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Carta a D. – história de um amor, de André Gorz | Resenha

É cada vez mais frequente escutarmos sobre o problema de idealizarmos o relacionamento perfeito, a busca pela alma gêmea e o viveram felizes para sempre, que costumamos assistir em filmes e de pessoas que acompanhamos nas redes sociais. Mas será que o relacionamento precisa ser perfeito para ser marcante e duradouro? Não estaria o amor também presente nos momentos difíceis e de imperfeições?

Em “Carta a D.”, o filósofo austro-francês nos convida a conhecer, por meio de uma belíssima declaração de amor, um pouco do seu relacionamento de quase seis décadas com sua companheira. Publicado em 2006, o Gorz escreve para Dorine, relembrando tantos momentos de companheirismo, quando sua esposa já sofre de uma doença degenerativa irreversível. E até diante dessa certa da não cura, o autor consegue demonstrar o cuidado e a admiração por quem viveu tanto tempo ao seu lado, como já encontramos no início do seu texto:

“Você está para fazer 82 anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que 45 quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca.”

Mas, antes de ler, é importante você saber que a declaração não foi construída a partir de uma escrita poética ou que o texto se restringe à relação do casal. Talvez a própria formação de filósofo de Gorz explique o fato de o autor também mergulhar no contexto histórico dos momentos em que viveram, abordando ainda temas políticos e filosóficos, com um pano de fundo sobre a sua vida que extrapola a relação com Dorine.

E a história dos dois tem um final que não está na declaração, mas que certamente é digna de um livro: um anos depois da publicação de “Carta a D.”, Gorz e Dorina triaram a própria vida juntos. O bilhete deixado pelo filósofo está ao final da edição.

Um livro curtinho, mas que nos faz refletir e, porque não, acreditar no amor.

Desafio Bookster 2023 | Julho

#DesafioBookster2023
Mês: Julho
Acontecimento histórico: Ditadura militar no Brasil
Livro: “Todos nós estaremos bem”, de Sérgio Tavares

Começamos a segunda metade do ano com um livro escrito por um autor nacional contemporâneo, que traz a perspectiva do período da Ditadura Militar no Brasil a partir de um personagem casado com uma mulher, mas que esconde as suas relações com homens a qualquer custo. Estou curioso com essa leitura, bora?

Sinopse:

“Roberto é um empresário que enriqueceu durante a ditadura e que vive imerso em obsessões sexuais por outros homens – e em mentiras para encobri-las. Lúcia, sua esposa, é uma ex-guerrilheira do MR-8 que atuou em sequestros e assaltos a bancos, até ser presa e torturada antes de ir para o exílio. E é no entrelaçar dessas trajetórias, que vão do final dos anos 60 ao alvorecer do novo milênio, que Sérgio Tavares retrata uma geração que lutou por liberdade, mas que não estava pronta para vivê-la quando a conquistou.”

O Acontecimento, de Annie Ernaux | Resenha

Confesso que, apesar de não ter me fisgado no primeiro contato que tive ao ler “O lugar”, Ernaux conseguiu me fascinar com as leituras que vieram na sequência. “O acontecimento” talvez seja o mais impactante de todos, sobretudo pela forma com que trata um tema tão sensível e polêmico.

Como é característico de suas obras, somos apresentados às memórias da autora, especificamente no ano de 1963, quando Ernaux descobre estar grávida de um namorado recente em sua vida. A difícil decisão, em um cenário de desamparo familiar, é de seguir pelo aborto clandestino. A ilegalidade daquele ato e a falta de recursos faz com que aquele caminho traumatizante ficasse ainda mais desafiador. Uma jovem sozinha e correndo riscos de perder a própria vida.

É impressionante como a autora consegue fazer uma mistura entre suas memórias e um tom impessoal, que expande os assuntos tratados para um cenário mais coletivo. No caso de “O acontecimento”, essa habilidade é somada à inegável coragem de expor uma passagem tão íntima e dolorida. Mas compartilhar com o mundo é, para a autora, quase uma necessidade.

