Blog

Arroz de Palma, de Francisco Azevedo | Resenha

100 ano de história de uma família. É essa a proposta de “Arroz de Palma”, belíssimo romance sobre imigrantes que vêm de Portugal para o Brasil no início do século passado. O ponto de partida da narrativa é um casamento celebrado em 1908. Só que diferentemente do que você imagina, o mais importante desse evento não é apenas a história dos noivos, mas também os grãos de arroz que são jogados sobre eles para desejar prosperidade e fertilidade.

Ao ver o arroz esquecido na porta da igreja, Palma, a irmã do noivo, decide catar grão por grão como forma de recordação daquele momento tão importante e presenteá-los aos noivos. O que ela não imagina é que esse gesto dá início a uma tradição que seguirá os descendente dessa família por um século, sendo testemunho de novos amores, brigas e reconciliações.

Confesso que romances geracionais como esse estão no topo dos estilos favoritos de leitura. Gosto de acompanhar as novas gerações, com o amadurecimento dos personagens, ao mesmo tempo que percebo as mudanças no cenário político e social. E, na minha opinião, Francisco Azevedo faz isso com muita habilidade. O autor consegue não apenas criar personagens bem construídos e um enredo interessante, mas também se vale de uma escrita poética. E para dar um toque a mais na narrativa, “Arroz de Palma” ainda apresenta elementos do realismo mágico, atrelados à figura de Palma.

Por tudo o que escrevi, e pelo que ainda você vai encontrar na leitura, “Arroz de palma” é um livro delicioso, daqueles que dificilmente alguém não vai gostar. Só faço uma consideração: em um momento, quando trata de um personagem gay, o narrador – um senhor de 88 anos – faz menção ao termo opção sexual. Talvez isso seja um reflexo de o livro ter sido escrito há mais de 10 anos, mas ainda assim acho importante destacar que o correto é sempre orientação sexual. Nunca é uma escolha.

A natureza da mordida, de Carla Madeira

Carla Madeira é sinônimo de sucesso e muitas vendas. Com isso, quando tem livro novo nas estantes, há altas expectativas. Quando esperamos muito, o risco de uma decepção é maior. Como será que foi a minha experiência com a 3ª leitura de uma obra de Carla Madeira?

Já no começo identifiquei uma característica da autora que eu gosto muito: a poesia na sua escrita. Durante toda a obra me deparei com trechos lindos, que deixaram o livro todo marcado com flags.

É um livro sobre perdas e dificuldade de superação. Quantos de nós não passamos a vida com diversos sentimentos pendurados, que nunca conseguimos deixar para trás. Essa falta pesa e transparece em quem somos. É por isso que Biá logo pergunta para Olívia: “O que você não tem mais que te entristece tanto?”

As duas se conhecem por acaso em uma banca ao ar livre, que também vende livros usados. Depois de uma primeira conversa, uma mesa simples daquela espécie de sebo para ser o ponto de encontro de Biá e Olivia aos domingos. As duas compartilham um pouco de suas vivências: Olivia é uma jovem jornalista, enquanto Biá é uma aposentada apaixonada por literatura. Apesar das diferenças de histórias, compartilham perdas em suas vidas.

A amizade que vai sendo construída me envolveu bastante, assim como os segredos que vão sendo desvendados aos poucos. Os capítulos são alternados entre as anotações de Biá e os relatos de Olivia sobre os encontros dominicais. Foi muito acompanhar as conversas das duas e os ensinamentos que Biá, com sua idade mais avançada (e sua memória um pouco falha), pode dar a quem ainda tem muito a viver.

O livro revela muitos acontecimentos, que prefiro deixar que o leitor descubra. Adianto ser uma construção de personagens muito bem feita, na qual nos envolvemos com as dores reveladas. Às vezes, sentia vontade de sentar com as duas naquele sebo e ficar papeando sobre a vida!

Carla Madeira é, sem dúvidas, uma autora excepcional de sua geração, consegue atingir um público amplo, furando a bolha de quem já tem o hábito de ler e despertando a curiosidade em novos – ou esquecidos – leitores.

