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Em agosto nos vemos, de Gabriel García Márquez  | Resenha

O aguardado romance póstumo do amado Gabo, um dos meus autores favoritos, já inicia com uma mensagem dos seus filhos aos leitores: Ao julgar o livro muito melhor do que lembrávamos, nos ocorreu outra possibilidade: de que o declínio de suas faculdades mentais, que não permitiu a Gabo terminar o livro, também o impediu de perceber como ele estava bem-feito.

Hoje, data do seu aniversário, acontece o lançamento mundial do romance. Na origem, a ideia era criar cinco contos com uma personagem em comum, mas Gabo optou por uma linha narrativa única para essa novela. A personagem principal é uma mulher – o que é inédito para os textos de Gabo – próxima dos 50 anos, mãe de dois filhos e que vive um relacionamento morno e longo com um músico.

Todos os anos, em 16 de agosto, Ana Magdalena visita a ilha em que sua mãe está enterrada. A sua missão é fazer uma visita ao túmulo e levar flores para aquela que deixou apenas saudades. Aos 46 anos, no entanto, o seu roteiro na ilha sofre uma mudança marcante: ela se relaciona com um homem em uma noite de aventura. A partir disso, o dia 16 de agosto virá uma espécie de libertação e, a cada ano, Ana Magdalena busca novos encontros e experiências nunca vividas. É uma fase de redescoberta, que acaba invadindo os outros espaços de sua vida.

A leitura foi diferente e destoou dos seus outros livros. Em alguns momentos fiquei tentando encontrar aquele Gabo com quem estou acostumado e que tem uma presença tão forte na minha estante. O livro é curto e ver a protagonista tomando conta de suas próprias vontades foi interessante. Leitura gostosa, mas que não me encantou.

A edição é linda, em capa dura, e traz fac-símiles com observações feitas pelo autor. Isso nos aproxima de Gabo. Mas confesso que fiquei com um misto de sensações: a tentação de ler uma nova obra do autor e a sensação de traição por acessar um texto que ele decidiu não publicar. Como seus filhos escreveram, confiamos que o autor entenda essa vontade que temos de consumir tudo o que leva o seu nome.

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Aos prantos no mercado, de Michelle Zauner | Resenha

No que você pensa que te faz pensar das pessoas amadas que já partiram? Para Michelle Zauner, a culinária coreana desperta suas memórias com sua mãe. Ao entrar em um supermercado especializado em comida asiática, a autora desaba. Olha ao seu redor e pensa: minha mãe poderia estar aqui. E junto com as lágrimas, vem a saudades.

E foi esse o sentimento que deu início ao #DesafioBookster2024. A lembrança dos momentos que passamos com aqueles que nos deixaram. No caso de Michelle, não há apenas memórias felizes. A relação com sua mãe foi conturbada e com muitas distâncias, talvez a principal delas a cultural. Sua mãe migrou de Seul em destino os EUA para casar com um norte-americano. A autora nasceu e foi criada na cultura ocidental, apesar da lembrança diária dentro de casa de suas raízes. E apesar da fronteira linguística, suas visitas a Seul eram a prova mais evidente de sua origem.

E para nos levar nesse encontro com o passado, Michelle tempera seu texto com muitas comidas (sendo a maioria impronunciáveis por mim). O ponto mais intenso da leitura inicia quando a autora descobre que sua mãe está com uma doença grave, que acaba a vitimando um tempo depois. Assim como uma receita que leva tempo e exige dedicação, o processo de luta da mãe contra a doença demandou muito das duas. E, para piorar, como é possível viver sem a figura materna? Para mim, um dos meus maiores medos. Para Michelle, uma realidade sem saída, uma sala sem portas, como ela bem descreve.

Confesso que as inúmeras referências à culinária me cansaram, o que prejudicou a minha aproximação com os personagens.
Mas ainda assim, o tema da perda e a relação que ela descreve com a mãe permitiram que eu aproveitasse a leitura! Para terminar, tivemos uma conversa maravilhosa sobre o livro com a @anaclaudiaquintanaarantes, que você encontra no meu canal do Youtube.

Fim, de Fernanda Torres | Resenha

Um grupo de 5 amigos cariocas que se conhecem na juventude e levam uma vida repleta de festas, relacionamentos e intrigas. Uma fase intensa, mas que não os prepara para os próximos capítulos de suas vidas, marcados pelas perdas, solidão e conflitos. Os amigos são muito diferentes um do outro e o seus destinos também os levarão para fins únicos.

