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Como tigres na neve, de Juhea Kim | Resenha

O livro foi o escolhido para o mês de agosto do Desafio Bookster 2023 para o tema Independência da Coréia. É um romance histórico daqueles que tem todos os elementos para agradar o leitor: um bom contexto histórico, enredo ficcional bem desenvolvido, escrita fácil e um conhecimento adicional dos costumes da sociedade.

A autora nos transporta para as primeiras décadas do século passado, quando a Coréia ainda não era dividida e sofria com a ocupação japonesa. A narrativa é conduzida em torno de Jade, uma jovem que é vendida pelos seus pais a uma escola de formação de cortesãs. A decisão acaba surgindo como uma forma de conseguir garantir à garota um futuro longe da miséria e com mais oportunidades.

Há, ainda, a história de um garoto, JungHo, filho de um simples caçador, que se vê tentando sobreviver nas ruas de uma cidade grande. A trajetória dos dois personagens se cruza em diferentes momentos e, a partir disso, surge uma relação de amizade. Suas vidas encontram obstáculos na violência do exército japonês, na pobreza, no machismo e na forte desigualdade social.

A autora conseguiu mesclar bem a parte histórica com a parte ficcional. Há referências a momentos específicos e reais, de revolta da população coreana à ocupação japonesa. Esse período marcou muito a Coréia, deixando cicatrizes em uma sociedade usada e violentada.

É uma leitura envolvente, mas confesso que eu esperava mais do desenvolvimento da narrativa, que em alguns momentos ficou mais lenta. Gostei muito da abordagem sobre a parte mais cultural, das tradições e costumes sociais. Senti como se estivesse lendo uma novela interessante. Vai agradar quem, assim como eu, gostou de “Herdeiras do mar” ou “Pachinko”, por envolver o mesmo cenário e contexto histórico.

Meu irmão, eu mesmo, de João Silvério Trevisan | Resenha

Uma leitura impactante de um dos grandes nomes da luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+. Em seu último livro, Trevisan constrói um relato autobiográfico que vai além de temas ligados à sexualidade. A sua relação com seu irmão mais novo, Claudio, é o enfoque da obra, que ainda atravessa as dores da perda e a consciência da proximidade da morte.

Era Trevisan que deveria ter deixado suas lembranças na memória do irmão, já que o autor tinha sido surpreendido com a descoberta da infecção pelo vírus HIV. No início da década de 90, depois de ver tantas pessoas próximas partirem, Trevisan acreditava que aquela notícia seria uma sentença do fim dos seus dias. No entanto, seu irmão, por quem tinha uma linda relação de amizade e acolhimento, se torna vítima fatal de um câncer, antes mesmo de completar 50 anos.

Essa perda crava cicatrizes nunca esquecidas no autor, que compartilha em seu último lançamento todo o seu processo de luto e os últimos momentos com seu irmão. Mesmo quem nunca sentiu esse vazio causado por uma falta tão importante, vai compreender a angústia de Trevisan.

E as dificuldades de ser um homem gay nas décadas passadas, assim como todo o estigma – e ignorância – que recai sobre pessoas que vivem com o vírus HIV também são denunciados de forma muito aberta em “Meu irmão, eu mesmo”. Apesar se ser um livro voltado para a sua história com Claudio, o autor aborda muito de suas memórias e vivências na solidão de não se encaixar em uma sociedade preconceituosa.

Um livro importantíssimo pelas temáticas que aborda, de uma forma verdadeira e corajosa. Valorizar um autor nacional como João Trevisan é necessário quando pensamos em uma literatura mais diversa.

Não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara | Resenha

A segunda obra que leio da jovem autora paulistana me confirmou o que venho dizendo há um tempo: Mariana Salomão Carrara é uma das mais promissoras autoras contemporâneas que temos. Gosto muito de sua capacidade de mergulhar nas emoções e relações humanas, sempre caminhando pelo tema do luto.

Em seu último romance, nos deparamos com uma premissa trágica e fora do comum: um homem se joga da janela de seu apartamento e acaba caindo em cima de seu vizinho. Era o instante errado. E se o vizinho tivesse demorado mais dois segundos para sair de casa, o destino seria outro? E se o banho tivesse sido mais longo? Essa pergunta sem resposta não evita o triste fato de que o acontecimento foi fatal. Um instante trágico que mudou e terminou com vidas.