#DesafioBookster2023 | Janeiro

Para começar o Desafio Bookster 2023, escolhi um acontecimento histórico que marcou o início do século passado e revelou uma dimensão até então inexistente quando o assunto era guerras.

E para retratar esse período, a obra sugerida é Irmão de alma, do escritor francês David Diop. Apesar de ter nascido em Paris, o autor foi criado no Senegal, o que explica a perspectiva histórica da guerra apresentada pelo autor. “Diop desentranha a participação dos soldados da Costa Ocidental da África no conflito, um tema pouco abordado pela literatura”. E é essa a intenção do desafio desse ano, trazer livros com perspectivas pouco comuns dos acontecimentos históricos.

O livro foi vencedor do International Booker Prize e foi escolhido como um dos livros preferidos de Barack Obama.

Sinopse:
“Certa manhã da Grande Guerra, o capitão Armand determinou o ataque contra o inimigo alemão. Os soldados avançam. Em suas fileiras, Alfa Ndiaye e Mademba Diop, dois escaramuçadores senegaleses, entre todos aqueles que lutavam sob a bandeira francesa. Poucos metros depois de ter saltado da trincheira, Mademba cai, ferido de morte, sob os olhos de Alfa, seu amigo de infância, seu mais que irmão.Alfa se encontra sozinho na loucura do grande massacre, sua razão foge. Ele, o camponês africano, distribuirá a morte nesta terra sem nome. Desapegado de tudo, inclusive de si mesmo, ele espalha sua própria violência, semeia o medo, a ponto de assustar seus companheiros.”

PS: a vida é corrida e a foto teve que ser no aeroporto mesmo kkk

Desafio Bookster 2023 | A História na Literatura

Booksters, o ano mal começou e a gente já tem que começar a planejar nossas leituras. Como venho fazendo há alguns, hoje lanço o #DesafioBookster2023, um projeto para lermos 12 livros juntos durante o ano, sendo um por mês, seguindo um tema escolhido para mim.

E para esse ano, a ideia é lermos livros que se passam em momentos históricos marcantes no Brasil e no mundo, sempre mesclando realidade com ficção. E não só isso, as escolhas também vão buscar trazer perspectivas menos conhecidas sobre esses momentos de nossa História. Nada melhor do que aprender enquanto nos divertimos e nos emocionamos!

E para participar é super fácil: basta acompanhar aqui e alguns dias antes do início do mês eu conto qual o livro e o acontecimento histórico escolhido. Amanhã sai o livro de janeiro!

NOVIDADE! Nos próximos dias conto para vocês, mas a ideia é complementar a experiência da leitura conjunta de forma mais enriquecedora.

Açúcar queimado, de Avni Doshi | Resenha

“Eu estaria mentindo se dissesse que o sofrimento da minha mãe nunca me deu prazer”. Assim se inicia a obra de Avni Doshi, jovem autora norte americana e filha de imigrantes indianos. Finalista do Booker Prize de 2020, “Açúcar Queimado” traz a história de Anantara e sua difícil relação com sua mãe.

Enquanto a personagem principal narra a história, sua mãe sofre com uma demência e acaba se esquecendo de muitas lembranças. Anantara se vê na obrigação de cuidar da mãe, mas sofre com um conflito interno: como cuidar de alguém que nunca cuidou de mim quando deveria?

E para lidar com toda essa angústia, a personagem revisita seu passado. Sua mãe abandonou o marido quando Anantara ainda era criança e fugiu para uma comunidade mística, seguindo os passos e ensinamentos de um guru. Anantara se viu abandonada em muitos momentos, sofrendo pelas decisões de uma mãe completamente perdida e obcecada por uma entidade controversa.

Durante a leitura, fica muito evidente o ressentimento de Anantara pela infância que teve e como isso afetou a mulher que é hoje. Mas, ao mesmo tempo, não consegue virar as costas para aquele ser humano doente que, apesar de tudo, continua sendo sua mãe.

Com uma escrita tranquila, Avni Doshi toca em temas delicados, questionando a idealização da maternidade. Também achei muito interessante entender um pouco mais sobre o papel da mulher na sociedade indiana. Mas vale dizer que as idas e vindas da autora, que mescla passado e presente, podem tornar a leitura um pouco confusa em alguns momentos. Por isso, não espere uma narrativa linear.