Gostei muito da escrita da autora e de como ela usa um humor ácido para descrever os problemas e as falhas de uma geração. Há pouco filtro e muito excesso nas páginas: arrependimentos, traições, tristezas, safadezas e até alguns momentos felizes. E esse excesso não para nos sentimentos, já que muitos dos personagens – com narração em primeira pessoa – nos despertam uma forte sensação de desprezo. É um período marcado pelo egoísmo de um homem machista, que só pensa nos seus próprios interesses e trata as mulheres como um objeto descartável. São personagens estereotipados e com uma verdadeira aversão ao politicamente correto.

O enfoque da obra está mais no interior de cada um dos personagens, e das particularidades da história de cada um, do que na relação entre os cinco. Mas gostei desse mergulho psicológico que a autora faz. A obra também nos faz refletir sobre os diferentes caminhos que a vida de pessoas tão próximas de nós podem levar. Será que aquele amigo que sempre se deu bem e teve tudo o que quis, vai ter um futuro de felicidades? Ou um fim solitário e decadente o aguarda? É a vida crua e real (apesar do traço estereotipado dos personagens).

O cenário em que se ambiente a narrativa também é interessante e acaba desempenhando um papel no livro. Rio de Janeiro da década de 60 e seu avanço pelos passar dos anos.

É uma leitura muito fluida e divertida (ou, na verdade, um tragicômico). Recomendo!

PS: E para quem gostou do livro, indico a adaptação para as telas, que você encontra no @globoplay.

Baratas, de Scholastique Mukasonga | Resenha

“Baratas” é o termo pejorativo para se referir ao povo da etnia Tusti pelos Hutus, que são a maioria em Ruanda. A perseguição ao grupo minoritário era tão intensa que resultou em um massacre no ano de 1994, que vitimou brutalmente quase 1 milhão de pessoas em um período de apenas 100 dias. O Genocídio de Ruanda, como ficou conhecido, é um dos mais brutais acontecimentos da História recente.

A autora nasceu em Ruanda mas conseguiu fugir a tempo e sobreviver ao genocídio. No entanto, a maior parte da sua família não teve a mesma sorte e acabou se tornando mais um dentre tantos Tutsis mortos. E é justamente essas memórias de uma sobrevivente que encontramos em “Baratas”, um texto autobiográfico que alcança as mais antigas lembranças de Scholastique para nos criar um panorama pessoal sobre a escalada da perseguição ao seu povo.

O livro é, por si só, um ato extremamente corajoso, já que a autora precisa revisitar muitos acontecimentos relacionados à morte de sua família e ao medo constante que viveu em um grande período da sua vida. O principal objetivo era sobreviver, desde a sua infância, enquanto seus pais tentavam dar aos seus filhos uma vida o mais normal possível em um ambiente de total insegurança e sem poder chamar a atenção. Algo impossível, que termina na fuga da autora de sua própria terra.

É o meu terceiro livro de Scholastique e fico impressionado com a capacidade da autora de impactar o leitor. A leitura é difícil, com passagens que incomodam por revelarem o grau de violência enfrentado pelos Tutsis. Na minha opinião, é necessário conhecer mais sobre esse acontecimento histórico tão triste e recente, mas que ainda é pouco conhecido por nós. Fica até difícil acreditar que de trata de uma história real. A sensação de revolta é inevitável.

Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara | Resenha

Dilacerante! O romance de quase 800 páginas da autora norte-americana é alvo de polêmicas. Há quem leia e ame, mas há quem enxergue na obra um exagero do sofrimento, a banalização da dor. E em qual desses grupos eu me encaixo?

Bom, para começar, o enredo tem como ponto central a relação entre quatro amigos que se conhecem na universidade e cuja amizade invade os próximos anos de suas vidas. Hanya transita entre um presente e um passado para conseguir nos mostrar as particularidades e histórias de cada um daqueles homens. São dores, perdas e medos, mas que acabam encontrando naquela relação de amizade um amor que acolhe. O problema é que o passado extremamente sofrido de um dos amigos acaba exigindo a atenção de todos e impedindo um futuro sem dor.

Não há como negar que a autora despejou uma carga muito alta de sofrimento, que recai praticamente apenas sobre esse personagem. Às vezes, as repetidas tragédias podem até soar exageradas e inverossímeis, mas Hanya não escreveu somente uma história triste. Na minha opinião, a autora conseguiu construir uma narrativa com personagens extremamente bem desenvolvidos e que despertam a compaixão do leitor. E isso é sim uma consequência de um talento incrível da autora.