Um relato muito impactante e verdadeiro de um tema que precisa ser discutido, principalmente quando consideramos que O Acontecimento de Annie Ernaux ainda é uma realidade de tantas mulheres. Fico contente de saber que a autora de uma obra corajosa como essa ganhou notoriedade mundial e que seus textos passam a ser cada vez mais lidos. Por isso, minha recomendação não podia ser outra: leiam Annie Ernaux

Ps: contém gatilhos sobre aborto.

Clara lê Proust, de Stéphane Carlier | Resenha

Quando você pensa em “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, o que lhe vem à cabeça? Um livro longo, detalhista e difícil? Então, a história criada pelo francês Stéphane Carlier vai te ajudar a desconstruir essa impressão.

Clara, a protagonista, vive em uma cidade francesa e trabalha em um pequeno cabeleireiro local. Sua rotina é comum, sem grandes acontecimentos, ao lado do namorado cuja beleza chama a atenção da dona do salão. Um dia, ela se vê diante de um presente um pouco inusitado que vai modificar os seus dias – e, quem sabe, o seu futuro. Trata-se do livro “No caminho de Swann”, primeiro volume de um dos maiores clássicos da literatura mundial, “Em busca do tempo perdido”.

Logo nas primeira páginas, Clara se vê fisgada pela forma como o autor descreve os cenários criados em sua narrativa. As cenas minuciosas despertam lembranças de sua infância e a protagonista fica fascinada com a habilidade do autor em despertar emoções apenas com as palavras.

E no decorrer das páginas vamos acompanhando essa relação de Clara com a obra. Confesso que a narrativa envolvendo a vida da protagonista não me cativou muito, sendo o mais interessante da obra as partes em que o autor trazia as leituras de Proust. Apesar de o livro não ter grandes acontecimentos, é uma leitura fácil e gostosa de se fazer.

Com cerca de 150 páginas, a obra pode ser uma boa opção para quem quer fugir de livros mais densos e com temáticas mais pesadas. E não tenho dúvidas de que você vai terminar querendo garantir “Em busca do tempo perdido” nas suas estantes.

Pureza, de Garth Greenwell | Resenha

Como um homem gay que cresceu com pouca representatividade ao redor, fico muito feliz de ver obras contemporâneas com personagens LGBTQIA+ sendo publicadas por grandes editoras e sendo lidas por um público mais amplo. Esse é o segundo romance que eu leio do autor norte-americano Garth Greenwell. O primeiro livro, “O que te pertence”, também tinha como personagem principal um homem gay e acaba revelando um estilo semelhante com a sua nova obra.

Em “Pureza”, somos apresentados a uma professo americano que vive em Sófia, capital da Bulgária. A obra é dividida em partes, que não possuem uma relação de dependência entre si. O autor não faz o uso dos nomes dos personagens, se limitando a apresentar sua inicial, o que pode deixar um pouco confusa a identificação das histórias. De toda forma, a escrita é simples e pouco descritiva, ao mesmo tempo que consegue adentrar na intimidade do protagonista.

Senti que, diferentemente de “O que te pertence”, o novo livro mergulha menos em um aspecto de relacionamentos afetivos, com passagens mais longas e explícitas de encontros e relações sexuais. A capacidade de descrever essas cenas de uma forma crua e bem construída surpreende o leitor. Talvez tenham sido as cenas mais intensas que já li. Há, ainda, reflexões interessantes sobre a culpa relacionada aos desejos e fantasias sexuais, que acabam desgastando o protagonista e criando dúvidas. Quais seriam seus verdadeiros gostos e do que ele havia reprimido por conta da sociedade conservadora em que vive? Existiria vergonha no desejo?

A abordagem mais romântica da obra fica para as passagens em que o professor relembra de sua primeira paixão e os sofrimentos com o fim desse relacionamento. Também gostei da atmosfera mostrada pelo autor do cenário em que se passa a obra, revelando um pouco do contraste de um norte-americano vivendo em uma cidade com resquícios de um governo socialista.