E é a partir dessa tragédia que a história passa a a ser construída, conduzindo o foco para as duas viúvas. Duas mulheres que se vêm sozinhas sem aviso prévio. Até então apenas vizinhas, começa a surgir algum tipo de relação entre elas, sobretudo por conta da insistência de um dos lados. Uma amizade improvável e que terá futuro? E para completar essas relações, há uma nova vida que faz parte desse cenário. Uma criança, que agora precisa ser criada por uma mãe solo.

Em uma série de tentativas de recomeço, a autora constrói um romance criativo e profundo, que acaba sendo coroado pela sua escrita poética. Gostei muito da leitura e fico curioso com o que Mariana ainda produzirá para a literatura nacional. Para quem ficou interessado, além de ler o livro, tem um papo muito legal com a autora no meu podcast @dariaumlivropodcast.

Dois irmãos, de Milton Hatoum | Resenha

Milton Hatoum é um dos mais importantes autores contemporâneos nacionais. No entanto, até pouco tempo, nunca havia lido uma obra sua. Recebia com frequência alguma indicação sua e Dois irmãos estava na minha lista há um bom tempo. E que bom que eu resolvi tirar ele da estante… Adorei a leitura!

Apesar do título, a obra vai muito além da relação entre os dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar. É um retrato profundo sobre os laços familiares – muitos deles desgastados – e a sua decadência ao longo dos anos. O cenário é a cidade de Manaus, no meio do passado, mas os principais acontecimentos se dão dentro da casa dessa família, de origem libanesa. E além de pais e filhos, moram na casa a empregada doméstica e seu filho que, inclusive, é o narrador da história.

E os desentendimentos que passam a marcar a família têm origem em um conflito físico entre os irmãos. Um deles é agredido e acaba ficando com uma marca definitiva em seu corpo. É a marca das diferenças entre Yaqub e Omar, sendo uma das principais a desigualdade de amor materno que cada um recebe. Omar é tido como mais frágil pela mãe e, por isso, é agraciado com uma atenção maior. Para Yaqub, resta a tentativa de equiparar esse amor.

Publicado em 2020, quando ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance, o livro continua fazendo sucesso e figura na lista de vários vestibulares pelo país, dentre eles a Fuvest. “Dois irmãos” já é um clássico e, acima de tudo, uma leitura deliciosa e impactante.

Desafio Bookster 2023 | Outubro

Mês: Outubro
Acontecimento histórico: Genocídio de Ruanda
Livro: Baratas, de Scholastique Mukasonga

Viajei à Ruanda em 2020. Me encantei pelo país e pela história de um povo que conseguiu se unificar e se reerguer depois de um dos períodos mais tristes e brutais da História recente.

Pertencente à etnia tutsi, Scholastique sofreu intensamente com o genocídio de Ruanda, em 1994, enquanto grande parte de sua família era assassinada, sendo ela uma das únicas sobreviventes. Apesar de viver na França quando o genocídio aconteceu, a escritora carrega esse duro passado que é um de seus motes para a escrita, onde busca relatar o extermínio dos tutsis, o luto e a perseguição e morte de 800 mil pessoas. Entre romances e autoficção, Mukasonga tornou-se uma escritora conhecida e aclamada, uma referência quando falamos sobre resistência e história. Li dois livros da autora e gostei bastante, por isso resolvi escolher Scholastique para esse desafio.

Sinopse:
“Baratas compõe o ciclo testemunhal de sua obra, junto com os romances A mulher de pés descalços e Nossa Senhora do Nilo, ambos publicados pela Editora Nós em 2017. Neste relato autobiográfico em que se associam memória coletiva e individual, Scholastique Mukasonga descreve, de maneira pungente e sem concessões, a emergência, a implementação e as consequências catastróficas da máquina genocidária. Verdadeira arqueologia do terror, Baratas evoca o longo e doloroso processo de aniquilamento do indivíduo: as pequenas humilhações cotidianas, o medo e a política segregacionista de erradicação de uma população submetida à condição de animal a ser destruído. Em suma, a longa agonia dos tutsis em Ruanda sob o olhar indiferente da comunidade internacional. Entre o desejo de preservar os vestígios de um passado em ruínas e a promessa implícita de conservar a história familiar, Baratas se quer escrita de um memória e denúncia da engrenagem de uma barbárie formidável e tristemente moderna.”

