me prendendo e passei a sentir a aflição do personagem principal e daqueles que iam perdendo dinheiro – e toda a paz – no cassino. Também não há como negar que Dostoiévski conseguiu me arrancar boas risadas (minha personagem favorita foi a avó)!

É interessante mencionar que a novela foi escrita em um curto espaço de tempo, quando o autor estava afundando em dívidas e com a obrigação de entregar um novo livro para seu editor o quanto antes. Talvez toda essa atmosfera de pressão e desespero justifique uma obra que fuja um pouco da escrita e temática do autor. Inclusive, o próprio Dostoiévski também era um frequentador de cassinos, o que contribuiu para as suas dívidas.

Esta é uma ótima leitura e que pode ser uma opção para quem quer iniciar nas obras do autor russo!

Os sete maridos de Evelyn Hugo, de Taylor Jenkins Reid | Resenha

Com mais de 1 milhão de exemplares vendidos no mundo todo, o livro foi escolhido por vocês! Apesar de muitos elogios, também recebi várias mensagens de leitores que acharam puro “hype” ou sem qualquer valor literário. Mas, e aí?

Inicialmente, vale dizer que esse argumento de “valor literário” é polêmico e passa por questões mais delicadas sobre o propósito e a “elitização” da leitura. Eu não gosto de analisar os livros dessa forma e busco sempre compartilhar a minha experiência de leitura.

A sinopse não tinha me atraído muito. Evelyn Hugo, uma estrela de Hollywood da década de 60, decide contar a história de sua vida quando está aposentada e próxima dos 80 anos… Mas a situação não é tão simples quanto parece. Primeiro, porque Evelyn teve uma vida bastante agitada, colecionando 7 casamentos. Em segundo lugar, a estrela de Hollywood exige que sua história seja contada apenas para uma jovem jornalista, Monique Grant. Não há nenhuma relação aparente entre as duas e isso já cria um ar de mistério.

Confesso que nas primeiras 20 páginas fiquei bem preocupado com o que viria pela frente. Achei um começo bem sem graça e com uma linguagem mais adolescente. No entanto, a construção da história começou a tomar um rumo interessante e, a partir dos 30%, fisguei a isca jogada pela autora. É uma obra “page turner”, que você quer saber o que vai acontecer e fica difícil de parar.

Além disso, a autora aborda temáticas importantes, sobretudo em relação à comunidade LGBTQIA+ e à discriminação racial. Achei que seria um livro clichê sobre o universo de Hollywood e dos famosos, mas não foi isso que encontrei. São muitos diálogos que preenchem a obra e, apesar de isso ajudar na fluidez, acabou prejudicando um pouco a construção dos personagens. A própria Evelyn e seu amigo Harry foram os personagens com que mais me conectei. Também esperava mais do final!

Enfim, não é o tipo de narrativa que mais gosto, mas a experiência foi gostosa e li o livro em poucos dias. Uma ótima opção dica para quem está querendo criar o hábito: leitura rápida e fácil, com temas interessantes.

Mandíbula, de Mónica Ojeda | Resenha

Você já leu literatura equatoriana? No Brasil, ainda encontramos muita dificuldade de acessar autoras de países mais periféricos do mercado editorial. É importante valorizar quando editoras fazem esse movimento de trazer obras pouco conhecidas, o que é o caso de “Mandíbula”, da equatoriana Mónica Ojeda, que agora povoa as livrarias após a publicação da @autentica.contemporanea !

Antes de iniciar a leitura, procurei ler opiniões na internet, um hábito que tenho na hora de escolher os livros. Me deparei com opinões bem diferentes umas das outras. No entanto, algo que estava presente em quase todas as críticas era o quanto o romance de Ojeda era perturbador!

A narrativa tem como ponto de partida o sequestro de uma aluna do ensino médio por sua professora de literatura, Miss Clara. Uma situação bastante inusitada e que logo no início já aguça a curiosidade do leitor: qual seria o motivo disso? Com o passar dos capítulos, vamos adentrando às memórias da professora e da aluna para compreender o presente. Aos poucos o leitor vai descobrindo que o passado da professora é muito mais complexo e cheio de traumas. Por outro lado, conhecemos um pouco mais de uma estudante fascinada por histórias de terror e com ideias arrepiantes.