Gostei da leitura, que se mostra uma boa oportunidade de ler sobre um universo distante do nosso. Terminei o livro animado pelo que uma autora tão jovem ainda poderá escrever!

A Última Filha, de Fatima Daas | Resenha

Um livro, acima de tudo, sobre a busca por uma identidade. “A última filha” é uma obra diferente de tudo que você que já leu, principalmente pela forma como a autora constrói sua narrativa. Mistura de autobiografia com ficção, em que o ritmo cadenciado das frases marcam os capítulos curtos. Como a sinopse indica, o ritmo de Fatima Daas ecoa “o rap ou o slam, ou ainda as rezas do alcorão”. Difícil de explicar para quem ainda não leu.

Além da escrita, os temas abordados pela autora são interessantíssimos. Fatima Daas é francesa, descendente de pais argelinos. Sua vida é marcada pelos conflitos. Como sentir a França como sua casa se seus pais não se identificam com o lugar e cultura? Como lidar com o choque cultural de ser criada em uma família muçulmana praticante em um país majoritariamente católico?

Mas os conflitos não param por aí. Fatima faz parte da comunidade LGBTQIA+ e nos conta sobre sua paixão por uma mulher, portanto, se vê como uma pecadora. Isso não a impede de viver o que ela realmente é, da forma que se identifica. Será possível ser muçulmana, religiosa, e divergir do padrão heterossexual?

A definição de Fatima pela própria autora deixa mais nítido o que encontraremos no livro: “Eu me chamo Fatima Daas. Sou a mazoziya, a caçula, a última filha. Aquela para a qual não estamos preparados. Francesa de origem argelina. Muçulmana praticante. Uma suburbana que observa os comportamentos parisienses. Sou uma mentirosa, uma pecadora. Adolescente, sou uma aluna instável. Adulta, sou hiperinadaptada. Escrevo histórias para evitar viver a minha.”

Um livro muito interessante, daqueles que a gente lê em poucos dias. Vale a experiência de partir para uma leitura diferente do que estamos acostumados a fazer, tratando de temas muito atuais.

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas | Resenha

A obra é, sem dúvidas, um dos principais marcos da literatura mundial. Um clássico que com suas quase 2 mil páginas pode assustar alguns leitores. Mas desde já eu te garanto: pode colocar esse livro na lista das próximas leituras. O enredo é muito bem construído e, apesar de ter sido escrito em 1844, a escrita é bem tranquila. Daqueles livros que você vai passando as páginas sem nem perceber.

E por trás de tantas páginas temos intrigas, mortes, prisões, amores, traições…. De tudo um pouco! Mas o tema principal de O Conde de Monte Cristo é a vingança. É, inclusive, umas das principais referências sobre o tema. E de onde surge tamanha vingança?

O personagem principal é Emdond Dantés, um jovem simples, sem muitos recursos, que se apaixona por uma bela jovem, com quem pretende casar. Sua vida, no entanto, é completamente abalada por uma traição. Dantés é vítima de um complô, que o leva para trás das grades de uma prisão isolada. O personagem perde tudo o que tinha, sem ter feito nada que justificasse sua queda.

E é a partir desse cenário tão cruel que Dantés, com a ajuda de um prisioneiro pouco convencional – e com ideias bem criativas -, começa a planejar sua fuga e todo o seu plano de vingança contra os responsáveis por sua situação.

Não quero me alongar no enredo, porque são muitos detalhes, personagens e reviravoltas. E tudo isso acontece em um contexto histórico bem interessante: a narrativa inicia em 1815, quando Napoleão Bonaparte está no poder, e atravessar muitos anos. Assim, além de mergulhar em uma trama completa, o leitor ainda se depara com parte importante da História francesa e da estrutura social daquela época.

Em resumo, é um livro sensacional! Foram três meses de leitura, junto com outras obras, que acabaram fazendo falta depois de terminar as últimas páginas. Indico muito essa edição da @editorazahar, com um excelente tradução, comentários e lindas ilustrações. Ah, e tem uma live salva aqui no meu perfil com um dos tradutores dessa edição.