Gostaram da escolha? Alguém já leu?

@editoranosbr
192 páginas

A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Montero | Resenha

A obra da autora espanhola Rosa Montero vem conquistando muitos leitores aqui no Brasil. Resolvi ler “A ridícula ideia de nunca mais te ver” por três motivos. Em primeiro lugar, eu recebia muitas indicações dos seguidores, que haviam ficado apaixonados pela obra. Em segundo lugar, a presença do tema do luto nas páginas da narrativa. E, por fim, esse título sensacional!

Mas para a minha surpresa, nem boa, nem ruim, Rosa Montero escreve um livro que vai muito além da perda (diferentemente do que propõe a sinopse). É até difícil de encaixar a sua criação em um gênero literário específico, já que a autora mistura vivências autobiográficas com a história de uma das principais cientistas de nossa História, a franco-polonesa Marie Curie, vencedora de dois prêmios Nobel. E tudo isso é contado por meio de uma linguagem muito acessível, dialogando com o leitor e abordando reflexões atuais.

A ideia de escrever o livro veio depois que Rosa Montero leu o diário da cientista, pouco tempo depois de ter perdido o seu marido. E foi a partir desse ponto em comum da história das duas mulheres, já que Marie Curie também se tornou viúva ainda jovem, que ela constrói essa narrativa mista.

Gostei muito de conhecer mais da vida – e dos feitos extraordinários – da cientista polonesa. Eu já havia assistido ao filme sobre a sua história, mas a leitura de “A ridícula ideia de nunca mais te ver” trouxe muitos detalhes que eu não sabia. As reflexões sobre o luto também foram muito interessantes e deixaram várias marcas na minha edição.

Recomendo bastante a leitura, mas fica o aviso de que não é um livro exclusivamente sobre a perda e de que a construção da obra foge de um gênero comum, o que pode gerar um pouco de estranheza no leitor. E, por fim, vale a ressalva de que não gostei tanto das partes em que a autora usava # para dar um ar mais moderno ao texto (o que não prejudicou em nada a leitura).

As pipas, de Romain Gary | Resenha

Eu fiquei encantando com a leitura de “A vida pela frente”, do autor francês Romain Gary. Desde então, foram publicados outras obras do autor no Brasil, sendo uma delas “As pipas”. O livro foi escolhido para o Desafio Bookster desse ano no mês em que o tema era a 2ª Guerra Mundial.

E o que me fez escolher o livro, além do interesse por Gary, foi o fato de a narrativa mostrar a guerra – e o período que a antecedeu – a partir de uma perspectiva não tão vista nos livros: a vida de uma criança, de alguém que não estava no front das batalhas. Nos deparamos com a realidade de quem foi afetado pela guerra no cotidiano de uma vida aparentemente comum e que é mantida pela esperança do fim do conflito.

O cenário é a Normandia, no norte da França. O protagonista é Ludo, um menino que vive com seu tio, Ambroise, um personagem peculiar e famoso pela fabricação de pipas (e daí vem a origem do título do livro). As pipas, inclusive, acabam se tornando como um personagem da história, que confere um tom meio mágico ao ambiente criado.

Além da interessante relação com o tio, grande parte da obra aborda a obsessão de Ludo com uma jovem de família polonesa, Lily. Os dois se conhecem no período que antecedeu a guerra e a amizade – ou talvez uma possível relação amorosa – acaba sendo tumultuada pelo caos e a insegurança que tomam conta da atmosfera da Europa.

A narrativa tem um ritmo mais lento, mas isso não me incomodou. Li com calma, apreciando a escrita do autor e a forma como o cenário era construído. Recomendo para quem gosta de um romance histórico, mas não espere grandes acontecimentos.