Salvar o fogo, de Itamar Vieira Junior | Resenha

A expectativa do mercado literário estava grande, quase 40 mil exemplares vendidos na pré-venda, e não tinha como ser diferente. A obra antecessora do autor conseguiu um feito que não se via há décadas: um livro contemporâneo nacional furou a bolha para vender mais de 700 mil exemplares. Gostando ou não do livro, essa conquista deve ser muito celebrada por quem se importa com a leitura em nosso país.

E também não há como ignorar as recentes críticas acadêmicas negativas sobre a obra. No entanto, na minha opinião como leitor, o novo livro de Itamar já é um sucesso. É verdade que ele segue um estilo muito semelhante de “Torto arado”, mas em momento senti que a proposta do autor foi ser inovador. Há, inclusive, referência a personagem de seu primeiro romance.

“Salvar o fogo” nos leva a um cenário característico do nosso país. Tapera é uma comunidade na zona rural da Bahia e com moradores de origem afro-indígena. É o resultado de um país miscigenado, contando ainda com a presença do homem branco europeu a partir da figura da igreja católica.

O início da leitura já me prendeu. O mosteiro construído há alguns séculos se alterna como pano de fundo com a casa da família que será o centro da narrativa. As críticas à igreja e sua hipocrisia têm lugar relevante nessa primeira parte. Ao se deparar com os personagens que emprestarão sua voz para nos guiar na narrativa conseguimos compreender que, apesar de uma realidade de pobreza e faltas, a complexidade de suas vivências não os torna menores que os grandes donos das terras.

Luzia, a personagem mais fascinante da obra, é atacada pelos demais cidadãos de Tapera por seus supostos dons sobrenaturais. Sua deformidade física ainda a torna vítima de piadas. Mas é na força m de Luzia, e nos segredos que acompanham seu passado, que o autor consegue construir a sua personagem mais emblemática.

Senti que o ritmo diminuiu um pouco na segunda parte da obra, mas nada que tenha prejudicado a experiência da leitura. Com “Salvar o fogo”, Itamar se mantém como um dos principais nomes da literatura nacional e, o mais importante de tudo, atraindo novos leitores ao prazer da literatura.

O Diabo e outras histórias, de Liev Tolstói | Resenha

Falar em Tolstói pode dar um pouco de medo em alguns leitores. Eu mesmo tive receio de ler clássicos por muito tempo, acreditando que seriam livros difíceis ou que não fariam sentido para mim, sendo que literatura russa era uma escolha impensável. Se você pensa assim, confie em mim e dê uma chance. Mas comece aos poucos, por contos ou romances mais curtos, isso pode ajudar bastante. Fica uma dica aqui então de uma seleção incrível de contos de um dos maiores autores da literatura mundial.

Na minha opinião, ler Tolstói e se deparar com uma análise muito inteligente sobre as relações humanas e os diferentes papéis dos indivíduos de acordo com sua posição social. Nos textos dessa edição, traduzidos direto do russo, essa característica do autor fica bem evidente.

Gostei de todos os textos, o que nem sempre acontece em uma coletânea, sobretudo considerando que conto não é um gênero literário que eu costumo ler. Sou mais das novelas/romances, textos mais longos.

No conto que dá nome ao livro, vemos a história de um amor quase obsessivo e a culpa que segue o apaixonado pela traição. É o conflito entre desejo e moral. Em “Três mortes”, talvez o meu favorito, narra o destino que é comum a todos, mas que pode acontecer de formas diferentes, a depender de sua condição social.

“Kholstómer” é uma inteligentíssima crítica social a partir da relação e diálogos entre cavalos. Como é ser um diferente em uma sociedade que valoriza os iguais. Por fim, “Depois do baile”, o conto que menos me impressionou, é uma história sobre uma paixão que passa a ser questionada por conta de um conflito moral.

Leitura deliciosa e que, em poucas páginas, revela a genialidade do autor.