Ora, escrever sobre sofrimento não é uma garantia de prender ou impactar o leitor. Todo esse furor que “Uma vida pequena” causa, tem origem nesse universo tão real e humano criado por Hanya. A escrita também é muito cativante, com um mergulho na relação dos quatro personagens principais, ainda que a primeira parte do livro possa ter um ritmo mais arrastado. Há também muitos momentos felizes, emocionantes e que causam sensações boas em que lê a obra.

E o livro é tão impressionante que, muito embora eu tenha ficado com vontade de largá-lo, para não enfrentar mais o sofrimento, eu não consegui. Eu estava apegado demais àqueles amigos e precisava saber sobre o desenrolar daquela narrativa. Terminei o livro aos prantos, mas com a certeza de que os personagens ficaram marcados em mim. E isso, repito, é uma qualidade.

Ainda que eu tenha gostado muito, eu recomendo a leitura com MUITAS ressalvas. Leia ciente de que ele é muito triste e repleto de temas sensíveis, que podem ser gatilhos para diferentes leitores.

Nota 10/10

As pequenas chances, de Natalia Timerman | Resenha

A preservação da memória daqueles que amamos e a busca pela história de quem antecedeu. É a partir de um texto pessoal, com are de autoficção, que Natalia nos apresenta esses temas tão sensíveis.

Tudo começa com um encontro não marcado: a protagonista, que leva o mesmo nome da autora, encontra o médico de cuidados palitivos que atendeu o seu pai nos seus últimos dias de vida. Um breve dialogo entre os dois desperta na protagonista as memórias da perda e dos impactos que um doença tão agressiva trouxe para as pessoas próximas do paciente. E quando a morte chega, a sua marca é sentida para sempre. Não adianta lutar, mas será que é possível nos reconciliarmos com a falta definitiva?

Quem já perdeu alguém próximo não consegue passar intocado pelas palavras da autora. Seu texto desperta identificações em quem lê, como uma recordação de que com os livros encontramos um eco das dores que vivemos. E, ao compartilhar todo o ambiente familiar que circunda a personagem, essa dor acaba encontrando acolhimento.

Também gostei muito da segunda parte do livro, em que a autora parte em busca da história de sua família. Toda essa situação despertou em mim a vontade de procurar saber mais sobre aqueles que, apesar de compartilharem tanto comigo, são muito pouco conhecidos por mim.

Talvez por conhecer a autora e a similaridades com sua história, não conseguir ler o livro como um romance, mas sim como um texto autobiográfico. A relação dela com os acontecimentos nos dá a certeza de que muitos daqueles sentimentos vêm de experiências pessoais, o que aproxima o leitor. As alegrias, a saudade e a dor da ausência são reais e muito bem descritas. Livro lindo e sensível!

Mau hábito, de Alana Portero | Resenha

Um dos maiores destaques da literatura espanhola em 2023 foi o romance de estreia de Alana Portero. A autora nos apresenta de forma realista e sensível as dificuldades e angústias enfrentadas por uma criança trans. Mas a narrativa vai além do sofrimento, oferecendo ao leitor passagens comuns da vida de uma criança e adolescente. Seus gostos, medos, curiosidades, descobertas, primeira paixão… É um romance de formação de uma garota que cresce em um bairro operário na Madrid da década de 80.

Ainda que o destaque da obra seja o que se passa no interior da protagonista, Alana descreve um cenário interessantíssimo do bairro e das relações que a garota nutre com seus familiares e com os seus vizinhos. Há diversos personagens marcantes na obra, como Peruca e Raul.

Ao mergulharmos na juventude, conhecemos uma realidade ainda mais brutal, em que é possível sentir uma ameaça constante pela integridade física de uma pessoa que destoa do “padrão”. Como um membro da comunidade LGBT+, pude me identificar com alguma parcela do sentimento de inadequação da personagem. No entanto, as suas circunstâncias e o conflito com o próprio corpo me ensinaram sobre dores que estão muito distantes da minha vivência. E isso apenas confirma a relevância de lermos mais autoras e autores trans.

Além de um belíssimo texto literário, Alana faz um importante trabalho de elucidar discursos mentirosos e preconceituosos que orbitam a vivência de crianças trans. Um texto essencial e que recomendo muito!