E o que deixa mais perturbadora a obra não é o enredo em si, mas a escrita de Ojeda. Uma linguagem crua, que toca em temas sensíveis como relações familiares, sobretudo a relação entre mãe e filha, sexualidade e violência. Tudo isso junto e misturado. É uma paranoia, um horror de verdade, um livro sobre o medo íntimo.

A leitura me prendeu e no começou gostei bastante. O problema é que senti falta de um melhor desenvolvimento da narrativa. Acho que fiquei esperando mais acontecimentos quando, na verdade, o objetivo da autora foi focar nos traumas e no passado dos personagens. Isso acabou prejudicando minha experiência com o livro e, apesar de ter lido super rápido, fiquei com a sensação de que faltou algo a mais. O problema com expectativas…

Se a premissa do livro te interessou, vai com tudo! Mas lembre-se, essa não é uma leitura para qualquer um.

A cabeça do santo, de Socorro Acioli | Resenha

Quando o assunto é literatura, tem duas coisas que amo: Gabriel García Márquez e realismo mágico (obras que contêm uma visão realística do mundo, mas com elementos mágicos). A obra da autora brasileira Socorro Acioli reúne os dois, tendo desenvolvido “A cabeça do santo” em uma oficina ministrada por ninguém menos que o incrível Gabo (apelido para os íntimos, hehe).

O cenário é a cidade de Candeia, no sertão cearense. Samuel vai até a pequena e abandonada cidade para cumprir o último desejo de sua mãe: ir em busca do pai, a quem nunca conheceu. A premissa é bem parecida com o livro “Pedro Páramo”, um clássico da literatura mexicana e que inspirou o estilo de García Márquez. Mas apesar das semelhanças iniciais, o desenvolver da narrativa toma um caminho bem diferente – e muito criativo.

Ao chegar na cidade e se deparar com um cenário de abandono, Samuel busca abrigo em um local nada comum e que marcou a história de Candeia. Trata-se da cabeça oca de um santo, que nunca chegou a ser colocada no topo da estátua para a qual foi projetada. Não bastasse a peculiaridade do refúgio, o personagem passa a escutar vozes femininas quando está dentro da cabeça do santo. E a pergunta que fica é: o que essas vozes têm em comum? Estaria Samuel imaginando coisas?

A escrita de Socorro é fácil e nos transporta para uma história deliciosa de se ler! Tem romance, bom humor, mistério, drama… Daqueles livros coringas, que é difícil de alguém não gostar. E depois da leitura, não deixe de escutar o episódio do @dariaumlivropodcast com a autora para saber a inspiração – verídica – da história! Super recomendo!

Mayombe, de Pepetela | Resenha

Escritor angolano, vencedor de vários prêmios literários, Pepetela foi o escolhido para representar o seu país no Bookster pelo Mundo! Mayombe é um de seus livros mais importantes, tendo sido incluído por vários anos em listas de vestibulares aqui no Brasil.

Publicado em 1979, a obra narra a luta dos combatentes do MPLA pela libertação de seu país contra as tropas portuguesas. O cenário principal é Mayombe, uma floresta tropical em que soldados de diferentes tribos da Angola passam um longo período à espera de um conflito armado contra o inimigo comum. A floresta e a guerra são personagens importantíssimos da narrativa e estão presentes ao longo de toda a leitura.

Ao mesmo tempo, há diversos personagens humanos que compartilham a tarefa de narrar a história. São vozes de diferentes tribos angolanas e que mostram a diversidade cultural e social no país. É uma Angola que busca não só a libertação do colonizador, mas também uma identidade e união interna. O autor ainda consegue mostrar o lado humano daqueles que vivem a guerra na linha de frente. E os próprios apelidos dos personagens são capazes de revelar suas características.

Confesso que, inicialmente, a leitura não foi das mais fáceis. Tive dificuldade de identificar os personagens nas cenas iniciais e diálogos construídos pelo autor – e acho que os apelidos pouco comum dos combatentes possa ter contribuído para isso. Mas a partir da segunda parte do livro, consegui me envolver mais com a história e entender melhor a dinâmica de conflitos que preenchem a obra. Para finalizar, a live que fizemos no Clube do livro com uma especialista no tema foi essencial para enriquecer a experiência da leitura!

Um livro denso que reune de forma muito interessante os conflitos armados que marcaram a história da Angola com os aspectos humanos, mais profundos, que compunham a sociedade daquela época! Recomendo uma leitura sem pressa e com atenção aos detalhes e à escrita poética do autor.